Como Vivem Os Anjos

49 Aquele Que Tudo Vê, Aquele Que Nada Diz


Ethan Lemnsack realmente nunca sentira uma dor de cabeça como aquela. No entanto, provavelmente acabara de ganhar vinte milhões de dólares, então aquele dor miserável valia a pena.

O fato de ainda buscar Lorenzo duas ou três vezes por semana era-lhe um mistério. Será que gostava de voltar à Academia Alphonse Enoi para rir mentalmente dos adolescentes que ainda tinham que estudar? Ou será que era uma nostalgia profunda de seus tempos medíocres e inocentes? Seria bom voltar ao anonimato por alguns dias. Nicholas não conseguia mais sair de casa a pé sem ser abordado por uma trupe de fãs alucinados. Ele virara um símbolo sexual para meninos e meninas e ainda tinha quinze anos.

E era assumidamente bissexual. A imagem de milhões de meninos desejando o corpo louro e lindo de Nick era insuportável para Ethan. E ele fazia questão de provocá-lo com isso todos os dias no café da manhã, entre a torrada com caviar de Beluga e o suco de laranja, com aquele sorriso lindo e travesso no rosto.

Ethan riu amargamente de si mesmo. Estou apaixonado pelo meu irmão.

Era uma noite quente de segunda-feira. As flores já desabrochavam lindamente e, por mais incrível que parecesse, ninguém estava tentando matar a família Hentz.

Lorenzo estava sentado no banco do lado de fora do predinho da sala de música, com as mãos pousadas elegantemente no colo, a coluna reta e uma expressão absolutamente aristocrática no rosto. Ethan ainda iria transformar aquele garoto no príncipe consorte da Califórnia, tinha certeza disso. Antonella tinha feito um bom trabalho em seus primeiros oito anos de vida.

A aula não havia sido de piano, e sim de violino. Sua instrutora era uma velha italiana de cinquenta e poucos anos que quase sempre falava cantando, no sentido mais estereotipado da personalidade italiana. Seu nome era Sra. Gia, e da primeira vez que Ethan falara com ela, havia ouvido que Lorenzo avançara assustadoramente bem com o violino para uma criança. Era incrivelmente rápido com os dedos e a coordenação.

Era óbvio que Lore era seu favorito. Ela podia falar em italiano fluente com ele. Às vezes ela se atrapalhava e misturava-o com o inglês.

— Como foi a aula? — perguntou ao chegar perto dele. Não havia mais ninguém por perto. Ethan detestava ter que deixá-lo esperando ali, sozinho, entre o farfalhar das árvores e a escuridão da noite sem estrelas.

Lorenzo sibilou silenciosamente. Parecia pensar numa resposta. Parecia estar ouvindo uma melodia de algum lugar, vendo-a com seus olhos cegos. Ele deu um sorrisinho pequeno e respondeu em voz suave como veludo:

— Eu nunca consigo perceber sua presença apenas ficando perto de você. Você tem de falar para que eu te reconheça. Como consegue, você é Deus?

— Não, sou Ethan.

— Há sempre Sombras em volta de você, elas são tão negras que eu preciso te tocar para saber o que você sente. Me sinto impotente perto de você.

Ethan segurou sua mão e o conduziu para fora da escola a passos lentos. Lorenzo caminhava uniformemente, sempre coma coluna e a cabeça ereta. Perguntou-se se a escoliose de Nick piorara desde a última vez que a examinaram. Depois percebeu que estava com um medo absurdamente sério da adolescência de Lorenzo.

Quando o acomodou no banco da frente da Mercedes, notou que ele estava sem a bengala.

— O que houve com a sua bengala?

— Sabe, tem catorze pessoas na minha sala — Lore começou lentamente, fazendo Ethan notar que aquela seria uma resposta miseravelmente grande. — Eu sou o mais novo, embora seja óbvio porque ninguém mais teria capacidade de aprender violino tão jovem assim. — Sua voz estava envenenada de sarcasmo, e ele parecia estar se divertindo com aquilo.

— Você quer ir para casa ou para o Palácio?

— Onde Nick está?

— Em casa.

— Então vamos para o Palácio.

Um arrepio percorreu todo o seu corpo quando sentiu a mão dele na sua, mas foi só por um momento. Lorenzo voltou a falar:

— Como eu dizia, apesar de Rowan ter me ensinado a bloquear os estímulos externos que recebo dos outros, às vezes minha curiosidade fala mais alto. Por isso, frequentemente fecho os olhos, respiro fundo e deixo as ondas fluírem através do meu corpo. Descobri que umas nove pessoas não sentem nada por mim e que Beau White me acha adorável e por algum motivo adoraria me dar um abraço. Ele deve ter uns quinze anos. Outros dois meninos são irmãos gêmeos, ambos de onze anos. Dereck e Dean Weavil. Dereck é tímido, introvertido e submisso e Dean é extrovertido e age como se fosse dono dele. Ele também me odeia.

— Por que os está descrevendo? E por que ele lhe odeia?

— Porque eu sou lindo, rico e talentoso, não é óbvio?

Lorenzo lhe deu o sorriso mais inocentemente sarcástico que Ethan já vira na vida. Teve vontade de dar um tapa na bochecha dele.

— Porque você namorou um menino — disse.

— Sim. Você demorou para perceber. Pensei que fosse mais inteligente. É presidente da maior corporação do planeta, afinal. — Ethan nem se deu ao trabalho de corrigir a última frase porque lhe soou estranhamente profética. — Há outra garota também que sente inveja de mim por tocar piano bem e por aprender violino rápido, mas não sei nem o nome, nem a idade. A última pessoa que sente algo por mim já terminou a escola, é uma ex-aluna. Você sabia que…

— … A Academia Alphonse Enoi oferece aulas de músicas a ex-alunos de forma gratuita e vitalícia, o que é apenas uma tentativa de manter como alunos eternamente as mesmas famílias. A forma mais pura e sutil de elitismo. Sim, eu sei. Continue.

— De qualquer forma, não consegui identificar o que a garota sentia por mim. Era algo forte, com certeza, mas foi impossível saber se era ódio, amor, admiração, inveja ou qualquer coisa que o valha. Decidi ignorar. Bem, quando a aula de hoje acabou, fechei o violino na caixa, peguei a bengala e fiquei do lado de fora do prédio, no banco. Para não ficar com dor de cabeça, decidi parar de receber os estímulos. Ou seja, não percebi quando Dereck e Dean e mais cinco meninos se aproximaram de mim.

A Rua Primeira estava engarrafada como sempre. Milhares de faróis vermelhos brilhavam na frente de Ethan como milhares de fadinhas de fogo.

Eu devo estar perdendo o juízo. Meu irmão acabou de sofrer bullying e estou aqui, olhando os faróis dos carros.

— Como você deve saber, eles começaram a me xingar, tocar em mim o tempo todo para me irritar, bagunçar meu cabelo e pegaram as minhas coisas e sacudiram na minha frente porque eu não podia pegá-las. Nem sabia onde estavam. Também me lembraram de Goldie e o xingaram. Todos menos Dereck. Ele só estava ali porque Dean o obrigara. Eles quebraram minha bengala e a jogaram na mata. Só foram embora porque aquela garota ex-aluna chegou e os afugentou. O nome dela é Arianne, a propósito. Tinha uma voz linda.

Ethan sentia que uma nuvem negra de ódio e raiva se apoderara de seu coração. Quando percebeu que suas mãos tremiam, apertou com ainda mais força o volante do carro, acelerando em disparada quando o sinal abriu.

— Você pode matá-los? — ele perguntou com um ar travesso. — Eu disse que faria isso. Talvez esteja na hora de a família Hentz demonstrar do que é capaz. Mas isso não faz sentido, não é mesmo? Eu não sou um Hentz. Nick também não é. Você é. O último que sobrou. O último da linhagem dos antigos leões dourados. Será que a família Hentz era uma das treze famílias que controlam o mundo, como os Goldenschild, ou é só teoria da conspiração?

— Depois de ter lido o Livro Hentz, tenho certeza que não é apenas teoria — sussurrou entre dentes. Seus ancestrais tinham um controle muito maior sobre o mundo do que Ethan imaginara. A Guerra Fria só acabara porque os Hentz quiseram.

— Mas bem, você pode matá-los?

— Não seja tolo, vou fazer pior que isso. — Deu um suspiro.

— Caso se interesse em saber, estou vendo uma cor negra dançar em volta de você em lapsos mais claros… o que o preto mais claro? Cinza? Acho que você me disse uma vez. Ou foi Nick. Ah, que importa? Depois da execração do Mal, as Sombras ficaram muito mais fracas, mas ainda as vejo em volta dos meus irmãos problemáticos.

São meus irmãos também. Ethan estava começando a pensar seriamente em voltar a beber. Bastava esconder de Nick.

Como de praxe, demorou mais meia hora para chegarem lá, mas foi mais rápido que normalmente. Desde a completa aniquilação da Rua Primeira no terremoto, o trânsito em Middleland se tornara um caos com a destruição da principal rua da cidade, mas agora ela estava quase pronta, restando apenas algumas imediações em Wintorland. É claro que fora Cornelius Goldenschild, com sua notável influência, que convencera os conservadores moradores do bairro mais rico da cidade a contrataram a Grandes Esperanças.

A opulência e magnificência do Palácio Real Hentz eram transmitidas a quem o visse a quilômetros de distância. Uma torre em forma de lança azul-chumbo misturando-se com as nuvens do alto de um grande morro, com uma base quadrada e quase toda de vidro, um jardim titânico e centenas de empregados zanzando pelo lugar como formigas.

Quando entrava no prédio, ao som de todas as vozes bajuladoras, Ethan sentia-se adentrando num organismo vivo de infindável tamanho e influência, com entranhas e órgãos internos tão entrelaçados e emaranhados uns nos outros que seria impossível esticá-los numa rede e saber onde começava e onde terminava. Mas ele sabia por onde. Era por ele. Ethan Lemnsack era o começo, o meio e o fim da Anhert, Inc.

Cornelius uma vez dissera que Ethan era como uma bomba prestes a explodir. A diferença é que estava explodindo aos poucos, nos lugares certos, nos momentos certos. Ethan achava que fora por isso que Lorenzo o seduzira há algum tempo. O menino era, para todos os gostos, parte da família Hentz, onde o poder fluía como o néctar dos deuses. E ele era poderoso, disso todo mundo sabia.

Subiram os noventa e quatro andares naquela caixa de aço silenciosamente. Lorenzo propositalmente tocava o corpo no do irmão. Ethan estava com o coração quase pulando da caixa torácica, mas não fazia questão nenhuma de esconder a ereção. Não havia câmera naquele elevador.

Quando as portas se abriram, Lorenzo puxou o irmão pela mão.

— Venha comigo — ele pediu suavemente numa voz tenra que fazia as pessoas quererem se aproximar para ouvir melhor ao invés de pedir-lhe que falasse mais alto.

— Lore, eu… — Sentia-se prestes a desabar ali mesmo. Parte dele queria agarrar e beijar Lorenzo, outra parte queria penetrá-lo e a outra queria voltar ao escritório e ganhar mais vinte milhões de dólares. — Eu preciso voltar ao escritório… e… eu não posso… — Realmente planejava aquilo, mas de repente parecia errado como parecera da primeira vez.

Mas Lorenzo já desatava o cordão da calça.

— Ethan — sussurrou. — Vamos para a cama.

Pouco menos de meia hora depois, ele tocava violino para os dois ouvirem. Como não via as partituras, tinha que passar os dedos nas notas em alto relevo, memorizá-las e então aplicá-las no violino. Era um trabalho ardiloso e impressionante. Não era à toa que a Sra. Gia dissera que se sentia ensinando o próprio Mozart.

Os acordes agudos vibravam no silêncio daquela torre de metal e aço e se alongavam cada vez mais à medida que se tornavam mais baixos, arranhando o próprio som, e então as notas se elevavam cheias, compridas e sombrias, como se estivessem sendo arrancadas do violino à força. Então a melodia intensificou-se até que Ethan foi transportado para outro mundo que pareceu atingi-lo como um raio.

Seu corpo pequeno balançava-se levemente enquanto o arco descia e subia agressivamente pelas cordas, exigindo seu som. Os olhos de Lorenzo estavam abertos, concentrados, fixos nas cordas do violino, enquanto seu cabelo frequentemente caía sobre eles, sendo jogados para trás quando ele adquiria um ritmo mais agressivo.

A música ficou mais rápida, mais aguda, mais alta, e o som das notas era absolutamente perfeito. Lorenzo tocava sem esforço algum, como se já houvesse nascido para aquilo, com seus dedinhos puxando e empurrando aquele arco com naturalidade, os lábios pálidos sorrindo timidamente enquanto os olhos eram arrogantes e astutos, brilhando em demasia.

O violino não estava apenas tocando, ele estava gritando, jorrando. O violino contava uma história, e Lorenzo a traduzia.

A música era lamentosa, aterrorizante e hipnótica que dava voltas e voltas em si mesma para chegar a um mesmo ponto central, onde tudo se conturbava, uma bagunça perfeita. Ela sacudia o corpo de Lorenzo para lá e para cá, seu cabelo agora desgrenhado fazendo-o parecer um violinista louco.

A escuridão explodiu e se dissolveu em trevas, e dançavam em volta de Lorenzo. Era isso que ele era, um príncipe das trevas, um controlador de Sombras, um cego que enxergava o mundo de maneiras inerentes àqueles que podiam ver.

E aquela música jorrava sua alma para o mundo. Sua alma era negra, mas ardente como um carvão em brasa.

Quando ele terminou, Ethan já estava sentado na beirada da cama e punha a calça novamente com pressa.

Lorenzo aproximou-se de si e deslizou os dedos por suas costas e depositou beijos apaixonados em seu pescoço. Ethan nunca sentira tanto desejo por seu irmão, mesmo que já houvesse feito com ele tudo o que podia fazer.

— Acha que vou vencer a competição na St. Nicholas no final do semestre?

— Você vai. Vou pedir a Nick para formalizar sua inscrição quando as vagas abrirem.

— Por que não compra um iate ou um jatinho? — ele perguntou travessamente, abraçando-o por trás. Não seria tão ruim se não estivesse nu. — Queria poder visitar Florença ou Veneza a hora que eu quisesse. Eu lembro que uma vez minha mãe conversou com um parente dela cujo nome eu não lembro, mas eles discutiam a possibilidade dos Barcarolli serem descendentes distantes da Casa de Médici.

Ethan conhecia a Casa de Médici. Uma poderosíssima dinastia política italiana que governou informalmente Florença por três séculos e que apadrinhou um jovem prodígio conhecido hoje em dia como Michelangelo, tendo também um dos maiores acervos de arte do mundo. Podres de ricos, também fizeram quatro papas e duas Rainhas da França. Mas a família original morrera em 1737.

— Ouvi falar — murmurou. Lorenzo enterrou o rosto em sua nuca de novo, dessa sentindo o cheiro de seu cabelo.

— Procura ver se isso é verdade — sussurrou com uma voz tão manhosa que despertou todos os instintos de Ethan, mas este os ignorou. Sabia que era isso que Lorenzo queria. — Eu gostaria de ser descendente de uma dinastia italiana. Também gostaria de conhecer outros Barcarolli.

— Verei, eu prometo, meu príncipe das trevas. — Sem conseguir se conter, beijou-o nos lábios e então enfiou a língua naquela boquinha deliciosa. — Eu o amo, meu pequeno italiano cego. — Mordeu seu pescoço várias vezes com delicadeza. — Demais.

Deixou-o então no quarto, perguntando-se como Nicholas reagiria se algum dia viesse a descobrir o caso dos dois. Pelo menos agora sabia como Lorenzo reagiria se algum dia descobrisse sobre Ethan e Nick.

Em seu escritório, fez uma ligação de cinco minutos para o telefone pessoal da diretora Hellen Page.

No dia seguinte, Lorenzo veio lhe contar que Dean e Dereck Weavil e os outros cinco garotos haviam misteriosamente saído da escola. Ethan presenteou-lhe com outra bengala de madeira escura e maciça cujo punho era a escultura da cabeça de um leão folheada a ouro com pequenos rubis vermelhos como olhos.

Apesar de não gostar de gastar dinheiro em coisas supérfluas, Ethan recentemente descobrira seu gosto por joias, pedras preciosas e arte antiga. Ainda acharia aquele anel negro ornamentado com um diamante que aparecia no dedo de seu pai, avô, bisavô e trisavô. Tinha certeza absoluta de que o diamante era parte do Diamante Hentz.

Às vezes, cercado por todo o luxo suntuoso do Palácio Real Hentz, sentado em seu escritório que misturava decorações do período elisabetano, vitoriano e contemporâneo, enquanto fumava um charuto cubano, Ethan lembrava-se de um diálogo que tivera com Nick na Suíte Real do Four Seasons Hotel George V, o hotel em que ficara com ele e Lore em Paris, no ano retrasado.

Duas semanas aqui vão nos custar duzentos e vinte e quatro mil dólares. Não se acostume. Isso é um luxo que podemos ter, mas que não vamos.

Mas que não vamos. Que bobo ele era. Talvez fosse herança da família Hentz.

Naquela noite, remexendo-se na cama imperial de seu quarto, Ethan Lemnsack sonhou.

No sonho, era um leão no topo de uma montanha, observando uma cadeia de outras montanhas douradas sob um céu crepuscular salpicado de nuvens violeta. O horizonte era uma linha dourada no horizonte, o fim do mundo era da cor do ouro.

Passou a espiar a floresta de carvalhos velhíssimos e brancos lá em baixo que cobria todo o espaço; nevava. Por todas as partes, outros leões rugiam. Ele ouvia seus lamentos, compridos e ameaçadores. Havia luta e guerra em algum lugar. Enquanto isso, uma chuva violeta lavava as terras lá em baixo. Era estranho porque é impossível chover enquanto neva.

Visualizou um rio caudaloso nascer do nada na floresta, dividindo-a em duas. Isso separou a guerra, enfraquecendo-a, mas criou duas batalhas. Animais furiosos atacavam seus próprios semelhantes, enlouquecidos demais com a febre da batalha.

Mesmo após tantas gargantas rasgadas e de tanto sangue ter regado o rio, esse continuava violeta e agressivo, levando os corpos mortos. A natureza não era conhecida por ser complacente com os fracos.

Então lá ao longe, no horizonte dourado, uma figura muito branca surgiu com uma coroa de luz em sua cabeça. Era imensa e poderosa como uma deusa, e um amontoado de nuvens envolvia seus pés delicados. Ela levantou uma das mãos e entoou uma voz melódica que controlou as águas do rio. De repente, ele se foi, e junto dele se foi a febre da batalha, cessando a guerra.

A floresta agradeceu à figura branca e nomeou-a sua rainha.

E todos sussurravam sua melodia, sua melodia violeta, entoando um cântico com seu nome poderoso. Violeta, violeta, violeta…

Ethan acordou gritando de susto, com o coração quase pulando do peito. Olhou em volta do quarto: as cortinas das grandes janelas esvoaçavam, mesmo que elas não estivessem abertas. Sentiu vontade de chorar. Havia alguém ali? Tolice.

Não sou um imperador romano para ser assassinado em meu leito.

— Oliver? — sussurrou e quase que imediatamente sentiu-se estúpido. Então por que estava todo arrepiado? E por que sentia a mesma coisa que sentira no ano retrasado, durante aquele sonho pavoroso? Será que ele apareceria na escuridão perguntando-lhe quem era? Aquilo também não fora um sonho normal, sentia isso.

Olhou no relógio da cômoda. Já eram quase dez da manhã, muito tarde para ainda estar na cama. Muito tarde para o mundo continuar sem o Presidente da Anhert.

Apesar de aquele chuveiro ter dezoito jatos de diferentes forças e temperaturas, Ethan não se demorou. Esperava estar acompanhado de alguém, mas então percebeu que não tinha ninguém.

Pela primeira vez, essa realidade lhe assustava: não tinha ninguém. Gabriel o abandonara como devia ter feito há muito tempo, Nicholas estava num romance sórdido com Edric Spring e ele não conseguia ficar com Lorenzo sem ter vontade de cometer suicídio.

Também havia Robb. Naquele primeiro encontro que tiveram, Ethan o levou para jantar no Restaurante Hentz após ter ficado quase meia hora enfiando a língua na boca dele, ali por trás do heliporto. Até aí fora tudo bem, mas o jantar fora terrivelmente tedioso. Ele era tão bobo e infantil que não havia graça em se aproveitar disso.

Mas, de uma certa forma, Ethan gostava de olhar para seu sorriso e seus olhos quando ele finalmente arrumava alguma coisa para falar. Parecia estar feliz tentando ser inteligente para ele. Descobriu-se sentindo pena dele. Depois uma vontade absurda de levá-lo para a cama.

Mas é claro que havia uma criatura de olhos violeta por trás daquilo tudo, uma aranha que lentamente estendia suas longas patas para a teia na qual tentava envolver Ethan.

A despeito do primo psicopata, Robb era bondoso e ingênuo. E Ethan sabia que não era disfarce, porque ele não era inteligente o suficiente para isso. A verdade é que gostava do menino.

Quando se sentou em sua escrivaninha no elegante escritório, o primeiro dossiê que recebeu no tablet literalmente fê-lo perder a respiração.

Como que prevendo isso, Nicholas Hentz entrou no escritório, vindo diretamente do hall. Seus cabelos louros estavam amarrotados e bagunçados e ele usava o uniforme da St. Nicholas, além de estar com as bochechas rubras e o peito arfante. Parecia um furacão.

— Mas que grande construtora a Anhert é! — Nick bradou com violência, batendo as mãos na escrivaninha. Ethan massageou as têmporas, perguntando-se como sua vida podia estar tão boa num minuto e no outro estar descendo pelo ralo da pia. — Encanamento vazando, está falando sério?

O tablet mostrava um e-mail nada sutil da diretora da St. Nicholas, a Irmã Superiora Mary Sandy, informando-o de que havia um problema nos encanamentos da vestiário do ginásio II e que o chão teria que ser esburacado para consertá-lo.

— Fique calado só por um momento — Ethan pediu com uma suavidade paradoxalmente agressiva. Sentia-se prestes a atirar Nick pela janela. — Pelo amor de Deus, fique quieto ou meu coração vai explodir.

A velha ansiedade. O velho medo, o temor antigo. Há quanto tempo não os sentia? Aqueles monstrinhos miseráveis que baixavam tanto assim sua expectativa de vida e que tanto aterrorizaram sua adolescência?

Quieto é o cacete! — Nick berrou. — Tudo isso é culpa sua! Se não quisesse tanto provar para si mesmo que você podia me proteger, nada disso estaria acontecendo! Se ao invés de meter aquele taco na cabeça de Lafferty você simplesmente o tivesse assustado, ele poderia estar na Amazônia agora, pregando para índios.

Provar pra mim mesmo?! — Aquilo lhe parecia absurdamente injusto. Nick não o compreendia? Ele sempre compreendera.

— Sim, para si mesmo e para ninguém mais! Oh, mas é claro que o grande Ethan Lemnsack não poderia ter deixado de fazer o que Mary Alice deixou, não é mesmo? Eu queria que ela estivesse viva para saber o que você fez. Você pensa que é tão grande quanto ela, mas ela nunca teria feito com Lafferty o que você fez simplesmente para provar uma coisa contra ela mesma! Ela sabia das consequências!

O mundo a sua volta sumiu quando Ethan se jogou contra Nick, empurrando-o contra a estante com uma força estrondosa. Beijou-o com selvageria, prendendo seus braços acima da cabeça para impedi-lo de fugir. Ele se contorcia como uma doninha.

Me… largue! — gritou estridente, empurrando-o com as duas mãos. — Agora sabe o que eles vão fazer? Vão esburacar o chão do vestiário II para ajeitar a merda que a Grandes Esperanças fez lá e o que vão achar? Um esqueleto.

Ethan sentia-se tão gelado que começou a ficar tonto.

A escavação. A descoberta. O ligamentos dos pontos. O julgamento. A cadeia. A cadeia… ele já era maior de idade… E seus irmãos? E os outros que presenciaram o assassinato?

— Você sabe que eu vou sair dessa, eu sempre saio — falou debilmente, acreditando que se dissesse em voz alta poderia torná-lo realidade. Aquilo só pareceu enfurecer Nick ainda mais.

— Diga isso ao corpo do padre Lafferty Winter. Diga isso ao maldito corpo dele!

Quando percebeu, estava beijando-o novamente. Nick queria e não queria, mas não fez objeção quando Ethan decidiu morder a pele deliciosa de seu pescoço. Também não tentou mais se libertar.

— Me solte — entoou triste.

— Não solto — sussurrou de volta.

Contra toda a situação, os dois irmãos fizeram amor no divã do escritório de Ethan. Foi curto, mas pareceu ter durado décadas.

Dentro de Nick, Ethan movia-se para frente e para trás com destreza, quase em delírio, vendo cores dançarem em sua frente. Nick abraçava sua cintura com as pernas num aperto de ferro e o pescoço com os braços, forçando-o a beijá-lo.

Estava com os lábios entreabertos, os olhos negros cintilantes observando tudo, a testa suada com os cabelos jogados na frente. A expressão que fez durante o orgasmo fora uma das coisas mais adoráveis que Ethan já vira na vida, tanto que não conseguiu parar de investir no menino mesmo depois de ter gozado.

— O mundo inteiro o quer — sussurrou para seu leão dourado. — Mas eu sou o único que pode tê-lo. Meu irmãozinho. Você não vê que estamos destinados a ficar juntos? — Beijou suas bochechas e o resto do rosto com vontade, sem nunca cansar. — Algum dia vou me ajoelhar na sua frente e pôr o anel Hentz no seu dedo. Mas enquanto isso, vou me ajoelhar na sua frente apenas para chupar o seu pau.

— Não podemos fica juntos, somos irmãos.

Não somos, não, pensou com amargura. No entanto, era uma possibilidade… eles casados, vivendo num castelo na França, sem ninguém para lhes perturbar e com todo o dinheiro do mundo a sua disposição como dois socialites riquíssimos. Era uma vida que muita gente mataria para ter.

— Mas vamos — prometeu, sem no entanto poder responder por quê.

Nick fungou. Seu rosto de menina havia ressurgido de baixo de todo o ouro. Ele era uma celebridade internacional, aquilo era absurdamente difícil de se digerir.

— Não seja preso. Não deixe que ninguém descubra. Não se separa de mim.

— Não serei, não deixarei, não me separarei. Me ama?

— Te amo.

Nick beijou-o nos lábios novamente e deixou o escritório pela suntuosa sala de jantar. Ethan notou-se sozinho novamente naquele cômodo imenso, sozinho com seus pensamentos, sua riqueza, suas joias e seus antepassados imortalizados em quadros. Pôs-se em frente a John Francis e Ondromeda, que com seus cabelos prateados parecia mais deslumbrante que nunca, uma estrela viva no mundo terreno, a mulher mais bela jamais vista. Ela frequentemente era referida assim no início do século XX.

— Imortais — sussurrou olhando para John Francis, que com seus brilhantíssimos olhos pretos sorria arrogante e feliz. Tinha os dois grandes amores de sua vida ao seu lado: a Kruger-Vorheel e Ondromeda. Então, pela primeira vez, percebeu algo que havia deixado passar antes: uma linha dourada bem no canto do quadro, agarrada ao fim da tela. Estava escrita numa elegantíssima escrita antiga.

Video et taceo.

Sabia o que aquilo dizia. Era latim para Vejo, e nada digo. Foi o lema da Rainha Elizabeth I, da Inglaterra, uma mulher a qual Ethan sempre admirou, assim como o de seu trisavô, bisavô e avô. Todos os homens Hentz que fizeram história tudo viam e nada diziam. Aquela era uma frase de vários sentidos, e Ethan conhecia o verdadeiro.

— Faça de tudo e eu nada direi, mas meus olhos de leão estarão postos em você — sussurrou para os mortos.

Imprevisíveis, impossíveis de serem manipulados, poderosos e extremamente inteligentes. Às vezes, o peso de ter que repetir tudo aquilo era desgastante. No topo da Anhert, Ethan sentia-se com o maior peso do mundo nas pernas. Ser um chefe era uma coisa, ser um líder era outra. E todos os seus antepassados foram líderes, até mesmo John Daniel, insensível e sociopata.

Sentiu vontade de comprar uma casa. Já tinha duas, mas o velho apartamento da Rua Symphonia parecia agora miseravelmente pequeno e o Palácio Real Hentz era um local de trabalho. Talvez houvesse algum castelo Goldenschild em Wintorland que Cornelius não se importaria em vender. Ethan mandaria fazer uma reprodução de alguma foto antiga de John Francis em tamanho gigante e poria na entrada, para que seus olhos de leão fossem as primeiras coisas que os visitantes vissem.

— Video et taceo — disse com suavidade.

Pensava que talvez devesse manter o apartamento pelas boas lembranças e para ter um local para onde fugir quando necessitasse quando o telefone da escrivaninha tocou. Quando atendeu, um sotaque francês carregado falou:

Ethan, sei que não gosta de ser incomodado com isso, mas eu creio que temos um problema aqui.

Por mais que insistisse, não conseguia fazer Jules du Pont chamá-lo de Sr. Lemnsack. Não que realmente exigisse isso, mas na voz daquela beldade loira aquela frase ficava incrivelmente sexy. De qualquer forma, ele era extremamente competente e parceiro de Nick na peça da escola.

— O que há? — indagou distraído.

Bem, sabe como é o protocolo. Para marcar uma reunião com você o indivíduo precisa ter sido convidado, apresentar uma senha e todos os pormenores.

— Eu sei. Fui eu quem criou isso.

O que acontece é que há uma senhora que deseja ardentemente falar com você. Tentei me livrar dela, mas ela se recusa. Esteve aqui o dia inteiro. E para obrigá-la a ir embora, eu preciso…

— Da minha autorização. Mas você a tem. Por que ainda não o fez?

Porque a senhora… é Grace Paladino.

Ethan pensou ter ouvido errado. Talvez fosse o sotaque dele errando as palavras, mas… não. Tinha certeza de que ouvira bem. Grace Paladino era uma famosa bilionária espanhola que fez fortuna com uma grife que em apenas poucos anos superou o que a dos Hentz foi durante todo o século XX. Também era extremamente excêntrica, praticamente uma mestra dos disfarces para se esconder dos paparazzi.

Mas o que mais lhe intrigava era o fato de que Grace Paladino foi notoriamente uma das melhores amigas de Mary Alice Hentz durante quase toda a vida. E o que mais lhe irritava era que o terno que usava agora era um Paladino.

— Deixe-a entrar — disse aos tropeços poucos antes de autorizar a subida do elevador para ela.

Demorou poucos segundos para que a Sra. Paladino entrasse no escritório. Era uma espanhola estonteantemente linda, apesar de seus já quarenta e oito anos. Vestia um pesado sobretudo preto que deixou cair por cima de um divã, assim como óculos escuros grandes demais para seu rosto. Tinha a pele da cor do cobre, lustrosa e lisa como a de uma estátua egípcia e cabelos espessos e encaracolados da mesma cor de seus olhos, ambos como uma noite sem estrelas.

Era magra e baixa, da altura de Ethan, mas andava com o porte de uma supermodelo internacional. De repente, a imagem daquela mulher apareceu na mente de Ethan num lapso de memória. Sem conseguir se controlar, falou:

— Foi você quem esteve no cofre da Suíça.

Uma mestra dos disfarces, sim, certamente. Ainda lembrava do gerente-sênior do banco suíço descrevendo a última pessoa que havia visitado o cofre, cada palavra balbuciada com sotaque. Grace Paladino sorriu.

— Você é inteligente — disse num inglês perfeito sem sotaque, então novamente com um sotaque tão forte que quase rasgou seus ouvidos: — É com certeza o filho de Mary Alice. Deixei aquele trecho de livro por diversão.

— Vamos nos sentar — disse apressadamente. Sentaram-se numa área do escritório com dois divãs e duas poltronas, além de uma fonte de água zen. Grace bebeu quase a metade do uísque que Ethan ofereceu num único gole enquanto ele apenas bebericou.

— Eu já tive dúvidas — ela disse. — Admito. Você, o primeiro leão dourado negro, mas ela me deixou claro que você certamente era filho de Charles. Agora que vejo de perto, é verdade. Tem o rosto dele, todos os traços marcantes.

Grace graciosamente segurou seu queixo com uma das mãos macias.

— Mas todos os traços delicados são dela.

De alguma forma constrangido, Ethan falou:

— Me perdoe por ter deixado a senhora esperando por tanto tempo lá em baixo. Expressei ordens de que o protocolo deveria ser seguido nem que fosse o Presidente dos Estados Unidos.

— Não faz distinções entre pessoas — ela notou com os olhos escuros brilhando. — Assim como sua mãe. É uma bela coisa, essa que você construiu aqui. Se lhe interessa saber, este era o maior medo de sua mãe, que você quisesse reconstruir a Kruger-Vorheel. Pensava que a megalomania dos Hentz passaria para você também. Pelo que posso ver, não passou. É um magnata e um adolescente ao mesmo tempo. Isso é bom, pois a família é a coisa mais importante do mundo. Se lhe interessa saber.

— Me interessa saber tudo o que a senhora tem a contar sobre minha mãe — disse com um pouco de pressa demais.

— Me chame de Grace — ela pediu. — Vim da Espanha para cá por alguns motivos, Ethan, mas não quer dizer que não possamos prolongar essa conversa. No entanto, deixe-me falar sobre eles primeiro.

— Sim, senh… Grace.

Ela sorriu e se levantou, pondo-se a caminhar pelo escritório até a fileira dos quadros dos Hentz. Ethan seguiu-a de perto, intrigado.

— Eu tive o prazer de conhecer seu avô — ela disse fixando o olhar em Samuel. Ethan vasculhou a memória para saber se havia alguma Paladino na lista das amantes de Samuel do Livro Hentz, mas não se lembrou de nada. — Era um homem fantástico. Pensei que viveria para sempre. E quanto a este anel?

Ela apontou para o anel negro de diamante da mão de Samuel que também estava na mãos de seu pai, bisavô e trisavô. O Anel do Patriarca Hentz, perdido, obliterado do mundo.

— É um anel que passava de geração em geração da minha família — disse a ela. — Não sei onde está. Se perdeu.

— Não se perdeu. Estava no cofre da Suíça.

Para seu espanto, Grace tirou de dentro do sobretudo jogado no divã uma caixinha de veludo azul. Quando Ethan a abriu, viu o brilho inconfundível de um dos filhos do maior diamante de todos os tempos, coroando um anel grosso de aço negro e inquebrável. O diamante tinha o formato de um retângulo com as vértices facetadas. No aço estavam cravejadas outras milhares de pedrinhas tão minúsculas que só podiam ser vistas de perto. Quando a luz reincidiu sobre elas, um brilho azul jorrou do diamante. O Diamante Hentz era as estrelas do céu nas mãos dos homens. E Ethan jamais vira algo tão parecido com uma noite estrelada. No interior do anel, estava gravado o lema dos homens Hentz: Video et taceo.

— É uma obra de arte magnífica — Grace notou. — Não são todos que teriam a habilidade de criar algo assim. Com o declínio do casamento de seus pais, Mary Alice exigiu o anel de volta a Charles, que afinal o devolveu. Ela guardou-o no cofre.

Lentamente, Ethan deslizou-o pelo polegar da mão direita, pois era grosso demais para os outros dedos. Seu coração acelerou nesse momento. Aquele era o anel que John Francis usara a vida toda. Tinha pelo menos cem anos de idade. Cem anos de história, poder, tramas e conspirações. O que aquele anel já vira?

— E por que você o pegou? — indagou com curiosidade.

— Poucas semanas antes de morrer, ela me procurou. Eu estava na Romênia na ocasião, inaugurando uma loja de departamentos. Fui a seu hotel e conversamos durante horas. Você sabia que ela e Charles dormiam em hotéis separados? A mídia não parece saber. Mas enfim, ela me contou que ultimamente vinha tendo terríveis pesadelos. Pesadelos onde morria. Não quero assustá-lo, mas ela me contou que um deles tinha a ver com um avião.

Oliver, foi a primeira palavra que surgiu em sua mente.

— Mary Alice me pediu que se algo acontecesse com ela, tirasse o anel do cofre suíço. Ela me deu a senha e a chave.

Novamente Grace tirou do sobretudo uma chave com um rubi numa ponta e uma cruz na outra, entregando-a a Ethan.

— Não tirei só isso, pois sua mãe pediu-me para levar mais.

Surgiu em sua frente uma caixa de veludo vermelha bastante fina. Dentro, brilhos multicoloridos jorraram como arco-íris para fora conforme a incidência da luz. Eram joias, dezenas de joias.

Havia uma magnífica esmeralda retangular presa num colar de ouro; safiras e lápis-lazúli da cor do céu da noite presas em amuletos. ametistas belíssimas em pingentes; vários broches leoninos; pulseiras de ouro. O colar de pérolas negras era maravilhoso e rubis eram abundantes.

— Céus — sussurrou. — Isso deve valer dezenas de milhões de dólares.

— Pelas contas do meu joalheiro, mais ou menos sessenta milhões de dólares. Algumas dessas joias foram presentes de reis e rainhas europeus. Quer uma dica, Ethan? Funde um museu e exponha as joias da família Hentz lá. Pedras como essas foram-nos dadas para serem apreciadas, e não para mofarem num cofre almofadado à prova de bombas. Sua mãe era uma grande amante de joias. Era seu fraco, e isso ela nunca conseguiu evitar.

Ethan não sabia bem o que dizer. Quando visualizou os traços belos de Grace Paladino, só conseguia pensar em como aquela mulher parecia ser jovem.

— Obrigado por devolver — disse debilmente, não acreditando que fosse um agradecimento apropriado.

— Não há por que agradecer.

Claro, estúpido, ela é umas dez vezes mais rica que você. Não precisa dessas bijuterias.

— Há uma última coisa — Grace sussurrou, e por um segundo terrível Ethan pensou que havia sido de uma forma sensual. Será que ela não sabia…? Mas talvez fossem apenas seus lábios grossos que dessem aquele efeito. Oliver era igual a ela.

Do sobretudo, ela tirou um pesado livro de couro negro, e quando virou sua capa Ethan não acreditou no que viu. Grafada em letras que certamente eram feitas de ouro maciço, escrita em letra cursiva numa elegância magnífica e estonteante, estava lá, belo, dourado e Hentz.

O Livro Hentz.

— Ela tirou cópia de todas as páginas do livro original e guardou-a no cofre. A última anotação é a que ela fez antes de viajar para a Europa pela última vez.

Ethan abriu-o, passando as páginas compulsivamente. O livro estava dividido em quatro partes: a de John Francis, a de John Daniel, a de Samuel e a de Mary Alice. Cada página era nova e brilhante. Havia uma reprodução de cada palavra escrita por seus antepassados impressa em letras normais, mas também havia fotos em alta resolução de cada uma das páginas do antigo Livro Hentz. Como resultado, o atual era miseravelmente mais grosso. Mal conseguia imaginar como Grace conseguira esconder aquilo dentro do sobretudo.

Ethan sentia-se lendo a edição original das próprias Escrituras. Mas eram apenas as antigas palavras dos Hentz para os Hentz. Os relatos dos maiores magnatas do mundo. A filosofia de Mary Alice. O carisma de John Francis. A loucura de Samuel. A visão de John Daniel. E tudo isso é apenas para ele. Para guiá-lo. Estava mais que certo que jamais deixaria Nick saber sobre a existência daquele livro.

— Eu jamais o li — Grace garantiu. Com a luz do sol ardendo por trás de seus cabelos, nunca parecera tão bela e sensual. A boca lembrava muito a de Oliver, mas Oliver era branco, enquanto Grace era morena… e mulher.

Ethan não soube bem quando foi que ela envolveu sua cintura com os braços e encostou os lábios nos dele, mas ficou abismado demais para perceber. Mas ao invés de empurrá-la para frente com delicadeza, percebeu-se parado, com a parede nas costas e a mulher na frente, praticamente entre suas pernas.

Não era a quentura de seu corpo que estava criando aquela ereção, muito menos o volume dos seios apertados sob o vestido escuro, nem a mão dele apertando entre suas pernas… eram os lábios. Lábios grossos e macios. Lábios de Oliver. Ethan estava beijando Oliver e a sensação era simplesmente boa demais para poder evitar.

Não soube quando foi que Grade Paladino tornou-se Oliver na sua frente, mas simplesmente aconteceu. A pele delicada dos ombros era a dele, branca como a de um fantasma enquanto puxava aquela alça para baixo, deixando o busto nu. O calor de suas pernas era o dele, aquele em que quase nunca tocava. Os abraços e os apertos eram definitivamente os dele, pois só ele sabia onde Ethan gostava que ele tocasse.

E os lábios, sim, os lábios perfeitamente maravilhosos e macios sob sua pele dos pescoço, do peito e mais em baixo, até o centro de seu ser. Grace Paladino só voltou a ser Grace Paladino quando Ethan estava dentro dela, investindo quase mecanicamente, e a essa altura não se importou mais.

Era diferente dos garotos, definitivamente. Talvez fosse melhor, ou fosse pior, a questão é que Ethan não conseguiu se controlar quando finalmente teve o seu orgasmo. Finalmente notou que um dos irmãos poderia irromper ali a qualquer momento.

Com rapidez e um certo constrangimento, vestiu novamente as roupas. Grace estava deitada no divã como uma deusa egípcia, os seios caindo com delicadeza pelo peito. Ela parecia ser muito mais jovem do que era, mas era mais velha que a mãe de Ethan. A verdade da coisa finalmente veio à tona: Grace era mais velha que sua mãe.

E era uma mulher.

— Meu Deus — sussurrou para si mesmo. Jamais soube se ela ouvira ou não, mas a questão é que estava com um nojo absurdo de si mesmo.

— Eu não sou uma pessoa tão boa assim — ela disse de volta com um bom-humor notável. Puxou o sobretudo mais uma vez e tirou outra caixinha de veludo, só que desta vez maior.

Tremendo, Ethan pegou-a entre os dedos, quase apreciando sua maciez. Dentro da caixa, incrustado num anel de prata, estava um diamante tão transparente quanto vidro. Perfeito, sem arranhão algum, facetado e brilhante. Franziu as sobrancelhas. Não podia ser parte do Diamante Hentz, era grande demais para isso.

— O que é?

— É Ondromeda Olrwen.

Por um segundo, pensou que ela estivesse sendo irônica, mas a seriedade em seu rosto fê-lo mudar de ideia.

— Há um processo feito em algumas grandes funerárias do mundo que transforma as cinzas dos entes queridos em diamantes a um belo custo. Após a morte de Ondromeda, John Daniel devolveu o corpo da mãe a Olannis Olrwen, que resolveu cremá-la e fazer este diamante. Com o tempo e a dissolução da Coruja Branca e da família Olrwen, Samuel Hentz ofereceu-se para comprar o anel de volta. Os Olrwen estavam tão endividados que não tiveram outra escolha senão aceitar. Algo me diz que Samuel causou a falência da Coruja Branca propositalmente, pois sabia que os Olrwen jamais se desfariam da joia mais preciosa da família. E afinal de contas, ele queria o último resquício de sua avó. O que você tem em mãos, Ethan, é literalmente sua trisavó.

Aquela era uma perspectiva assustadoramente esplêndida. O diamante quase tinha a mesma cor do olho azul de Ondromeda. Se olhasse mais de perto, podia sentir aquele olhar perdido pousado em si, cuidando de si.

Brilhou enquanto viva e continua brilhando após morta.

— Eu disse a mim mesma que só devolveria este anel se você fosse tão bom na cama quanto pensei que seria. — A voz de Grace Paladino soou como um chicote no ar, desviando a atenção de Ethan. Ela já havia se vestido e agora encaminhava-se para a saída. — Tenho que pegar um avião à Espanha. Se tivesse me recebido mais cedo, poderíamos ter conversado mais, transado mais, mas infelizmente não foi possível. Mantenha seu protocolo, no entanto. Pode aprender muito com isso.

Ela parecia pretender ir embora, mas Ethan pegou-a pela mão antes que fosse.

— Espere…! Você não tem nada a me dizer sobre minha mãe? Sobre seu modo de pensar? Sobre algum segredo dela? Qualquer coisa… reavive-a por algum tempo.

Grace olhou-o profundamente nos olhos. Ninguém nunca se atrevia a fazer isso. Ela parecia estar devorando sua alma.

— Mary Alice sabia com profundidade todos os horrores que dinastias familiares como os Hentz fizeram através dos séculos. Ela viu homens de negócios poderosos irem ao chão em pouco tempo, e creio que quando era adolescente gostaria que o mesmo acontecesse a seu pai, mas isso não aconteceu. Samuel tornou-se exatamente o que ela mais abominava, e quando ele morreu ela fez questão de destruir seu legado sangrento. Você não imagina as atrocidades que a Kruger-Vorheel já cometeu no mundo, mas não se engane, não foi apenas Samuel… a podridão de seu governo começou quando John Francis achou aquele diamante e intensificou-se quando ele dispôs de todos os meios necessários para tirá-lo da África do Sul, e ficou pior ainda quando aquela aberração que foi John Daniel assumiu o trono do mundo. — Ela deu um sorriso de escárnio. — Mas nossos antepassados não são quem nós somos. Você tem chance de fazer a Anhert ser o que a Kruger-Vorheel não foi. Use-a, Ethan. Você ainda em um futuro pela frente. Lembre-se que investir pesadamente em lucros pequenos que durem muito é melhor que investir pouco em lucros grandes que não duram nada. Algum dia você entenderá isso. Sua mãe entendeu.

Dito isso, ela desapareceu.

Ethan passou a meia hora seguinte no banheiro do quarto, esfregando a pele com violência suficiente para que ficasse em carne viva. Não podia acreditar no que acabara de fazer, de ver ou ouvir. Todo o problema da St. Nicholas simplesmente sumira de repente, e a solução aparecera misteriosamente em sua cabeça. Pediria desculpas à diretora Mary Sandy e se imploraria para refazer os encanamentos.

A frieza do anel em seu polegar era deliciosa, conforme notou ao expô-lo na luz do sol e o brilho azul transformá-lo novamente numa noite estrelada. Na varanda do quarto, estendeu os braços ao sentir uma brisa mais forte soprada do horizonte, como uma cruz humana. O ar estava revigorantemente quente.

No dia seguinte, quando decidiu ele mesmo levar um cabisbaixo Nicholas para a escola, viu uma criatura de olhos púrpuras na calçada com outra criatura de olhos púrpuras do lado, só que menor e com os cabelos encaracolados.

Após Nick sair, Ethan fez sinal para que Melchior entrasse no carro. Logo depois, estacionou-o no outro lado da rua, sob uma árvore.

— Eu deveria aprender a dirigir — Melchior disse suavemente, praticamente deitando-se no couro do banco da Mercedes. — Seria bom, não seria? Mas por algum motivo sinto que é melhor abusar dos seus favores e pedir caronas. Aliás, às vezes gosto de pegar táxis. Alguns taxistas são bem bonitinhos.

Ethan não estava com clima algum para seus jogos de palavras.

— Existe um problema no encanamento do vestiário — disse sem rodeios. Como esperava, ele não se surpreendeu.

— E de quem é a culpa? Bem, Sr. Presidente, o que pretende fazer?

— Por que está tão tranquilo? — perguntou sarcástico. — Se eu cair, arrasto você comigo. Não tenho motivo algum para fazê-lo, mas eu vou.

— E se você o fizer, eu arrasto conosco Nicholas, Amy, Gabriel e Lorenzo.

Ethan sabia que ele não brincava, apesar do sorriso em seus olhos. No momento, estavam adoráveis e cor-de-rosa.

— Ethan, não há realmente nada que dinheiro não resolva e você sabe disso. Uma restauração discreta dos encanamentos com um pessoal que não vá cavar no lugar errado e pomos um ponto final nisso. Não fui eu quem matou, e creio que você sabia as consequências do que estava fazendo quando decidiu explodir o crânio do padre Lafferty Winter. Falando em Winter, tenho algo a te contar.

— O que é?

— É sobre Spring. Um garoto realmente adorável, devo admitir, mas ingênuo demais. Você sabia que ele tem um irmão mais novo chamado Lincoln? Sabia também que tenho uma impressão absurdamente forte de que ele conseguiu ler minha mente?

A existência da dinastia Atheneus era uma coisa que Melchior não sabia, e Ethan não tinha vontade alguma de contar-lhe. Porém, se Lincoln conseguia fazer isso, Spring conseguiria fazer também, não? Ou algo parecido. A não ser que tivesse suprimido suas habilidades, como Gabriel fizera.

— Continue.

— Edric Summer obrigou Edric Spring a se aproximar de Nicholas.

Aquela era uma verdade que Ethan vinha evitando há semanas, mas simplesmente não havia mais como continuar. Qualquer ser humano racional teria percebido aquilo, mas Nicholas Hentz não era um ser humano racional. Ele era Nicholas Hentz.

— Com o intuito de espioná-lo? Ele suspeita de Nick? E que provas tem?

— Ethan, como é que eu vou saber? Não sou Deus, ainda. — Melchior repentinamente pareceu mal-humorado. — Não faça perguntas cujas respostas você sabe. Sim, obviamente foi para espioná-lo.

Perguntou-se se Melchior estava realmente falando de Spring e Nick ou se era de Robb e Ethan.

— E como sabe disso? — perguntou irônico.

— Edric Winter. Digamos que ele não é lá muito inteligente, apesar da beleza. Mas não se preocupe em relação a isso. Digamos que eu já cuidei dele. O que eu quero dizer é que você tem que abrir um terceiro olho em relação a Spring. Nicholas jamais terminará com ele, é teimoso demais para isso. Aliás, eu adoraria conversar com Jules du Pont.

Ethan sentiu uma pontada no peito ao ouvi-lo falar o nome completo de Jules. Eram ciúmes, percebeu com frustração.

— Ele é filho de Lafferty — Melchior explicou pacientemente. — Deve saber algo que não sabemos. Enquanto você cuida do problema no vestiário, eu cuidarei das estações. Você está desobstruindo o ralo da pia e eu estou circundando os arredores para que a água não escoe. Mas acontece que se você não for rápido o suficiente, a água vai escoar, porque eu não posso aumentar o tamanho da pia.

Melchior saiu do carro elegantemente, deixando Ethan sozinho com seus pensamentos. Teria uma reunião com a diretora Mary Sandy àquele dia no Palácio Real Hentz. Estava disposto a fazer o conserto de graça se fosse necessário.

Voltou ao Palácio num silêncio incômodo. Quando subiu os noventa e cinco andares para chegar ao escritório, encontrou Jules du Pont sentado em cima de sua escrivaninha, com as pernas cruzadas e os lábios entreabertos enquanto descia os olhos por um punhado de papeis.

— Você não deveria estar na escola? — indagou taciturnamente. Ele fitou-o com aqueles olhos cinzentos e sorriu.

— Você não deveria estar na faculdade?

Eu deveria dar umas palmadas nele, pensou com fascínio. Havia algo de eletrizante em seu sorriso. Talvez fossem as covinhas adoráveis.

— O que você tem para mim?

— Contas — declarou. A forma como seus lábios rosados se mexiam era incrivelmente parecida com a dos lábios de Oliver, mas eles não eram parecidos. Jules tinha o cabelo louro-claro, e o de Oliver era louro-prateado. Um tinha olhos azuis, o outro cinzentos. Um tinha a pele pálida, a do outro era dourada. Um era franco-canadense, o outro era legitimamente francês. Os Hentz também eram todos franceses.

De alguma forma singular, ele era parecido com Nick. Até sua insubordinação era parecida com a que Nick teria se fosse o caso, a diferença era que Jules não era teimoso como ele.

Quando recebeu o dossiê, quase deixou-o cair no chão.

— Jesus Cristo — balbuciou. Não que esperasse que aquele heliporto e o helicóptero fossem sair baratos, ainda mais com a decoração do Palácio, mas aquilo era quase um absurdo. Só de pensar o quanto teria de pagar em impostos ficava doente. Talvez os democratas estivessem já há tempo demais no Parlamento.

Lembrava-se perfeitamente sobre como sua fortuna começara com singelos um bilhão e cento e vinte milhões de dólares. Ela agora atingira os dois bilhões, mas parecia que cada centavo exigia uma retratação de outros dois centavos para com o governo. De acordo com a Forbes, Ethan já era a septingentésima trigésima sexta pessoa mais rica do mundo. Ainda não era o suficiente.

Felizmente, os investimentos de Lauren Mayfair em petróleo e energias sustentáveis estavam dando certo. Ethan estava com os dedos formigando para comprar os hospitais decadentes de John Christian Medley e fundar o Centro Médico Hentz.

Jamais pensara em realmente tomar vingança dos membros do Conselho da Academia Alphonse Enoi, mas após a compra das lojas de departamento de Castiel Oswell Bones e de Isaac Storm Delaney, mudara de ideia. Fora fácil comprar deles, o fato de que eram primos e tinham um caso ajudou bastante. Depois vieram as usinas de açúcar e as fazendas frutíferas de Grace Merry Pree e Stefani Price-Pree. Os Caument estavam falidos e as irmãs Mondaine não tinham empresas em si, e sim investimentos no ramo do petróleo. E o resto era o resto.

Talvez algum dia, quando já estivesse com filhos — Ethan queria ter filhos de alguma forma —, finalmente comprasse a velha Academia Alphonse Enoi. Achava que ninguém se importaria se ela passasse a se chamar Academia Hentz. Ah, e por que parar em escolas? Por que não fundar uma universidade?

Deus, relaxe, Ethan. Você ainda tem dezoito anos. Daqui a vinte anos eu revejo tudo isso e quem sabe assim meus filhos possam se formar na Universidade Hentz.

— Se essa conta viesse para mim, eu choraria — disse Jules, tirando-o de seus devaneios. — Mas você apenas ergue os olhos. Sabe, Ethan, acho que eu nunca te disse isso, mas eu admiro muito você. São pouquíssimos os adolescentes do mundo que herdam bilhões de dólares e não fazem idiotices. Você planejou muito bem a sua vida. Só começou a gastar dinheiro quando tinha algo em que investir, e não em cocaína e festas, como muitos jovens herdeiros.

— Felizmente, nunca gostei muito de festas — comentou. — E a vida era minha cocaína. Para falar a verdade, eu nem saberia onde procurar, se quisesse.

Jules deu uma risadinha adorável. Por alguns segundos, o escritório foi preenchido com o som da caneta de Ethan rabiscando papel. A cada rabiscada, ele ficava um pouquinho mais pobre.

— Você sabe o que seus funcionários fizeram hoje? — ele indagou com uma malícia infantil. Ethan teve vontade de beijá-lo. — No site da agência de publicidade. Hoje mais cedo, uma moça chamada Kate Vernon enviou um mensagem na ala de reclamações reclamando sobre o descaso que outra agência estava tendo com ela. Era mais um desabafo, na verdade. Ela perguntou ironicamente se a Anhert achava que ela deveria terminar seu relacionamento com a outra agência. E você sabe, essas mensagens são públicas, assim como as respostas.

— Sei.

— A pessoa que responde as reclamações imprimiu uma tira de papel dizendo Nós da Anhert amamos Kate Vernon, enrolou-a num palito de madeira para formar uma bandeira e enfiou o palito na pata de um leão de pelúcia, então tirou uma foto e pôs na resposta dizendo adoravelmente para ela não se preocupar, pois todas as relações um dia acabam. Digamos que essa mensagem se viralizou na internet e que a Srta. Vernon não foi a única cliente que a Anhert conseguiu hoje.

— Que amável.

— Você não entende, não é, seu executivo de cabeça fechada? A Anhert é amada.

Aquela frase pareceu florescer enquanto era jogada no ar, quente e suave como uma brisa de verão. De todas as possibilidades de falência e fracasso, Ethan havia tirado a melhor.

— Estou feliz com isso — respondeu. — Você não faz a mínima ideia de como é importante pra mim. Se a Anhert fosse um plano falido, acho que eu me atiraria desse prédio.

— Não diga isso — Jules du Pont ralhou. Após um silêncio, disse timidamente: — Nós somos primos.

— Eu sei — Ethan disse de volta, voltando a fitá-lo. — Mas distantes.

— Sim. — Jules suspirou. — Meus trisavós se chamam Louis-Charles Oullett e Claudette Bertrand. Eles são os pais de John Francis Hentz, seus tetravós. Eram traficantes de escravos franceses, continuaram com seu trabalho mesmo após a escravidão ter sido abolida da França, em 1848. Mudaram-se da cidade portuária de Brest para o Novo Mundo e começaram a traficar no Brasil, sendo que morreram em 1888, bem no ano em que a escravidão foi abolida. Talvez a notícia de um jovem louro de vinte anos achando o maior diamante da face da Terra na África do Sul tenha influenciado, não é? Morreram um ano depois, afinal, no Rio de Janeiro. Eu já visitei seus túmulos uma vez. Ainda existem. Eles nasceram em 1818.

— Viveram exatamente setenta anos, assim como John Francis, John Daniel e Samuel. Espere, Claudette Bertrand teve John Francis com… quarenta e nove anos? Como isso é possível?

Ele deu de ombros.

— É improvável, mas possível. Ela era muito forte, pelo visto.

— John Francis sabia quem eles eram — declarou. — Ele descobriu, mas então destruiu as provas porque se envergonhava de ser filho de escravagistas. Como então você sabe? — Ethan só sabia porque estava escrito no Livro Hentz.

— Digamos que minha família conserve os velhos costumes — ele devolveu. Pôs mechas do cabelo louro por trás da orelha. — Você sabia que o navio negreiro que eles usavam chamava-se Leoa do Mar? — Jules deu uma risada. — Você certamente sabe, mas John Francis odiava a alcunha de leão dourado por causa disso. Há um motivo pelo qual Louis-Charles e Claudette o abandonaram nos Estados Unidos, no estado da Louisiana. Eles tinham outros dois filhos mais velhos que ele, uma filha chamada Aimeé Claire e um filho chamado Roux.

— De qual deles você descende?

Jules deu de ombros ironicamente.

— Dos dois. Eles reproduziram entre si.

Ethan teve uma vontade absurda de rir. De fato, soltou uma risada, mas conseguiu controlá-la antes que se tornasse uma gargalhada histérica.

— Continuando — Jules se empertigou —, Aimeé e Roux tiveram uma única filha que nasceu em Port-au-Prince, no ano de 1909. Ela se chamou Leonett Oullett, sendo que Aimeé morreu em seu parto. Mas tarde, nos anos 50, Leonett se casaria com um homem chamado Santiago du Pont Rockefeller, que tinha uma irmã chamada Marie-Hélène, que casou-se com Lionel Sophie de Goldenschild e que não por acaso teve, com ele, Cornelius Goldenschild, que teve Henry, que teve Benjamin, que teve Romeo. Como, em 1954, Leonett e Santiago tiveram minha mãe, Seraphine, isso a torna prima de Cornelius e me torna primo de segundo grau dele. Depois disso, você sabe… ela me teve com Lafferty, que era irmão de Colin Winter, avô do Winter.

O fato de ele usar era para se referir ao próprio pai era reconfortante.

— O mais engraçado é que Lionel, pai de Cornelius e marido da minha tia-avó Marie-Hélène, fora senador pela Califórnia durante o governo de Henrietta, e fora contra seu movimento separatista. Mas enfim, tudo isso significa que você e eu somos… — Jules fez algumas contas de cabeça. — Meus trisavós são seus tetravós. Somos primos de sexto grau. Esperava por isso?

— Digamos que não me é mais surpresa descobrir parentes perdidos zanzando mundo afora. — Não depois de Melchior e de Taylor Mayfair. — Não depois de Rhanys Olrwen — preferiu dizer.

— Alegre-se — ele disse com suavidade. — Vocês dois são descendentes da Dama Prateada.

— E quanta prata ela me deixou…

— Não faça assim. O nome dos pais de Louis-Charles me é desconhecido, mas uma coisa que eu sei é que ele é bisneto de um homem chamado Jan van Alten. Ele foi um médico holandês bastante famoso por ter realizado alguns dos primeiros estudos em anatomia. O nome dele ainda pode ser lido hoje em dia em vários livros de medicina, e seu manual de anatomia é leitura obrigatória para qualquer estudante de Medicina. Obviamente não é para ser praticado, mas ajuda a entender bastante sobre como a medicina evoluiu através dos séculos.

— Conte-me mais.

— Ele também foi um primo distante da sua avó, Joselia Jasperin. E Claudette Bertrand descende dos antigos marqueses de Auvergne. Ela é descendente de uma linhagem nobre a qual preferiu abdicar, mas esses marqueses já cruzaram com a família real francesa. Ethan, nós somos descendentes da Casa de Bourbon, e consequentemente primos distantes da família real francesa, da família real portuguesa e da família imperial brasileira.

— Seria bom saber isso se a França, Portugal ou o Brasil ainda fossem monarquias. — Não era de todo inútil, apesar disso. A Casa de Médici fez duas rainhas da França, e se Lorenzo fosse descendente de alguma delas e Ethan dos marqueses de Auvergne, isso poderia fazer dos dois parentes distantíssimos. Como Jules disse, era improvável, mas possível.

Ethan se levantou e tirou da gaveta o diamante que era proveniente das cinzas de Ondromeda Olrwen. Ainda não o guardara porque gostava de olhar para seu brilho cristalino antes de tomar alguma decisão importante.

— Oh, é lindo — ele disse com os olhos brilhando. Mais um aficionado por joias, Ethan pensou. — Eu posso…? — sussurrou com voz trêmula, aparentemente se arrependendo da pergunta logo depois, mas Ethan gentilmente o pôs em suas mãos macias como mãos de menina. — Nunca vi um diamante tão grande. É parte do Diamante Hentz?

Brevemente lhe explicou a macabra história daquele anel e de onde vinha.

— Ela continua bonita mesmo depois de morta — ele brincou. Quando Ethan percebeu, Jules o fitava com profundidade.

— Está procurando os segredos da imortalidade? — indagou, concentrando-se naqueles belos orbes cinzentos. Em pouco tempo os lábios dele começaram a tremular e seus poros a se abrirem. Os olhos tornaram-se sonolentos. As pernas fraquejaram. Mal percebeu que agora estavam a poucos centímetros um do outro. E Jules tinha a idade de Nick.

Quando o alarme em seu computador tocou, o transe foi interrompido.

Jules du Pont teve que se agarrar à escrivaninha para não cair.

— O que foi isso? — ele balbuciou, tonto. — Sinto como se estivesse escalando uma montanha em direção ao sol. Seu maldito. Queria abusar sexualmente de mim?

Havia tanta semelhança no sarcasmo dele com o de Nick que Ethan quase viu o rosto de seu irmão ali.

— É melhor você voltar à escola, ou eu serei processado — disse com um sorriso. Sem saber bem o porquê, beijou sua bochecha. Jules sorriu com timidez e sagacidade ao mesmo tempo, como sempre sorria.

— Você já pensou em nomear alguém que tome conta da empresa caso algo aconteça com você? Isso já existe, se chama vice-presidente. Você devia tentar.

Com isso, ele foi embora.

Mas que maldição, pensou frustrado. Sabia que ele não voltaria à escola. Após ter atendido o alarme no computador, esperou pacientemente até que Robb Thanathos aparecesse ali.

Se Melchior queria que Ethan se apaixonasse por Robb ou algo assim, bem, estava conseguindo. Só o brilho azul dos olhos ingênuos daquele garoto que surpreendentemente tinha apenas quinze anos era suficiente para deixá-lo sem fôlego. Os músculos delineados pela camisa apertada e as calças skinny também ajudavam.

— Como vai? — perguntou com suavidade no mesmo tom de voz excitante de Jules, embora não houvesse ali aquele sotaque francês agressivamente sexy.

— Bem — ele respondeu sorrindo como um garoto. — Estava com saudades de você. Por isso faltei à escola para vir aqui.

Poderia ser uma fala de Melchior… mas algo em sua expressão dizia que não.

Ah, para o Diabo com isso. Não posso viver minha vida paranoico com aquela aranha violeta.

— Também senti sua falta. — Surpreendeu-se com a sinceridade de sua voz.

Aproximou-se dele e prensou seu corpo contra a escrivaninha, rodeando sua cintura com os dois braços, prendendo-o num abraço de ferro. Tinham a mesma altura, então Robb puxou-o para beijá-lo com os braços musculosos abraçados a seu pescoço. Assim ficaram durante vários minutos, apenas apreciando a boca do outro enquanto Ethan apertava a bunda dele distraidamente por cima da calça.

Quando Robb começou a mordiscar seus lábios e a pele alva de seu pescoço, Ethan sentiu que não aguentaria nem um segundo a mais.

— Eu preciso de você — sussurrou fitando-o nos olhos. Sua ereção parecia querer pular para fora da cueca. — Jules está aqui, então ele pode cuidar do seu trabalho. Venha para a cama comigo.

Com os lábios entreabertos e os olhos famintos de adolescente, ele concordou.

Foram silenciosamente ao quarto de Ethan, que fez questão de trancar a porta. Voltou a se aproximar de Robb, agarrando-o de novo pela cintura até fazê-lo sentar-se na beirada da cama. Ethan começou a desatar o cinto e a tirar a camisa de botões enquanto ele fazia o mesmo.

Seu físico era impressionante. Tinha ombros largos e um peito relativamente definido, o que contrastava com a expressão infantil. Porém, não pareceu nem um pouco infantil quando meteu o pênis de Ethan na boca e começou a chupar.

Ethan tirou a cueca enquanto ainda metia o pênis em sua boca, ficando completamente nu durante a felação. Robb ainda estava tirando os tênis enquanto chupava a base de seu membro, completamente absorto no que fazia. De olhos fechados, descia e subia os lábios, molhando-o de saliva. Ethan sentia-se pulsar dentro de sua boca.

As mãos dele apertaram suas nádegas, depois começaram a masturbá-lo. Ethan empurrava gentilmente o quadril na boca de Robb em movimentos constantes, quase sempre jogando a cabeça para trás de prazer. Quando sentiu que ia ejacular, separou-se dele.

— Tire a calça — disse deitando-se na cama. Robb assentiu e arrancou-a junto com a cueca, mostrando o pau duro que pulsava entre suas pernas. Lentamente, ambos dispuseram-se de modo que Robb ficasse em cima de Ethan com o membro virado para seu rosto e o dele para o próprio.

Ethan começou a chupá-lo com prazer. Robb já havia descido para colocar seus testículos na boca enquanto isso. Com gentileza, passou os braços por cima das pernas do mais velho e desceu ainda mais, passando a tocar seu ânus com a língua. A abertura piscava mais cada vez que Robb metia a língua mais profundamente.

— Oh, Deus — Ethan gemeu, quase que imediatamente voltando a meter aquele pau duro na boca. Quanto tempo fazia que não o tocavam ali? Não lembrava, mas agora parecia uma boa hora para tentar.

Separou-se de Robb e pôs-se de quatro na cama. Ele voltou a enterrar o rosto entre suas nádegas, puxando as coxas para se aprofundar mais. Ethan sentia sua língua deslizar por dentro de si gostosamente, surpreendentemente habilidosa, enquanto gemia o nome do mais novo.

Robb o beijou e chupou lá, depois passando pelo resto das nádegas, deixando suas marcas de dentes na carne macia. Desceu pelas coxas e deu chupões, voltando a morder a carne até chegar aos pés, onde beijou e mordeu de leve.

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Ethan levantou-se e o pôs na mesma posição, tomando o controle. Sem perder tempo, encostou a língua em sua abertura que piscava agressivamente. Robb gemia como uma garotinha, pedindo que ele enfiasse a língua mais fundo.

Refez todo o trajeto por suas pernas que ele fez nas suas até os pés, beijando cada centímetro de pele como se não pudesse nunca mais fazê-lo.

— Você nunca foi tocado aqui, não é? — sussurrou enquanto pressionava o dedo contra seu ânus. Robb gemeu que não, controlando-se para não se contorcer. — Vamos cuidar disso, mas agora não.

Arrastou-se até a beirada da cama e deitou-se lá. Robb levantou-se e pôs-se entre as pernas de Ethan, com as pernas do mais velho em cima de seus ombros. Ethan deu-lhe uma camisinha, que ele deslizou pelo membro, e disse:

— Vamos, coloque. Eu quero que você me foda.

Mal se controlando, Robb começou a penetrá-lo. Ethan sentiu a dor habitual atravessar-lhe o cólon, mas suportou tudo com esmero. Quando Robb já estava completamente dentro dele, ofegante, Ethan deslizou a mão por seu peito e apertou um dos mamilos entre os dedos.

Robb gemeu, depois puxou o quadril e voltou a empurrá-lo, então de novo e mais uma vez. Em pouco tempo, estava investindo contra Ethan com violência, chacoalhando seu corpo para cima e para baixo. Aproveitava para beijar seus pés e mordê-los com força, depois fazer o mesmo em sua boca.

Robb encostou o peito no de Ethan e tocou os lábios nos dele, chupando sua língua. O mais velho agarrou sua bunda com as duas mãos e a puxou para si, fazendo-o enterrar-se todo lá dentro. Sua abertura piscava, apertando o membro dele lá dentro.

— Eu vou gozar — Robb gemeu, lambendo o suor do pescoço de Ethan.

— Pare — ordenou. — Venha, é minha vez agora.

A contragosto, ele saiu. Ethan deitou-se no meio da cama, ignorando a dor que sentia, e fê-lo deitar-se em cima de si. Por alguns segundos, seus corpos molhados de suor colaram-se enquanto os dois amantes se beijavam apaixonadamente, explorando o corpo do outro com as mãos, apertando onde achavam que devia ser apertado.

— Eu quero que você cavalgue — disse a ele, mordendo seu lábio inferior.

Robb não parecia estar com vontade de fazer aquilo, mas Ethan não se importou. O fez separar as pernas e tocou em sua entrada, então enfiou um dedo e depois dois, sempre beijando sua boca com violência. Fez movimentos circulares lá dentro, alargando o máximo possível para que ele não sentisse dor. Era óbvio que sentiria de qualquer jeito, mas fazer aquilo não custava nada.

Quando se deu por satisfeito, pôs uma camisinha e encostou a glande em sua abertura. Entrou com facilidade, apesar de sua expressão de dor. Robb começou a morder seu pescoço, dando chupões onde não o fazia. Ethan estava agora estocando-o com lentidão, apenas para que ele se acostumasse.

De fato, em pouco tempo Robb já estava mexendo o quadril devagar, apreciando o prazer que aquilo proporcionava. Ethan estava em baixo dele, delirando com a quentura e aperto de seu ânus. Começou a estimulá-lo enquanto ele rebolava.

— Rebola. Isso, menino, rebola bem forte.

Quando Robb começou a cavalgar, Ethan agarrou os lençóis e fez força para não gritar de prazer. Os dois corpos chocavam-se com violência , os suores misturando-se num único, o cheiro de sexo no ar. Ethan sussurrava coisas pornográficas em seu ouvido, fazendo-o cavalgar com mais força.

A cama rangia e batia na parede. Em dado momento, Robb parou de cavalgar e Ethan passou a bombardeá-lo no ar com estocadas violentas.

O orgasmo foi colorido e maravilhoso a seus olhos, misturando-se com todas as outras secreções. Quando ambos haviam gozado e gritado em seus êxtases, passaram a suspirar ao lado do outro, recuperando o fôlego.

Os dedos de Robb entrelaçaram-se com os de Ethan e ele recostou a cabeça em seu peito. Olhou para cima e fitou-o nos olhos, azul no preto.

— Eu gosto tanto de você — falou com sinceridade. Não podia ser de Melchior aquela frase. Ethan sabia o que aquilo significava. Assim como Spring e Nick, Robb havia se apaixonado por Ethan quando esta deveria ser a última coisa que deveria fazer. — Não devia, mas gosto.

— Não devia por quê? — perguntou suavemente. Ele baixou a cabeça, fazendo Ethan sentir-se absurdamente culpado.

— Venha cá, me beije.

Beijaram-se novamente. Entre seus cálidos suspiros, voltou a fitá-lo com profundidade nos olhos azul-escuros. Em pouco tempo, Robb se arrepiou e passou a fica sonolento, os lábios tremeram e ele gemeu de agonia.

Ethan sentiu vontade de colocar o Anel da Matriarca em seu dedo.

— Eu quero ser só seu — Robb disse sentando-se na cama.

— Você quer? Quer que eu seja só seu, também?

Ele assentiu, aparentemente envergonhado demais para poder falar.

— Eu te amo — Robb sussurrou para si mesmo.

Ethan sorriu.

— Então vamos ter que dar um jeito nisso, não é mesmo?

Muito tempo depois, naquela noite, sozinho em seu quarto, deitado nu na cama e fumando um cigarro, Ethan confabulava com as próprias faculdades mentais. Frequentemente fazia aquilo, criar um personagem imaginário com quem debatia as questões da vida. O mais irônico é que frequentemente perdia para ele, embora nunca tomasse seus conselhos com seriedade.

A reunião fora um fiasco. Ethan realmente oferecera seus serviços de graça, mas a diretora Mary Sandy, que ardesse no quinto dos infernos, deixou claro que não era de cometer o mesmo erro duas vezes. Ela contrataria outra construtora para realizar as obras necessárias. E fim de papo.

Tinha acabado de visitar o quarto de Lorenzo. Seu irmão mostrara-se agressivo, exigente e apaixonado como sempre, sempre gemendo a coisa certa na hora certa. Ethan gostaria que ele crescesse mais rápido.

A porta entreabriu-se um pouco, deixando passar a claridade do corredor. Quando notou, Nicholas Hentz estava parado ali, dentro de uma camisola quase que certamente feminina.

— São confortáveis — ele explicou, pulando para a cama de Ethan. Charlie, seu Shih Tzu branco e marrom, estava com ele, balançando a cauda por onde passava. Sem pedir, pegou o cigarro e tragou profundamente, observando a fumaça perder-se na escuridão do teto. — Estou cansado. Passei a noite inteira na HBC, filmando a série de Melchior.

— Me pergunto se você fez algo maravilhoso numa vida passada para estar sendo tão agraciado nesta — Ethan sussurrou melodicamente. — Está ganhando um quarto de milhão de dólares para atuar, sendo que você não tem experiência alguma como ator e é tão imprestável que não consegue nem amarrar os próprios cadarços.

Cutucar aquela ferida era um de seus passatempos favoritos. Nick nunca se conformara com o estranho fato de nunca ter aprendido a amarrar cadarços.

— Fique calado — ele resmungou.

— Estamos no meu quarto. O que você está fazendo aqui?

— Não me quer aqui? Eu posso ir embora, se quiser.

— Eu quero.

— Mas eu não vou. Oh, isso não é maravilhoso? Nós dois aqui, discutindo como um casal de velhos. Como um casal de irmãos. Um deles é uma beldade loura mundialmente famosa e o outro é um corporativista explorador que trepa com tudo que se mexe. O que você pretende fazer?

— Por que é que todo mundo espera que eu faça algo? — disse de repente sentindo a raiva fervilhar dentro de si. Não aguentava mais aquilo, precisava desabafar. — Essa pressão está me matando. Eu matei uma pessoa com minhas próprias mãos, a ficha finalmente está começando a cair pra mim. Por que você não me deixa em paz?

— Porque foi algo que você fez que começou isso tudo, a princípio.

Como era de se esperar, Nick ouvira apenas a primeira frase e ignorara o resto porque não lhe convinha. Ethan sentiu vontade de matá-lo. Mas tudo bem. Qualquer coisa a mais que tinha para falar com Nick simplesmente acabara.

— Como Robb Thanathos é na cama? — ele indagou de repente.

— Satisfatório — respondeu sem expressão.

— Está apaixonado por ele?

Estou namorando Robb Thanathos, refletiu. Mas não diria aquilo.

— Está apaixonado por Spring? — devolveu.

— Perdidamente. É difícil acreditar que ele é mais velho que eu. Também é triste ele ter rompido completamente com Summer, mas acontece. É verdade que você quer fundar um banco? Vai romper com o Banco Goldenschild?

Ethan queria fazer aquilo, mas querer era pecado? Não fazia ideia de como aquele boato vazara, mas se aconteceu, o que fazer? De alguma forma, Ethan sabia que Cornelius não romperia com ele se ele rompesse com seu banco. Por séculos os Goldenschild rivalizaram com os Rothschild e os Morgan na hegemonia bancária mundial. Cornelius era inteligente demais para descartar a possibilidade de ter os Hentz como futuros aliados.

Nick pareceu esquecer-se da própria pergunta.

— Você sabia que Winter e o namorado dele, Autumn, vão se casar? Eles têm dezesseis anos.

— Garotos de dezesseis anos são todos loucos. Espero que isso não ponha ideias na sua cabeça.

— Como você acabou de dizer, garotos de dezesseis anos são todos loucos, e eu farei dezesseis em algumas semanas. Terei sua bênção? Poderei dar o Anel da Matriarca para Spring?

Ethan estava começando a se sentir cada vez mais irritado com a piedade presente nos olhos do irmão.

— Oh, está bem, eu vou parar — Nick disse. — A vida da família Hentz tem sido alvo de tabloides pelo mundo todo. Eles nos amam quase tanto quanto amam Senn. Lorenzo é um adorável garoto italiano pianista e violinista, você é um bem-sucedido empresário e eu sou um ator. Há dois anos nós éramos apenas dois adolescentes com pais ausentes e ele uma criança na Itália com uma mãe superprotetora. E agora somos deuses. Como isso aconteceu?

— Acontecendo.

— Você não está para conversas hoje? E… esse é o Anel do Patriarca?

— E se for?

— Onde o achou? Pensei que estivesse perdido. Você mentiu para mim?

A acusação em seus olhos só serviu para enfadá-lo ainda mais.

— Você me irrita de modos tão sutis que eu nem consigo compreender quais são, mas sei que eles estão aí, bem disfarçados debaixo da sua arrogância. Você não é um deus, Nicholas. E não estaria em lugar algum se não fosse por mim. Lembre-se sempre de que você se apoia em mim para não cair.

O plano de Ethan para frustrá-lo funcionou. Nick se levantou rangendo os dentes.

— Quem está sendo arrogante agora?

E bateu a porta. Charlie foi com ele. Ethan suspirou.

O que estava fazendo de errado? Quando não desprezava Nicholas, ele o desprezava, e então depois acontecia exatamente o contrário. Havia algo podre no Reino dos Hentz, e não era nada sobrenatural ou de outro mundo. Ele tinha nome e forma.

Mas só por enquanto. Não importa o que me custe, eu vou apagar o nome de Lafferty Winter da face da Terra se isso significa proteger minha família. Nossa família é única, e nossa fortuna é uma só.

A frieza do Anel do Patriarca Hentz ardia em seu dedo. Ethan tocou na pedra azul-clara com delicadeza, apesar de ser o mineral mais duro da Terra.

— O que meus antepassados fariam?

A resposta era bem óbvia. Video et taceo, não era mesmo?

Notas finais
Yayy, o Livro Hentz está salvo, Jules e Ethan são primos distantes e Ethan e Robb estão namorando agora. :3