Uma brisa gostosa e fria chocava-se contra o rosto de Ethan Lemnsack, fazendo seus pelos eriçarem-se. Podia ver praticamente toda Middleland do topo daquele edifício. Luzinhas pequenas lá ao longe, no horizonte, pessoas pequenas vivendo suas vidas, como deve ser.

O edifício Dasvalkur orgulhava-se de ser o primeiro arranha-céu de Middleland, com 95 andares. Era um prédio comercial e sua cobertura acoplava uma espécie de parque de diversões. Ethan olhou para baixo, para o chão, e não viu nada além dos quase 300 metros que o separavam do chão. O edifício também devia ser o único no mundo que continha uma varanda protuberante à cobertura cujo chão era de vidro. Era assustador e excitante ao mesmo tempo.

Nick adoraria isso.

Mas não era hora de pensar em Nick. Ethan sentou-se na mesma mesa que Gabriel Melnick e então deu-lhe um beijo no rosto.

— Que tipo de pessoa — Gabriel disse, sorrindo — escolhe ter um encontro a 300 metros do chão?

Ethan sorriu. Havia apenas um restaurante ali cujo valor do prato mais barato era suficiente para alimentar uma família inteira por dias, mas não importava. Quando percebeu que nunca tivera um encontro de verdade com Gabriel, teve de fazer aquilo. Afinal, era seu aniversário. Fora àquele mesmo lugar semana passada, quando Nick e Lorenzo fizeram, ao mesmo tempo e respectivamente, 14 e 9 anos. Foi Nick quem dera a ideia de ser ali.

Tudo bem que da última vez que Ethan tivera um encontro em que Nick sabia o destino, as consequências foram terrivelmente desastrosas. Mas as coisas eram diferentes. Estavam diferentes.

E valera a pena. Não apenas a excitação de comer uma lagosta flutuando no ar, mas pela vista que se seguia. Ao norte, podia ver, quase invisível, o prédio em que morava e também a Academia Alphonse Enoi. A norte-nordeste, a floresta, imponente e poderosa. O sul de Middleland, onde se encontrava o edifício Dasvalkur, mantinha também um estádio de futebol a oeste-sudeste e meia dúzia de grandes hotéis. Depois vinha o subúrbio. Então a cidade apinhava-se de casas e prédios residenciais a noroeste e de condomínios a nordeste, incluindo Jardim de Ouro. Esta era Middleland.

— A mesma pessoa que paga 100 dólares por lagosta. — Valia a pena, relativamente. Elas vinham sem casca e a carne era tenra e derretia na boca. — Agora fique quieto e coma. Você está lindo, sabia?

Ele estava. O cabelo preto brilhava com a luz dos postes encrustados na parte do chão que não era de vidro e os olhos pareciam mais vivos e brilhantes, como grama verde depois da chuva. Havia felicidade presente ali. Vestia uma camisa branca de manda comprida com uma gola V tão decotada que ou mostrava demais seu peito, ou demais suas costas, e uma calça jeans preta. Na mão direita, usava o anel de rubis e ouro branco que Ethan lhe dera há algum tempo. Ethan vestia quase a mesma coisa, mas o decote não era tão grande e a camisa era preta, não branca.

Gabriel ficou vermelho com o comentário.

— Você que está.

— Não, você. Como se sente tendo 13 anos e namorando alguém de 17?

— Não tão pior de como me sinto quando me lembro de que sou mais novo que Nicholas.

— Têm paparazzi escondidos naquela moita ali perto. Quer dar um show?

Gabriel olhou em volta de forma nem um pouco sutil. Ethan não se surpreendeu. Ele era assim. Deu de ombros.

— Por que não?

Ethan aproximou-se dele, levantando-se da cadeira sobre a mesa, e deu um selinho em seus lábios longo o suficiente para que os paparazzi tirassem pelo menos uma foto que não fosse tremida. Então se afastou. Estava ruborizado.

— Quando você viaja? — Gabriel perguntou, tomando um gole de um líquido espesso e roxo. Era suco de uva, mas com um sabor tão concentrado que parecia vinho. Na verdade, era vinho sim. Ethan havia pedido discretamente para inibir o mais novo sem que ele soubesse. Achava divertido. Gabriel estava ficando mais aéreo a cada segundo que passava. Ethan tomava um coquetel qualquer sem álcool.

— Creio que em dois dias, logo quando as férias começarem.

— Você deve estar terrivelmente arrasado em ficar um mês sem ir à escola.

Ele realmente havia entendido o que era sarcasmo.

— Nem um pouco. Percebi que escola é um saco quando a gente tem coisa melhor pra fazer fora dela.

Gabriel não percebeu que Ethan se referia a ele. Bem, ele ainda tinha Síndrome de Asperger.

— Me surpreende. Lorenzo vai com vocês?

— Sim. Embora eu vá dar um jeito de ficar a sós com Nick… acho que ele merece… depois de tudo o que aconteceu.

Gabriel bebeu outro gole do vinho que pensava que era suco. Sentia-se entorpecido e não sabia por quê.

— Certamente que sim — ele disse, e então se calou. Ethan não conseguiu descobrir por que, mas pensou que talvez ele estivesse… com ciúmes?

— Eu adoraria que você fosse, se pudesse.

Ele balançou a cabeça.

— Minha mãe nunca me deixaria ficar duas semanas fora do país e não, obrigado, você já paga coisas demais pra mim.

Ethan inclinou-se para frente, ligeiramente interessado.

— Eu nunca te perguntei isso. Como sua mãe lida… conosco?

Gabriel crispou os lábios e cruzou os braços em cima da mesa, olhando por cima da grade de segurança a cidade que se estendia a sua frente. Ali, o único som era o da cobertura do prédio em si. Middleland era como uma pequena nódoa abaixo deles, minúscula e impotente, mesmo sendo tão grande.

— Ela finge que não existe. Literalmente. Eu não falo sobre isso, e nem ela. — Deu outro gole. — Acho que é melhor assim.

Ethan abaixou a cabeça e enfiou o garfo num aspargo cozido.

— Acho que eu nunca percebi que nunca tive que lidar com isso. Nem quando meus pais eram vivos; eu mal os via, eles mal sabiam nada sobre mim.

— Sabe como dizem. Há males que vem para o bem. Como você imagina que seria a sua vida se eles nunca tivessem morrido?

Ethan já havia se perguntado aquilo tantas vezes que se envergonhou quando descobriu a resposta. Estaria pior. Nunca teria feito amor com Nick, nunca teria conhecido Gabriel, nunca teria sabido sobre Oliver. Talvez nem tivesse conhecido Lorenzo. Continuaria sendo aquela pessoa excluída que não tem nenhuma outra relação fora o irmão e a melhor amiga. Pensando nisso hoje em dia, percebera como havia sido tolo por tantos anos. Como havia simplesmente desistido de viver porque era muito difícil. Erguera sobre si pontes invisíveis para evitar a dor emocional que não queria ter. Ethan sentia repulsa do si mesmo de alguns meses atrás.

Oliver Castanelli havia sido exatamente igual. Acontece que ele não mudara nem quando conhecera Ethan. Era uma parede de gelo que só demonstrava emoções para ele. Ethan decidira parar de refletir sobre aquilo quando se dera conta de que estava começando a sentir raiva dele.

— Continuaria sendo a mesma merda que foi durante 17 anos — Ethan murmurou, tão baixo que era quase um sussurro. Olhou seu relógio. Eram quase 11 horas. Olhou para o céu. O negrume intenso, gigantesco, gelado e infinito. — Vamos para casa? Termine o vin… quer dizer, o suco. Eu vou chamar um táxi.

— Por que não vamos andando? — Gabriel gracejou. Era apenas brincadeira, é claro.

Ethan fitou novamente o céu, que ameaçava chover. Tão familiar.

Sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

OoO

Nicholas Hentz urrou de frustração. Aquela era a quinquagésima vez que Lorenzo Barcarolli vencia aquele maldito jogo. O que era aquilo? O menino tinha 9 anos e era cego, pelo amor de Deus. Depois daquilo, não duvidaria nunca mais da qualidade de seu tato.

Lorenzo começou a rir.

— Pare de rir. — Isso só o fez rir mais. — Se a droga do controle não vibrasse, você nem poderia jogar. Pare de rir!

Ele parou, mas não sem antes limpar uma lágrima que escorrera de seu olho direito.

— Foi você quem me obrigou a jogar com você — argumentou.

Nick resmungou algo incompreensível. Quem havia tido a brilhante ideia de fazer jogos de videogames em que não era preciso mais nada senão seguir a vibração do controle? Não, melhor, quem havia decidido inventar videogames?

— Não importa. — Lorenzo voltou a rir. — Espera só até eu contar a Jill que você é ótimo em videogames. Ela com certeza vai se apaixonar por você.

A cor no rosto de Lorenzo se esvaiu e então voltou. No final, ele estava tão corado quanto um tomate.

— Quê? — murmurou, a voz falhando no final.

— Acha que eu não percebi que você gostou dela? Eu sei como é isso.

Um sorriso adorável estampou o rosto de Nick, que observava deliciado a expressão consternada de Lorenzo. Aquilo estava sendo mais divertido do que parecera que seria.

— Fala pra mim — Nick disse, mordendo o lábio inferior, aproximando-se tanto do menor que lhe deu um arrepio ao sussurrar-lhe no ouvido: — Já beijou alguém?

Ele empurrou Nick para longe, pulando do chão, a face vermelha de raiva e constrangimento.

— Para com isso!

— Não. Fala, já beijou? Ou tem vontade?

Lorenzo chutou-o, mas Nick nem sentiu cócegas.

Para!

— Não sei por que essa vergonha toda. Ah, não, eu sei. Aposto que seus amigos na escola dizem que beijar ou querer beijar meninas é idiotice, não é? Ou são do tipo que dizem que já beijaram quando só faltam urinar nas calças quando uma garota chega perto? — Sabia bem o que era aquilo. Nick já havia sido uma criança e sabia como elas podiam ser cruéis. — Sabe qual foi a primeira vez do Ethan? Isso é, oficialmente? Com 16 anos. — E foi comigo, mas você não precisa saber disso. — E sabe qual foi a minha primeira vez? Com 9 anos. Hoje ele é uma pessoa madura e responsável e eu sou infantil e egoísta. É bem relativo, sabe, isso não te torna nem melhor, nem pior que ninguém. Deixe dessa vergonha estúpida e me responda: Já beijou alguém?

Observou Lorenzo lentamente balançar a cabeça negativamente.

— Ah, qual é — Nick voltou a rir. — Não sei se sabe disso, mas você é bonito. Claro que é, você é meu irmão. Só não pode deixar o nervosismo e timidez tomar conta das suas ações. Deixa eu te contar como foi a primeira vez que eu beijei. — Cruzou as pernas e passou a falar gesticulando furiosamente, como se houvesse real necessidade de fazer aquilo. — Tinha tudo para ser legal. Eu morava em outra cidade chamada Castellobranco, foi numa excursão da escola. Lembro-me do nome da garota. Laryan. Laryan Deraut. Estávamos num parque municipal, estava meio nublado, frio pra caramba e o passeio estava um saco. Eu cheguei supertímido nela e perguntei se ela queria passar pelo corredor das laranjeiras comigo, era tipo um corredor enorme cercado de laranjeiras por todos os lados, mas acho que isso é óbvio. Deus, eu era um imbecil. Gaguejei o tempo todo e as outras meninas em volta dela riram de mim. Mas ela aceitou. Nossa, você não imagina como eu me senti. Ainda lembro-me dos olhos dela. Eram castanhos, claros. Quase amarelos, quando a luz batia. Ela era tão bonita. Afastamo-nos dos monitores sem que eles percebessem e escapulimos pelo corredor das laranjeiras, rindo e nos divertindo, como duas crianças. Peraí, nos éramos crianças… mas então, chegamos ao fim do corredor, onde tinha a maior laranjeira de todas, estava carregada. Orvalho caía sobre nós, porque tinha chovido algumas horas antes. Eu peguei nas duas mãos dela e me aproximei lentamente, nervoso como só uma criança preste a beijar uma menina pela primeira pode estar. Mas deu certo. Encostei meus lábios nos dela por dois segundos. Quando me separei, ela sorriu e me deu outro beijo na bochecha. Eu quase fui ao chão de tão feliz que fiquei. Eu a amava, acho. Só acho.

— O que… — Lorenzo murmurou, estupefato — aconteceu com ela?

Se ele pudesse enxergar, veria os olhos de Nick úmidos.

— Ela morreu. Sabe, Laryan tinha leucemia. Ela era careca e as outras crianças riam dela por causa disso. Acho que eu fui o primeiro que falou com ela naquele ano. Depois do beijo… nunca mais a vi. Ela foi internada e morreu enquanto isso. Eu comprei um buquê de flores pra dar pra ela quando saísse do hospital. Mas então, me disseram que ela havia falecido. Foi terrível. Eu chorei muito.

Lorenzo não sabia o que dizer, mas não foi preciso, pois Nick voltou a falar.

— Meu Deus, você já viu a zona que está esse quarto?

Não conseguiu compreender por qual motivo ele havia mudado de assunto tão bruscamente, mas, a julgar por sua voz, que estava embargada, decidiu que era melhor daquele jeito. Então fitou-o por um momento e franziu as sobrancelhas.

— Isso é piada?

— Claro que é. Aliás, ele nem está tão bagunçado assim, eu só queria dizer isso. Já arrumou sua mala? Espera — Ele riu —, isso também é uma piada. Você acha que ultimamente eu ando falando demais?

Lorenzo assentiu.

— Eu fico assim quando fico sem fazer nada o dia todo, com energia acumulada. Eu tenho hiperatividade, sabia?

— Não existem remédios para isso?

— Sim, mas, por algum motivo, funcionam bem demais pra mim. Todas as vezes que tentei tomar algum, me deixavam parecendo um zumbi, sem força ou vontade de fazer nada. Ethan prefere que eu fique assim. Mas acho que vou precisar tomar alguma coisa na viagem. Não conseguiria ficar 12 horas enfurnado num avião sem fazer nada. Você conseguiria? Ah, espera. Você já ficou. — Nick riu de novo e então voltou a olhar para o videogame. — Vamos de novo? Vou te vencer dessa vez. Eu sei que foi isso o que eu disse nas últimas 50 partidas, mas eu estava te deixando ganhar.

Lorenzo se pegou desejando que Ethan voltasse logo. Era incrível como Nick conseguia ser um amor certas horas e um pé no saco outras.

— Onde Ethan está? — perguntou, depois de ganhar a quinquagésima primeira partida.

— A 300 metros do chão — Nick resmungou, guardando o videogame, cansado de perder. — Num restaurante. Com Gabriel.

— Ahh… — o menor murmurou. — O que Ethan é de Gabriel?

Nick perguntou-se se devia falar a ele. Bem, pra que mentir? A última coisa que queria é que Lorenzo se tornasse como ele era há alguns anos.

— Eles são namorados.

Lorenzo hesitou um pouco antes de falar, a confusão estampada em sua cara.

— Mas eu pensei que só homem e mulher pudessem namorar.

— Pensou errado. Dois homens podem namorar, assim como duas mulheres. E isso não é errado.

Pelo visto, aquilo era uma coisa estranha demais para uma criança processar, então ele apenas deu de ombros. Nick pegou-se desejando que Lorenzo fosse mais novo, assim seria mais fácil fazer a cabeça dele para o que fosse.

— Tudo bem. Ei, ontem, na escola, Codi Kaynr chamou Ethan de viado. O que isso significa?

— Significa que eu não quero que você ande mais com Codi Kaynr.

Ethan irrompeu no quarto nesse momento. Estava tão bem vestido que Nick sentiu vontade de arrancar todas as suas roupas com os dentes. Ele aproximou-se e abraçou Lorenzo, dando um beijo em sua bochecha. Ia dar outro em Nick, mas no último segundo o loiro virou o rosto e deu-lhe um selinho, coisa que deixou Ethan vermelho.

— Como foi? — Nick perguntou.

— Ótimo… Segui seu conselho do vinho.

— Excelente.

— Lorenzo — Ethan acariciou seu rosto. — Já está tarde. Vou colocá-lo na cama, está bem?

— Certo.

O quarto dos pais de Nick e Ethan havia se tornado o de Ethan, tendo Nick ficado com o antigo de Ethan e Lorenzo ficado com o antigo de Nick. Olhando numa nova perspectiva, Nicholas percebeu que o novo quarto não era assim tão maior que seu antigo.

Atravessou o corredor, pegou uma caixa rasa do tamanho de um notebook, branca e sem nenhum atrativo, que havia escondido em seu quarto e entrou no antigo quarto de Charles e Mary Alice Lemnsack Hentz.

Tendo praticamente o dobro do tamanho de seu quarto, Ethan havia mandado pintá-lo com cores azuis e roxas, tudo ou muito claro, ou muito escuro. Três degraus elevavam a área da cama king-size, que parecia ser o único móvel daquele quarto que era largamente utilizado. O guarda-roupa obscenamente grande era praticamente inútil. Todas as roupas de Ethan mal ocupavam uma cômoda. Um carpete azul marinho revestia todo o piso do quarto.

Talvez eu deva comprar umas roupas pra ele, ver se ele se desacostuma com essa vida de classe média.

Gabriel Melnick estava sentado na beirada da cama. Nick sempre achou que ele tinha cara de sonso e, naquele momento, provava isso mais que nunca. Estava tão aéreo por causa do vinho que tinha tomado que mal notou a entrada do outro no quarto.

— Nicholas — murmurou, tentando focalizar a visão, mas até isso estava difícil. — O que faz aqui?

— Eu moro aqui, sabia? — Aproximou-se e sentou-se ao lado dele, pondo a caixa no colo. — Como se sente?

Ele sorriu, passando vagamente a vista pelo quarto.

— Feliz.

— Sim, sim, claro. Olha aqui. Isso é pra você. — Entregou-lhe a caixa.

Nick fez um esforço monstruoso para permanecer impassível enquanto Gabriel abria a caixa e quase pulava para trás de susto. Observou-o fixar os olhos verdes no short de couro preto ridiculamente curto que dificilmente chegaria à metade das coxas de quem o usasse. Tinha o tamanho de uma cueca. E era tão apertado quanto. Possuía uma fivela prateada que podia ser usada para folgá-lo, embora isso não significasse muito, e a área perto das coxas era ornamentada de cordões pretos decorativos dispostos em formato de X. Como Gabriel não tirasse os olhos da roupa, Nick revelou o que havia por baixo dela. Um objeto cilíndrico, branco, roliço, lustroso. E outro, um cabo cor-de-rosa incrustado de pedrinhas pretas, onde uma língua de couro esticava-se. Eram um vibrador e um chicote de couro. Havia algemas também.

— Bem — disse Nick. Gabriel olhou-o com surpresa, como se acabasse de perceber que ele estava ali —, como eu acho que juntar você com Ethan não foi o suficiente, dou-lhes um presente maravilhoso desses. Que é que você acha? — Possuía um sorriso tão adorável que era difícil dizer se era alegria ou cinismo.

— O que… — Gabriel murmurou — você espera que eu faça com isso?

— Sua mãe não te ensinou as coisas da vida? Tsc, tsc, bem, isso aqui se chama vibrador, e para usá-lo, você precisa apenas…

Eu sei o que é isso! — exclamou. — Mas… pelo amor de Deus. Você não espera que eu use isso… — De repente, calou-se. E Nick logo percebeu o porquê. Ele estava com vergonha.

— Eu já devo ter transado com mais pessoas do que você vai transar em toda a sua vida, e até eu sei como o negócio fica tedioso uma hora ou outra. Você não tá afim de mudar um pouco as coisas?

Não…!

— Uma ova que não está. Deixa eu te contar uma coisa. Ethan é masoquista. Ele gosta de sentir dor. Acredite, ele vai amar isso. Você pode fazer tanta coisa com ele, mas está desperdiçando tudo na forma mais básica de sexo. — Pensou um pouco. — Veja só, estou te dando uma bronca. Você é 22 centímetros mais alto que eu e eu é que estou te dando uma bronca. Que adorável, não acha? — Pegou o cabo cor-de-rosa do chicote e o balançou na frente de seus olhos, sorrindo. Gabriel continuou calado. — Ah, faça-me o favor. Ethan é gostoso pra caralho e você vai mesmo desperdiçar a chance de passar a língua no corpo inteiro dele? — Viu a surpresa nos olhos dele.

— Ele é seu irmão, como pode dizer isso?

— Ele é meu irmão sim, blábláblá. Você acha que eu nunca o vi nu? — Aproximou-se. — Vi sim, já vi tudinho. O pau dele é enorme, você sabe disso melhor do que ninguém. — Gabriel ficou vermelho escarlate. — E aposto que você nunca foi ativo dele. — Ele parecia prestes a chorar. Nick controlou a vontade de rir. — Ah, se Ethan não fosse meu irmão…

— Para… com isso! Isso é nojento.

— Não haja como criança. Tá parecendo Lorenzo. Faça-o vestir essa roupa ridícula, algeme-o na cama e mande ver. Você tem um chicote e um vibrador. Use a imaginação.

— Por que tá fazendo isso? — ele indagou.

Nick deu de ombros.

— Sei lá. Eu me acho um amor de pessoa. — Ouviu Ethan fechando a porta do quarto de Lorenzo e apagando a luz. Guardou todos os objetos na caixa, menos a algema, e a enfiou debaixo da cama. — Eu acho melhor você usar isso antes. — Entregou-lhe as algemas. — Quando ele chegar aqui, depois de fazê-lo vestir o short, deite-o na cama, então se deite por cima dele, beijando-o, é claro. Então algeme as mãos dele na cabeceira, sem ele ver. Então… ele será seu. Faça desse jeito, ele não vai concordar em usar as algemas, tenho certeza disso.

Ethan adentrou no quarto e se surpreendeu ao encontrar Nick lá, e Gabriel branco como papel. Nick levantou-se da cama, deu-lhe um beijo molhado na bochecha, ficando na ponta dos pés para tal. Sussurrou-lhe algo no ouvido. Depois deixou o quarto.

— O que ele disse? — Gabriel perguntou, quando ficaram a sós. Ethan estava com uma expressão confusa.

— Ele disse… “A liberdade está comigo.”

Gabriel não sabia o que aquilo significava, mas engoliu em seco.

Ethan sacudiu a cabeça, como que para se livrar daquele pensamento, e sentou-se ao lado dele. Envolveu sua cintura com o braço direito e o puxou para si. Gabriel sentiu um arrepio gostoso atravessá-lo. Ethan beijou seus lábios e começou a descer pelo pescoço. Era tão bom. Mas Nicholas tinha razão numa coisa. Era tudo sempre igual.

— Ethan.

— Hm? — Ele não separou os lábios de seu pescoço.

— Eu quero fazer uma coisa.

— Como assim? — Encarou-o nos olhos. Preto no verde. Sem saber por que, Gabriel prendeu o fôlego.

— Na… cama — disse, hesitante, rezando para que Ethan entendesse.

Ele entendeu. Sorriu divertido com o canto da boca, revelando sua covinha.

— Nunca pensei que você fosse desse tipo.

— Quieto… E feche os olhos.

Enquanto ele o fazia, Gabriel deslizou a caixa branca de debaixo da cama sutilmente e arrancou o short de lá. Aquela coisa não serviria direito nem num bebê. Apesar do ar-condicionado do quarto estar ligado, sentiu-se subitamente quente.

— Pronto, abra os olhos.

Ethan levou algum tempo para perceber a mudança de ambiente. O short estava disposto alinhadamente em cima da cama, o couro preto e frio acariciando a seda pura dos lençóis brancos. As pérolas negras de Ethan pousaram nas vestes e se arregalaram, mas, fora isso, não demonstrou nenhuma outra reação.

Até que mordeu o lábio inferior.

— Que adorável. — Olhou para o menor. — Quer que eu use isso? — Seus olhos sorriam de graça e malícia. Naquele momento, se parecia realmente com Nicholas. Gabriel tinha vergonha o suficiente para apenas balançar a cabeça positivamente. — Eu realmente nunca pensei que você fosse disso.

Enquanto Ethan se trocava no banheiro, Gabriel Melnick suava copiosamente.

Eu sou patético. Mal arrumei coragem para falar com Ethan pela primeira vez, e agora que eu o tenho, não tenho coragem para admitir a mim mesmo que eu quero vê-lo numa roupa de couro. Ahh, por que eu sou assim? Pegou-se desejando ser como Nicholas, sem ter vergonha de absolutamente de nada, de que quando quisesse uma coisa, simplesmente fosse lá e a pegasse. Estou querendo ser como Nicholas? Eu realmente estou com problemas.

Quando Ethan saiu do banheiro, Gabriel decretou algo a si mesmo. Foda-se a vergonha. Eu sou namorado de Ethan Lemnsack Hentz, o adolescente mais rico e gostoso do mundo.

Ethan Lemnsack Hentz, por si só, fez Gabriel quase que literalmente babar ao vê-lo. Praticamente não tinha barriga, era completamente malhada e musculosa, embora os músculos do abdômen não pudessem ser vistos, pois não eram tão definidos. O short de couro tinha cerca de um palmo de comprimento e apertava suas coxas e nádegas sem dó, delineando suas curvas, embora possuísse uma área mais espaçosa para o membro sexual.

Gabriel notou que Ethan não tinha pelos nenhum das coxas para baixo.

O modo como ele andou foi o que mais deixou Gabriel envergonhado e estimulado, a maneira como rebolava o quadril pra um lado e pro outro, como numa hipnose sensual. E o pior era que ele nem tinha intenção de fazer isso, era natural. Gabriel não fazia ideia do que fazer ou do que dizer enquanto o observava aproximar-se de si. Estava extremamente desconfortável e ao mesmo tempo excitado. O fato de que havia um vibrador e um chicote de couro em baixo da cama só piorava as coisas.

Ethan subiu na cama e engatinhou para perto do menor.

— É o que esperava, criança?

Tinha que ser rápido.

Puxou Ethan para si e afundou seus lábios nos dele. Deitou-o na cama e então deitou-se por cima dele, pressionando-lhe o próprio corpo, excitado demais para raciocinar direito. Seu membro jazia ereto com força total e tudo o que mais queria era entrar em Ethan… Estendeu seus braços para cima, segurando-os pelos pulsos, sem separar os lábios. Mais tarde, isso foi o que Gabriel achou mais engraçado, o fato de que Ethan sequer desconfiou do que estava fazendo.

Clic.

O barulho do metal das algemas trancando-se ecoou no ar como um rugido, parecendo interminável. Agudo, curto, medonho, silenciou gemidos e suspiros.

Lentamente, Gabriel Melnick fitou Ethan Lemnsack. Sorriu.

— Sim. É exatamente o que eu esperava.

Ethan olhou para os próprios pulsos, presos na cabeceira da cama, sem chance de serem soltos. Gabriel estava com uma expressão macabra. Um desconforto agonizante atravessou-lhe a espinha. O fato de não conseguir se mover era quase insuportável.

— Gabriel… me solta.

Não. — O modo como ele disse isso, num tom que simplesmente não admitia contestações, assustou a ambos. Mas todos sabiam como Ethan era teimoso.

— Escuta aqui…

— Cala a boca, senão, mais tarde, será pior pra você.

Ethan arregalou os olhos. Aquele não era o Gabriel Melnick que conhecia. Havia um brilho desconhecido e selvagem nos olhos verdes do menino, excitante e curioso, faminto como uma fera. Quando lhe foi revelado o vibrador e o chicote de couro, pegou-se respirando com dificuldade.

— Me solta, por favor.

Gabriel olhou para ele.

— Quem disse que você tem permissão para falar? — O brilho louco que adquirira explodiu como uma estrela, não havia nem indício de piedade naqueles orbes.

Gabriel deitou-se em cima de Ethan e atacou sua boca com uma ferocidade tão grande que o maior pensou que fosse sufocar. Tinha vontade de tocar-lhe o corpo, mas estava algemado às grades da cama.

— Deixa eu tocar você — implorou. Suas mãos agarraram o metal frio em desespero.

A resposta que recebeu foi uma chicotada no peito. O som do chicote brandindo no ar foi rápido como uma navalha. A pele atingida ficou logo vermelha, mas não chegou a sangrar. No futuro, provavelmente incharia, mas Gabriel não parecia importar-se com isso.

Ethan gritou de dor e uma lágrima solitária desceu a contragosto de seu olho esquerdo. Os dedos das mãos contorceram-se, enlouquecidos.

— Se falar de novo, vai ser bem pior.

Ele voltou a beijá-lo agressivamente. Parecia outra pessoa, um lobo em pele de cordeiro. Atacou seu pescoço ferozmente, o que não era tarefa fácil, pois Ethan se debatia como uma truta epiléptica, mas Gabriel estava em cima dele, e não era tão leve quanto parecia, além de ser consideravelmente mais alto. Era difícil de se mover. A algema era puxada para todos os lados, machucando seus pulsos. Gabriel pôs os joelhos sobre suas coxas, o que doeu ainda mais, pois pressionava partes sensíveis.

Começou a morder-lhe os mamilos.

— Gabriel, tá doendo muito! — exclamou, momentaneamente esquecendo-se da regra de não falar, sem cabeça para esperar outra punição.

— Ótimo.

Gabriel pôs seu rosto aveludado na frente do do maior. Uma fina camada de suor cobria-lhe a testa, os lábios estavam vermelhos e entreabertos, permitindo sua respiração descompassada. Ethan olhou-o naqueles olhos lindos e alterados. Recebeu um selinho calmo nos lábios, e por um momento achou que o menor havia voltado ao normal… até que ele cravou os dentes em seu pescoço.

Aquilo doía como o inferno, mas era tão… bom.

— Fique de quatro — Gabriel ordenou.

— Como? Eu estou algemado!

Forçou-o a ficar na dita posição. Os braços de Ethan cruzaram-se em X e como não tinha como sustentar o tronco, ficou com a cara colada no colchão. Consequentemente, suas nádegas estavam completamente expostas, se não fosse pelo short que naquele momento o apertava mais que nunca.

Gabriel sentou-se com as pernas cruzadas entre os pés de Ethan. Começou a beijar uma das pernas musculosas do maior, chupando a pele lisa com volúpia, como se fosse o doce mais saboroso do mundo. Da canela, desceu ao pé direito. Beijou-o com desejo, mordendo a carne sem dó. Chupou todo o calcanhar e então enfiou o dedão na boca. Aspirava todo o cheiro da sola e dos dedinhos menores.

Mesmo sem querer, Ethan teve uma ereção que o machucava por estar apertada naquele short. Tudo o que mais desejava era tirá-lo. A língua de Gabriel nos seus pés era algo excitante demais para conseguir se conter, gemidos fugiam de sua boca e se alastravam pelo quarto toda vez que os lábios ou os dentes do menor fechavam-se em seus dedos.

Gabriel voltou a chupar e morder as pernas de Ethan. Subiu até chegar às coxas grossas e torneadas. Degustou cada uma delas, tratando-as como um pedaço de carne qualquer, sem se importar com os gritos de dor que Ethan dava toda vez que afundava seus dentes ou as arranhava. A carne era tenra e macia demais para resistir àquela tentação.

Ethan sutilmente tocou na ereção de Gabriel com um dos pés, acomodando o enorme membro entre os dedos. O pênis dele era maior que o seu, mais comprido e grosso. A glande projetava-se vermelha e inchada, onde um líquido transparente escapava por sua abertura.

Insistia a si mesmo que não, mas sabia que, alguma hora, Gabriel iria penetrá-lo. Só fora penetrado uma vez, por Nick, no hospital, e se com o membro dele doera daquele jeito, não queria nem imaginar o que o de Gabriel faria.

O short de couro foi descido de uma vez, fazendo caminho por entre suas pernas até sumir da vista de Ethan. Agora estava completamente nu, à mercê de alguém que certamente não se encontrava em seu juízo perfeito.

Não foi surpresa alguma Gabriel ter mordido suas nádegas com luxúria, chupando a carne para dentro da boca, por vezes beijando-a carinhosamente. A ereção dos dois estava clara como água.

Gabriel enfiou a língua em seu ânus.

— Eu adoro isso, sabia? — ele disse, mal sem separar os lábios da abertura que piscava. — Não sei por que eu nunca comi você antes.

— Porque eu nunca deixei. — As palavras foram cuspidas de sua boca antes que tivesse tempo de medi-las, e na mesma hora se arrependeu. O chicote cortou o ar e chocou-se contra suas costas, uma, duas, três vezes.

Ethan literalmente chorou de dor.

Um sorriso cruel apossou-se dos lábios de Gabriel. A visão de Ethan ali, machucado e chorando, sem poder se mover, impotente, era estranhamente excitante. Deitou-se por cima dele, colando seu peito em suas costas, a glande de seu membro tocando seu ânus. A tentação de enfiá-lo ali era grande, mas se controlou. Ainda não era hora.

— Que foi que eu disse sobre permanecer caladinho?

Ethan não se atreveu a responder.

Gabriel voltou a lubrificar seu ânus com a língua, degustando-se todo com o sabor do maior.

Volta e meia, ele foi virado bruscamente, o que foi um alívio, pois seus braços já estavam a ficar dormentes. Gabriel ajoelhou-se em cima de seu peito, onde seu membro estendia-se duro e vermelho.

Chupe.

Não esperou que ele o fizesse. Segurou o cabelo escuro fortemente e o forçou contra seu membro. Ethan quase engasgou quando Gabriel enfiou-o em sua boca. Começou a estocar a cavidade úmida rápida e diligentemente, ignorando o desespero do maior, que mal podia respirar.

Tirou-o antes de ejacular. Queria fazê-lo dentro dele.

O vibrador branco estava no criado-mudo ao lado da cama. O maior engoliu em seco quando Gabriel o pegou e deslizou o dedo do topo até a base. Devia ter, no mínimo, 20 centímetros. Uma camisinha foi deslizada e, por isso, Ethan suspirou de alívio. Até que Gabriel posicionou-se entre suas pernas, abrindo-as a força.

— Você não vai usar aquilo? — indagou debilmente. A pele onde o chicote batera ardia febrilmente.

— Vou. Mas não agora. — E deu-lhe outra chicotada no peito. Um filete fino e curto de sangue surgiu do nada e logo começou a engrossar. Lágrimas desciam do rosto de Ethan. — Oh, o bebezinho está chorando, está? — E, sem aviso prévio, enterrou-se no maior.

Aquilo doera mais do qualquer chicotada que tivesse levado. Uma dor excruciante atravessara-lhe o cólon e o estocava com uma violência nunca antes vista. Parecia estar sendo penetrado por facas que tentavam a todo custo perfurar-lhe o estômago. Gabriel não o estava fodendo, estava dilacerando-o por dentro.

E, para seu ódio, em poucos segundos, estava gostando.

A sensação de estar dentro de Ethan, sendo apertado por todos os lados por aquelas parede aveludadas, era indescritível. Tudo nele era tão perfeito. O modo como gritava de dor, as expressões faciais, o cheiro, o sabor, a textura dele… era tudo tão maravilhoso. Cada estocada era como uma ida e uma volta ao céu. A cabeça do maior estava jogada para trás e seu corpo marcado estava ensopado de suor, assim como o de Gabriel. Ambos estavam colados um no outro pelo líquido transparente. Seu pescoço estendia-se se contraindo o tempo todo, de modo que o menor afundou seus lábios ali. Beijou-o e chupou todo o suor que dele escorria.

Então deu-lhe um selinho carinhoso nos lábios e nas bochechas. Ethan abraçou-o com força pelo pescoço, sem nunca parar de ser estocado.

Eu realmente me apaixonei pela pessoa certa. Oh, Deus, oh…

Gabriel ejaculou antes de Ethan, um jato tão forte que atingiu-lhe a próstata. Este último sentia o gozo quente que escorria de seu ânus. O membro de Gabriel estava vermelho e inchado, mas lentamente amolecia.

Ia fechar as pernas quando foi retardado.

— Ainda não acabou — Gabriel disse. Pegou o vibrador e o enfiou dentro do namorado. Era apenas um pouco maior que seu pênis, de modo que entrou fácil. Então posicionou-se de cócoras em cima do membro de Ethan e enterrou-o em si. Ligou o vibrador.

Pôs-se a cavalgar violentamente enquanto Ethan gritava de tesão. A cama batia na parede. O cheiro de sexo impregnava o ar. A junção do rebolar de Gabriel em seu pênis com as vibrações em seu ânus arrancou-lhe uma ejaculação fortíssima em pouco tempo. Tivera um orgasmo selvagem e comprido, onde podia jurar que vira estrelas.

Gabriel caiu ao lado de Ethan, suado, ofegante, excitado.

— Gostou? — ele perguntou. Fitou-o profundamente. O brilho louco em seus olhos fora embora, o verde claro não era nada além de inocência e pureza. O Gabriel Melnick que conhecera havia voltado e esperava ansiosamente sua resposta.

— Obrigado por isso — Ethan gemeu, sorrindo. — Agora me solte.

— Não posso.

Ethan piscou, confuso. Gabriel continuou falando.

— Eu não tenho a chave.

O maior estava a ponto de chorar.

— Fica aí, já volto. — Vestiu a roupa de baixo e se enfiou num roupão branco de Ethan que gostava de usar. Tinha o cheiro dele.

E você acha mesmo que eu vou a algum lugar?!

OoO

Lorenzo realmente não estava com sono.

Felizmente, as paredes do apartamento deviam ser feitar de chumbo. Depois de Nick abrir as portas do inferno para Ethan, não se atrevera a sair do quarto de Lore sem ter absoluta certeza de que os sons e gritos agoniados do irmão maior não chegariam aos do menor. Não chegaram. Mas Lorenzo também não dormira.

— Me conta uma história — ele pedira. Nick só sabia realmente de uma.

— Tudo bem. — Lorenzo aconchegara-se sob o fino lençol de seda cor de creme. Nick estava envolto numa grossa colcha da mesma cor. Não conseguia compreender como ele aguentava o frio. Parecia realmente gostar dele. O quarto estava escuro e tenebroso. Quando criança, Nick tivera medo do escuro e apreciou Lorenzo por viver a vida toda nele, sem temê-lo. — Vou contar.

“Era uma vez… acho que todas as histórias infantis começam com ‘era uma vez’, né? Bem, essa não é uma história infantil, mas não importa. Era uma vez um garoto. Bem jovem, tinha acabado de fazer 14 anos e era bem parecido com você, sabe. Cabelo preto, lábios finos e nariz reto. Ele não gostava de falar muito com as pessoas, era introvertido, tímido, tinha um círculo de amizades tão escasso que não parecia ter realmente nenhuma. Um dia, esse garoto conheceu outro garoto. Era bem diferente dele na aparência, mas bem parecido na personalidade. Se chamava Oliver.

“Oliver era loiro e tinha olhos azuis realmente lindos. Acho que os mais bonitos que já vi na vida. Bem, o garoto e Oliver começaram a se falar. Assim, bem devagar, porque os dois pareciam viver em mundos diferentes. Mas, à medida que o tempo passava e eles se conheciam melhor, perceberam o quanto se pareciam. Como tinham gostos e ideias diferentes, problemas parecidos. O garoto se abriu de corpo e alma para Oliver… deu-lhe tudo o que um dia já pode lhe dar.

“Mas Oliver era um garoto estranho. Por mais que tentasse, não conseguia realmente se abrir. Ele era diferente. Dizia que conseguia ver fantasmas e coisas mortas e que elas lhe atormentavam a noite, às vezes falava consigo mesmo e em outras até previa o futuro, sem ter real intenção disso. Parecia que ele literalmente vivia em outro mundo, diferente do nosso, invisível, onde apenas alguns podiam entrar. Diziam que ele era louco. A verdade é que ele havia sido abusado sexualmente quando menor e por isso desenvolvera esquizofrenia, bipolaridade, transtorno de personalidade limítrofe, depressão e muito provavelmente dupla personalidade, além de ter altas tendências suicidas. E mais um monte de outros nomes que não consegui decorar, mas enfim. Por mais que insistisse em suas crenças, poucos acreditavam nele. Mas o garoto acreditava. E Oliver era-lhe grato por isso. É, eles se amavam realmente, como talvez nunca tivessem amado ninguém antes.

“É tão raro, sabia, Lore? Encontrar alguém que você sabe que pode deixar passar mil anos sem vê-lo, mas que nunca deixará de amá-lo? O que o garoto e Oliver sentiam um pelo outro era algo puro, sublime, completamente honesto e despido de malícia. Era o tipo de amor mais raro que existe, incontestável, que nada poderia nunca separar. Mas, um dia, isso aconteceu.

“Oliver foi separado a força do garoto por pessoas ignorantes o suficiente para não aceitar o simples fato de que eles amavam um ao outro e nada podiam fazer sobre isso. Foi terrível para os dois, sabe… o modo como foram separados. Foi uma coisa cruel e perversa, que absolutamente ninguém tem o direito de fazer. Foram separados simplesmente por serem dois garotos que se amavam.

“Oliver voltou um tempo depois, mas na forma de um sonho, para o garoto. No princípio, ele não se lembrou de quem Oliver era, e a dor que sentiu naquele momento há tanto acontecido voltou para atormentá-lo. Com sua crueldade infinita, os fatos da vida voltaram. Por que não podiam simplesmente serem deixados para trás? Era tão simples, tão melhor…

“Depois que se lembrou de Oliver, o garoto demorou um pouco para aceitar de novo a separação que ocorreu, mas ele o fez. Perdoou quem os separou. Ou, pelo menos… um deles. Talvez ainda haja algum ressentimento, acho que sempre vai haver… mas, bem, é isso.”

— Gostou? — Nick perguntou. Lorenzo dormia profundamente. Ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo e deu-lhe um beijo na testa. — Quem sabe um dia eu te conte essa história direito — murmurou.

Saiu do quarto no momento em que Gabriel Melnick deixava o de Ethan, apenas de roupão.

— A liberdade está contigo? — ele perguntou, decidindo fazer o jogo do louro.

— A liberdade está comigo — Nick confirmou. — Mas, sabe, nada nessa vida é de graça. Você teve o seu prazer. Agora dê-me a minha parte desse acordo.

Gabriel franziu as sobrancelhas.

— O que você quer?

— Quando formos viajar, quero que você venha aqui no apartamento todos os dias até que voltemos. Quero que, todos os dias, cheque cada maldito detalhe da casa. Quero que veja se há almofadas fora do lugar, móveis onde não deveriam estar, roupas remexidas nos guarda-roupas. Principalmente na cozinha. Não se esqueça da cozinha. Se houver alguma mudança, você toma nota.

— Você… acha que alguém esta entrando aqui?

— Não sei. Depois que for noticiado que eu e Ethan estamos com Lorenzo na França, alguém pode tentar. — Aquela era a desculpa mais esfarrapada que tinha, mas era o que tinha. — Se quer a chave das algemas, vai ter que concordar. E você não vai contar nada ao Ethan. — Se Ethan soubesse que pedira aquilo a Gabriel, o mataria.

Gabriel pareceu desconcertado, mas estava de mãos atadas. E Ethan também, literalmente. O modo como Nicholas o manipulava de maneira que simplesmente não podia ir contra o irritava. Na primeira vez, quando o forçou a beijar Ethan, usara-o para isso. Agora, de novo o usara, mas de maneira diferente.

Eu devia saber que não se consegue nada de Nicholas Hentz sem um preço.

— Como quiser.

Todos os dias. — Tirou uma pequena chave metálica do bolso e jogou para ele. Então tirou outra, maior e amarronzada, do outro bolso e atirou-a também. — A maior é a da casa. E espero que tenha aproveitado bastante. Eu adoraria ter o chicote de volta, aliás.

OoO

Era a primeira vez que andava de avião e estava realmente estressado.

Enquanto o monstro de metal se erguia pesadamente do chão, Ethan Lemnsack temeu que ele fosse passar direto e cair no mar tempestuoso. Depois descartou a ideia, imaginando que depois de tudo o que já passou, aquele fosse o modo mais estúpido do mundo de morrer. Já era noite quando chegaram ao aeroporto e depois de uma infernal espera de 2 horas em que Nicholas Hentz conseguira a proeza de derrubar um pesado estandarte de vidro que se estraçalhara no chão e tropeçar num trem de carrinhos encaixados uns nos outros que acabou por ser impulsionado para frente, derrubando malas e pessoas no caminho, até se chocar contra uma parede, finalmente entraram num gigantesco Boeing 747. Foi só aí que Lorenzo fez-lhes o favor de comentar alto demais que foi aquele mesmo modelo de avião que explodiu e matou Charles e Mary Alice Lemnsack Hentz, e por aquela mesma empresa aérea, Aero-Brent.

Não teria sido tão ruim se vários outros passageiros não tivessem ouvido e exigido sair do avião.

Após a equipe do aeroporto acalmar os passageiros, o que levou pelo menos outra hora, o avião, com singelas 3 horas de atraso, finalmente decolou rumo à vastidão negra que logo o engoliu. Nick Hentz estava com o rosto colado à minúscula janela, com as mãos em volta dele como uma concha, observando lá em baixo as luzinhas que compunham Middleland e que logo eram deixadas para trás. Passaram por uma área pouco iluminada, que Ethan julgou ser a parte agrícola do estado, e a partir daí tornou-se alto demais para distinguir nada além das nuvens rarefeitas e do imenso mar que se aproximava cada vez mais rápido.

Ainda tinham 11 horas de viagem.

Ethan Lemnsack bocejou. Lorenzo estava ao seu lado, dormindo. Eram quase três horas da manhã e Nick não dava nem indícios de sono.

— Isso não é incrível, Ethan? — ele perguntou, ansiosíssimo. As pupilas estavam dilatadas, embora não fosse possível distingui-las nas íris pretas. Havia tomado café mais cedo como forma de aguentar ficar acordado até a madrugada. A cafeína adentrara seu sangue e explodira como uma supernova. — Tipo, é incrível, de verdade. Eu li em algum lugar que esse tipo de avião tem umas 400 toneladas e olha só, ele consegue se manter no ar sem praticamente nada além de 4 turbinas gigantescas, não é adorável? Você sabe como isso é possível? Eu não sei, queria saber. Deus, como eu queria!

Ethan só queria que ele calasse a boca.

— O que acha de eu mudar meu corte de cabelo? Vi em algum lugar fotos de crianças dos anos 80 e elas tinham praticamente o mesmo cabelo que o meu. — Nick parecia estar sempre vendo ou ouvindo sobre algo em algum lugar. — Não quero parecer uma daquelas crianças francesas impúberes que estudam em escolas católicas e cantam em corais. — Passou a cantarolar exageradamente rápido o refrão de uma música francesa que, naquele momento, Ethan se arrependia amargamente de ter ensinado a ele. — Será que as francesas são bonitas? Se houver alguma bonita no hotel, posso dormir com ela? Quer dizer, não sei como vou fazer isso, não sei falar francês nem entendo nada. Meu Deus, como vou falar com as garotas?

Ethan revirou os olhos.

— Tomara que tenha alguma que fale nosso idioma. Deus, tomara que tenha. Você achou Penny Nevarnost bonita? Ele é linda. A posto que você achou o irmão dela também. Aliás, tenho certeza.

Tirou uma cartela de comprimidos do bolso e pegou a garrafa d’água já pela metade. Esmagou o comprimido e jogou o pozinho dentro.

— Os cortes do chicote do Gabriel já sararam?

Olhou bem fundo em seus olhos dilatados e então esmagou outro comprimido.

— Espero que sim. Eu adoraria usar aquilo com você. Sabe, acho que sou masoquista também. Quando transo com meninas no Corredor eu prefiro ficar por baixo porque o chão de cimento arranha as minhas costas. Eu gosto disso, você acha estranho? Eu acho que não é. Olha a janela! Tive a impressão de ver alguém passando. Isso é assustador. Você não sabe disso porque não está na janela. Talvez você possa ficar, na volta, se eu estiver com vontade de ficar no corredor.

Estendeu a ele a garrafa d’água.

— Beba.

— Obrigado, estou com sede. E eu nem sabia que estava com sede! — Deu uma risada exageradamente longa. Entornou a garrafa sofregamente. — A água está com um gosto estranho. O que você… — O líquido transparente escorria de seus lábios. Arregalou os olhos. — O que você pôs aqui… — Foi quando caiu no sono, quase no mesmo momento.

Ethan Lemnsack sorriu e olhou para a cartela de comprimidos em sua mão.

— Algo que eles provavelmente dão a elefantes com insônia.

Que é que eu tinha na cabeça ao dar cafeína a um hiperativo? Olhou-o profundamente. Estava com as pernas cruzadas em cima da poltrona, a cabeça loura encostada na janela, jogada para trás. Ethan inclinou a poltrona para trás, ajeitou sua posição e o cobriu com um cobertor. Tirou uma mecha de cabelo de seu rosto e deu-lhe um beijo na bochecha. “Boa noite, anjinho”, murmurou. Quando Nick era criança, seu cabelo era amarelo como ouro. Agora ele adquirira um tom dourado escuro, mas continuava liso e macio como seda. A sua esquerda, na poltrona do corredor do avião, Lorenzo dormia com a dignidade de um lorde, os olhos levemente fechados, uma respiração tenra e lenta, as mãos pousadas no colo, entrelaçadas. Lorenzo era mais parecido com Ethan do que Nick era. Aliás, Nick não era nem um pouco parecido com Ethan, a não ser os olhos, nariz e lábios. E, mesmo assim… às vezes imaginava se Nick era realmente seu irmão biológico. Talvez tivesse apenas herdado o cabelo e as feições do lado Hentz da família, enquanto os outros dois fossem claramente mais Lemnsack. Bem sabiam os deuses que todos os Hentz tinham cabelos loiros e olhos pretos. É, era só isso, tinha que ser.

Deu-se um descanso caindo no sono em pouco tempo, mas acabou não o tendo. Teve um sonho tempestuoso, onde uma turbulência atacava o avião e ele irrompia em chamas, mas não caía, então passavam a estar num avião de chamas, e todo mundo queimava. Gabriel apareceu ali e queimou na frente de Ethan, e então de suas cinzas Oliver Castanelli surgiu e começou a perguntar Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu, Ethan? E por mais que ele respondesse, Oliver não sumia… Nick não queimava, ainda dormia profundamente, mas então transformou-se em Gabriel e este começou a chorar lágrimas de fogo que caíram na poltrona e incendiaram Ethan.

Quando acordou de manhã, suando frio, podia jurar que sentiu a pele arder.

Lorenzo estava a seu lado, com a cara mais entediada do mundo. Nick ainda dormia. Lá fora, o sol raiava.

— Você está bem? — o menor perguntou.

Ethan hesitou. Devia dividir seus problemas com ele? Não dava certo fazê-lo com Nick, ele dificilmente compreendia as coisas.

— Estou — respondeu por fim.

— Estava sonhando? — indagou, sem expressão. — Você falou durante o sono.

— Falei? — Sua respiração estava meio ofegante. Forçou-se a respirar normalmente. — Falei o quê?

— Você estava repetindo o nome Oliver o tempo todo. Depois você começou a dizer “Eu não devia ter traído você.” Então você acordou.

Ethan pensou que ele falava você demais.

— Foi só isso?

— Foi.

Quem ele não devia ter traído? Oliver? Ou Gabriel?

— Estou acordado há umas duas horas, acho — Lorenzo continuou falando. — Uma aeromoça veio aqui e me perguntou se eu queria alguma coisa. Gostei da voz dela. Eu não estava com fome na hora, mas agora estou.

Será que ele mudou de assunto porque percebeu que eu estava desconfortável? O que Nicholas Hentz já fez a essa criança? Deu-lhe uma barra de chocolate que havia guardado para tal momento. Lorenzo comeu-a lentamente, como que saboreando, mas engoliu-a inteira.

— Acho que aterrissamos em uma hora — comentou no momento em que Nick se remexia na poltrona ao seu lado.

— Eu… odeio você. Estou com enxaqueca. — Levou a mão à cabeça. Ethan tinha absoluta certeza de que ele não estava com enxaqueca. — Como pode fazer aquilo comigo? Me sinto abusado sexua… — Parou de falar ao ver que Lorenzo estava acordado com as sobrancelhas erguidas. — Foi você quem sugeriu eu tomar café — disse a Ethan.

— Mas eu não sabia que dar café a um hiperativo era como transformar uma fogueirinha de acampamento numa fogueira da Inquisição.

Nick bufou. Não poderia usar o celular até sair do avião e muito embora tivesse certeza de que volta e meia ouviria um sermão enorme de Ethan por fazer uma ligação internacional, tudo o que pensava era em tirar Gabriel Melnick da cama para fazê-lo descobrir indiretamente quem era o psicopata que estava tentando matá-los. Desejava que ele não fosse morto antes.

Comeu chocolate o resto do caminho e quando desembarcaram no Aéroport Paris-Charles de Gaulle, ficou surpreso em quantas pessoas não falavam francês. Praticamente todas as placas do lugar eram multilíngues e entendia o que quase todo mundo falava, pois era em seu idioma. Era como se nunca tivesse saído de Middleland.

Mas isso foi só dentro do aeroporto. Quando as portas abriram-se, Nick soube que realmente valera a pena.

Era difícil botar em palavras o que viu em Paris. Ruas lotadas de bistrôs e lojinhas com as mais variadas finalidades, entradas de metrô emergindo do meio da calçada, ciclistas andando calmamente de um lado para o outro, carros modernos em ruas antigas. Prédios antigos cor bege que, de tão bem conservados, era como se quem os visse tivesse voltado no tempo. A cidade mesclava o passado e o presente de forma tão complementar que era como se vivesse em duas épocas ao mesmo tempo.

Havia inúmeras pontes sobre o rio Sena. O Arc de Triomph, imponente, na Place Charles de Gaulle, decorando a Avenue des Champs-Élysées, tão magnífica quanto. A Tour Eiffel, uma estrutura maravilhosa de ferro que o fez sentir-se minúsculo e maravilhado. O Musée du Louvre. Tantas coisas surpreendentes a serem vistas.

O Four Seasons Hotel George V era um imponente prédio branco, com uma majestosa fachada onde três portas arredondadas davam as boas vindas aos visitantes. Ou a quem tinha como pagar a singela diária de 16.000 dólares. Duas altas árvores desfolhadas decoravam a entrada. Alguns paparazzi fingiam ser pessoas normais, mas não era muito fácil quando possuíam atadas ao pescoço câmeras do tamanho de bolas de futebol.

É incrível como eles sabem rápido das coisas, Nick pensou enquanto deixava o táxi segurando a mão de Lorenzo. Algumas pessoas viraram-se para olhar para eles de relance. Um clic que indicava que uma foto fora tirada de algum lugar foi ressoado. Espero que eu tenha saído bonito. Parece que eles se esforçam para pegar o pior ângulo de todo mundo o tempo todo.

Havia poucas pessoas na recepção do local, que devia ser maior que toda a casa de Nick. E insuportavelmente mais luxuosa. Como vou voltar a viver em Middleland depois de passar duas semanas num lugar como esse?

Sentou-se num dos sofás cor de creme do lugar e quase teve um orgasmo. Que coisa macia, pelo amor de Deus.

Olhou para Lorenzo.

— Queria que pudesse ver esse lugar. — Todo o tempo que passara com o irmão o fez perceber que dizer isso não o ofenderia. — É magnífico.

— Eu sei que é — Lorenzo murmurou, sorrindo. — Gosto da sensação desse lugar.

— Olha só, o lustre daqui deve ser mais caro que nossa casa inteira. Aquele piano também. — Havia um piano de cauda negro e dourado num canto, que parecia ser realmente caro. Aliás, tudo ali parecia ser caro. Até as pétalas das flores.

— Há um piano aqui? — Lorenzo perguntou, sem expressão.

— Sim. Deus, olha esse tapete. Até eu me sinto mais caro.

— Me leve até ele.

— Até o tapete?

— Não, até o piano.

Estranhando, Nick pegou o irmão pela mão e o sentou no banquinho do piano. Servia perfeitamente a ele. Lorenzo deslizou os dedos longos pelas teclas impecavelmente brancas do instrumento. Apertou uma aleatoriamente. Um som agudo e agradável ecoou pelo recinto.

— Você… sabe tocar? — Nick indagou, espantado. Ele tinha 9 anos e era cego, como podia saber tocar piano?

— Minha mãe me ensinou uma música. Só uma.

Deslizou os dedos pela extensão das teclas novamente, respirou fundo e então apertou uma tecla, a mesma apertada anteriormente. Tocou outra e mais outra e então uma série de teclas específicas com a mão direita. Seus dedos moviam-se com agilidade e diligência, uma paciência infinita estampada em seu rosto. Nicholas logo passou a prestar mais atenção na música. Era lenta e melancólica, mas não tediosa, como a maioria das músicas de piano. Não possuía um ritmo específico, dando voltas e mais voltas até atingir uma melodia anteriormente tocada. Por cerca de três vezes, Nick pensou que a música fosse acabar, mas então Lorenzo voltou com as notas tristes, mas que expressavam uma alegria profunda. No final, quando a música estava em seu ápice, acabou de repente, deixando uma sensação de nostalgia.

Antes de Nick poder falar qualquer coisa, uma série de aplausos irrompeu tão alta que ambos se assustaram. O louro percebeu que praticamente todos da recepção olhavam Lorenzo e aplaudiam freneticamente, até mesmo Ethan, que estava fazendo o check-in. Muitos gritavam coisas em francês que Nick não entendia. Lorenzo levantou-se do banquinho, virou-se para a multidão, sorriu e fez uma pequena reverência de agradecimento.

Ele gosta da atenção, quem diria. Mandou bem, Lorenzo Barcarolli. Mandou bem.

A Suíte Real do Four Seasons Hotel George V, era tão magnífica quanto o prédio em si. Cores pastel imperavam no local, que parecia ter sido importado de um outro século. Dois lustres dourados estavam incrustrados no teto ornamentado. Tapetes marrons claros cobriam o piso branco e cômodas vermelho escuras serviam de apoio a candelabros antigos e dourados. Havia uma lareira e três enormes janelas que iam do piso ao teto, dando uma visão panorâmica de Paris. Peças de arte do século 18 e 19 decoravam as paredes. Cada um dos dois quartos possuía uma banheira de mármore e uma sauna particular. Eram 800m² bem utilizados.

A primeira coisa que Nick fez ao entrar foi se jogar no sofá da sala.

— Me sinto um rei — comentou quando se encontrou sozinho com Ethan e Lorenzo. — Vamos morar aqui?

— Duas semanas aqui vão nos custar 224.000 dólares — Ethan disse. — Não se acostume. Isso é um luxo que podemos ter, mas que não vamos.

O modo como ele falava, como se Nick fosse uma criança estúpida, o irritava profundamente.

— Só estou brincando. Por que você tem que ser tão chato? — Passou o olho pelo recinto que parecia ter sido tirado de um outro século. Era tão bonito. Gostaria que Lorenzo pudesse ver, mas ele parecia estar apreciando o lugar de sua própria maneira. Descalço, sentia a maciez do tapete e do sofá cor de creme, tão pequeno que era, parecia que o móvel o engolia. — Vamos completar os 250.000 dólares. Você me libera uns 26.000 e eu me esbaldo na Champs-Élysées.

Ethan pareceu considerar a ideia, mas então lembrou-se de quando Nick gastara 15.000 dólares num único dia com Lorenzo, num shopping. Não queria nem imaginar o que ele faria numa das ruas mais caras do mundo.

— Vou lhe dar 2000 dólares por dia durante 13 dias. Tenho certeza que Vossa Graça vai considerar o suficiente.

— Vossa Graça acha que merece mais, mas vai se dar por satisfeito. Posso levar Lorenzo comigo?

— Pergunte a ele.

Lorenzo balançou a cabeça positivamente. Depois que trocaram de roupa, passaram por um elegante corredor até tomar o elevador para o térreo. Algumas pessoas deram olhares de relance para ambos, sem nunca comentar nada. Incrível como os franceses são sutis.

2000 dólares valiam pouco mais de 1500 euros, de modo que Nick não achava realmente que poderia se esbaldar numa das ruas mais caras do mundo. Chamou um táxi e após ajudar Lorenzo a entrar no automóvel, murmurou a única coisa que tinha aprendido a falar em francês.

Eiffel. Tour Eiffel.

Nick comprou um ticket para ele e para Lorenzo, então enfrentou bravamente uma fila quilométrica numa das entradas. Quando chegou sua vez, entregou seu ticket e o do irmão e ambos entraram num dos elevadores, que subiu vertiginosamente até o terceiro andar da torre, o mais alto. A 300 metros de altura do chão, Nick inclinou-se perigosamente no parapeito da grade de proteção.

E então a cidade toda apareceu como um mar bege. Todas as casas tinham a mesma altura e a mesma cor. Era um espetáculo monocromático se espalhando em torno da Torre, num círculo, como se tudo dentro daquele perímetro pertencesse a um passado que não foi destruído. Ao longe, podia-se ver um prédio moderno, o único elemento que quebrava a aura antiquada da cidade.

Nick colocou uma moeda de um euro num instrumento parecido com uma luneta onde pode ver Paris de mais perto, englobando-a com os olhos, vendo detalhes que jamais poderia ver de um avião. O vento batia em seu rosto, agitando seus cabelos, fazendo tudo parecer ainda mais irreal. Sentia que não queria descer daquele lugar nunca.

Lorenzo aproximou-se dele e pôs as duas mãos no parapeito.

— É bonita — declarou, inspirando profundamente.

— Como sabe disso? — Nick indagou. — Você não consegue enxergar.

— Não consigo, mas vejo que é bonita de outras maneiras. — Fechou os olhos e deixou o vento frio chocar-se contra seu rosto. Sorriu.

Saíram da Torre pouco tempo depois e então Nick levou Lorenzo a um agradável Café de esquina. O tom monocromático do lugar era delicioso de se ver e estar, tanto que quase valeu a pena pagar quase trinta euros por dois croissants e dois cafés tão fracos que mais pareciam chá.

— Pelo menos realizei um sonho — Nick disse, limpando os lábios com um guardanapo da forma mais civilizada que conseguia. Sabia que, em algum lugar, deviam ter paparazzi a espreita como ratos.

— Qual? — Lorenzo perguntou, sem uma única migalha de comida na boca. Nick o invejava por isso.

— Tomar um café num Café em Paris.

Torrou o resto do dinheiro comprando roupas numa loja cujo piso aparentava valer mais que toda sua vida. Um dos vendedores saldou-o com um sorriso tão bajulador quanto interessado. Provavelmente sabia quem Nick era.

Não adianta, querido, só tenho uns 1400 euros pra gastar. E acho que isso não compra nem um desses martinis que vocês oferecem.

Mesmo assim, saiu da loja com meia dúzia de sacolas em cada uma das mãos. Lorenzo carregava mais três. Realmente gostava de comprar tanto quanto Nick. Vou ter que dar um jeito de Ethan deixar de ser tão mão de vaca. Quer dizer, 2000 dólares por dia?! Quem vive com isso?

OoO

Ethan Lemnsack observava atentamente a vista que a Suíte Real do Four Seasons Hotel George V oferecia. O panorama que era Paris a noite era incrível, partia daquele tom bege e antigo para algo vivo e pulsante. Assistira Nick atravessando a rua com Lorenzo e ainda temia um pouco em deixá-lo passear por uma cidade que não conhecia nem falava o idioma, mas forçou-se a pensar que nada de ruim aconteceria.

Saiu do hotel, tomou um táxi e disse ao motorista:

Musée du Louvre.

A Pirâmide do Louvre era uma estrutura de forma piramidal, construída em vidro e metal, rodeada por três pirâmides menores, no pátio principal, o Cour Napoleon. A maior servia de entrada principal para o Museu em si.

Tudo o que se lembrava do lugar eram alas enormes, corredores enormes, salas enormes e uma infinidade de escadas até chegar a uma sala imensa, onde quadros completavam todas as paredes e, em seu extremo, uma parede revestida de cima a baixo com vidro reforçado à prova de balas. A Mona Lisa parecia minúscula em seu centro, com meia centena de pessoas em sua volta, enchendo quase metade da sala, tentando vê-la a todo custo, tirando fotos com uma histeria frenética. Em sua maioria, eram asiáticos.

Os olhos dela realmente pareciam observar Ethan de onde quer que ele a visse. E o sorriso, aquele sorriso… estremeceu. Não importava o tamanho pateticamente minúsculo do quadro, a Mona Lisa era realmente a pintura mais linda que já vira em sua vida.

Foi quando saiu da ala e entrou num corredor cheio de pinturas francesas que viu, de relance, algo que o deixou estático.

Danny Nevarnost observava um quadro emoldurado numa grossa moldura dourada de uma mulher deitada num divã da mesma cor, vestida completamente de branco num quarto escuro, onde nada mais havia a não ser um castiçal e um apoio para os pés. Ethan já havia visto aquele quadro. Chamava-se Madame Récamier, de Jacques-Louis David.

Por que, em nome de Deus, estou pensando nesse quadro quando Danny está bem na minha frente? Estou vendo coisas?

Não estava. Quando o viu, Danny deu um sorriso adorável que não demonstrava de nenhuma forma a surpresa que devia estar tendo.

— Ethan! Que coincidência te encontrar aqui.

Coincidência? Jura?

— Realmente… é coincidência nós nos encontrarmos no mesmo museu, da mesma cidade, do mesmo país. — Deu uma risadinha. Tinha uma certa desconfiança dele desde aquele dia em que o conhecera perto dos latões de lixo do prédio em que morava, onde vira várias latas de pesticidas jogadas fora, logo após ter sido envenenado pelas tais.

— Realmente. — Ele não pareceu notar seu cinismo. — Não acha todo esse lugar maravilhoso?

Se fosse Nick quem dissesse aquilo, teria sido certamente sarcasmo. Mas Danny parecia verdadeiramente interessado.

— Sim… muito.

— Eu acabei de ver a Mona Lisa, é o quadro mais magnífico que já vi na vida.

Ethan também achava aquilo.

— Aliás, todo esse lugar.

Aquilo também.

— O que está fazendo na França? — perguntou do modo mais cortês que conseguiu, mas era difícil. Era tudo muito estranho.

— Eu e minha irmã estamos fazendo um daqueles tours de férias, sabe? Sabe em que hotel estamos?

Ethan tinha uma vaga ideia.

— No Four Seasons Hotel George V.

E acertara.

— Também estou nele — murmurou. Os olhos verdes azulados de Danny eram de tirar o fôlego, emoldurados por aquele rosto branco como porcelana…

— É mesmo? Que incrível. Ei, tem um restaurante aqui perto e não estou com vontade de voltar ao hotel agora. Quer jantar comigo?

Ethan piscou, surpreso demais para falar. Ele está… me chamando pra sair? Eu devia aceitar… não, Ethan, não, você tem namorado. Mas… ele não pode estar me chamando para sair porque nem sequer vamos sair do Louvre, não é mesmo?

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Eu adoraria.

Danny exibiu um sorriso adorável cheio de dentes brancos.

— Então vamos?

— Vamos.

Descobriu-se apreciando a companhia dele. Era agradável e sempre falava algo engraçado, além de sorrir o tempo todo e de ter uma risada tão gostosa de ouvir. Sutilmente, pôs a mão sobre a de Ethan em certo momento, coisa que Ethan chegou a perceber, mas que não objetou. Um arrepio passava por seu corpo como uma corrente elétrica, delicioso de se sentir.

Quando chegou a hora de irem embora, o maior percebeu-se triste com isso.

— Podemos nos ver outro dia? — Danny perguntou, ansiosamente.

— Com certeza — Ethan respondeu, sentindo palpitações na língua. Será que é porque eu quero enfiá-la na boca dele? Deus, já não basta trair Gabriel com Nick, por que é que eu quero fazer isso com ele? — Eu adoraria te ver de novo.

Danny deu-lhe um beijo na bochecha e despediu-se com um aceno. Já estavam fora do Louvre, o ar frio de Paris arrepiava a pele de Ethan. Ou teria sido o beijo dele? Droga, pare de pensar nisso.

Antes que pudesse chamar um táxi, seu celular tocou. Era Nick.

Prendendo a respiração, atendeu-o.

— Ethan? Você tem que voltar ao hotel agora. Alguém entrou aqui.