Como Treinar o seu Dragão Interior
25 Tudo bem...
Notas iniciais
Sabe aqueles dias em que você sente como se estivesse dentro de um livro de contos de fadas? Esse era o meu dia. Obvio que depois de contar a história e o reencontro da família teve uma comemoração. Foi divertido, como se aquela loucura nunca tivesse acontecido, todo mundo dançando e rindo era como se nem a invasão ao ninho tivesse sido feita; também é claro que nunca esqueceríamos os que morreram por causa da ambição de alguns, inclusive antes da festa os dragões organizaram uma homenagem em honra a eles, uns barquinhos com velas que foram postos na água do mar e afundaram depois de um minuto.
Uma hora, durante a festa eu quis tomar ar fresco, fui para os rochedos perto da praia. E foi quando me peguei imaginando como seria a vida com os dragões; não sou muito esperançosa, sei que muitos deles devem guardar rancor e os nossos estariam desconfiados. Isso de viver em paz pode levar um tempo, porém não lutar vai atrasar ainda mais, então vamos tentar!
Nisso de ficar refletindo, lembrei que não vi o Soluço no salão. Eu vi o Olavo bebendo e Stóico conversando com o alfa dos dragões, entretanto sem o Soluço. Eu não estava preocupada, ele sabe se virar, só intrigada.
Olhei pros lados e o vi perto da areia não muito longe; percebi que ele parecia triste, pensativo e decidi falar com ele.
— Oi. – Cumprimentei chegando perto.
— Oi, a festa tá chata? – Ele sorriu.
— Não, só muito cheia... Dei por sua falta lá.
O sorriso murchou e o garoto deu um suspiro.
— Eu só quis pensar um pouco. – Forçou um novo sorriso.
Deu pra notar que ele não queria dizer nada no momento, portanto nem insisti.
— Bom... Que loucura esses últimos dias. Você acha que vamos consegui viver em paz?
— Nada do que é bom vem fácil, se tentarmos tem jeito.
— Sabe que às vezes eu invejo o seu otimismo?
— E pessimismo ajuda em alguma coisa? – Rimos
E mais um daqueles momentos de silêncio constrangedor começou. Que chatice! Nunca tivemos nada para falar e agora que temos, nada sai. Felizmente, Soluço fez o mesmo da ultima vez e conseguiu dizer o que sentia.
— Astrid... Olha... Lembra o que eu falei na noite daquele passeio?
— Lembro. – Virei com o rosto vermelho quando passou o flashback daquele dia.
— Era tudo verdade. – Ele segurou a minha mão, fiquei ainda mais vermelha e tentei disfarçar.
— Acho bom. – Ele riu.
Eu devia tê-lo beijado, mas não queria que ele me visse com aquela cara. Acho que ele entendeu porque virou meu rosto, me fez olhar para ele e me deu um beijo... Na testa. Não parecia, mas fiquei feliz, pois dizem que um beijo assim é sinal de respeito e igualdade.
— Isso parece outra despedida. – Confrontei quando nos separamos e ele já tinha sumido.
No dia seguinte, alguma coisa me fez acordar cedo. Desci até a cozinha e me deparei com a minha mãe com uma cara de quem tem notícias ruins. Ela sabe que em cada notícia que conta eu sempre encaro tudo com maturidade e frieza, só tinha uma coisa que podia ter certeza que me abalaria. Nem precisou dizer nada, sai parecendo uma maluca até a casa do Soluço, ele estava com uma mochila nas costas e ao lado do Melequento e do Olavo. Parecia que me esperava.
— O que houve? – Perguntei tentando não demostrar pânico.
Soluço respirou fundo e veio falar comigo.
— Eu tenho que ir.
— Pra quê? – Deixei escapar um pouco do pavor.
— Pra aprender a controlar o dragão. Tem muita coisa que o Olavo não pode ensinar como controlar as emoções, fazer o dragão ir para outro canto, controlar os instintos... Os anciões do ninho prometeram me ajudar, eu e mais outros que têm o dom por aqui e não sabiam, eu não quis te contar ontem, mas sabia que me acharia antes de ir. Sinto muito...
Comecei a chorar.
— Não tem que sentir. – Enxuguei as lágrimas. – Eu entendo, sério. – Fui sincera e ao mesmo tempo menti, zangada e compreensiva. – Se vai fazer você se sentir mais à vontade, por mim tudo bem...
Claro que eu estava chateada, mas também sabia que isso era importante, Soluço precisava controlar seus poderes, mesmo assim uma parte mesquinha e egoísta queria chutar, xingar e acabar com a raça dele; mandei essa parte calar a boca.
— Olha, Astrid... – Soluço continuou. – ...eu não vou pedir pra me esperar, só tenta não me esquecer, tudo bem?
— Tudo bem... – Nos beijamos, estávamos os dois chorando, mas isso não atrapalhou. – E sou eu que decido se espero ou não.
Ele riu e chegou perto do meu ouvido.
— É por isso que te amo.
Enxuguei os olhos com força para não chorar mais ainda, consegui abrir a tempo para vê-los voando, todos os três rugiram como que dissesse adeus. Ouvi mais alguns ruídos, eram mais dragões voando de casas com pessoas se despedindo; um a cada sete dos que vivem na vila e mais os seus professores.
Pois é... Essa é a história. Sobre esperar o Soluço... Não vou mentir, eu sai com alguns meninos da aldeia, tudo muito rápido e sem a emoção que eu sinto com o Menino-Dragão, então eu o esperei de certo modo. Tinha dias e noites que eu me pegava esperando na floresta, nos penhascos, nas praias, etc.; tinha sim alguns malas que me zoavam por isso e eu os mandava pro raio que os parta. Às vezes eu via um dragão parecido com ele voando pelo céu perto de casa, acho que ele queria saber se eu estava bem, eu sempre sorria e acenava por garantia. Ainda estou esperando, eu sei que ele vai voltar.
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