Como Treinar o seu Dragão Interior
14 Selando um acordo
Notas iniciais
Soluço tinha corrido para muito longe, só parou quando se deu conta de estar de frente para um penhasco.
Aquelas emoções que sentiu durante a briga com o pai foram tão fortes que, mesmo contendo-se, ele já estava meio transformado; a camisa com alguns rasgos por causa das escamas, as garras bem a mostra, as asas passando pelo colete, os dentes machucando seus lábios e a altura já era bem maior do que antes.
Soluço sentou-se na beirada e fechou seus olhos, tentando encontrar conforto nas lembranças de sua mãe. Encontrou as imagens do primeiro brinquedo que ganhou: um dragão feito de lã. Soluço ficou com um medinho no começo, mas depois simpatizou com o bichinho, principalmente porque era um ótimo ouvinte.
Isso conseguiu acalma-lo, quando abriu seus olhos já estava normal de novo, a não ser pelas roupas mais largas. Soluço também percebeu que tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, porém um sorriso.
— Eu queria que você estivesse aqui... – Sussurrou ao vento como se quisesse enviar uma carta.
— Valka não está... Será que eu sirvo? – Era a voz de uma mulher.
Soluço se virou e ficou praticamente encantado com a beleza dela, sem nem saber o que responder. Ele se levantou por impulso e recebeu um abraço daquela moça.
— Muito prazer... Eu sou a Jaguadarte. – Ela apertou a mão de Soluço que finalmente se recuperou.
— Eu conheço você?
— Não... Mas eu sou uma amiga... Posso ajudar você.
— Como?
— Você e sua... Namorada tem um plano, certo? Querem expor esse segredo para que todos saibam da verdade, certo?
— Sim, mas... Agora é tarde.
— Não é tarde... – Jaguadarte levantou o queixo do garoto e o aproximou mais perto de si, parecia que queria beija-lo. – Eu sou muito convincente... Posso manipular os responsáveis pelo torneio, faze-los acharem que você é o campeão e garantir que você faça seu teste mais cedo.
— O-o que... O que você ganha com isso...? – Já era! ele também estava caindo nos truques daquele demónio.
— Paz... É tudo que quero: a paz... Deixe-me ajudar você... – Ela dizia se aproximando quase tocando sua boca. Se eu estivesse lá, você não iria querer estar. – Temos um acordo?
— S-sim... – Soluço engoliu seco, já sob o controle dela.
— Vamos selar, então... – Um selinho meio lento. Um hábito dela pelos acordos que fazia.
Também é um costume entre os dragões, mas eu falo disso depois.
***
Olavo saiu pela janela, — ninguém o conhecia, então podia gerar algum problema. – e eu fui pela porta de casa. Assim que abri deparei com o meu pai gravemente ferido sendo carregado pela minha mãe não muito melhor que ele.
— Mãe! Pai! – Ajudei minha mãe a carrega-lo até o sofá. Depois disso ela se jogou do lado dele, tremula e bem pálida.
— Jaguadarte...! – Ela repetia umas cem vezes por segundo. Fiquei com medo, nunca nada fez minha mãe ficar assim. – Jaguadarte...!
— Eu sei, mãe. – Tentei conforta-la e parecer calma. – Eu prometo que vamos resolver isso. Vou ter que sair agora, eu não quero te deixar sozinha, mas eu tenho que fazê-lo, tá bom? – Beijei seu rosto e fui correndo procurar o Soluço.
Era muito pior vendo do lado de fora... Todos estavam na mesma situação que meus pais: quem não estava ferido estava delirando. Minha vontade foi de voltar pro meu quarto e ficar lá até um milagre aparecer, mas fui adiante gritando o nome do Soluço.
Nem adiantaria muito perguntar a alguém sobre ele, a maioria estava com tanta dor que deviam ter perdido a noção da realidade.
Foi a pior de todas as experiências da minha vida, me senti tão impotente e tinha tanto medo que cheguei a chorar, tive que ir para um canto isolado até me recompor.
— Maldita Jaguadarte! — Dei um murro numa parede e cuspi querendo limpar minha boca daquele nome. – Sua vadia!
Fiquei daquele jeito durante um tempo, até que vi Stóico também procurando pelo filho. Fui até ele na esperança dele saber onde Soluço estava, e pensando na possibilidade de contar tudo.
— Senhor! Graças a Sif você está bem... Você sabe para onde o Soluço foi?
— Não, e se você o vir me avise. Ele estava muito estranho, mas eu queria dizer que talvez ele tenha razão. Assim que os ferimentos dos outros melhorarem, iniciarei uma busca por um novo lar. O mais longe possível.
Contive-me para não abraça-lo, uma ótima decisão. E já era tarde.
— Vai ser melhor... Eu vou procura-lo.
Assim que sai de perto do líder, me senti um pouco melhor. O problema da Jaguadarte eu, Soluço e Olavo podíamos resolver mais tarde com a ajuda certa; mas encontrar um novo lar seria melhor para todos nós.
Pensei que Soluço podia estar na floresta, já que ele gosta. Fui à direção daquele desfiladeiro do treinamento, torcendo para ele estar pelo menos perto. Até que senti um cheiro forte que me fez sentir tonta; cabalei para lado e cai nos braços de uma mulher. Ela me segurou como se fosse alguma dança, a moça ria sedutora e doce, porém com arrogância. Ela acariciou meu rosto como se quisesse me minar. Eu só via alguns borrões, mas dava para ver que ela era muito bonita.
— Não vai estragar meus planos... Milady... – Desmaiei nos braços dela. Aliás, eu apaguei. Não me lembro de mais nada...
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