Como Treinar o seu Dragão Interior
2 O que ele é...?
Notas iniciais
Essa é Berk, uma ilha cheia de viking fortes e alguns nem tanto; neva quase todos os meses, mas temos um lindo pôr-do-sol; comida dura e sem sabor, mas com bons cozinheiros; chata, mas sempre com algo para fazer... cheia de contrastes. Uma coisa que reclamamos são as pragas, você devia agradecer por ter ratos e baratas porque temos dragões. Uma luta todos os dias contra a invasão das feras.
Era para ser como as outras: Lutar, matar, herói ou cadáver. Como sempre Soluço estava na oficina junto com seu mestre, Bocão, trabalhando e preparando as armas para os guerreiros que todos os dias lutavam contra os dragões. Por um lado seu queria estar lá com eles, trazendo honra para seu pai o chefe, Stóico, o outro sentia receio da ideia de matar um dragão; por algum motivo isso o dava a impressão de matar um dos seus.
Não é novidade que ele saía do trabalho para tentar capturar um dragão com seus inventos pois eles quase sempre causavam problemas para todos os habitantes da aldeia. Esses animais são seres poderosos e cheios de astúcia. Porém, dessa vez Soluço foi capaz de uma façanha que ninguém achou que conseguiria um dia: pegar um "Fúria-da-Noite".
Ninguém acreditou mas Soluço não iria desistir, precisava de uma prova. Então ele traria honra para sua casa, decidiu procurar aquela besta na floresta. Só uma coisa lhe atrapalharia ou melhor, alguém: Astrid Hofferson. Mandaram que o vigiasse afinal, senti pena dele... um pouco.
– Onde o senhor pensa que vai? — Perguntei com um sorriso irônico.
– Acho que a senhorita sabe muito bem para onde. — Disse ele tentando demonstrar confiança.
– Você vai mesmo atrás do seu dragão imaginário...?
– O dragão que capturei é completamente real! — Decidiu ser sincero comigo. — Astrid, me escuta. Pouca coisa me foi dada nessa vida salvo desgraça, mas se você parar de zombaria e me ajudar a pegar aquele dragão, mesmo que eu leve só um aranhão como prova, talvez eu consiga o respeito e o orgulho do meu pai, tudo o que sempre quis nessa vida. Me ajuda?
– Calma! Não precisa desse teatro grego. Eu ajudo. Onde seu dragão, supostamente, caiu?
– Por aqui. — Disse ele entre dentes, irritado com meu jeito de falar.
Não me orgulho mais do que fiz com ele, me contou que era e sempre foi apaixonado por mim. Sinto muita raiva de mim mesma agora. Ele podia muito bem ter se vingado de mim e não fez. Como dizem alguns: Nunca damos valor ao que realmente precisamos e eu nunca dei, até agora.
Eu não fazia de propósito, acontece que os vikings da nossa idade não são conhecidos por serem educados, gentis ou santos. Eu só queria me proteger de me magoar, mas acabei magoando o rapaz mais doce, gentil e educado do mundo.
Andamos durante horas procurando o dragão, entramos na floresta com os primeiros raios de sol e a busca durou até o que devia ser nove horas da manhã.
Foi tanto tempo que até Soluço começou a considerar que imaginou tudo.
Não deve ter sido tão ruim afinal essa foi a primeira vez que ficamos tanto tempo perto sem que ele se machucasse ou se magoasse. A companhia dele é boa, devia ter dado valor.
Soluço sentiu um cheiro muito forte, não no sentido de ruim, no sentido de ser marcante. Ele já tinha sentido esse cheiro em algum lugar: cheiro de dragão.
Essa era a ponta do iceberg.
– Astrid, por aqui!
– Como você sabe?
– Não sente esse cheiro?
– Que cheiro?
– Cheiro de dragão.
– Dragões tem cheiro? — Dei três fungadas procurando saber do que aquele louco estava falando — Não sinto cheiro nenhum.
– Mas eu sinto, vem daqui.
– Ah! Esqueci. Você tem sentidos aguçados… — Brinquei.
Soluço realmente tem ótimos sentidos: sua visão é como a de uma águia, enxerga muito bem no escuro e às vezes mostra a impressão de que consegue aproximar seu foco; escuta coisas ao longe, talvez possa ouvir o som de uma agulha caindo no chão; sente o gosto de uma coisa que está prestes a estragar e não só quando estraga; sente as vibrações no chão e no ar quando alguém ou algo se aproxima. Acho que a única coisa que o atrapalhava para ser um guerreiro perfeito era sua completa falta de habilidade para luta, Soluço sempre pode usar essas coisas ao meu favor mas não conseguia na prática.
– Vamos, está mais forte ali!
Soluço saiu em disparada à direção do cheiro. Pulava os obstáculos como se fosse um animal caçando. Não tinha ideia de que era tão rápido, eu era considerada a mais rápida, fiquei a dez passos atrás. Ele me contou que não entendeu a princípio que algo na floresta despertou alguma coisa dentro dele, uma fera que adormecera dentro dele durante muitos anos.
Paramos de correr quando vimos a silhueta de um dragão. Soluço se abaixou e ficou observando a criatura, maravilhado. Suas escamas eram como ônix, suas asas de morcego pareciam delicadas de mais para voar. Com suas garras parecia que podia cortar um diamante em uma passada só, seu focinho comprido cuspia plasma que brilhava como a lua e parecia usar uma coroa com aqueles espetos na sua cabeça, não era muito grande do tamanho de um cavalo se não contasse a calda e o pescoço compridos.
– Seu doido!... — Disse eu ofegantemente quando o alcancei. Ia falar mais, porém, assim que vi o bicho me agachei a seu lado — Tiro meu elmo para você, Soluço. Conseguiu! — Estava em um misto de alegria, orgulho e espanto, pela primeira vez sorri, feliz por ele.
– O que faço agora?
– Pega uma garra, ou uma escama, ou... já sei, leva o coração dele. — O olhei como se Soluço fosse um idiota, era óbvio o que era para ser feito. Quando falei ele se virou para mim com os olhos arregalados de espanto.
– Como?! — Gritou sem se importar se o dragão ouviu ou não.
– Não foi para isso que nos arrastamos até aqui?
– Mas...
Soluço ficou em silêncio, pensativo. Percebi que ele estava nervoso, eu não deveria apressá-lo, minha mania de viking grossa falou no meu lugar, então, me calei e o observei se levantar.
Seu desejo de agradar o pai o fez sair do mato e pegar uma adaga que carregava em um cinturão, andou até o animal e parou na frente de seu peito. Ergueu a faca com as mãos trêmulas, de olhos fechados com força e suando, não de medo, de nervosismo. Soluço murmurou um "Sinto muito".
Abriu seus olhos e olhou nos do dragão, verdes como jade, disse que parecia enxergar sua alma. Continuou naquela posição por segundos, não o apressei mais, afinal, matar um dragão pela primeira vez era um assunto muito delicado.
Quase roí minhas unhas, estava ansiosa. Esse era o momento em que ele se tornaria como nós. Senti pena do dragão de perto ele era majestoso demais para não dar um aperto no peito no momento decisivo. Ele também pensava assim, caiu de joelhos, jogou a arma no chão no mesmo momento em que gritou e declarou quase ao mesmo tempo.
– Eu não consigo! Não dá! Não posso…! Não quero…
– Calma, Soluço...
Tentei falar com o rapaz que quase chorava. Estranhei o comportamento, há alguns instantes era isso o que ele queria desde sempre. Estava tentando dizer algo mas minha voz foi abafada por uma outra que, pelo que ele disse, soava como o rugido de um leão.
– Optimum est enim mihi... : {Melhor pra mim... }
Soluço quase caiu de costas. Eu me assustei mas Soluço parecia espantado e maravilhado, olhava para o dragão vidrado e trêmulo e até empalideceu.
– Por Odin! Você fala! — Gritou espantado. Pensei que ele estava delirando, mas o pior iria vir em breve.
– Com quem está falando? — Não consegui entender pois o olhei como se ele fosse louco mas Soluço nem se importou.
– Esse... Ele fala! Nã-Não ouviu?!
O dragão pareceu escutar a reação. Olhou Soluço nos olhos e pareceu confortá-lo. Então pareceu que estavam conversando.
– Et salvet unusquisque animam, ad. Non audias me nescies causa in posterum. Patientiam, velox sit gravius omnibus supputatis. : {Poupe seu fôlego, garoto. Ela não me ouve por um motivo que você só vai saber mais tarde. Tenha paciência. Contar tudo rápido pode ser pior.}
Mesmo com tudo sendo muito estranho, o que veio depois me deixou espantada: Soluço respondeu aos grunhidos:
– Sed ... Quid agatur? Non video. Quid est quod factum est? Quomodo hoc factum est? Intelligo et loqueris, valde confusum ... : {Mas... O que está havendo? Não consigo entender. Por que isso está acontecendo? Como isso está acontecendo? Você fala e eu te entendo, estou muito confuso...} — Falava com a cabeça apoiada na mão esquerda, pálido, trêmulo e parecia mais assustado do que eu fiquei.
O modo de ele falar eu sabia que era latim, mas a pronúncia era como sibilos de uma serpente somado ao grunhido de lagarto, causava arrepios ouví-lo. Andei de costas, espantada. Peguei minha bolsa e saquei algo que podia precisar.
– Vestrae mox respondere, sed oportet dimittere. Obsecro te, aut amicus properaret opus esse subiecta. : {Terá suas respostas em breve, mas agora precisa me soltar. Por favor, preciso ir depressa ou você e sua amiga estarão em perigo.}
– Ecce si petat ... Bene tibi forte interdum. : {Olha, se me atacar... Tudo bem, talvez isso te arranhe} – Pareceu uma ameaça por alguns instantes.
Me espantei ao vê-lo pegar a adaga no chão e começar a soltar a fera. Cortou as cordas rápido. O dragão aguardava ansioso pela sua liberdade.
Estava muito assustada para dizer alguma coisa. Quando acabou o corte, o dragão saltou para cima dele, não era um ataque, era como um abraço de irmãos.
– Non vobis noceat, ... Frater. : {Nunca te farei mal... Irmão.} – Ele se afastou e voou.
Soluço ficou ali parado com a boca semi-aberta. Ele quase não acreditou no que aconteceu, parecia mais iluminado depois daquilo.
– Uau... Isso foi... Nossa!
Enfim me recuperei então me aproximei devagar, peguei minha adaga que sempre carregava em minha bolsa. Cutuquei Soluço e ele me olhou assustado sem entender.
– O que você é?! Hã? Fala com as feras, como faz isso?! Explique-se!
– Ei! O que houve? Tá, eu soltei o dragão, mas ele falou comigo. Você não ouviu? Aquela voz de rugido não pode ser ignorada.
– Você disse que a fera fala mas não ouvi nada além de chiados e sibilos! — Ele relaxou os ombros por causa do espanto, não me importei e continuei com tom firme — Ele não fala, Soluço, você que sabe o idioma!
– Como?...
Soluço empalideceu novamente, ficou em silêncio por uns segundos depois segurou minhas mãos que inda portavam a adaga.
– Astrid, pelos Deuses, por favor não conta pra ninguém! Não conta, pelos céus! Por tudo o que é mais sagrado! Isso precisa ser um segredo! Não conta...
Aquela humilhação me comoveu muito, assenti e o abracei. Pensei no quanto ele devia estar assustado. Idiota! Fez de novo! Mas agora estaria ao lado dele. Soluço precisa de mim.
– Calma, seu segredo está seguro. Estou aqui. — Falei tentando confortá-lo. Soluço estava impressionado demais para pensar em alguma outra coisa.
– O que eu sou...? — Soluço murmurou enquanto senti suas lágrimas escorrerem pelo meu braço.
Ficamos lá durante minutos ainda tentando entender o que houve.
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