Como Sobreviver Num Acampamento De Nerds

29 Dica 29 - Coma frutas! Não coma plantas carnívoras!


Notas iniciais
~ enquanto fujo das pedradas ~ é tããão bom estar de volta! É tão bom voltar! kkkk sinto muitíssimo a toooodoos! Muito muito muito mesmo! Tive muitos contratempos nesse final de ano e só essa semana fui conseguir parar para escrever direitinho e responder as reviews... Ainda não respondi todas, mas estou conseguindo hahahahaha. Deixei as maiores para o final (sim, LollyPop e Leh, estou falando com vocês e suas reviews lindas e maravilhosas

Dica 29 – Coma frutas! Não coma plantas carnívoras!

Primeiramente, o termo "planta carnívora" é errado. O correto é chamar esse tipo de planta de "insetívora".

Em segundo lugar, maçãs não são frutas, são pseudofrutos..

Em terceiro lugar, além dessas duas colocações erradas da dica, vocês estão prestes a presenciar algo que eu jamais serei capaz de admitir. Jamais! Jamais falarei que caí... Então, enquanto eu não digo que caí, a dica fica com esse nome.

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Na manhã seguinte ao (terceiro) acidente, eu estava sentada tranquilamente, cuidando da minha vida e dos meus pensamentos (que suavam frio de tão tensos que estavam). Tecnicamente, eu havia entrado em um nível nebuloso de amizade que permitia beijos. Eu tinha ABSOLUTA certeza que todos iriam me perturbar, principalmente o maluco tarado do Jeon!

Eu estava bebendo meu suco de alguma coisa não identificada, quando Jeon sentou-se ao meu lado com sua bandeja de café da manhã.

– Você está vermelha. – ele disse.

Cuspi meu suco fora.

– Vermelha? Quem? Eu?

– É. Ta com alergia outra vez? – Jeon falou, piscando seus olhos minimamente abertos de tão puxados. – Eu soube que você e a Charlotte foram atacadas por mosquitos mutantes.

Retorci a boca, sibilando:

– Foram três. Estamos sob ataque militar, pode esperar um golpe de estado.

Ele sorriu. Jonathan sentou conosco, seguido de Charlotte e de Eric. Jenna não apareceu, ela havia dormido por algum milagre sobrenatural, e não conseguimos acordá-la. Matt, entretanto, não apareceu de primeira.

Minha pele pegava fogo! Eu estava nervosa que ele tivesse contado algo para os rapazes, afinal homens são absurdamente fofoqueiros... O que não aconteceu, mas só fui saber durante essa tarde.

– Hoje teremos uma atividade muito boa! – Eric falou com animação, arrumando a gola azul de sua camisa. – Ouvi o Lucky mais cedo falando com o Jeffrey.

– Fica quieto, Eric! – Charlotte chamou sua atenção. – Hoje temos a noite de anfitriões, é mais importante que a pontuação.

Pfff noite de anfitriões. Desde que eu entrei no acampamento, é um saco ter que organizar as apresentações. – Jonathan resmungou.

– Para de me desiludir! – brinquei, fazendo uma careta adorável – Essa é minha primeira noite de anfitriões, não posso ter uma impressão errada.

Todos começaram a brincar, comer e tagarelar. O Sr. Turner subiu no palco para anunciar o atual placar dos times, quando Matt sentou conosco, coçando a nuca e fazendo cara de ressaca. Ele tinha acabado de acordar, era notável ver remelas ao lado de seu olho direito. Que nojo...

– Bom dia, campistas! Nesta manhã, teremos atividades importantíssimas em várias áreas... – o Sr. Turner anunciava com entusiasmo, mas a nossa mesa continuava alheia aos avisos.

– Bom dia, Matt! – Jeon o cumprimentou, enquanto se sentava. – Está com vontade de compartilhar conosco seu novo alvo de sedução?

“Alvo de sudução” soou e eu quis morrer, achando que se tratava de mim.

– Outro?! – Eric disse. Estava apoiando o queixo no braço e escorregou dele no susto.

– É, o garanhão aqui já tem a nova vítima. Como é o nome dela, Matty? – Jeon continuou brincando.

Pensei que Matt fosse fazer uma piadinha, mas ele apenas revirou os olhos.

– Não sei do que você está falando. – ele disse, mordendo uma maçã.

Foi aí que Jonathan desembuchou, e me aliviou:

– Ontem nós vimos ele andando muito próximo a uma moça dos Brancos. Espera, foi a mesma garota que tava conversando com o Jeffrey ontem?

Jeon e Jonathan se entreolharam.

– Vocês dois realmente tem alguma coisas pelas mesmas garotas não tem? – Jeon falou com uma risadinha baixa e pretensiosa. Charlotte com certeza ficou inquieta com aquela afirmação.

Olhei para Matt e me perguntei se aquilo era sério.

– Fui pedir um favor importante. – o delinquente falou, novamente mordendo a maçã. – Hmm. Essa maçã está gostosa.

– Para de fazer amor com a maçã e responde direito. – Jeon continuou a importunar.

Eric aproximou o rosto da discussão, falando baixo:

– Por que você não ficou só na Lucy? Seu coração parece um buraco negro para tantas paqueras.

– Seu coração parece um sistema digestivo. – resmunguei.

Matt, entretanto, não parou de apreciar sua maçã maravilhosa. Ele realmente estava fixado ali!

O Sr. Turner chamou nossa atenção por estarmos conversando. Não demorou muito até sermos liberados para a frente de nossas faixas. E eu fiz questão de andar ligada a Eric ao máximo, quase me forçando a não ver Matt e a direção que ele andava.

Charlotte tomou a frente, mostrando-se amável para todos enquanto anunciava:

– Hoje iremos à estufa do acampamento! Sei que muitos esperam por esse momento, mas devo alertar que teremos algumas mudanças! A seção das orquídeas, infelizmente, foi fechada por conta da última temporada e o incidente com um rapaz alérgico. Teremos novas atividades e um quizz interessantíssimo.

– Desde quando uma “estufa” é divertida? – cutuquei Eric com as sobrancelhas arqueadas.

– Você vai ver. É gigante!

Jean e Quentin apareceram juntos para levar o time Azul até a estufa do acampamento. Estaríamos lá juntamente aos Brancos e aos Amarelos naquela atividade.

Fiquei feliz, pelo menos as chances de Jeon e Jonathan descobrirem algo sobre Matt e eu eram mínimas. Com aquele pensamento, não evitei olhar para Matt, que tinha outra maçã na boca. Ele realmente estava se deliciando com aquilo, chegava a ser macabro.

“Matt, o terror dos pseudofrutos”! “Macieiras, escondam suas vermelhinhas”! hahahaha. Eu deveria ter pensado nessas tiradas antes, poderia ter usado com ele. Teria sido hilário.

Quando chegamos à estufa, que ficava do lado leste do acampamento (próximo ao viveiro das aves), encontramos uma mega estrutura cheia de vidros e espelhos. Era gigante! O teto devia estar a cinco metros do chão, fora sua extensão magnífica que certamente faria os Laranjas, amantes da biologia de acordo com o estereótipo bobo do acampamento, pirarem!

Todos entraram devagar, observando todas as laterais e as enormes fileiras de tipos diferentes de gramas, gramíneas, cogumelos, rosinhas e etc. Toda a entrada da estufa era recheada de plantas pequenas e volumosas. Havia também um mapa no início, mostrando todos os setores, o que incluía uma região de vegetais gigantes e outra com plantas carnívoras.

Charlotte nos juntou bem ao centro da estufa gigante, enquanto Quentin começava a explicação:

– Ano passado, a gincana da estufa foi um pouco diferente. Como já foi avisado, não teremos mais a seção das orquídeas, entretanto a piscina continua na programação. Cada time deve, a partir deste momento, seguir com seu líder para o local de início da primeira gincana. Boa sorte a todos.

Andamos como vários bois e vacas guiados pelo vaqueiro, que nesse caso era vaqueira... Os Azuis foram encaminhados até o fundo da estufa gigante, o que rendeu uma enorme caminhada (que me surpreendeu mesmo!). Passamos por montes e mais montes de cadeias de plantas, vimos árvores grandes, pequenas, espécimes africanas, neozelandesas, brasileiras e até espécimes que aguentavam o frio da Patagônia. Por fim, nós ficamos reunidos em uma área mais aberta, um tipo de pátio com concreto no chão.

– Como em todas as temporadas, seremos separados em três times. – Charlotte falou, subindo em um banquinho para chamar atenção. Todos a respeitavam, era incrível o silêncio que faziam por ela – Eric ficará responsável pela nossa separação, de forma que fique algo justo. Teremos a seção...

Olhei para os lados, vigiando o território. Eu praticamente me via em uma selva desconhecida. Subitamente, eu parte daquele ambiente cativante!

– Acho que vou chorar de emoção. – murmurei com palpitações.

Chris estava ao meu lado e me ouviu, então não evitou soltar uma risadinha, enquanto Charlotte ainda falava:

–... Teremos, por fim, o xadrez arbóreo. Boa sorte a todos!

Fitei Charlotte descendo do banco e PUFT, acabaram as explicações. Eu não faço a menor ideia de quanto tempo eu perdi nos pensamentos vagantes pelo verde, o que resultou na perda de informações úteis. Esse tipo de desencontro só acontece comigo, e é bem provável que eu tenha algum tipo de dislexia.

Então, Eric se pôs a dividir todos os membros do nosso time, formando três células: Alfa, Zeta e Lambida. A ideia dele era que fôssemos representar “AZL” no alfabeto grego, o que foi absurdamente bem aceito por todos. Definitivamente, era um acampamento repleto de nerds...

– Lucy, você vai para o xadrez, tudo bem? – ele falou com calma, entregando-me uma braçadeira.

– Não existe nada mais emocionante que me permita matar o inimigo? – murmurei, ajeitando a braçadeira pouco acima do cotovelo. Eu não fazia ideia do quão gordinha eu estava! Minhas pelancas seriam capazes de matar alguém afogado.

Eric apenas sorriu e me indicou a direção do grupo que iria para o xadrez. Sinceramente, imaginei que fosse olhar para o grupo deslocado de nerds cheios de aparelho e ver Matt em meio a eles, mas aquilo não aconteceu.

O destino costumava pregar peças e nos deixar juntos, mas, por algum milagre, aquilo não aconteceu! Eu estava livre da minha maldição... Hahahahaha. Só que não... Se alguém achou que eu estava livre da presença de Matt, essa pessoa estava terrivelmente enganada.

Uma força quase sobrenatural passou por mim, arrastando meu ombro o suficiente para que eu cambaleasse para frente. Quando olhei, ali estava o delinquente com sua maçã deliciosa (mais uma!) na mão.

– Você me empurrou? – falei, fazendo uma cara emburrada.

Ele se virou para mim, encarando-me com aquela sua expressão vaga do início da temporada, enquanto mastigava freneticamente um pedaço da maçã.

– O vento é que não foi. – ele respondeu com a boca cheia de pedacinhos.

Aquilo foi repugnante ao extremo, mas eu não fiz absolutamente nada. Olhei para a boca dele ainda cheia e passei por cima de toda aquela imagem, deixando minha imaginação fluir.

De repente, minha mente se encontrava na cena da noite passada, quando os lábios dele avançavam e avançavam... Até agora, lembrar daquilo me da calafrios...

– Você consegue ser mais grosso que isso? – resmunguei e arrumei minha roupa enquanto desviava do olhar dele.

– Não estou de bom humor hoje. – Matt falou e riu, dando outra mordida na maçã.

“O que diabos tem nessa maçã?” eu me perguntei e me pus a andar na direção contrária. Então ri! Com certeza, ele se esforçava para ser ridículo daquela forma. Aquele maldito humor oscilava freneticamente.

Encontrei-me com Marlene e os outros da seção do “xadrez”. Caminhamos juntos até uma parte bem profunda da estufa gigante.

Havia um enorme tablado preto e branco no chão! Ele, entretanto, não era quadrado... Mais parecia que haviam juntado três quadrados menores e deixado um triângulo no meio, como se fossem três frentes de batalha no xadrez. Era suficientemente grande para caber umas 500 Lucys! Não que eu fosse a melhor unidade de medida.

O monitor dos Brancos estava mais a nossa frente com uma enorme fantasia de planta! Era ridícula e rendeu várias risadas! Ele parecia um Victreebel com toda aquela pompa boba. Eu não evitei em dar uma graaande gargalhada. Teria sido mais divertido se Eric, Charlotte ou Matt estivessem ali comigo para desfrutar daquela piada comigo, mas nenhum deles estava. Matt com certeza faria uma piada mais engraçada do que eu poderia imaginar, e ao mesmo tempo muito maldosa.

– Ao todo, temos três equipes a disposição hoje, o que renderá um xadrez diferenciado do que conhecemos. – o Victreebel ambulante falava em voz alta, mas era quase ignorado pelos campistas com seus risinhos nada discretos. – As três equipes tem ao todo dez participantes, sendo cinco deles peças de valor e cinco deles peões. As funções serão sorteadas, então não adianta chorar. Por fim, logicamente, todos terão fantasias...

Fantasia de planta. Por que aquilo não me surpreendia nem um pouco?

A monitora dos Amarelos veio entre nós, distribuindo calmamente vários papéis com um sorriso resplandecente de quem acabou de tirar o aparelho. E, quando abri, lá estava o meu magnífico papel a desempenhar:

– Sou uma Nepenthes spathulata.

Marlene me cutucou com o cotovelo e apontou para o monitor dos Brancos e sua fantasia ridícula, dizendo:

– Você vai se vestir igual a ele. Planta rara, você é nativa da Sumatra.

Nepenthes spathulata, uma planta carnívora nativa da Sumatra. SUMATRA! QUEM DIABOS VAI PARA A SUMATRA?!

Revirei os olhos. Achei que, felizmente, ninguém ali me conhecia para me falar o quão idiota eu estaria com aquela roupa. Por um momento – aquele rápido momentinho que bate a loucura e revira sua cabeça – senti falta dos meus não tão adorados bullies: Matt, Jeon e Jonathan.

Para minha alegria, a loucura só bate uma vez nas pessoas normais. Tratei de parar de sentir falta.

No instante em que eu coloquei a roupa gigante de Victreebel (ou deveria dizer Nepenthes spathulata?), ouvi um grande urro. Não um urro conhecido e até suportável. Foi um urro memorável que me fez sentir a planta carnívora mais gorda da Terra.

– OOOh! Nooooooossa, Lucy! Assim você abala o meu coração!

Antes mesmo de saber quem falava aquilo, senti um embrulho no estômago forte o suficiente para derrubar um touro. Bastou virar para trás e tcharam dar de cara com Lucky e uma roupa legal de cacto com um sombreiro divertido. Poxa, eu bem que queria ser um cacto...

– Lucky... Que surpresa desagradável. – falei, arqueando as sobrancelhas e tentando dar a volta para ficar longe.

– Não vá embora. – ele disse mais firme, segurando meu antebraço – Vamos, eu estava esperando você para que a atividade não fosse tão fácil.

Olhei para o céu através do espelho do teto da estufa e falei comigo mesma (ou com qualquer entidade que exista):

– O que eu fiz para merecer? O que eu fiz? Nenhuma atividade pode ser tranquila com apenas pessoas legais?

Jean apareceu logo, vestida como um cacto também... Ela conseguia ficar linda ainda com uma roupa ridícula como aquela.

– Azuis! Reunam-se aqui para que eu possa explicar as regras do xadrez! – ela dizia bem alto, enquanto nós nos concentrávamos a sua frente. Todos tinham roupas estranhas! Se alguém fora do acampamento me encontrasse naquele estado, certamente eu viraria motivo de piada por dez anos inteiros. – Este é um xadrez diferente, vocês não terão alguém para ditar suas posições, será basicamente um trabalho em grupo... Como já foi dito, teremos um rei, uma rainha, um bispo, um cavalo, uma torre e cinco peões.

– Que emoção... — falei sozinha.

– O rei é a Flor Kadupul. A rainha é a Nepenthes. A orquídea é o bispo. O cacto é o cavalo. A torre é a macieira e os peões são as rosas. — Jean anunciou.

Eu deveria ter ficado feliz com minha posição de rainha! Finalmente eu tinha algo de prestígio naquele acampamento! Finalmente eu era alguém necessário! Finalmente! Mas não, a única coisa que eu fiz foi rir da “macieira”.

Por que? Ah, porque o desastre comportamental com olheira de menstruação estava comendo maçã o tempo inteiro naquela manhã. Eu seria capaz de vomitar com aquela lembrança infame.

Caminhei juntamente a Marlene e Chris para cima do tablado maluco daquele xadrez esquisito.

Tecnicamente, nós deveríamos ser capazes de fazer os movimentos e discutir, mas aquilo tornaria tudo mais complicado. Eu realmente demorei a perceber que aquele era o propósito do jogo! Se nós discutíssemos entre nós, nossos adversários nos escutariam!

Puxei Marlene pela manga da blusa e falei:

– Ei, como seremos capazes de discutir os movimentos? Eles irão nos escutar falando!

Ela assentiu com a cabeça.

– O objetivo é você fazer a jogada que achar correta mais rápido que os outros membros da nossa equipe. – ela falou, e eu fiquei maravilhada! Aquela era, sem dúvida, a atividade mais interessante de todas! – É um trabalho no subconsciente da equipe inteira. Você não pode apenas pensar em si, lembre disso.

Recapitulando: Era um xadrez triplo com um número reduzido de peças. Nós não tínhamos ninguém para nos controlar, tínhamos que agir por conta própria, mas sem deixar que nossos inimigos soubessem de nossos planos. AQUILO ERA GENIAL!

– Definitivamente, a estufa é uma das atividades mais legais! – falei, sorrindo como um fã da DC que ganha uma discussão com um fã da Marvel!

Sim, eu sou DC. Marvel sucks.

Corri, saltitando agora! Nossa, fiquei muito ansiosa com aquela atividade nada mortal, mas propícia a desmanchar amizades! Todos se colocaram em seus lugares até que finalmente Jean ficasse ao centro, lembrando das regras básicas: o cavalo anda e come em L, o bispo anda e come na diagonal, a torre anda e come em linha reta (horizontal e vertical), a rainha anda e come de todo jeito, e o rei só pode se mover de uma em uma casa.

– Estão todos prontos? – ela falou bem alto, sorrindo. – Os Brancos começam, seguidos dos Azuis e dos Amarelos. Boa sorte a todos!

Ela mal falou, o primeiro peão Branco saiu de sua posição, descobrindo a rainha (ou eu deveria dizer a Nepenthes spathulata?). Em menos de meio segundo, o nosso cavalo (ou cacto) saiu de posição, sendo seguido pelo cavalo dos Amarelos.

Demorei a me dar conta de que aquilo era um jogo rápido que não poderia bobear quando chegasse a minha vez. Observei como estava se deslocando o jogo com cuidado. Em minha visão, os Brancos começavam a se armar na ideia de que “a defesa é o melhor ataque”, transformando uma jogada comum do xadrez em algo menor, mas tão bem elaborado quanto.

O peão que estava na minha frente se locomoveu. Finalmente eu poderia agir! Comecei a ver o jogo mais atentamente, então. Fiquei um tanto relutante, quando dois peões nossos foram ameaçados. Chegou a um ponto que, se nosso cavalo se movesse, perderíamos a torre. Se não se movesse, perderíamos o cavalo! Foi o primeiro instante em que o jogo ficou parado por mais que um minuto.

Todos os membros Azuis começaram a se olhar com certo desespero, eu pude perceber!

Eu, ruiva maluca que sou, comecei a ver que poderia me mover na diagonal o suficiente para ameaçar comer a rainha dos Amarelos. Entretanto, se eu me movesse para um lado, poderia morrer com a torre dos Brancos. Aquilo foi um pesadelo!

O jogo foi tenso o suficiente para que eu não me movesse em nenhum momento. Fiquei simplesmente parada! Todo momento que ameacei comer alguma peça, outra ia e comia ou eu seria morta e dilacerada por alguém! Aquilo foi terrível. Senti-me a Rainha mais inútil da face da Terra. Porcaria de planta carnívora ridícula...

– Sai daí, sua chaveiro de boneca!

Um grito ecoou no meio daquele silêncio. Virei o rosto e dei de cara com alguns Azuis se aglomerando próximos a nós. Provavelmente, eles haviam terminado suas atividades, então foram nos assistir.

– Presta atenção no jogo, Lucy! – outra voz soou, mas eu pude ver que era Eric. Imaginei que a primeira havia sido de Matt, afinal ele era praticamente a única pessoa que só me chamava de apelidos referentes a minha altura.

Encarei o jogo novamente, desta vez focada. Percebi que muitas das peças Azuis estavam abrindo caminho para que eu passasse, apertando também de um lado do tabuleiro o Rei Branco. Então eu entendi: A próxima jogada era o xeque-mate que eu deveria fazer!

Os Brancos moveram um cavalo e comeram um peão nosso, e a situação surgiu!

Antes de qualquer movimentação nossa, eu me pus a andar na diagonal por cinco casas, virando-me para o Rei Branco e gritando com todo meu fôlego:

– Xeque-mate!

Os Azuis vibraram com nossa vitória sobre os Brancos! Os Brancos xingaram e resmungaram! Os Amarelos começaram a roer as unhas... O fim se aproximava.

Não demorou mais sete jogadas, eu morri e nós vencemos os Amarelos! Todos fizeram a maior algazarra e comemoração. Ao que parecia, vencemos uma das outras gincanas também, perdendo para os Amarelos na última em que Eric estava... Tinha algo a ver com classificação e perguntas sobre botânica.

Como resultado da comemoração, todos os três times começaram a pular de animação e a correr para o lado leste da estufa gigante. Não imaginei o que estava acontecendo até que Eric me puxou pelo braço, berrando:

– Agora vamos pular na piscina! Vamos!

Eu tive que ir caminhando e pulando para fora da minha fantasia para conseguir acompanhar o ritmo de todos... Havia uma piscina enorme no interior daquela estufa que era utilizada para tratamentos e relaxamento, além de ser rodeara de palmeiras e árvores altas.

Todos começaram a pular para dentro com suas próprias roupas, festejando algo que eu não entendia direito. Fiquei, inclusive, do lado de fora vendo Eric empurrar Charlotte para dentro, vendo Lucky pular em cima de alguns novatos e vendo Marlene sentindo a temperatura da água com os pés antes de entrar.

Praticamente tudo estava bem... Praticamente...

Do lado de fora da piscina, lá estava Matt com uma cara emburrada, sentado e vendo os outros felizes. Algo estava muito errado com ele hoje. Tão errado, mas tão errado, que em momento algum ele veio brincar comigo ou me zoar pelo ocorrido da noite anterior.

Lembrei-me que ele estava assim desde a manhã no refeitório quando falaram sobre a garota dos Brancos. O que foi preocupante. Então, eu, idiota como sou, aproximei-me dele calmamente.

– Essa é a segunda vez que te vejo assim. – eu disse, tentando resmungar. Na verdade, estava incomodada com aquela expressão terrivelmente vaga. Eu não conseguia tirar nenhuma explicação dela, não conseguia imaginar o que ele estava pensando. – O que diabos aconteceu com você?

Matt me olhou de canto e falou sem paciência:

– Nada.

– Não vem com essa de nada. – insisti sem saber se deveria. – Deveria falar para mim. Foi algo com a garota dos Brancos?

Achei, por um instante, que ele ia suspirar e me dizer o que estava acontecendo. Entretanto, ele apenas retorceu a boca e falou algo inesperado:

– Você acha que eu vou sempre correr atrás de você e te contar o que me passa pela cabeça? Sabe, eu sou realmente um sucesso entre as garotas, não sou qualquer um para andar com você falando bobagem.

Aquilo me acertou em cheio. Ele estava com raiva por nada! De imediato, eu quis dar meia volta e não olhar mais na cara dele! Entretanto, passou pela minha cabeça todas as vezes que ele voltou atrás de mim quando fui grosseira e idiota, como ele estava sendo ali.

Sentei-me do seu lado e joguei a cabeça para trás, falando:

– Se ela te fez algum mal, vou socá-la na fábrica de bebês. Afinal, qual o nome dessa garota?

Provavelmente, a menção de “fábrica de bebês” fez Matt sorrir. Não consegui ver, mas notei que ele moveu os ombros e soltou um grunhido.

– Anã, o que você quer? – ele falou rapidamente sem me olhar.

– Quero te devolver os maus tratos e intromissões. – respondi com segurança. – Estou esperando você me contar o que houve para podermos rir e pular na piscina com os outros.

Então, Matt se virou para mim e me fitou.

– O nome dela é Natalie Freeman, não pense que ela causou nada.

Assenti com a cabeça.

– Então quem causou o que?

Ele me encarou nos olhos e finalmente sorriu, falando:

– Engraçado. Tudo bem que já pulamos algumas bases desde o nosso encontro na cabana do pescador, mas eu te beijei ontem e você nem tocou no assunto nem quis me matar ainda.

Senti um formigamento subir pela minha cabeça até minha testa de espinhas. Por intuição, acho que eu estava vermelha! Mas aquilo era verdade, eu estava tentando não mencionar. Da última vez, eu fiz um escândalo assassino.

– Não mude de assunto, seu idiota.

Ele continuou sorrindo e me olhando diretamente. Suspeitei que fosse me beijar novamente, já que estávamos na frente de todos e era a chance perfeita para me humilhar, mas ele não fez.

Na verdade, ele acolheu os joelhos, coçando o cabelo enquanto dizia:

– Natalie veio me falar sobre a Esther...

– E dela? Posso chutar a fábrica de bebês dela? – eu o interrompi de olhos cerrados.

– Ontem a noite eu te falei, lembra? – Matt continuou, fingindo que eu não o tinha interrompido. – Eu disse que realmente idolatrava ela. Bem, Natalie veio tentar me convencer a voltar com ela, com a Esther. A própria Esther fez mil promessas, chegando a falar com outros para se meterem.

Bufei.

– Não acredito que você vai cair na dela. Ela sempre te zoa, é uma vaca! Por que você ainda fica chateado?!

– Você não conhece a Esther. – ele disse rapidamente, desta vez me interrompendo – Ninguém conhece a Esther. Vocês mulheres conseguem complicar tudo. Ontem eu achei que tivesse absolutamente tudo resolvido, mas pelo visto nada está!

Fizemos silêncio por um instante ligeiro.

– Quando você fala que ontem estava tudo resolvido... Você fala d...

– Eu falo do beijo que eu te dei. E de algo que aconteceu antes dele... – ele me completou e não alterou a feição. O que aconteceu antes dele eu não fazia ideia se era referente ao meu pulso ou a algo que independia de mim. – Eu fiquei feliz com ele. Fiquei feliz que causava em você a mesma vontade de beijar que eu tenho... O problema é que você vai se apaixonar por mim.

Então, eu fiquei estressada. Quis que ele estivesse com a porcaria da maçã na boca para que eu o fizesse engolir toda de uma vez só. Como não estava, peguei o que tinha mais perto de mim: uma planta! Arranquei a plantinha da terra! Mas não era uma planta qualquer... Ah, não! Era uma plantinha carnívora com “dentinhos” capazes de prender moscas e etc. Era uma Dioneia.

Com uma mão, segurei o queixo de Matt e com a outra, enfiei a Dioneia na sua boca para que ele guardasse aquela língua idiota! E enquanto ele arregalava os olhos para mim sem saber o que fazer, eu dizia com raiva em cada palavra:

– Para de drama seu delinquente sem sal! Para com toda essa baboseira de “Eu gosto da Esther, eu não gosto da Esther. Eu gosto da Charlotte, mas a Charlotte é do meu amigo. Eu não gosto da Lucy, mas quero beijar a Lucy”. Para com isso e toma jeito! Engole essa merda toda e vê se cria juízo!

Ele me empurrou e começou a cuspir a planta que eu tentava fazer atravessar sua goela.

– Mas que porr...

– Escuta, droga! – continuei com a lição de moral – Eu já entendi que você não quer nada comigo, isso eu já entendi e concordo que seria uma baita dor de cabeça! Agora, você tem que decidir se tem algo com a Esther ou não. Não existe esse meio termo ridículo de vocês dois, e eu sinceramente te acho estúpido por correr atrás daquela Estherco que não te merece. Você gosta dela porque ela parece com a Charlotte? Tudo bem, vai atrás da Charlotte! Mas para de se lamentar e vir atrás de mim com papo de “quero te beijar” e “não tem nada de sentimento”! Eu não sou idiota pra você ficar querendo beijar.

Aquela foi, provavelmente, a primeira briga que tive com Matt com fundamento adulto. Todas as outras tiveram bastante infantilidade de ambas as partes, mas aquela tinha sido pesada. Ele me olhava com os olhos arregalados e surpresos com todo aquele meu monólogo chato e inconformado.

“Você vai se apaixonar por mim”, ele disse. Como alguém com consciência poderia vislumbrar se apaixonar pelo Matt? Como alguém que é agarrada a força pelo outro, tem o tornozelo torcido pelo outro e quase mata o outro com uma flecha é capaz de se apaixonar?

Eu podia me perguntar aquilo quantas vezes eu queria, fazer o drama que eu quisesse... Mas a resposta veio com todo esse meu “se importar”. Eu me importava demais. Eu realmente estava me importando demais, procurando por ele demais, vendo ele sempre perto e prestando atenção demais em suas expressões.

"Teria eu, realmente e despercebidamente, caído?"

No meio daquela discussão, senti como se estivesse dormindo em um carro que caiu de bungee jumpin e acordasse enquanto voava do banco. Perdi o fôlego com todas aquelas frases e me dei conta do que eu jamais irei admitir! Jamais! Jamais!

Quando me dei conta da possibilidade, minhas mãos suavam como um porco num dia de sol! Procurei por uma distração e simplesmente coloquei o último pedaço da Dioneia na minha própria boca. Não pergunte qual a razão disso, eu não tenho a mínima ideia do motivo de ter feito isso.

Como resposta ao monólogo e ao ataque de loucura, Matt riu. Riu baixinho como se estivesse escutando algo absurdo ou uma piada idiota que só fez sentido depois de vários minutos. ELE RIU!

Instantaneamente, eu comecei a cuspir a Dioneia! Era amarga demais!

– Obrigado por se preocupar comigo, anã. – ele falou lentamente – Espero que não tenha se esquecido do que eu te falei ontem...

Meu queixo caiu, e eu não fui capaz de responder absolutamente nada por alguns instantes. Só fui capaz de gaguejar um simples:

– N-não lembro. O que v-você disse?

– Você é maluca.

Então, ele estendeu seu pulso da mão direita para mim, mas eu não entendi o que ele queria com aquilo. Seus olhos se tornaram mais calmos e fixos em mim. Aquilo estava me deixando ainda mais furiosa. Suspirei profundamente e recusei seu pulso, levantando-me.

– Eu vou indo, então. Já da para ver que você está melhor. – falei.

Ainda sentado, Matt me encarava.

– Eu estou bem desde ontem. Meu humor apenas caiu, carcereira de gaiola. Tudo porque ontem eu dei um fim a tudo que eu tinha com a Esther...

Notas finais
E aí? Seus pâncreas se retorceram com o Matt e sua declaração? huhuhuhu o que será que espera esses dois na noite de anfitriões dos Azuis? hahaha Espero que não tenham achado ruim o número gigante de palavras. Juro que tentei diminuir ao máximo! Prometo, inclusive, que se o próximo capítulo passar de 4mil palavras, será dividido em duas partes! :D Um enorme beijo nos corações de vocês! Até semana que veem hahahaha