Como Sobreviver Num Acampamento De Nerds
18 Dica 18 - Não escreva seus pensamentos em cadernos
Notas iniciais
Décima Oitava Dica: Não escreva seus pensamentos em cadernos
A garota que escreve nesse caderno voltou. É, eu voltei para alegria da nação e para desgosto de um bunda-mole que pensa ser gente. Ele acabou me devolvendo o caderno de forma bem constangedora e acabando com a nossa trégua. NÃO FUI EU QUEM ACABOU COM A TRÉGUA, DROGA! Ele que acabou com a trégua quando leu esse caderno que é ULTRA pessoal (eu sei que estou escrevendo como se outra pessoa fosse ler... Mas enfim... É, eu entendi que acabou se tornando um diário de acampamento... ELE LEU!) e ainda fez o que fez.
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No dia seguinte a nossa suposta trégua, eu procurei e procurei pelo caderno, mas não o encontrei! No meio da bagunça que estava a nossa barraca por conta da volta de Jack, eu não me surpreendi. Achei realmente que tinha deixado o caderno debaixo da cama ou no meio das roupas da minha mala. Não passou em momento algum na minha cabeça que eu tinha perdido, juro pelo Deus que eu não acredito.
– De hoje a três dias, como de costume do acampamento, realizaremos uma peça na clareira da fogueira. – Sr. Turner falou pela manhã, antes das atividades.
– Ele está falando sério? – murmurei para Charlotte, que assentiu com a cabeça. – Uma peça, que clichê para um filme de adolescente.
Ela riu e falou:
– Quem sabe você esteja num filme de adolescente.
Fez sentido, eu era a heroína. Charlotte a princesa, Esther a inimiga, Bette a chata, Eric o nerd fofo, Matt o delinquente inescrupuloso, Jeon o asiático tarado, Lucky o apaixonado pela heroína que não vale nada, Jonathan o bonitão pegador, Anna e Louise as capangas, Jenna a emo... E Jeffrey.
– Amanhã ao fim da tarde serão feitos testes para a peça... – Sr. Turner continuou – Romeu e Julieta.
Soltei uma risadinha.
– Que clichê.
– Não vai tentar um papel então? – Charlotte me perguntou.
Antes que eu pudesse responder um claro e belo “não”, o Sr. Turner me convenceu do contrário:
–... O grupo com mais pessoas envolvidas na peça, receberá uma alta quantia de pontos, como em todas as temporadas.
Eric cutucou meu braço com o cotovelo.
– Aposto que você ou Charlotte serão Julieta, que tal?
Ergui as sobrancelhas. Não mesmo.
– Você não acha que seria possível algo assim, acha? – murmurei.
O grupo Azul foi para o declato acadêmico contra os Laranjas, que nós vencemos depois de uma árdua apelação de Charlotte numa sequência demoníaca de questões de química de terceiro grau! Ela com certeza era um tipo de musa deusa grega da química. Nem mesmo eu, que sempre fui a melhor da turma, conseguia achar um norte da maioria das questões! Mas a grande surpresa foi Eric e suas magníficas respostas em francês.
– Júlio Verne escreveu sua primeira obra: "Cinq semaines en ballon", seguida de "Paris au XXe siècle”, “capitaine Hatteras", "Voyage au centre de la Terre”, “Enfants de capitaine Grant","Pour la rotation de la lune (br)”, “Vingt mille lieues sous les mers "... Dois-je continuer? – falou com a maior pompa e categoria francesa metida que eu nunca o vi ter.
Eles dois responderam a todas as perguntas abertas. Já Chris Felix, Julius Tlyser, eu e Matt fomos selecionados para as perguntas fechadas... Que foi quando a vingança ridícula de Matt começou!
Ele estava mais calmo e simpático que o normal, então achei que tudo estava tranquilo. Depois daquela corrida nas barracas masculinas, achei que estávamos bem mesmo! Matt inclusive fez questão de sentar ao meu lado, o que eu achei estranho e comecei a pensar que ele poderia estar interessado em mim.
– Vocês devem apertar o botão vermelho se souberem a resposta. Quem primeiro apertar, vai responder. Se responder errado, ponto para o outro time. O tema é conhecimentos gerais. As perguntas não serão repetidas. Caso o botão seja apertado antes de eu ditar todas as quatro alternativas, o concorrente estará fora da disputa. – o monitor do time Laranja falou calmamente e nós concordamos com balançados de cabeça. – Primeira pergunta: “um microprocessador que funcione a uma velocidade de 300 megahertz, trabalha a 64 bits, é capazes de transferir 64 bits executa cerca de quantos milhões de ciclos por segundo?” Respostas: a) 64; b)300; c)10; d)nenhuma das respostas.
Eu não tive tempo de raciocinar antes que escutasse uma sirene absurdamente alta vinda da minha frente! A mão gigante e grotesca de Matt estava posicionada no meu botão! ELE APERTOU O MEU BOTÃO! Não pense besteira...
– O que está fazendo? – murmurei para ele com os olhos arregalados.
Matt sorriu despreocupado e me apontou o monitor dos Laranjas.
– E então, Lucy, qual a resposta? – ele perguntou.
Eu tremi na base.
– Não fui eu quem apertou o botão! Foi o Matt! – berrei.
– Mas o botão era seu, a resposta tem que ser sua.
Joguei o mais mortal olhar que pude para Matt, que ria despreocupado.
– A resposta é... – eu comecei a falar sem fazer ideia de qual seria. – 300 milhões.
Todos fizeram um silêncio dramático antes que o monitor berrasse:
– CERTA A RESPOSTA! Próxima pergunta...
Enquanto ele falava a pergunta, dei uma cotovelada em Matt e murmurei para ele apenas:
– Qual o seu problema?! Por que fez aquilo?!
Mas ele não respondeu, eu já devia imaginar o motivo... Estava aprontando uma comigo! O monitor dos laranjas mal terminou a pergunta e Matt bateu a mão horrorosa no meu botão outra vez!
– Lucy?
– EU NÃO SEI! Pode repetir a pergunta?! – grunhi, quase arrancando meus cabelos e saltando os olhos. O monitor negou com um movimento de cabeça. Aquele retardado mental do Matt queria mesmo que nós perdêssemos. – Ah, não sei... Letra C.
– CERTA A RESPOSTA! – o monitor gritou.
– Cara, como você é sortuda... – Matt falou, rindo e olhando pro horizonte. Nem para me encarar como um homem, ele me encarou.
– Você quer que a gente perca?! – briguei, mas ele fez uma careta engraçada. – Para com isso.
–... d) Latodectrus mactans.
Novamente, Matt tentou apertar o botão, mas eu fui mais rápida e voei em cima do botão dele.
– Matt?! – o monitor indagou – Qual a resposta?
O delinquente me olhou e riu.
– Anã desgraçada... A resposta é letra D, James.
James era o monitor...
– CERTA A RESPOSTA!
Cerrei os olhos para Matt. Ele fez o mesmo para mim. Nenhum de nós dois declarou nada desde então, nem mesmo trocamos palavras até chegada a noite da fogueira dos Brancos. Não sentamos perto, não nos encaramos. Na verdade, eu não o vi a noite inteira! Jeon me perguntou onde ele havia se metido, mas eu não soube (nem queria saber).
Os Brancos fizeram uma chuva de tinta. O intuito deles foi mostrar que o Branco é o reflexo de todas as cores e mimimi que eles eram superiores. Sinceramente, achei divertida a chuva de tinta e toda a festa que fizemos, melecando uns aos outros com a tinta que caia em pós.
Eu tive que voltar antes... Digamos que a comida do jantar não caiu bem.
Foi quando eu adentrei sozinha na nossa barraca que estava desconfortavelmente quieta. Liguei a luz e vi um horror... Um desastre... Meu caderno estava pendurado no centro do quarto por um tipo de fio, enquanto as paredes estavam cobertas por vários cartazes com “valentão”, “drogado”, “olheiras do tamanho de baleias”, “James Dean fajuto”, “bunda mole de Hutt”, “pseudogigolô morto de fome”, “tarado sociopata”, “roqueiro de meia tigela”, “comedor de cocô de passarinho”, “macaco safado de braços longos”, “graveto gigante de bafo de onça”, “diplodocus com juízo no pé”... E os meus sutiãs todos pendurados por todos os lados! Meu colchão estava de cabeça para baixo! E JACK! O POBRE COITADO ESTAVA com a focinho preso no elástico e as patinhas presas nos cadarços alaranjados que eu guardava, como oferenda em cima da minha cama.
Então eu repeti a frase mais dita neste caderno logo após ver a última dica escrita:
– Eu vou matar Matthew Peter Simons.
E eu não o matei...
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Todos os grupos foram levados para o lado leste, na direção do imenso cenário e campo de paintball. Sim, esse acampamento instigava a guerra... Era lindo! Havia casas para vários lados, tendas de planejamento, esconderijos, túneis, canhões de enfeite e etc. O mais legal foi o tema:
– O tema de guerra do paintball será... Toquem os tambores. – Quentin começou a anunciar, vestido de soldado do século 19. Os tambores realmente tocaram, e quem tocou foram os monitores do Verde e do Amarelo. – Guerra da Secessão!
Norte vs Sul! Paintball! Escravidão! E uma chance de acertar bala nas bolas do Matt! Meu dia estava perfeito!
– Dividiremos três times para o grupo do norte e três times para o grupo do sul. – a monitora dos Amarelos falou com classe e leveza, até parecia que não falava de uma guerra. Fiquei realmente animada com a possibilidade de guerra, de berros e de paintball contra nerds inocentes e inofensivos, aquele acampamento desafiava cada vez mais nossas habilidades táticas – Os times: Amarelo, Laranja e Azul vão para a tenda inferior, enquanto os outros vão para a tenda superior.
O cenário tinha várias camadas, contando com uma tenda em cima e uma tenda embaixo. Era todo cheio de terra e tinha um clima de faroeste assombroso e belíssimo! Quem quer que tenha planejado aquele cenário, havia feito um trabalho excelente!
Eu estava tão maravilhada com a situação toda que não notei que esbarrei com a última pessoa que eu queria vez antes de fazê-la sangrar.
– Olha só, minha queria piloto de autorama! – Matt falou sorridente ao esbarrar em mim. – Gostou do presente que eu deixei na sua barraca ontem a noite?
– Você vai queimar no fogo do inferno. – respondi rispidamente.
Eric passou do nosso lado e contraiu as sobrancelhas na dúvida.
– O que houve noite passada? – ele perguntou.
– Conte aí para ele, Lucy! – o delinquente caçoou, passando a mão no cabelo para fazer mais charme. – Fale de nossas aventuras recentes, você é ótima em contar histórias.
Cerrei o punho e soquei o antebraço dele com força. A líder dos Laranjas inclusive nos olhou hesitante, não entendeu o que se passava. Nem Eric entendeu o que se passava! O gemido de dor de Matt fez com que eu aliviasse na raiva que tendia a crescer exponencialmente em meu peito.
– Você não presta! – resmunguei e o olhei severamente. – Droga, você leu o meu caderno.
– O caderno que você falou besteira e mais besteira. Sabia que a você que escreve parece cheia de atitude, enquanto a você que eu vejo é chata pra caramba? – ele brincou, passando a mão onde eu havia socado. – Vamo, Lucy, esse acampamento só tem graça conosco brigando constantemente.
Revirei os olhos, até ver que Eric nos encarava sem nos entender. Charlotte chegou logo em seguida, falando:
– A fronteira entre o amor e o ódio é muito pequena, vocês dois sabiam?
Eu pisquei violentamente os olhos, o que fez o ridículo do Eric rir, antes de passar a mão no ombro de Charlotte, que não hesitou em ser abraçada.
– E o Jeffrey é ciumento. – Eric disse.
– O Lucky também, mas isso não nos impediu, certo, anã? Você não vive sem mim. – Matt também passou a mão por cima do meu ombro quando falou.
– É, não vivo. Tenho que me esforçar mais para ficar distante de você.
Naquele instante e momento inoportuno, Jeffrey passou por nós, andando na direção da tenda superior. Ele olhou de cima abaixo a cena e sorriu de lado... O que me incomodou um pouco. Empurrei com toda força o corpo gigante e magro de Matt, que riu e murmurou no meu ouvido:
– Imagina se você está iludida com o Jeffrey, quão feio seria te ver de coração partido.
Ele tentou me provocar, mas eu fingi que não escutei. Pensando melhor, pelas coisas que eu escrevi aqui dá para pensar que eu e Jeffrey teríamos algo escondido, mas não se trata disso! O olhar dele foi estranho e foi suspeito, mas... Algo não estava certo.
– Imagina se a Esther resolve dar em cima do Eric agora, ou do Jeffrey, quão feio seria te ver de coração partido. – cuspi e dei de costas, andando rapidamente na direção de Jean Devosso, que reunia os grupos.
Ela estava vestida com um uniforme do exército sulista, marrom e com um emblema no peito. Tudo era planejado com muita antecedência naquele acampamento.
– Vocês serão divididos em algumas vertentes. Teremos a vertente de combate, onde os membros farão parte da partida de paintball. Teremos também a vertente de estratégia, que ficará separada numa gincana contra a vertente do norte e também os workshp de primeiros socorros para cada tipo de ferimento. Teremos, por fim, a vertente historiadora que participará do quis sobre a Guerra da Secessão. Vocês podem escolher a vertente que desejarem, com exceção de você, Lucy, que por causa do tornozelo não poderá participar do paintball.
Foi como um tiro no peito.
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