Como Sobreviver Num Acampamento De Nerds

2 Dica 02 - Ônibus de transporte é sempre barulhento


Notas iniciais
Segundo capítulo que eu tinha feito há séculos, mas, por motivos mais do que pessoais, não tive como postar... Enfim, espero que gostem ;D

Segunda dica: O ônibus de transporte é sempre barulhento

Minha segunda dica engloba uma grande quantidade de outras mais, como, por exemplo, “não chegue por último, os últimos ônibus são os piores” ou “acorde mais cedo que pretendia”. Sinceramente, deviam fazer num lugar próximo, os acampamentos, talvez assim não precisássemos nos misturar logo no início...

Ao menos eu vi um lado positivo nisso tudo, encontrei alguém para conversar. Mas isso não vem ao caso já que num ônibus, eu encontrei os mais diversos tipos e gêneros de pessoas!

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Acho que precisei olhar para o relógio umas quatro vezes antes de jogá-lo pela janela. Sim, eu realmente joguei meu relógio pela janela. Ele se espatifou no chão do jardim do vizinho porque ela estava aberta, ou seja, meu plano infalível de mexer com a paciência dos meus pais (quebrando o relógio na parede) foi por água abaixo.

Posso parecer uma adolescente revoltada, mas na verdade minha revolta é apenas encenação para que meus pais percebessem a vergonha que seria (para eles) se eu fosse um desastre no acampamento do Sr. Turner que, recapitulando, é um lugar destinado a pessoas com notas acima da média e comportamento recluso... Vulgo: Nerds.

Quando me levantei da cama e vi que o sol já tinha raiado, eu mal me importei. Naquele momento, eu era a jovem revoltosa da família Farrell e tinha que me ocupar em manter este papel.

Fui até a cozinha e dei de cara com minha irmã Kendall arrumando os cabelos no reflexo do espelho que o vidro da prateleira fazia. Ela me viu e abriu o berreiro no exato instante em que pus o pé para dentro:

– O que está fazendo?! Acordando agora?! – ela gritou com os olhos flamejantes – Vai logo trocar de roupa! É o Ed quem vai te levar, então tem que acordá-lo também. Boa viagem, piolha.

E de repente, ela saiu andando pelo corredor e eu só consegui escutar o barulho da porta se batendo. Percebi que me atrasaria mais do que o esperado, já que era Ed que iria me levar.

– Adeus para você também. – falei sozinha.

Eu tenho cinco irmãos. Apenas um deles é mais novo que eu, o Sean (e o único que ainda é mais baixo que eu), enquanto Edward é meu gêmeo. Kendall, Cameron e Darcy já tinham passado dos vinte anos, por isso nem faziam mais parte do meu “cotidiano”. Ainda assim, voltei ao meu quarto como se fosse um verdadeiro fantasma e, logo após minha reverencia à minha alma gêmea maligna (Darth Vader), não me impressionei de maneira alguma em ver Ed ainda apagado num sono profundo vestindo apenas sua cueca. Sim, dormíamos no mesmo quarto.

– Ei, idiota, acorda logo. – eu disse, cutucando seu pé.

Um murmúrio que mais parecia um cachorro com diarreia se fez ouvir. Cutuquei outra vez, e ele se virou rápido para mim.

– Vai dormir, anã... – Ed disse, encolhendo-se no lençol. Olhei para o relógio e tinha apenas meia-hora para chegar no encontro dos ônibus, não podia desistir do Ed, senão eu teria que ir a pé.

Arregacei as mangas e MO-DUM BAL TCHAGUI: Chute com os pés juntos.

Bem, antes de pular para o momento em que eu entro no ônibus de transporte eu preciso esclarecer uma coisinha simples... Sou faixa preta em Taekwondo, 2º Dan. Posso ser considerada jovem demais para essa faixa, mas desde que me entendo por gente sou a melhor da turma – não que eu queira me gabar nem nada.

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– Nome? – disse uma mulher enrugada como pano velho e fedida como matadouro de gado que era, por mais incrível e raro que fosse, menor que eu. Tentei ao máximo sorrir e ignorar tais fatores por conta da educação.

– Lucia Belle Farrell. – respondi calmamente, respirando com dificuldade para não inalar o fedor de coisas defumadas.

Desviei meu olhar rapidamente para trás e vi Ed acenando com uma expressão que poderia ser confundida com raiva, ódio e desagrado, mas eu não podia ver muito bem já que a bolsa de gelo na sua bochecha bloqueava a visão de seu rosto.

– Está atrasada, Srta. Farrell. – disse a mulher procurando meu nome na lista, passando algumas páginas de nomes – Cuidado com os horários no acampamento... Oh, aqui está. Lucia Belle Farrell. Seja bem-vinda ao Acampamento Turner.

Arrumei minha mochila e subi as escadinhas que tinham logo após a porta de entrada, dando de cara com várias pessoas me olhando entrar como se fosse um elefante no meio de uma multidão de macacos.

Tudo bem, eu não tinha e nem chegava perto de ser colocada como um elefante, sou realmente baixa e magra demais. Ah, não importa! O que quero dizer é que eu realmente fui observada como uma pessoa estranha no ninho. Tentei ao menos sorrir e sentei no primeiro banco vazio que pus os olhos.

Logo atrás de mim a “mulher-defumada” subia as escadas, fungando com o nariz repleto de catarro.

– Bom dia a todos, sejam bem-vindos a mais um verão no acampamento do Sr. Turner! – ela disse sorrindo entre as bochechas grandes. Muitos risinhos alegres e um longo “BOM DIA” ecoou no ônibus com a entrada dela – Para aqueles que não me conhecem, meu nome é Valentina e eu sou uma das monitoras do acampamento este ano. Para aqueles que já me conhecem, eu continuo esperando que não saiam da linha... A partir de agora pode-se dizer que começou a aventura de vocês! – ela falou isso e eu tentei ao máximo abafar o risinho. Não por ironia, mas ela enfatizou “aventura” com um desgosto enorme. – Por terem sido os últimos a chegar não reclamem pela não-climatização do ônibus, pelas janelas emperradas, bancos quebrados ou sumiço de objetos pessoais no bagageiro do ônibus. Se queriam conforto que tivessem chegado mais cedo!

Ok, definitivamente ela não seria minha monitora predileta.

E logo que ela se virou, uma menina que parecia ter a minha idade correu do fundo do corredor lá para a frente, enquanto nós começávamos a andar. Ela tomou o microfone que a velha tinha e sorriu de maneira muito estranha. Reparei em suas roupas e ela parecia ter sido tirada de um seriado de garotinhas fúteis e os dentes da frente serem um pouco maiores que o normal causaram um comentário em algum canto do ônibus “dentuça!”.

– Hahaha, muito engraçadinho, Matt! – ela disse no microfone – Bem, queria alertar aos novatos o seguinte: eu sou Bette Larsen, vice-líder do grupo vermelho do acampamento e gostaria de convidar aos presentes para-

– Bette! – berrou a monitora Valentina, tomando-lhe o microfone – Deixe as convocações para o primeiro encontro! Vá já para o seu lugar!

A garota baixou a cabeça e fingiu resistir firmemente os risos gozadores de alguns garotos para ela, enquanto andava de volta para o seu lugar.

Então me veio um estalo, eu podia rir bastante daquele lugar se tivesse pessoas como a tal Bette Larsen tentando se exibir por aí... Enganei-me tristemente!

Não se passaram nem cinco minutos com aquele aparente silencio, alguém começou a puxar canções de acampamento como Purple Stew* e Alice, The Camel*. Minha cabeça estava começando a girar loucamente e meus tímpanos já não aguentavam mais a tentativa de música que eles faziam, berrando sem parar e pulando nos bancos e corredores.

E antes que pense algo estranho de mim, não sou anti-social ou sequer traumatizada... Eu só sei a diferença entre boa música e pessoas berrando músicas como Purple Stew*!

Foi então que, em meio aos meus devaneios sobre a ridícula situação em que eu me encontrava, que vi meu primeiro amigo me abordar. Era um garoto franzino com óculos de grau enormemente grossos e cabelos escuros como breu, lisinhos e com jeito rebeldemente jogados para cima. Ele parou na frente da minha cadeira com um olhar quase assustador para mim.

– Isso na sua blusa é realmente o modelo do Batmóvel de 1940?!

Eu parei e tentei reformular a pergunta que ele fez na minha cabeça. COMO ASSIM ALGUÉM ALÉM DE MIM SABIA DECORADO O MODELO DOS ANOS 40?!

– Não acredito que você conhece essa versão do carro! – eu ri surpresa.

– Como não? – ele também riu – Jerry Robinson modificou o cupê fantasticamente. Estou invejando você completamente nesse momento.

Ele tinha um jeitinho engraçado e um sorriso muito bonito, e parecia ser realmente novo.

– Sempre achei que eu fosse a única pessoa em toda a Dakota do Sul que gostasse de quadrinhos o suficiente para identificar o Batmóvel dos anos 40.

– Seja bem-vinda a um acampamento de nerds, então! – disse estendendo a mão para que eu a apertasse – Sou Eric Harmon, grupo azul.

– Eu sou Lucia Farrell, mas pode me chamar de Lucy. – respondi lhe cumprimentando. Fãs de quadrinhos devem sempre interagir positivamente entre si! – Não entendi ainda que história é essa de grupo, tem como me situar exatamente aonde me meti?

Ele arqueou as sobrancelhas.

– Ah, agora está explicado porque não me lembrava de você. Se tivesse visto alguém como você pelo acampamento eu certamente lembraria. É novata, certo? – eu assenti com a cabeça, afastando para que ele se sentasse do meu lado.

– Você vem aqui há muito tempo? – perguntei quase rindo da minha própria questão.

– Há dois anos, ou seja, desde os meus doze...

Mas antes que ele pudesse se sentar alguém realmente grande puxou-lhe a gola da camisa por trás, fazendo com que ele quase voasse para trás. Eu me levantei no mesmo instante com sete pedras na mão para encarar quem tinha mexido com meu primeiro amigo no hospício dos melequentos.

Quando vi era um rapaz alto com cabelos castanhos e ondulados, camisa de heavy metal, brinco na orelha e músculos definidos nos seus braços. E a primeira coisa que veio a minha cabeça foi se ele tinha errado o lugar e tivesse parado acidentalmente ali, num lugar destinado aos não-delinquentes.

– Olha só, não é que o franguinho já fez amizade com a novata atrasada. – disse o garoto para Eric.

– Pois é, Matt, agora já pode me soltar. – falou ele com um sorriso amarelo.

O garoto soltou a gola da blusa e voltou o olhar para mim, me medindo de cima abaixo e ao mesmo tempo fervendo minha paciência.

– É, só uma franguinha mesmo. Achei que fosse mais parecida com a Charlotte. Talvez se crescesse.

– Quer apanhar, frangote? Prometo ser rápida. – ralhei com o punho cerrado.

O garoto me olhou nos olhos e quase bateu o rosto num banco do ônibus se contorcendo na tentativa de abafar o riso. Fiquei com a cabeça tão quente naquele instante que meti a perna entre as dele e o empurrei, exatamente no mesmo instante em que o ônibus deu uma virada brusca, fazendo com que o intrometido e idiota caísse com a cabeça batendo no vidro e as pernas para cima como uma criança grande e pesada...

– Que merda! – berrou Eric com os olhos do tamanho das lentes do óculos que, para enfatizar, eram redondas como um fundo de garrafa. – Que bruxaria é essa que você fez pra derrubar o Matt?!

Matt, o garoto arrogante, levantou rápido, sendo encarado por alguns olhares dos nossos “vizinhos”. Ele me lançou um olhar rápido, não era furioso ou que fosse comprar briga comigo, mas se levantou rápido e ficou bem na minha frente.

– O que foi, franguinho? – perguntei, olhando nos seus olhos que eram quase cinzas.

– É que eu fui derrubado por uma anã, estou me perguntando o que estão colocando na comida das crianças de hoje em dia. – ele riu, em seguida virando-se para Eric – Eric, faça um favor a si mesmo e coloque ela no grupo azul, ok?

– Bem, ela que vai escolher...

– Grupo azul. – ele deu um rápido sorrisinho com se estivesse frisando a informação e atormentado Eric num tipo de ameaça psicológica. – Jonathan vai pegar no seu pé esse ano e eu não protejo mais ninguém.

“Protege? Um delinquente juvenil como aquele?”, eu pensei.

Eric sorriu e coçou lentamente a nuca como se fosse amigo de Matt. Teria eu errado ao pensar que o dois eram típicos inimigos mortais NERD vs. VALENTÃO?

– Depois que a Esther entrou no acampamento você nunca mais foi o mesmo, haha.

– Agora eu que pergunto: quer apanhar, Eric? – rosnou Matt, franzindo a testa. Então se virou para mim, um tanto enojado – Seja bem-vinda, franguinha do cupê dos anos 40.

Ele estava se referindo à minha blusa, olhei para ela como uma boba sem se dar conta direito do que ele estava falando. Matt riu. E eu que me achava especial apenas por conhecer o batmóvel, descobri mais dois garotos que também o conheciam... Infelizmente.

Eric sentou-se ao meu lado no final das contas, foi incrivelmente simpático e um doce de garoto. Enquanto Matt voltou para o fundo do ônibus e passou o resto da viagem rindo da menina chamada Bette Larsen. É, acho que poderia me acostumar com aquelas pessoas.

Notas finais
Bem, estarei postando o terceiro, se possível, no domingo :3 espero que estejam gostando. Desculpem-me pela demora!