Na manhã seguinte, acordei determinada.

Não determinada a desvendar o mistério macabro que envolvia a minha própria morte. Nem determinada a descobrir o motivo cosmológico de estar há décadas presa à quele gesso decadente. Nem determinada a decifrar as engrenagens ocultas que movem os segredos do universo. Não. Eu estava unicamente determinada a infernizar a saúde mental de Emmett Cullen. Existem prioridades metodológicas na pós-vida.

Infelizmente, para o meu desespero logístico, Emmett passou boa parte do dia fora. O que achei de uma grosseria tremenda com o meu cronograma de lazer; afinal, eu tinha planos estruturados, excelentes e requintados planos de terror doméstico. Mas os Cullen resolveram passar a manhã inteira embrenhados na floresta temperada de Forks.

Sem o meu brinquedo particular disponível, vi-me obrigada a procurar fontes alternativas de entretenimento. Foi assim que acabei fazendo companhia a Esme novamente.

Ela estava no jardim dos fundos. Como sempre. Cuidando meticulosamente das plantas. Como sempre.

Eu realmente não conseguia compreender a lógica existencial daquela mulher. A propriedade inteira estava cercada por quilômetros e mais quilômetros de mata nativa densa; existiam árvores de grande porte suficientes ali ao redor para abastecer as indústrias de um continente inteiro. Mesmo assim, Esme continuava plantando teimosamente mais mudas de flores e arbustos no gramado. Naquele ritmo geométrico, em alguns anos o casarão desapareceria por completo sob uma avalanche inevitável de vegetação.

— Você está articulando uma óbvia conspiração botânica, sabia? — informei a ela, balançando as pernas fantasmas sobre o muro de contenção.

Esme continuou remexendo o solo úmido com sua pazinha, a fisionomia plácida.

— Eu sei muito bem o que vocês, os seres clorofilados, estão planejando em segredo.

Ela utilizou a tesoura para podar uma flor seca.

— Um dia desses eu vou materializar a minha essência na sala de estar e o cômodo estará completamente tomado por samambaias colonizadoras.

Mais um corte limpo em outra haste.

— E aí, minha cara Esme, será tarde demais para arrependimentos.

Nenhuma oscilação biológica ou resposta verbal. Ingrata.

Passei o restante da manhã cinzenta sentada no muro de pedra, observando-a manipular a terra com aquela paciência infinita. Era um fenômeno estranho. Eu costumava nutrir um ódio profundo pelo silêncio absoluto. Décadas atrás, na minha solidão gelada, qualquer fragmento de tempo privado de movimento ou som parecia uma tortura psicológica insuportável.

Mas a presença ruidosa e bizarra dos Cullen tinha alterado alguma engrenagem dentro de mim. Agora, a calmaria parecia fundamentalmente diferente. Porque eu guardava a certeza absoluta de que eles retornariam para preencher o vazio. A casa não estava mais abandonada ou esquecida; estava apenas temporariamente quieta.

Aquela percepção sutil ainda me pegava totalmente desprevenida às vezes, gerando um eco desconfortável no peito. E eu não sabia muito bem o que fazer com aquela nuance de sentimento.

Por sorte, o tecido do universo resolveu me poupar de maiores e profundas reflexões emocionais pós-morte. Porque, por volta do meio-dia, o ronco característico de um motor esportivo cortou o silêncio da colina.

Franzi as sobrancelhas, pairando acima do muro. Os jovens Cullen normalmente não retornavam da encenação do ensino médio tão cedo. Levantei-me em um salto flutuante e atravessei a barreira de madeira da cerca, movida pela curiosidade.

O veículo polido estacionou diante da fachada cinzenta. A porta do motorista abriu-se com um clique limpo e Edward saiu do interior.

Totalmente sozinho.

— Estranho... — murmurei para o vento.

Segui-o de imediato para o interior da propriedade. Afinal de contas, eu era uma investigadora dedicada e não portava absolutamente nenhum senso ético de privacidade humana ou imortal.

Edward cruzou o umbral carregando nos braços uma pilha colossal de volumes encadernados. Muitos livros. Livros demais. A quantidade de papel e tinta que ele transportava chegava a ser visualmente ofensiva para qualquer pessoa com senso de lazer.

— Por acaso você foi feito de refém e assaltado por uma biblioteca municipal? — ironizei, flutuando logo atrás de seus ombros perfeitos.

Edward ignorou solenemente a minha brilhante observação satírica. Subiu os degraus de madeira da escada com passos velozes e silenciosos, adentrou os limites de seu quarto privativo e depositou a montanha literária sobre a mesa de madeira escura.

E começou a ler. Imediatamente. Sem pausas regulamentares, sem descanso, sem nem sequer fingir que faria qualquer outra atividade biológica ou mundana. Ele simplesmente sentou-se na cadeira e abriu o primeiro livro.

Fiquei estática ao lado da mesa, monitorando os movimentos dele. Cinco minutos se arrastaram. Dez minutos. Quinze. Vinte minutos inteiros de pura imobilidade física.

— Você é, com uma margem de vantagem assustadora, a criatura mais chata e sem dinâmica de toda esta propriedade — reclamei, cruzando os braços e flutuando de cabeça para baixo perto do teto.

Edward virou uma página com um ruído seco.

— E vou te contar: isso significa um feito monumental, considerando que o Carlisle passa as horas de folga dele organizando fichas de prontuários médicos pelo puro prazer da diversão.

Mais uma folha foi virada com precisão mecânica.

— Eu preferiria passar a eternidade assistindo a uma parede de tinta fresca secar.

Outra página.

— Na verdade, retire o que eu disse. Não preferiria não — ponderei melhor, lembrando-me do tédio real que as rachaduras me causavam.

Continuei a análise de campo. Edward permaneceu rígido como uma estátua de mármore esculpida. Lendo. Lendo. Lendo com uma rapidez que flertava com o absurdo.

Foi nesse exato milissegundo de tédio que uma ideia floresceu nos meus neurônios abstratos. Uma ideia simples. Elegante. Absolutamente necessária para o andamento dos meus experimentos.

Aproximei-me da superfície da mesa com suavidade. Analisei a disposição dos livros empilhados. Foquei os olhos no perfil imperturbável de Edward. Encarei a literatura novamente.

Estiquei a mão invisível, fechei as pálpebras espirituais e concentrei cada partícula da minha teimosia pós-morte na estrutura de um dos volumes menores. Exigiu uma quantidade exaustiva de energia sutil, mas, milímetro por milímetro, consegui erguer o livro e lentamente virei-o de cabeça para baixo na pilha.

Recuei flutuando para o canto do quarto. Esperei pelo resultado prático.

Edward continuou a leitura do volume principal por mais alguns minutos, totalmente alheio. Então, estendeu o braço de forma automática para pescar o próximo livro da sequência técnica.

E sua mão congelou no ar.

As sobrancelhas acobreadas uniram-se em um vinco profundo. Ele fixou as órbitas douradas na estrutura do livro que agora exibia o título invertido. Houve um silêncio denso no cômodo. Ele pegou o objeto com os dedos perfeitos, girou-o de volta para a orientação espacial correta sobre a mesa e... simplesmente retomou a leitura de onde havia parado.

Só isso. Nenhuma reação dramática, nenhuma expressão de sobressalto, nenhuma palavra direcionada ao vazio.

Fiquei profundamente ofendida no meu orgulho de assombração.

— Era para ser uma pegadinha legítima, seu esnobe — reclamei em voz alta, marchando no ar até parar bem na frente da mesa dele. — Você deveria, no mínimo, expressar uma fisionomia de confusão mental ou questionar as leis da gravidade.

Nenhuma resposta ou oscilação térmica.

— Você é um parceiro de dinâmica terrivelmente péssimo, Edward Cullen.

Mais silêncio absoluto. Cruzei os braços virtuais, bufando com desdém.

— O Emmett, com toda a certeza do mundo, teria soltado um grito agudo maravilhoso agora.

No exato milissegundo em que o nome de Emmett cruzou a frequência da minha voz... Edward congelou o movimento dos olhos sobre a página.

Apenas por uma fração infinitesimal de segundo. Mas o espasmo físico existiu.

Meus olhos espectrais estreitaram-se de forma cirúrgica, capturando a anomalia biológica.

Edward lentamente ergueu a cabeça da leitura, abandonando a rigidez. Ele não direcionou o foco das órbitas douradas para o ponto exato onde eu flutuava — não, ele não portava aquela nitidez visual —, mas varreu a extensão tridimensional do quarto com um olhar afiado, analítico e tenso. A exata expressão de um predador que tenta rastrear ou capturar uma sensação térmica ou uma flutuação invisível que acabou de ecoar pela sua percepção e sumir no ar.

Um sorriso largo, lento e totalmente vitorioso começou a desenhar-se nos meus lábios de dezenove anos. Muito devagar.

Porque aquilo não tinha operado dentro do território da minha imaginação fértil de fantasma. Eu tinha testemunhado a alteração de padrão. Edward Cullen tinha percebido alguma coisa.

Não uma imagem visual nítida. Não exatamente. Mas ele registrara o impacto. Uma presença sutil no ambiente. Um pensamento projetado no espaço. Um eco de energia. Alguma assinatura invisível.

E aquilo, sob a ótica da minha pesquisa de campo, era um dado metodológico fascinante. Muito interessante.

Lentamente, inclinei a cabeça para o lado, sentindo a descarga maravilhosa da adrenalina sobrenatural correr pela minha essência abstrata outra vez.

— Bem, bem, bem... — murmurei para as paredes de madeira, os olhos brilhando de pura travessura.

Edward continuava girando levemente o rosto, observando os cantos do quarto com uma fisionomia pensativa, confusa e genuinamente intrigada pela anomalia invisível que o cercava.

Meu sorriso aumentou de tamanho, preenchendo o vazio da minha alma penada. Parece que as engrenagens da convivência naquela colina de Forks tinham acabado de ganhar contornos infinitamente mais divertidos.

As coisas ficaram infinitamente mais divertidas. E mais frustrantes. Principalmente frustrantes.

Porque, após aquele fragmento de segundo bizarro no quarto dele, eu passei os três dias subsequentes tentando descobrir, por meio de rigorosos testes práticos, se Edward realmente tinha capturado alguma flutuação invisível ou se o meu cérebro imaterial estava apenas tecendo teorias conspiratórias por puro tédio crônico. Os resultados científicos foram totalmente inconclusivos. O que eu odiava com todas as minhas forças abstratas.

Eu materializava a minha essência perto dele. Nada. Sentava-me de forma folgada exatamente ao seu lado no estofado. Nada. Ficava estática, plantada como um poste bem no meio do corredor enquanto ele atravessava o casarão. Nada. Ele passava por mim como se eu fosse apenas uma lufada de vento úmido vindo da floresta.

Houve uma tarde em que gastei vinte minutos inteiros flutuando de cabeça para baixo, encarando as feições dele a menos de um metro de distância. Nada. Foi uma situação metodologicamente constrangedora. Principalmente porque o sujeito passou os vinte minutos focado na leitura de um manuscrito em latim sem sequer piscar de forma prolongada.

— Você é uma criatura biologicamente impossível, Edward Cullen — reclamei, cruzando os braços no ar. Nenhuma resposta verbal. — Eu retiro o que disse antes; eu prefiro mil vezes a interatividade do Emmett. — Nenhuma oscilação térmica. — Na verdade, pensando bem, eu prefiro até o mau humor da Rosalie.

Aquilo era uma óbvia mentira científica, claro. Mas eu estava profundamente irritada no meu orgulho de assombração.

Na tarde do quarto dia, a cortina de água retornou com força total. Forks parecia nutrir uma relação obsessiva e quase doentia com a chuva. Àquela altura da pós-vida, eu já suspeitava seriamente que o sol fosse apenas uma lenda urbana local projetada para dar falsas esperanças aos moradores.

O casarão encontrava-se imerso em um silêncio sepulcral. Os outros jovens Cullen ainda não haviam retornado do confinamento do ensino médio; Carlisle operava humanos no hospital; e Esme tinha saído para explorar alguma estufa ou loja de jardinagem na região.

Restava unicamente Edward. Ele estava acomodado na sala de estar. Lendo. É claro que ele estava lendo. Às vezes eu me questionava se o sujeito portava outros hobbies funcionais. Talvez ele colecionasse volumes raros. Talvez seus pulmões imortais respirassem poeira de biblioteca. Talvez ele se alimentasse estritamente de metáforas e sintaxes antigas; eu não descartava nenhuma possibilidade na minha investigação.

Eu estava confortavelmente sentada no encosto alto do sofá de couro, observando o perfil imóvel dele, quando a engrenagem da realidade sofreu um solavanco estranho.

Uma sensação física anômala. Uma espécie de pressão atmosférica densa e pesada, como uma corrente elétrica invisível rasgando a estrutura tridimensional da casa. O meu corpo fantasmagórico ficou completamente rígido. Franzi as sobrancelhas, pairando no ar.

Aquilo era novo. Muito novo.

A sensação expandiu-se pela minha essência. Não parecia uma dor física, mas portava uma intensidade avassaladora, estranha e, ao mesmo tempo... assustadoramente familiar. Como o eco distorcido de uma lembrança muito antiga que eu tentava agarrar, mas não conseguia alcançar.

Minha atenção investigativa foi desviada à força em direção à grande vidraça. A chuva fustigava o vidro com violência; o vento arrastava os galhos dos pinheiros lá fora. E, por uma fração infinitesimal de segundo, o cenário da tempestade desapareceu.

Eu vi alguma coisa. Uma imagem nítida projetada na minha mente.

Uma garota correndo em desespero pela escuridão da floresta. Um vestido azul-escuro rasgado pelos espinhos. Lama salpicando as pernas. Um pânico primitivo sufocando a garganta.

Então, o flash desmoronou. Eu cambaleei para trás no ar, os olhos arregalados.

— O quê...? — sussurrei para o nada.

Meu coração inexistente simulou uma aceleração coreográfica dentro do peito. A imagem tinha cruzado a minha percepção com tanta rapidez que eu mal dispunha de capacidade neurológica para processá-la. Mas havia sido real. Eu guardava a certeza absoluta de que tinha sido uma memória legítima.

Antes que eu pudesse formular uma hipótese científica, a minha cabeça girou e o plano visual foi quebrado outra vez. Uma segunda imagem, consideravelmente mais nítida e violenta, explodiu na minha mente.

Mãos frias e rígidas como garras de ferro. Alguém segurando o meu braço com uma força brutal. Uma voz masculina carregada de raiva rastejando perto do meu ouvido. Uma escuridão densa, opressiva e final que engolia tudo.

E então... o vazio.

O mundo físico retornou ao seu eixo de normalidade em um estalo mecânico. O ruído da chuva nas janelas. A calmaria da sala de estar. O estofado de couro do sofá. E Edward.

Permaneci flutuando no mesmo lugar, estática, os pensamentos fragmentados tentando de fato compreender a magnitude do fenômeno que acabara de me atingir. Sem qualquer sucesso, como de costume na minha condição de amnésia crônica.

— Certo... — murmurei para as paredes, a voz saindo em um fio trêmulo. — Isso foi um pouco preocupante.

Levantei os olhos para reaver o foco do ambiente. E foi aí que o meu sistema operacional de fantasma travou outra vez.

Edward Cullen estava me encarando. Direta, cirúrgica e milimetricamente. Sem piscar as pálpebras douradas, sem mover um único milímetro de seus músculos de mármore, sem sequer manter o verniz ou o fingimento de que continuava compenetrado na leitura do manuscrito em seu colo.

Permaneci totalmente imóvel por um segundo. Depois por dois. Uma estática densa se instalou no cômodo. Olhei rapidamente para trás, por cima dos meus ombros invisíveis; não havia nenhuma alma viva ou morta ali. Varri os olhos para as laterais; também nenhum sinal de anomalia. Voltei a travar o foco das minhas órbitas com as dele. Edward continuava mantendo a mira de seu olhar fixada exatamente contra o meu rosto.

— Tá legal... — inclinei a cabeça para o lado, estreitando os olhos. — Você está direcionando a sua capacidade visual para uma coordenada espacial muito específica do vácuo, não acha?

Nenhuma resposta verbal. O vampiro parecia ter sido transformado em uma estátua ornamental de museu europeu. Uma estátua portando uma fisionomia extremamente confusa e chocada.

Cruzei os braços espectrais, flutuando um centímetro mais perto.

— O que foi, seu esnobe?

Silêncio absoluto.

— Por acaso você acabou de ver um fantasma?

Nada. Nenhuma oscilação biológica. Mas a linha de suas pupilas douradas continuava firmemente presa à minha frequência.

Eu comecei a esboçar um sorriso. Devagar. Muito devagar, sentindo uma descarga maravilhosa de pura adrenalina pós-morte percorrer a minha essência, enquanto uma suspeita absurdamente fantástica começava a ganhar contornos de realidade.

— Não pode ser...

Dei um passo flutuante à frente, encurtando a distância tridimensional. Edward não executou o menor desvio de foco. O meu sorriso travesso expandiu-se de orelha a orelha.

— Não, não, não... isso é metodologicamente impossível...

Mais um avanço sutil no ar. Nenhuma alteração no padrão de fixação dele.

— Você não está fazendo o que eu acho que está fazendo...

Outro passo. Agora eu me encontrava posicionada quase que inteiramente na frente da poltrona dele, orbitando o seu espaço pessoal. Edward parecia ter sofrido um colapso completo nas funções motoras; parecia incapaz de formular um fonema, de simular uma respiração ou de processar um pensamento lógico em sua mente imortal.

Estiquei o meu braço fantasmagórico, abri bem os dedos e acenei com vigor de um lado para o outro bem diante das feições perfeitas dele.

As órbitas douradas acompanharam a trajetória mecânica do movimento da minha mão.

O meu queixo virtual quase despencou no tapete da sala.

— Meu Deus do céu — sussurrei, os olhos arregalados de puro choque. Aproximei o meu rosto pálido ainda mais do dele, quebrando qualquer protocolo de privacidade. — Meu Deus!

Edward continuava mantendo o foco de sua visão cravado nas minhas feições. Finalmente, concentrando toda a minha energia espiritual, consegui formular a pergunta que inauguraria uma nova era naquela colina de Forks:

— Você está me enxergando de verdade?

O silêncio que se seguiu foi palpável. Então, de forma sutil, quase imperceptível, mas de uma clareza mecânica absoluta, ele assentiu com a cabeça. Uma única vez.

Eu simplesmente rompi a calmaria do casarão com um berro de pura satisfação:

— AAAAAAAH!

E, imediatamente, abandonei qualquer resquício de dignidade científica e comecei a pular. Literalmente. Executando saltos acrobáticos e flutuantes pela extensão tridimensional da sala de estar, zanzando de um lado para o outro como uma lunática pós-morte.

— Você está me vendo! — gritei para as paredes descascadas, dando uma cambalhota no ar. — Você está me vendo de verdade, seu esnobe! — Mais um pulo espalhafatoso sobre a mesa de centro. — VOCÊ ESTÁ ME VENDO!

Eu não fazia a menor e mais remota ideia de quantos anos exatos haviam se arrastado desde a primeiríssima vez que uma alma viva tinha demonstrado a capacidade óptica de registrar a minha identidade civil com total nitidez. Décadas inteiras. Longas, frias e empoeiradas décadas. Tempo suficiente para transformar aquele simples fenômeno visual em um legítimo evento histórico para a minha eternidade entediada.

Edward finalmente pareceu recuperar uma fração residual de suas funções cerebrais e de sua coordenação motora de predador.

— O que... — a voz aveludada dele saiu fraca, quase sumindo em um fio tenso que cortou o barulho da tempestade. — O que exatamente você é?

Cessei os meus saltos comemorativos no ar, pairando suavemente acima do tapete. Esbocei o meu sorriso mais largo, cruzei os braços sobre o peito e inclinei a cabeça, adotando uma postura de puro deboche refinado.

— Sério, Edward Cullen? — indaguei, erguendo uma sobrancelha.

Ele continuava mantendo uma rigidez de completo choque biológico contra o estofado da poltrona.

— O quê?

— Essa é de fato a sua melhor e mais complexa indagação filosófica após quebrar o fluxo da realidade? — ironizei. — "O que você é?"

— Acho que sim... dadas as circunstâncias — ele admitiu, a fisionomia ainda tensa.

— Por acaso você não tem nenhuma outra dúvida metodológica nos seus arquivos mentais?

— Umas cinquenta, no mínimo.

— Excelente. Gosto de mentes questionadoras e analíticas.

O meu sorriso de pura travessura aumentou de volume, preenchendo o vazio da minha alma penada. Estiquei o indicador e apontei de forma enfática contra o peito dele.

— O brutamontes do Emmett passou exatas duas semanas gastando a saliva imortal dele para discorrer sobre a minha existência para esta sala.

Edward piscou as órbitas douradas, o processamento de dados sofrendo um solavanco evidente.

— O quê?

— Duas semanas inteiras, Edward.

— Espere um pouco...

— Duas semanas.

— Não pode ser...

— Sim. Exatamente.

O vampiro executou o movimento mecânico de engolir em seco, e eu fui capaz de capturar com precisão cirúrgica o exato milissegundo em que uma conclusão terrivelmente horrível, humilhante e catastrófica para o orgulho dele se formou em sua mente secular.

— Você... — ele fez uma pausa dramática que pareceu dilatar o tempo. — Você é a assombração que ele relatou?

Não consegui exercer o menor controle sobre a minha própria língua fantasmagórica. Explodi em uma gargalhada limpa e ruidosa, deliciando-me com a queda do esnobe.

— Ah, finalmente as engrenagens da inteligência Cullen alcançaram a linha de chegada! — comemorei, executando uma pequena, exagerada e teatral reverência cortesã no ar. — Em carne e osso, meu caro. — Ponderei melhor sobre a precisão dos termos científicos. — Bem, na verdade, operando com total ausência de carne e com zero estrutura óssea. Mas sim.

Levantei os braços de forma melodramática, decretando o meu domínio sobre aquele espaço.

— Sou eu. A garota fantasma da camisola de algodão.

O silêncio sepulcral que desabou sobre a sala de estar em seguida foi simplesmente a coisa mais maravilhosa que experimentei desde que meu coração parara de pulsar. Edward parecia estar executando uma varredura completa em seu banco de memória, revisando mentalmente cada uma das ocasiões em que tinha rido abertamente, ironizado ou imitado os gritos agudos de Emmett de forma implacável.

Todas as vezes. Uma. Por. Uma.

Eu quase guardava a capacidade técnica de escutar o ruído mecânico das engrenagens do orgulho dele girando em falso no vácuo, enquanto ele digeria o peso daquela humilhação familiar histórica

Edward me observou por mais alguns instantes em silêncio absoluto. Sua atenção dourada era cirúrgica, como se estivesse tentando montar mentalmente as peças de um quebra-cabeça biológico complexo, ou simplesmente confirmando para si mesmo que a imagem flutuando à sua frente era real.

O que, sendo justa, não deixava de ser uma ironia magnífica, considerando que eu era, com uma margem esmagadora de vantagem, a criatura menos real e palpável de toda aquela propriedade.

Então, ele formulou uma pergunta simples. Aquela mesma pergunta que ecoou pelo vão da sala, fazendo a minha estrutura vacilar:

— Qual é o seu nome?

A indagação me pegou totalmente desprevenida. Não porque portasse alguma dificuldade técnica ou conceitual para ser respondida, mas porque fazia muito tempo — séculos, na minha percepção distorcida — que nenhuma alma viva se dava ao trabalho de pronunciar aquelas palavras para mim. Tempo demais. O isolamento havia sido longo o suficiente para que eu quase esquecesse como era a sensação de ouvir alguém genuinamente interessado na resposta.

O meu sorriso travesso diminuiu um pouco de volume. Não chegou a desaparecer por completo; apenas perdeu a pose de deboche, tornando-se algo muito mais suave e contido.

— Bella — respondi, a palavra saindo em um sopro consideravelmente mais baixo do que eu pretendia.

Edward assentiu lentamente com a cabeça, testando a sonoridade das sílabas.

— Bella.

Era uma sensação estranha ouvir outra pessoa dizer o meu nome. Estranha de um jeito bom, aquecido. Eu não tinha me dado conta do tamanho do vazio e da falta que sentia daquilo até o exato milissegundo em que a voz dele preencheu a sala.

— E você é o Edward — repliquei, recuperando parte do meu verniz irônico.

— Você já tinha essa informação — ele constatou, erguendo ligeiramente o queixo.

— Claro que eu tinha.

— Como?

— Eu moro aqui, seu esnobe.

Edward ergueu uma das sobrancelhas acobreadas, claramente intrigado pelo meu tom.

— E você acredita que o simples fato de habitar o mesmo teto explica saber isso?

— Explica absolutamente tudo nesta colina.

Estiquei o indicador e apontei enfaticamente contra o peito de mármore dele.

— Eu sei exatamente quem é você.

Direcionei o gesto na direção da porta dos fundos.

— Sei quem é o brutamontes do Emmett.

Gesticulei para a cadeira vazia do canto.

— Sei quem é a Rosalie.

Fui listando os nomes com as mãos, dando pequenos saltos flutuantes no ar a cada nova menção.

— Alice. Jasper. Esme. Carlisle. Eu domino a genealogia inteira deste clã.

Edward permaneceu me encarando em um silêncio reflexivo e denso por alguns segundos, processando o relatório da minha espionagem profissional.

— Bella...

— Sim? — inclinei a cabeça para o lado, portando a fisionomia mais inocente que consegui simular.

— Por acaso você passa as suas horas livres executando uma óbvia espionagem contra a privacidade da minha família?

Ponderei meticulosamente sobre os termos daquela acusação por alguns instantes antes de estruturar a minha defesa jurídica.

— "Espionagem" é um vocábulo conceitualmente muito agressivo e carregado de preconceito contra os mortos, Edward.

— Bella — ele repetiu, o tom de voz modulando para uma advertência paciente.

— Eu prefiro registrar a atividade nos meus arquivos como uma "observação recreativa de campo".

— Você espiona a minha família — ele decretou, categórico.

— Operando com total justiça imobiliária e teológica, foram vocês que invadiram o meu casarão sem autorização prévia da proprietária legítima.

Edward abriu a boca para formular uma réplica lógica. Fechou. Abriu novamente, as engrenagens de seu intelecto centenário girando em falso por um milissegundo. Então, ele pareceu adotar a brilhante conclusão de que discutir semântica e direitos civis com uma adolescente fantasma e entediada era o equivalente a marchar em direção a uma derrota catastrófica.

— Justo — ele cedeu, relaxando os ombros de mármore na poltrona.

— Obrigada pela validação.

— Não guarde ilusões, isso não foi de modo algum um elogio.

— Eu escolho ativamente interpretar os dados como se tivesse sido um.

Edward balançou a cabeça de forma condescendente, mas foi totalmente incapaz de conter a linha de um sorriso discreto e genuíno que desenhou-se no canto de seus lábios perfeitos. Aquela reação branda me fez sorrir de volta de forma espontânea.

Porque fazia longas, frias e empoeiradas décadas que a minha única atividade social consistia em estabelecer diálogos em voz alta comigo mesma ou criar personalidades para goteiras de cozinha. Décadas inteiras de isolamento absoluto.

E agora, em um estalo mecânico da realidade, alguém estava de fato respondendo às minhas provocações. Alguém conseguia captar a frequência da minha voz fantasmagórica. Alguém mantinha a capacidade óptica de me sintonizar visualmente no meio do cômodo.

Pela primeiríssima vez em muito, muito tempo... o peso do silêncio de Forks não parecia tão esmagador. Eu não me sentia completamente sozinha.