Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
26 Capítulo 26
Depois de uma conexão cansativa, duas horas de turbulência implacável, três cafés horrorosos com gosto de asfalto requentado e uma senhora que passou metade do voo tentando me convencer a entrar num esquema que parecia demais com uma pirâmide financeira... eu finalmente cheguei.
A cidade era pequena, bonita, afogada numa névoa densa e cheia de árvores escuras. O tipo exato de lugar que me deu, na mesma hora, aquela sensação na pele. Um palpite forte de que eu estava perto. Muito perto. Depois de anos caçando no escuro, fazendo contas no caderno e esperando sem fôlego... meu coração parecia um tambor descontrolado dentro do peito.
Porque agora eu tinha uma pista real. A foto da Alice que achei na internet, o colégio no Oregon, os papéis da escola. Tudo apontava certinho para cá.
Minha primeira parada, claro, foi uma cafeteria local. Investigações difíceis exigem doses cavalares de café para o cérebro funcionar. Ciência pura.
Sentei perto do balcão de madeira velha, pedi um café preto e comecei a sondar o terreno com todo o cuidado:
— Desculpe — chamei, tentando parecer o mais normal possível.
A moça do balcão virou com um sorriso simpático.
— Sim?
— Por acaso você conhece uma família chamada Cullen que mora por aqui?
O silêncio que tomou conta das xícaras deu até para sentir. Meu coração disparou de vez. A moça piscou duas vezes, pensando no nome.
— Cullen?
— Isso. Eles mesmos.
— Faz bastante tempo que não ouço esse nome por aqui — ela murmurou, ajeitando o pano de prato no ombro.
Cheguei mais perto do balcão, tentando não parecer desesperada.
— Mas você lembra deles? Sabe se moravam aqui?
— Lembro, sim.
Meu coração deu um baque tão forte nas costelas que achei que ia sair pela boca.
— Eles moravam nesta região?
— Sim!
A confirmação saiu da minha boca alta demais, chamando atenção. A moça deu um passo para trás, desconfiada. Mudei a minha cara na hora, forçando um sorrisinho normal e calculado. Bem normal. Sem parecer uma maluca obsessiva com o peso de duas vidas nas costas.
— Quer dizer... sim? Eles moravam aqui perto?
— Você é parente deles por acaso? — ela semcerrou os olhos, me medindo.
— Não.
— Alguma amiga de infância de outra cidade?
— Também não.
— Então por que o interesse neles?
— Longa história — cortei o assunto, séria.
Muito longa. Uma história de duas vidas inteiras, sendo bem exata.
A moça apoiou o cotovelo no balcão, lembrando do passado.
— Eles eram um pessoal meio esquisito, se quer saber — ela comentou, baixando a voz.
— Sim — concordei, guardando o meu segredo.
— Bonitos demais para o padrão da cidade.
— Sim.
— Ricos demais para o comércio daqui.
— Sim.
— Educados demais para os adolescentes daqui.
— Sim.
A mulher parou de falar e olhou bem na minha cara, erguendo a sobrancelha.
— Você parece que já conhece bem o jeito deles.
Droga. Um vacilo no meu disfarce.
— Eles ainda moram na cidade? — perguntei rápido, mudando de assunto para despistar.
A moça ficou quieta por um segundo que pareceu eterno. E o jeito que a cara dela mudou fez o meu estômago dar um nó de pânico, afundando no vazio.
— Não.
Meu coração deu uma travada de verdade.
— Não?
— Não, eles foram embora.
— E quando exatamente eles saíram e sumiram daqui?
Ela pensou um pouco, buscando na memória.
— Faz uns cinco anos, mais ou menos.
O silêncio caiu na minha cabeça feito um bloco de concreto.
Cinco anos. A minha matemática tinha dado um erro terrível. Eu tinha me atrasado por meia década no mapa. Cinco anos inteiros de vácuo.
— Eles deixaram algum endereço novo no correio para mandarem as cartas? — insisti, tentando manter a voz firme.
— Não.
— Algum telefone que ainda funcione?
— Não.
— Nenhum contato na prefeitura?
— Não, nada.
— Nenhuma rede social que o pessoal da cidade saiba?
A moça deu uma risada, achando graça da minha inocência com a internet.
— Aquele pessoal mal aparecia em foto normal, garota. Que dirá na internet.
Justo. Totalmente justo. Malditos vampiros perfeitos em esconder rastros.
Mesmo assim, eu me recusei a aceitar a derrota logo de cara. Passei o resto do dia batendo perna pela cidade inteira, investigando tudo. Olhei os arquivos da escola de atletismo, mexi em papéis velhos da biblioteca, entrei em lojinhas, restaurantes de beira de estrada e parei os moradores mais velhos na calçada. Qualquer pessoa que lembrasse um pingo que fosse da família.
O resultado foi o mesmo em todas as esquinas:
— Ah, os Cullen da colina?
— Sim, eles mesmos.
— Foram embora, mudaram de cidade.
— E você tem alguma pista, sabe para onde eles foram?
— Não, sumiram no meio da neblina.
— Ninguém na cidade ficou com o contato do médico ou dos filhos?
— Não.
— Nenhuma pista deixada para trás?
— Nenhuma, menina. Nada.
No fim da tarde, quando o sol já estava sumindo atrás dos pinheiros escuros da praça central, me joguei num banco de madeira velha.
Derrotada. Totalmente derrotada como detetive pela primeira vez desde o meu trato na praia do além. As pessoas passavam por mim conversando sobre coisas normais da rotina, e eu estava ali, presa num corpo de dezoito anos depois de viajar metade do país de avião, com as mãos abanando.
— Inacreditável... — resmunguei para o escuro do jardim, mordendo os dentes de pura raiva. — Mais de cem anos de vida somados na Terra. Sete vampiros imortais, super bonitos e cheios de dinheiro... e absolutamente ninguém nesta cidadezinha de quinta categoria sabe para onde o bando foi.
O universo com certeza continuava se divertindo com a minha cara, se recusando a ajudar nos meus planos.
Apoiei o rosto nas mãos, bufando de ódio de mim mesma. Vai ver, pensando bem, eu tinha criado expectativa demais. Vai ver achei que encontrar eles ia ser fácil igual a dar uma volta no quarteirão. Vai ver eu estava procurando no lugar errado do mapa. De novo.
Um vento frio e úmido passou pela praça, levantando umas folhas secas do chão. E, bem naquele segundo... uma lembrança super nítida apareceu na minha cabeça. O Edward. Perfeitamente desenhado na minha mente, sentado no galho mais alto de um pinheiro em Forks. Me olhando com aqueles olhos dourados e com aquele sorrisinho torto e irritante de leitor de mentes.
“Você é teimosa demais, Bella.”
Fechei os olhos com força no escuro da praça. E, contra toda a lógica do mundo, quase consegui ouvir o som certinho da voz dele no ar. Quase. Quando abri os olhos de novo para o mundo real... soltei um suspiro comprido e focado.
Porque o leitor de mentes estava coberto de razão na avaliação dele. Eu era teimosa. Ridiculamente teimosa. Cabeça-dura e avessa a desistir de qualquer briga.
Levantei do banco num movimento só. Peguei a alça da minha mochila, joguei no ombro com força e endireitei as costas. Comecei a andar pela calçada cinza.
O bando dos Cullen podia ter sumido do mapa perfeitamente. Ninguém na cidade podia saber o endereço deles. Minha única pista real podia ter morrido nos papéis velhos do Oregon.
Mas eu não tinha enganado o Wi-Fi de casa aos cinco anos, montado um negócio ilegal de limonada aos oito, batido boca com os meus pais aos dez e viajado o país inteiro de avião para desistir no primeiro problema que aparecesse.
Eu passei sessenta anos como fantasma numa casa vazia no meio da neblina de Forks. Sobrevivi a duas mortes diferentes. Bati boca com uma divindade numa praia misteriosa do além e, acima de tudo, consegui sobreviver e criar um irmão mais novo super pentelho de doze anos em Chicago.
Sete predadores vegetarianos fugitivos com certeza não seriam os culpados por me fazer aceitar a derrota.
Mesmo que, bem naquele segundo... eu não fizesse a menor e mais remota ideia de para onde ir agora.
A temporada de caça continuava aberta.
Naquela noite, eu estava com muita raiva. Não triste. Não chorando ou sofrendo. Com raiva.
Tinha uma diferença enorme entre essas duas coisas. A tristeza acaba com você, faz você se encolher e chorar debaixo das cobertas. A raiva? Ah, a raiva faz você abrir o notebook às duas da manhã, no quarto de um hotel barato, e começar a montar teorias dignas de um agente do governo maluco.
Foi exatamente o que eu fiz.
Em poucas horas, o quarto virou o quartel-general de uma detetive à beira de um ataque de nervos. Tinha mapas de estradas espalhados pela cama, blocos de anotações com dados de cidades, papéis de colunas sociais, listas de escolas e setas. Muitas setas desenhadas com caneta vermelha. Setas até demais, sendo sincera. Uma pessoa normal que entrasse ali ia chamar o hospício na hora. Eu chamava aquilo de organização de dados.
— Certo — murmurei para o escuro, abrindo uma página em branco no site de buscas. — Vamos começar de novo e pensar com lógica.
Os Cullen tinham sumido dali faz exatos cinco anos. Cinco anos. O que significava, fazendo as contas com a minha idade, que eles desapareceram quando eu tinha doze ou treze anos em Chicago. E agora eu já tinha dezoito.
Seis anos de tempo perdidos por causa do meu corpo de criança. Lindo. Maravilhoso.
Mas bem no meio desse ódio, me veio um estalo. Uma ideia simples, matemática, tão óbvia que me deu raiva por não ter pensado nisso antes.
Eu passei meses caçando o rastro do grupo inteiro dos Cullen. Quando, na verdade, o meu alvo certo devia ser o Carlisle. Porque o Carlisle era previsível. Super certinho, metódico e preso às manias dele. O Edward podia querer se isolar do mundo e sumir; a Alice podia esconder as visões; o Jasper sabia como não chamar atenção. Mas o chefe da família? O homem tinha um vício crônico em trabalhar como médico de humanos. Era um absurdo. O sujeito já tinha passado dos trezentos anos de vida imortal e ainda precisava fazer plantão em pronto-socorro.
Abri o computador e mudei o rumo da busca. Comecei a olhar portarias de hospitais, registros de conselhos de medicina de vários estados, artigos científicos, congressos de médicos e revistas da área. Qualquer brecha de papelada. Porque o Carlisle podia ter muitas qualidades, mas ser discreto em hospital com certeza não era uma delas quando o assunto era salvar vidas na cirurgia.
Duas horas procurando e nada... zero resultados.
Quatro horas na madrugada e só tela em branco.
Cinco horas direto e eu já estava pensando seriamente em virar hacker e invadir os sistemas do governo para conseguir as respostas.
Foi bem nessa hora de cansaço que um detalhezinho lá no fundo da tela chamou a minha atenção. Um artigo de medicina pequeno, antigo, perdido no meio de um monte de outros textos sem importância. Nada demais para quem não entende do assunto. Menos por causa do nome do autor: Dr. Carlisle Cullen.
Meu coração deu uma parada de mentira. Um segundo inteiro travado no peito.
— Não... — falei, chegando com a cara perto da tela até sentir o calor do monitor. — Não é possível.
Abri o arquivo em PDF com as mãos tremendo. Li a primeira linha. Li os parágrafos de novo. Li uma terceira vez para ter certeza de que o meu cérebro não tinha esquecido como lia.
Era ele. Tinha que ser. Aquele nome era raro demais, certinho demais para ser uma coincidência. O artigo tinha sido colocado no sistema fazia quatro anos. E o endereço de onde ele foi enviado era direto do... Alasca.
Fiquei durinha na cadeira do hotel, parada, enquanto as peças se encaixavam na cabeça com um estalo perfeito. Fazia todo o sentido do mundo.
Os Cullen já tinham morado no Alasca antes. Tanya, Kate, Irina, Carmen, Eleazar. O clã dos Denali — a outra família de vampiros vegetarianos que não gostava de bancar os monstros assassinos. Abri os olhos no susto com a lembrança, resgatando as conversas antigas de Forks.
— Seu filho da mãe certinho... — sussurrei para o nada, e um sorriso de deboche começou a aparecer no meu rosto.
O Edward, claro. Com certeza ele ia correr para o extremo norte, se escondendo com os únicos iguais que eles tinham no mundo, num lugar isolado, com quase nada de sol e espaço de sobra para imortais sumirem sem ninguém reparar.
Soltei uma risada curta, meio sem acreditar, no escuro do quarto. Porque, pela primeiríssima vez desde que nasci de novo, eu tinha uma direção de verdade. Uma pista real, palpável.
Meu coração disparou e minhas mãos de dezoito anos começaram a tremer no teclado. Não de medo, veja bem. Era a pura adrenalina da expectativa de sucesso. A caçada agora tinha um ponto certo no mapa.
Aí me veio outro pensamento na cabeça. Mais devagar, pesado e meio perigoso.
E se eles ainda estiverem morando lá bem agora?
O quarto pareceu ficar menor, o silêncio pesando nas paredes de um jeito sufocante. Durante anos, pensei nesse momento como um sonho de criança. Mas transformar o plano em realidade era uma física totalmente diferente.
E se eu realmente conseguir dar de cara com aqueles olhos dourados do Edward Cullen?
A ideia caiu feito uma pedra no meu peito, pesada e assustadora. Porque eu não era mais a Bella fantasma. Não era a assombração entediada que contava rachaduras nas paredes em Forks. Não era a adolescente travada num limbo. Não era nem a alma de mentira que sumiu na frente dele no quintal da Esme.
Eu era a Samantha Isabella. Outro corpo. Outra certidão de nascimento. Outra vida de verdade, com dezoito anos de lembranças novas e pessoas que gostavam de mim.
E, de repente... pela primeira vez nessa nova vida... senti o gosto frio do medo de verdade. Medo de ele não me reconhecer nesse corpo novo. Medo de ele ter cumprido a minha ordem e seguido em frente com o tempo. Medo de ele não ter seguido e estar preso na mesma dor do século passado.
Fiquei encarando a tela por um tempão, perdida nos meus pensamentos de risco.
Aí a tela do meu celular acendeu com uma vibração na mesa de cabeceira. Uma mensagem. O Ethan. Claro, quem mais estaria me cuidando a essa hora?
Ethan: Sobreviveu ao primeiro dia de liberdade ou já foi presa pela polícia local?
A minha cara de brava sumiu na hora, dando espaço para um sorriso discreto. Digitei a resposta super rápido:
Bella: Infelizmente para os seus planos de roubar o meu quarto, sim. Sobrevivi.
O balãozinho de digitação do traíra piscou na hora:
Ethan: Que pena. O estoque de batatas fritas da casa agradeceria a sua ausência.
Meu sorriso aumentou de canto.
Bella: Eu também senti a sua falta, pestinha.
Os três pontinhos dele apareceram na tela. Sumiram. Demoraram um pouco na marra dele e voltaram:
Ethan: Não foi isso que eu mandei no relatório, mentirosa.
Mentirosa. Sorri com a resposta. Eu conhecia cada mentira e deboche do Ethan; sabia como ele funcionava desde o berço. Aí o celular piscou com uma mensagem nova dele, sem piada dessa vez:
Ethan: Mas e aí... achou o que a sua teimosia obsessiva estava procurando?
Tirei os olhos do celular e olhei para o artigo de medicina na tela do notebook. Olhei para o nome Cullen estampado ali. Olhei para o Alasca no mapa. Olhei para aquela chance que pareceu impossível durante quase dez anos morando em Chicago.
Peguei o aparelho e digitei o veredito:
Bella: Talvez, Ethan. Talvez a resposta final esteja na mesa.
Desliguei a tela do celular, coloquei de volta na mesa e voltei a olhar para o computador. Um sorriso lento, focado, meio nervoso, mas cheio de esperança apareceu no meu rosto.
Porque depois de oito anos caçando no escuro nas regras do mundo dos homens... eu finalmente tinha um destino de verdade anotado no meu caderno. E se o universo tiver um pingo de decência e não quiser sacanear os meus planos de novo... a minha próxima parada vai ser o Alasca.
Estou chegando, Edward. Limpa o piano e prepara os argumentos, porque a caçada está oficialmente subindo para o norte.
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