Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
14 Capítulo 14
— Uau — murmurou o Emmett, quebrando o silêncio da sala com a delicadeza de um caminhão desgovernado. Ele olhava para o meu corpo flutuando, sem perder nenhum detalhe. — Ela é bem menor do que eu imaginava.
— Emmett! — deu um bronca a Rosalie na hora, lançando um olhar bravo para ele, embora ela mesma ainda estivesse chocada me vendo ali.
— O quê? Eu estava esperando um monstro gigante e assustador para justificar o meu pânico!
— Eu estou muito bem aqui, seu brutamontes — falei, cruzando os braços sobre a minha camisola antiga de algodão e revirando os olhos.
O Emmett deu um pulo exagerado para trás, fazendo o chão de madeira tremer todo.
— ELA FALOU DIRETO COMIGO!
— Claro que falei com você! Você é ótimo para inventar teorias malucas, mas não enxerga o óbvio.
— Isso é incrível demais!
— Lembre-se de que você quase desmaiou de susto só com o barulho de uma caneta caindo no tapete — debochei, sentindo meu humor voltar aos poucos.
— Aquilo foi uma armadilha que você planejou muito bem!
Apesar de toda a dor que a lembrança terrível sobre o Riley Thompson tinha deixado no meu peito, acabei soltando uma risada. Fraca e baixinha, mas uma risada de verdade. Pela primeira vez desde que me lembrei daquela faca, senti que conseguia respirar um pouco melhor.
A Esme me olhava com um carinho enorme, com aquele jeito doce de mãe. O Carlisle continuava sério como líder da casa, mas dava para ver que ele estava fascinado por aquilo tudo. O Jasper analisava a cena em silêncio, prestando atenção em todas as emoções da sala. A Alice estava super agitada, parecendo prestes a explodir de curiosidade.
E o Edward...
O Edward continuava parado bem ao meu lado, perto do tapete. Ele não tirava os olhos dourados de mim nem por um segundo. Ele parecia super cuidadoso, como se estivesse checando a todo momento se eu ainda estava ali de verdade. Como se tivesse medo de que, se piscasse, eu fosse sumir no ar.
Tentei dar um sorriso largo para acalmá-lo. Não funcionou muito bem porque meu rosto ainda tremia um pouco, mas a minha teimosia me fez tentar.
— Então vocês realmente conseguem me ver agora?
— Sim — respondeu a Alice na mesma hora, dando um passo rápido para a frente, com os olhos brilhando. — Perfeitamente!
— Todos nós, Bella — completou o Carlisle, com uma voz calma que confirmava que tudo aquilo era real.
Olhei para baixo e encarei as minhas próprias mãos. Elas pareciam exatamente iguais ao que eu via todos os dias. Transparentes, como sempre foram durante todos esses anos no escuro. Fantasmagóricas e sem corpo, exatamente como se espera de um fantasma. Eu não tinha mudado como passe de mágica. Continuava morta. Continuava presa àquela casa em Forks. Continuava sendo a mesma garota fantasma que passou anos conversando apenas com uma goteira quebrada na cozinha.
Mas alguma coisa muito grande tinha mudado no mundo.
Agora eles conseguiam me ver sem nenhuma complicação. E, a julgar pela cara de choque do Emmett no meio da sala... aquilo era algo tão assustador para eles quanto era para o meu próprio orgulho.
Os dias seguintes mudaram completamente a rotina daquela casa. Não de um jeito barulhento ou escandaloso, mas o ambiente parecia estranho, quieto e cheio de cuidado. Era como se a família inteira de vampiros estivesse pisando em ovos ao redor de algo muito delicado, com medo de quebrar.
No caso, esse "algo delicado" era eu.
O que não deixava de ser engraçado. Afinal, eu continuava sendo um fantasma que ninguém podia tocar. Mas agora, pelo menos, eu não era mais invisível.
Mesmo assim, era muito desconfortável ter uma família inteira de predadores me encarando o tempo todo. Principalmente quando quem não parava de olhar era o Emmett.
— Você pisca quando está pensando? — perguntou o gigante de dois metros, me olhando com uma curiosidade quase de criança.
— Emmett, eu não "pisco" de verdade por motivos óbvios — respondi, bufando e cruzando os braços sobre a minha camisola antiga.
— Mas os seus olhos dão uma tremidinha estranha quando você fica olhando para a parede.
— O nome disso é expressão facial, seu brutamontes. É o que as pessoas humanas fazem.
— Eu acho engraçado — ele deu de ombros, abrindo um sorriso enorme.
— Eu não pedi a sua opinião.
— Eu sei.
E ele continuava sorrindo, como se ficar me olhando transparente fosse o melhor passatempo do mundo.
Eu já estava planejando assombrar o quarto dele só por vingança quando o Jasper entrou na sala. Ele estava com uma cara totalmente diferente. Não era o seu jeito calmo de sempre; ele trazia um clima pesado que deixou todo mundo alerta na hora.
O Edward percebeu a mudança no ar e parou de tocar piano.
— Você descobriu alguma coisa importante nos papéis?
O Jasper concordou com a cabeça, muito sério.
— Sim.
A Alice parou de se mexer e ficou séria na mesma hora, franzindo a testa.
— Sobre o Riley Thompson?
Ouvir aquele nome ainda me dava um aperto incômodo no peito. Era a pessoa que me causou tanta dor, mas de quem eu ainda não lembrava quase nada da época em que eu estava viva.
O Jasper foi até a mesa de centro de madeira e colocou uma pasta escura em cima dela.
— Eu continuei procurando nos registros antigos e papéis da cidade de Forks.
O Carlisle se aproximou com seu jeito médico e atento. A Esme parou de arrumar as flores no vaso. A Rosalie finalmente tirou os olhos do nada e prestou atenção. E o Emmett... bom, até o Emmett calou a boca e ficou totalmente quieto. O que, naquela casa, já era um sinal de que a coisa era muito séria.
O Jasper abriu a pasta devagar.
— O nome do Riley Thompson aparece em muito mais documentos da cidade do que a gente imaginava.
O Edward cruzou os braços com força, ficando super tenso.
— E o que dizem esses papéis?
O Jasper hesitou por um segundo antes de soltar a informação. Foi só uma pausinha curta, mas o bastante para fazer o meu estômago de fantasma dar uma volta — mesmo que eu nem tivesse um estômago de verdade.
— Ele não foi a única pessoa que desapareceu naquele ano.
Um silêncio pesado tomou conta da sala, abafando até o barulho do vento lá fora. O Jasper tirou outro papel da pasta. Era uma página de jornal muito antiga, amarelada e caindo aos pedaços pelo tempo.
— Em 1962... registraram outro desaparecimento em Forks.
O silêncio ficou ainda mais pesado e assustador. Não era só o choque de me verem visível; agora era algo muito sério e perigoso. Algo que tinha nome de crime, mas que ninguém ali tinha coragem de falar em voz alta ainda.
Eu sentia o clima pesado no jeito protetor como o Edward me olhava. No jeito sério da Alice, que tinha parado de sorrir. Na cara do Emmett, que pela primeira vez na vida não tinha nenhuma piada boba para fazer.
— Uma garota chamada Bella Swan desapareceu sem deixar rastros.
Ouvir o meu próprio nome completo naquele contexto de polícia foi esquisito e assustador. Pesado demais para a minha cabeça aguentar. Real demais naquele papel velho.
Ajoelhei o corpo no ar e flutuei um pouco para trás, me afastando da mesa.
— Não — falei na hora, com a voz fraca e trêmula, tentando parar aquela conversa.
O Edward franziu a testa, ficando totalmente preocupado enquanto dava um passo na minha direção.
— Bella...
— Não — repeti mais forte, tentando fingir coragem para esconder o pânico que tomava conta de mim. — As coisas não podem ser assim.
Mas o Jasper não parou de olhar para os papéis. Ele virou mais uma folha da pasta. Devagar demais. Tão devagar que parecia saber que ninguém ali queria ouvir o que vinha a seguir.
— Tem mais coisas arquivadas aqui — disse ele, com a voz firme.
A Alice ficou séria de um jeito que nunca ficava.
— Mais o quê, exatamente?
O Jasper esperou um segundo, sentindo o medo de todo mundo ali. E então soltou a bomba:
— Relatórios antigos da polícia e depoimentos de testemunhas mostram que o Riley Thompson era muito violento nos meses antes de sumir.
O ar da sala pareceu congelar no mesmo instante.
O Carlisle franziu os olhos, atento como médico e líder.
— Violento de que jeito, Jasper? O que os papéis dizem?
O Jasper leu o trecho diretamente do papel:
— Ele se envolvia em brigas na rua o tempo todo. Os vizinhos reclamavam muito do barulho que ele fazia. E a polícia começou a investigar uma acusação de agressão em casa, mas o caso não foi terminado.
Um silêncio absoluto tomou conta da sala. Nem os galhos das árvores lá fora faziam barulho. Meu corpo de fantasma congelou no ar. Porque aquela palavra bateu de um jeito horrível e doloroso na minha cabeça sem memória.
Agressão em casa. Não parecia uma história antiga sobre a cidade de Forks, mas sim uma lembrança real, dolorosa e cheia de sangue.
O Edward virou o pescoço e olhou bem nos meus olhos. Desta vez, ele não tinha nenhuma dúvida na cara. Ele estava começando a entender tudo o que tinha acontecido.
— Bella... — falou ele bem devagar, com a voz muito calma e cuidadosa. — Você não lembra mais nada dele?
Engoli em seco, um hábito inútil para quem não respira, mas que eu ainda fazia quando estava nervosa. Minha voz falhou ao tentar falar.
— Eu lembro dele como... o Riley.
Não consegui terminar a frase. Porque o resto das minhas memórias perdidas estava preso no escuro. Em um pânico terrível. Em mãos de homem me segurando com força por trás, me impedindo de fugir da casa.
O Jasper fechou a pasta com um barulho seco de papel.
— E tem mais um dado aqui.
A Rosalie cruzou os braços com força, brava para tentar proteger todo mundo daquela conversa ruim.
— Já ouvimos o bastante por hoje, Jasper. Chega.
Mas ele continuou, mostrando os papéis.
— O relatório final da polícia nunca foi assinado nem terminado pelo delegado da época.
A Alice franziu a testa, tentando adivinhar o motivo.
— Nunca? Por quê?
— Porque o Riley Thompson simplesmente sumiu do mapa antes que a polícia pudesse fazer mais perguntas a ele — respondeu o Jasper.
Silêncio total na sala. E então o Edward falou, com a voz baixa e marcante que ecoou por todo o ambiente:
— Ele sumiu logo depois de matar a Bella.
A frase caiu sobre a gente como um copo de vidro se quebrando no chão. Todo mundo olhou para ele na mesma hora. Mas o Edward não recuou. Ele continuou olhando fixamente para a minha cara pálida.
— Ele assassinou a Bella Swan em 1962 — disse o Edward devagar, organizando os fatos. — E, logo em seguida, fugiu para a floresta e desapareceu sem deixar rastros.
Meu estômago de fantasma embrulhou feio, como se eu fosse passar mal de verdade.
— Não... — minha voz saiu como um sopro bem fraco, quase sem som. — A história não terminou assim tão simples.
A Alice deu um passo à frente no tapete, com os olhos arregalados.
— Bella... você lembra perfeitamente do rosto dele naquela noite.
Concordei com a cabeça bem devagar, sentindo as lágrimas quase descendo pelo meu rosto.
— E você lembra de estar caída no chão desta mesma casa.
Concordei de novo, mantendo os braços cruzados sobre a camisola.
— E lembra do que… Do que aconteceu depois.
Lembra daquela dor era a parte mais difícil e dolorosa de todas. Mas eu fiz força e concordei mais uma vez, aceitando os fatos.
O silêncio pesado voltou para a sala. Muito mais triste agora. Muito mais claro. Como se o nome do monstro que todos tinham medo de falar finalmente estivesse escancarado na mesa.
Riley. O assassino.
O Edward fechou os olhos por um segundo para aguentar aquela dor. Quando abriu os olhos dourados, ele estava mais sério do que eu já tinha visto em todo o tempo em que estive ali.
— Então ele não desapareceu junto com você por acaso, Bella.
O Carlisle completou o raciocínio com a sua voz calma, mas muito triste:
— Ele fugiu depois que fez isso com você.
O Emmett finalmente voltou a falar, mas com a voz muito mais quieta e sem nenhuma brincadeira:
— Isso é... uma coisa bem horrível de se descobrir sobre esta casa.
Ninguém discordou dele. E eu? Fiquei ali flutuando, bem no meio da sala. Sentindo um aperto totalmente novo e esquisito no peito. Não era só o pânico da escuridão. Não era só a dor da faca na minha memória.
Era uma pergunta que me machucava por dentro:
Se o Riley Thompson continuou vivo depois que eu morri e só fugiu depois daquela noite de tempestade...
Por que ele fez aquilo comigo?
…
Eu tinha escolhido aquela árvore por um motivo simples: era alta o suficiente para ver tudo e longe o bastante para eu não precisar conversar com ninguém. O vento passava pelas folhas com uma calma que até me irritava, como se o meu mundo não tivesse acabado de virar de cabeça para baixo com tantas respostas e dúvidas novas. Lá embaixo, a casa parecia normal. O que era só uma mentira para nos enganar.
Até o Edward aparecer.
Ele não subiu fazendo barulho como o Emmett faria, nem surgiu do nada como a Alice. Ele simplesmente andou até a árvore e subiu no galho com a facilidade de um vampiro, como se a gravidade não existisse. Ele se sentou ao meu lado com todo o cuidado do mundo, como se eu fosse quebrar a qualquer momento.
Ri disso por dentro. Eu, quebrar? Depois de tudo o que passei?
Fiquei olhando para a frente, sem querer olhar para ele. Fixei os olhos na floresta lá longe, em qualquer lugar que não me lembrasse do meu passado ou de sangue.
— Como você está com tudo isso? — perguntou ele.
A voz dele veio baixa e calma, como se tivesse medo de me machucar mais.
Dei de ombros. Um gesto bobo, mas sincero.
— Não sei.
Silêncio. A floresta continuou silenciosa ao nosso redor. O Edward não insistiu na hora, o que era estranho, porque ele sempre insistia.
— Nós descobrimos uma coisa — disse ele depois de um tempo.
Meu estômago embrulhou de novo. Fechei os olhos por um segundo, cansada.
— Se for mais uma notícia bombástica que vai mudar a minha vida, eu vou passar a morar no teto para sempre.
Ele deu uma risadinha fraca, sem graça. Era um riso preocupado.
— Não é sobre o Riley.
Abri os olhos e olhei direto para ele.
— Então é sobre o quê?
O Edward hesitou. Ele nunca hesitava, e aquilo me deixou nervosa na hora.
— Edward.
Ele respirou fundo, um hábito de quando era humano que ele mantinha até hoje.
— É sobre a sua mãe.
O mundo pareceu parar por um segundo. Pisquei uma, duas vezes.
— Minha... o quê?
Ele não desviou o olhar.
— A sua mãe.
Engoli em seco, embora isso não mudasse nada no meu corpo de fantasma.
— Você está brincando.
— Não estou.
Fiquei totalmente paralisada. A floresta pareceu ficar mais longe e mais quieta.
— Nós encontramos papéis antigos — continuou ele, com a voz carinhosa. — Daquela mesma época. Ela não foi embora de Forks.
A frase ficou no ar gelado. Eu não conseguia entender aquilo, não conseguia juntar as peças na minha cabeça.
— Ela... — minha voz saiu fraquinha, falhando. — Ela não foi embora?
O Edward balançou a cabeça devagar.
— Oficialmente, ela nunca saiu da cidade.
Meu coração de fantasma parecia tentar bater de mentira contra o meu peito.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
O silêncio voltou a tomar conta da gente. O vento mexeu nas folhas da árvore, mas eu continuei imóvel, chocada por dentro.
— Quantos anos...? — perguntei finalmente.
O Edward respondeu com muito cuidado:
— Noventa e cinco.
Soltei uma risada seca, sem graça nenhuma.
— Isso é impossível.
— Ela é humana.
— Então é mais impossível ainda.
Ele não respondeu, porque nós dois sabíamos que não tinha uma explicação fácil para aquilo. Voltei a olhar para as árvores lá na frente, tentando sentir alguma coisa que explicasse o que eu devia estar sentindo. Raiva? Alívio? Medo? Nada vinha. Nada fazia sentido.
— Ela sabe? — perguntei.
O Edward demorou a responder.
— Não.
Outra pausa pesada ficou entre nós.
— Mas ela mora em Forks.
Essa parte doeu de um jeito diferente. Não foi uma dor física nem de cabeça. Foi algo mais fundo, uma saudade antiga que finalmente virava realidade. A minha mãe. Viva. Em Forks. Enquanto eu... eu nem sabia mais o que eu era.
Fiquei em silêncio por muito tempo. O Edward ficou ali do meu lado, quieto, sem me pressionar. E, pela primeira vez em dias cheios de notícias ruins, não parecia que o meu mundo estava caindo. Parecia que ele estava mudando de lugar.
E isso era ainda mais assustador.
O silêncio entre nós era pesado. Parecia ocupar espaço demais naquele galho de árvore, como se até a floresta estivesse prestando atenção na nossa conversa.
O Edward ficou me olhando por um tempo antes de voltar a falar. Ele parecia escolher cada palavra com muito cuidado, para não me deixar assustada e nem quebrar nada por dentro.
— Você quer ver a sua mãe? — perguntou ele, com a voz suave.
A pergunta ficou no ar. Simples. Direta.
Soltei uma risada fraca, sem graça nenhuma.
— Como? — Olhei para ele de lado, arrumando a minha camisola de algodão. — Você pretende me fazer visível, Edward?
Ele não sorriu. E eu sabia que, quando ele ficava sério assim, não era piada.
— Eu posso trazer ela até aqui.
Pisquei os olhos de fantasma, surpresa.
— Não.
— Bella.
— Sério. "Posso trazer ela aqui" não é o tipo de coisa que se fala assim, do nada.
Ele fingiu que não ouviu a minha ironia — o que era bem típico dele.
— Eu posso falar com ela, dizer alguma mentira e trazer ela aqui — explicou ele, muito calmo.
Fiquei totalmente parada no galho. De novo. Ultimamente eu congelava de choque com muita frequência.
— Você quer mesmo trazer a minha mãe?
— Se você quiser, Bella.
Fiquei olhando para o espaço vazio lá na frente. A floresta gigante lá embaixo continuava do mesmo jeito de sempre. Viva. Nem aí para os meus problemas. Longe de toda essa confusão de polícia.
Pela lógica humana, eu deveria querer isso na hora. Qualquer pessoa no meu lugar agarraria essa chance com todas as forças. Qualquer um que passou anos sem respostas ia querer ver a própria mãe. Mas eu não era uma pessoa normal. Nem viva eu estava direito.
— Não — falei finalmente, com a voz bem fraca.
O Edward não se assustou. Ele só inclinou a cabeça, olhando bem nos meus olhos.
— Por quê?
A pergunta veio baixa, mas firme. Daquelas perguntas que não aceitam uma desculpa qualquer.
Continuei olhando para as árvores lá longe.
— Não sei.
— Bella.
— Edward.
— Isso não é uma resposta.
Respirei fundo — um hábito inútil para um fantasma que não precisa de ar, mas que não mudava nada na minha situação.
— Eu sei.
Ele ficou em silêncio por um momento. E eu sabia muito bem que ele não ia desistir de me fazer falar. Ele nunca desistia quando cismava com alguma coisa.
— Então me diga a verdade — pediu ele, com a voz muito carinhosa. — O que está te impedindo?
Minha garganta apertou muito. Era engraçado pensar nisso, já que eu nem tinha garganta de verdade ou sangue correndo nas veias, mas a sensação de aperto estava ali. Bem no meu peito.
— Medo.
A palavra saiu fraquinha, quase sumindo no vento.
O Edward esperou um pouco, entendendo o meu pavor.
— Medo do quê, exatamente?
Fechei os olhos por um segundo para tentar me acalmar. E quando voltei a falar, minha voz saiu mais baixa ainda, quase um sussurro gelado:
— De ver ela.
Silêncio.
— De não conseguir lembrar do rosto dela direito... — continuei, perdendo toda a minha ironia. Passei a minha mão transparente pelo ar da noite, fazendo um gesto bobo, como se eu pudesse segurar o passado que já tinha sumido. — Ou de me lembrar de tudo o que aconteceu no final.
Abri os olhos e olhei bem fundo nos olhos dele. Sem fingir coragem. Sem ironia.
— Porque, se a minha cabeça lembrar de tudo... aí não vai mais restar dúvida nenhuma. — Engoli em seco, quase sem conseguir falar. — E se não restar dúvida sobre o Riley Thompson... aí tudo aquilo que eu passei naquela noite.. vira real de verdade.
O vento frio de Forks passou pelas folhas dos pinheiros. Mas dentro de mim nada se mexeu. Eu só sentia um vazio esquisito e muito pesado.
O Edward me olhava com muita atenção, tentando não me pressionar mais. Mas as coisas que o Jasper descobriu já tinham mudado tudo; era tarde demais para fingir que nada aconteceu. O passado já estava escancarado na nossa frente.
— Você não precisa fazer isso agora, Bella — disse ele por fim, com o rosto calmo.
Soltei outra risada fraca, sem graça nenhuma.
— Engraçado.
— O quê?
— Agora tudo o que vocês me dizem é "você não precisa fazer isso agora".
Ele não respondeu nada. E, pela primeira vez desde que me viram na sala, aquele silêncio dele não pareceu uma vitória para mim. Só mostrava a mais pura verdade.
Voltei a olhar para a floresta escura de Forks. Para qualquer árvore ou folha que não tivesse olhos humanos me esperando com perguntas difíceis do outro lado.
— Eu só... — murmurei, e a minha voz sumiu.
Parei de falar. Tentei achar as palavras certas na minha cabeça, mas elas não vinham. Então deixei os pensamentos do jeito que estavam, meio confusos mesmo.
— Eu não estou pronta para descobrir quem eu fui em 1962.
O Edward continuou ao meu lado, num silêncio absoluto e respeitoso naquele galho estreito. E, desta vez, ele não tentou me convencer do contrário e nem usar a lógica para mudar a minha ideia.
O silêncio entre nós ficou ainda mais longo depois do que eu disse. Não era um silêncio vazio, mas sim um silêncio pesado, daqueles que fazem a gente pensar e que parecem ocupar muito espaço entre as folhas da árvore.
O Edward não insistiu em me fazer falar, o que era bem raro vindo dele. Ele só continuou ali do meu lado, me olhando fixamente, como se estivesse tentando entender a confusão que estava na minha cabeça. Como se estivesse tentando medir o tamanho da dor que aquela conversa sobre o meu passado tinha me causado.
— Você não quer ver ela... — disse ele finalmente, com a voz bem calma.
Não era uma pergunta por curiosidade. Era só ele confirmando o que eu estava sentindo, com muito cuidado.
Balancei a cabeça devagar no ar, mantendo os braços cruzados sobre a minha camisola antiga de algodão.
— Não.
O vento frio de Forks mexeu nas folhas molhadas da árvore. Lá embaixo, a casa iluminada dos Cullen parecia muito longe da gente, como se estivesse em outro mundo.
O Edward inclinou um pouco a cabeça, sem tirar os olhos dourados do meu rosto.
— Mesmo sabendo com certeza de que ela está viva?
A palavra "viva" bateu forte no meu peito de fantasma de um jeito estranho. Parecia uma palavra que não fazia sentido para mim e nem combinava comigo, com ela ou com aquela história terrível de 1962.
Soltei uma risadinha fraca, sem achar graça nenhuma.
— Justamente por isso, Cullen.
Ele franziu a testa, ficando preocupado.
— Bella...
— Não — cortei antes que ele tentasse me convencer. — Você é um vampiro e não entende o meu problema.
O Edward ficou em silêncio, mas não se afastou. Ele nunca desistia quando sabia que tinha algo muito importante me incomodando.
— Então me explica, por favor — pediu ele, com a voz muito carinhosa.
Apertei as minhas mãos invisíveis contra a casca áspera do galho da árvore. Um gesto inútil para um fantasma, mas que me ajudava a não perder o controle.
— Ela está viva — repeti bem baixinho, quase num sussurro. — Morando aqui em Forks. Agora mesmo. Depois de tudo o que aconteceu comigo. — Engoli em seco, quase perdendo o fôlego que eu nem tinha. — E a minha cabeça simplesmente não sabe o que fazer com essa informação.
O olhar sério dele ficou um pouco mais suave. Mas ele continuava ali, firme, prestando atenção no meu medo.
— Isso pode ser a resposta que você tanto procurava, Bella — disse ele com calma.
Ri de novo, de um jeito mais amargo e triste.
— Ou pode significar que eu vou descobrir de uma vez por todas que eu não faço mais parte de nada disso.
Ficamos em silêncio de novo. O Edward olhou para a minha camisola por alguns segundos e depois fez a pergunta mais difícil:
— O que exatamente te dá mais medo nisso tudo?
A pergunta me pegou de surpresa, sem defesa. E a resposta veio rápida demais na minha cabeça. Rápida e dolorosa.
— Ela não conseguir me ver.
Parei de falar por um segundo. Respirei fundo, tentando me acalmar, mesmo sabendo que o meu peito de fantasma não precisava de ar.
— Ou ela me ver de verdade... e isso não mudar nada no meu coração.
O Edward ficou totalmente imóvel no galho, feito uma estátua. E eu continuei falando, olhando para a névoa do quintal e não para ele:
— Ou, no pior dos casos...
Minha voz falhou um pouco, perdendo toda a ironia que eu costumava ter.
— Ela me ver claramente e eu não sentir carinho nenhum por ela.
O vento frio parecia soprar ainda mais forte perto da gente, como se a árvore inteira estivesse prestando atenção na história.
— Eu não tenho a menor ideia de quem eu sou, Edward — desabafei finalmente, deixando todo o meu orgulho e deboche de lado. — Então como eu vou ter coragem de olhar para alguém que deveria me conhecer desde que eu nasci?
Silêncio. Um silêncio longo e pesado.
Ele não tentou me convencer do contrário. Não usou palavras bonitas para dizer que eu era importante. Ele só continuou ali do meu lado, dividindo aquela tristeza comigo. E isso, por algum motivo estranho, foi bom e ruim ao mesmo tempo.
Depois de um tempo, ele falou bem baixinho:
— Você não precisa tomar essa decisão agora, Bella.
Soltei um suspiro curto. Quase uma risada sem graça.
— Você fala isso como se eu já não tivesse passado anos e anos trancada nesta casa sem decidir nada — debochei fraco.
O Edward virou o rosto devagar e olhou para mim de lado, com um sorrisinho muito discreto e carinhoso no rosto.
— E, mesmo depois de tanto tempo, agora você está aqui.
A frase ficou flutuando no ar. Simples e direta. Sem prometer nenhuma solução mágica, mas também sem me dar espaço para fugir do assunto.
Eu não disse mais nada. Só continuei olhando para a floresta escura de Forks. E, pela primeira vez desde que me lembrei de tudo, não tive vontade de atravessar a parede e me esconder no porão. Só tive vontade de ficar ali, quieta no meu canto.
Porque pensar em ver a minha mãe não parecia mais apenas uma resposta para os papéis da polícia que o Jasper encontrou. Parecia um espelho antigo e assustador. E eu, com toda a minha falta de memória e a minha teimosia, ainda não sabia se estava pronta para olhar para aquele reflexo.
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