O som das vozes inflamadas vinha diretamente da sala de estar.

Perfeito. Se havia uma única habilidade que décadas de existência solitária e invisível tinham me ensinado com perfeição mecânica, era a arte refinada de escutar conversas alheias sem ser percebida. Algumas pessoas de moral rígida chamariam isso de uma óbvia invasão de privacidade. Eu preferia o termo técnico: pesquisa de campo.

Aproximei-me com suavidade milimétrica e me escondi atrás de uma das colunas de gesso da entrada da sala, deixando apenas uma fração do meu rosto espectral projetada para fora.

A cena que se desenhava ali era simplesmente maravilhosa.

O grandão estava bem no centro do cômodo. Ele gesticulava de forma dramática, apontava para o teto, andava em círculos de um lado para o outro, com a expressão de alguém que havia sido claramente traumatizado por forças além da compreensão humana.

— Eu estou falando sério! — insistiu ele, a voz ecoando pelas vigas recém-reformadas. — Ela estava lá!

Sentado em uma poltrona de couro próxima estava o homem loiro que eu já havia catalogado como o líder indiscutível daquele clã. Havia uma aura quase mística de calmaria nele. Tranquilo, polido. A forma como todos os outros pareciam ouvi-lo de forma automática me confirmava que ele ocupava a posição de autoridade máxima. O homem observava o brutamontes com uma paciência que flertava com o angelical.

— Certo — disse ele, a voz aveludada. — E o que exatamente você viu, Emmett?

Emmett. Finalmente. O gigante tinha um nome.

— Uma fantasma! — exclamou Emmett, indignado.

— Uma garota — corrigiu a loira azeda, sem desviar os olhos de suas próprias unhas impecáveis.

— Uma garota fantasma!

— Existe alguma diferença real? — perguntou um dos outros rapazes, divertido.

— Existe uma enorme e biológica diferença!

Tive que morder o meu próprio lábio inferior para não soltar uma gargalhada e estragar o meu disfarce científico.

O líder da família soltou um longo e cansado suspiro.

— Emmett...

O grandão abriu os braços de forma teatral, apelando para o bom senso do patriarca.

— Carlisle, eu sei muito bem o que eu vi!

Carlisle. Anotei o dado mentalmente. Chefe da família. Possivelmente médico. Possivelmente um santo canonizado em vida, porque eu, no lugar dele, já teria perdido a paciência e arremessado um vaso na cabeça de Emmett.

— Ela estava bem ali, no meu quarto — continuou Emmett, revivendo o trauma. — Parada. Bem atrás de mim.

— Claro que estava — respondeu o rapaz de cabelos acobreados e desalinhados.

— Edward, eu não estou brincando com você!

Edward. Anotado também. Sarcasmo ambulante em formato de supermodelo.

Edward estava refestelado de forma desleixada no braço de um sofá de camurça, claramente se divertindo muito mais com o colapso do irmão do que um membro familiar saudável deveria.

— Então de fato você viu uma garota totalmente desconhecida parada no seu quarto — Edward resumiu, contendo o sorriso.

— Sim!

— E a sua primeiríssima reação física foi correr pelos corredores gritando em voz alta.

— Sim!

— Fascinante — Edward concluiu, a ironia pingando de suas palavras.

A garota baixinha começou a rir abertamente. Eu já tinha reparado nela antes: pequena, com cabelos curtos e espetados em todas as direções, dotada de uma energia elétrica que parecia capaz de abastecer uma cidade de médio porte.

— Eu ainda não consegui processar o fato de que você gritou "fantasma" — ela zombou, batendo palmas levemente.

— Porque era a droga de um fantasma!

— Emmett, pelo amor de Deus, você é um vampiro.

A sala inteira mergulhou em um silêncio sepulcral.

No meu canto, o meu cérebro de dezenove anos congelou de forma instantânea.

Vampiro?

Vampiro. Vampiro. Vampiro.

Por um milissegundo de pura distração neurológica, eu quase atravessei a coluna de gesso e caí no meio da sala de estar deles. Vampiros. Claro. Santo Deus, claro! Tudo fazia um sentido absoluto e matemático agora. A força desumana para carregar estantes de carvalho. A velocidade absurda de movimento. A geladeira permanentemente vazia. O fato de passarem as madrugadas em claro lendo clássicos franceses sem jamais deitarem a cabeça em um travesseiro.

Meu Deus do céu. Eu estava dividindo o meu teto com um ninho inteiro de vampiros.

Isso era... a coisa mais incrível que já tinha me acontecido desde que meu coração parara de bater.

Enquanto eu tentava processar aquela informação de magnitude monumental, a comédia familiar continuava logo abaixo de mim.

— Você deveria ter ouvido o tom exato da voz dele — a baixinha espetada continuou, tentando — e falhando miseravelmente — conter o riso. — Foi algo como "Fantasmaaa!"

Edward, o sarcástico, imediatamente imitou a performance de Emmett, afinando a voz de forma impagável:

— "Rosalie! Socorro, Rosalie! Tem uma garota morta no meu quarto!"

A garota pequena quase escorregou do sofá de tanto gargalhar. Até mesmo Carlisle precisou desviar o rosto para esconder um sorriso condescendente. Emmett parecia ofendido. Profundamente, visceralmente ofendido.

— Eu gostaria de lembrar a todos vocês, meus queridos irmãos, que eu fui pego totalmente de surpresa.

— Por uma adolescente vestindo uma camisola de algodão — Edward pontuou, erguendo uma sobrancelha.

— Uma adolescente morta!

— Isso ainda não está ajudando em nada a sua imagem de predador, Emmett.

Rosalie, a loira azeda sentada em uma cadeira estofada, revirou os olhos com uma força que quase me fez temer pela integridade física das órbitas dela.

— Honestamente, Emmett. Eu subi lá dois segundos depois e não tinha absolutamente ninguém no cômodo.

— Porque ela desapareceu no ar! Ela atravessou a parede!

— Claro que sim.

— Ela desapareceu, Rosalie!

— Com certeza.

— Por que ninguém nesta casa acredita em mim? — Emmett esbravejou, jogando as mãos para o alto.

— Provavelmente porque você também jurou de pés juntos que tinha visto o Pé-Grande quando nós morávamos no Alasca — rebateu Rosalie, sem piedade.

— Eu ainda sustento a tese de que era o Pé-Grande!

— Era um guarda-florestal, Emmett. Ele estava usando um casaco de pele.

Precisei apoiar a minha testa fantasmagórica contra a parede para não desabar. Aquilo era infinitamente melhor do que qualquer programa de televisão que a humanidade já havia inventado. Durante décadas arrastadas, eu havia rezado para o universo por qualquer migalha de entretenimento. Agora, eu tinha uma casa inteira povoada por vampiros de elite discutindo calorosamente sobre a minha própria existência biológica.

E a melhor parte de todo esse cenário? Emmett era, aparentemente, o único do clã que possuía a sensibilidade espiritual para me enxergar.

Olhei para ele novamente. O colosso estava sentado no sofá agora, com os braços imensos cruzados sobre o peito e uma expressão genuinamente indignada. Parecia uma criança gigante emburrada porque os pais recusavam-se a acreditar na sua história de ninar. Cheguei a sentir pena dele.

Quase.

Então, Edward voltou a imitar o grito agudo do irmão. A baixinha explodiu em uma nova crise de riso. E qualquer vestígio de piedade evaporou instantaneamente da minha alma penada.

Não. Aquilo estava divertido demais para terminar.

Uma ideia maravilhosa e deliciosamente maquiavélica começou a florescer na minha mente. Se Emmett era de fato o único capaz de registrar a minha presença visual... então eu tinha o dever moral de atormentá-lo pelas próximas semanas. Talvez meses. Talvez anos inteiros, dependendo estritamente do meu nível de comprometimento com a arte do terror psicológico.

Um sorriso lento, perigoso e totalmente travesso desenhou-se nos meus lábios.

Lá na sala, Emmett continuava gastando sua saliva imortal para convencer a família de que havia uma assombração rondando a propriedade. Mal sabia o pobre coitado que a fantasma em questão já estava revisando os planos para a sua próxima aparição.

E, dessa vez, eu pretendia caprichar na produção.


Passei o restante daquela tarde cinzenta observando a dinâmica da família pela casa. Agora que eu sabia exatamente o que eles eram, toda a perspectiva do ambiente havia mudado.

Vampiros.

Honestamente, eu deveria ter percebido antes. Era algo tão escandalosamente óbvio em retrospecto que fiquei quase ofendida com a minha própria lerdeza intelectual. A velocidade de mercúrio, a força titânica, a pele absurdamente perfeita que parecia esculpida em mármore, a beleza irritante que flertava com o irreal... Tudo fazia um sentido absoluto e biológico.

Se bem que, sendo justa comigo mesma, eu não tinha muita experiência prática com o mundo dos mortos-vivos. Na verdade, minha bagagem total sobre vampirismo consistia em aproximadamente alguns dias de observação visual e uma conversa familiar que eu havia escutado escondida atrás de uma coluna de gesso.

Ainda assim, para os padrões de uma alma penada confinada a Forks, parecia uma quantidade bastante razoável de conhecimento.

Ao longo das horas seguintes, a maioria deles saiu da propriedade novamente. Alice desapareceu floresta adentro acompanhada por Jasper; Edward seguiu para algum ponto isolado na imensidão dos pinheiros; Carlisle e Esme saíram juntos de carro; e Rosalie acabou acompanhando o patriarca em algum momento.

E, pela primeiríssima vez desde o glorioso incidente do "TEM UM FANTASMA NO MEU QUARTO", Emmett ficou completamente sozinho.

Eu o observei do topo da escada principal. O colosso estava sentado no sofá da sala de estar, com uma revista de carros aberta sobre o colo. Ou melhor, ele estava fingindo ler. Porque, a cada três ou quatro segundos, seus olhos dourados e atentos levantavam da página de forma mecânica para examinar minuciosamente os cantos do cômodo. Depois, voltavam para o papel. Depois, inspecionavam o ambiente outra vez.

Era uma cena simplesmente maravilhosa.

O homem tinha mais de um século de existência imortal. Era fisicamente mais forte do que um caminhão de carga. Era um predador lendário, um vampiro. E estava com um medo genuíno e primitivo de mim. Aquele pensamento jamais deixaria de ser a coisa mais hilária da minha pós-vida.

Atravessei a parede silenciosamente, sem emitir um único estalo molecular, e materializei-me no corredor. Emmett não percebeu absolutamente nada. Continuei avançando pelo tapete com passos flutuantes, devagar, estudando cada reação dele.

O vampiro virou uma página da revista. Olhou de soslaio para o canto da sala. Nada. Voltou para a leitura.

Mais alguns passos e eu já me encontrava posicionada exatamente atrás do encosto do sofá. Emmett continuava completamente alheio à minha presença espectral. Um sorriso largo e travesso começou a desenhar-se nos meus lábios. A situação era geometricamente perfeita para uma emboscada psicológica.

Eu tinha tido uma ideia simples, mas de uma elegância impecável. Uma verdadeira obra de arte do terror doméstico.

Ao lado do sofá, repousava uma pequena mesa de centro de madeira escura. Sobre o tampo, descansava um porta-retratos de prata reluzente. Afastei os braços, fechei os olhos e concentrei toda a minha essência espiritual naquele objeto.

A moldura tremeu levemente. Mover matéria física ainda exigia um esforço exaustivo que parecia repuxar meus músculos inexistentes, mas, depois de tantas décadas de tédio e teimosia, eu já conseguia manipular coisas pequenas com relativa facilidade.

A moldura deslizou alguns centímetros pela madeira. E parou.

Emmett ergueu os olhos da revista no mesmo milissegundo. Observei, prendendo o riso, enquanto ele varria a sala com o olhar afiado. Nada se moveu. Ele soltou um suspiro imperceptível e tentou focar novamente na página.

Apertei os olhos e empurrei o ar com mais força. A moldura moveu-se mais alguns centímetros em direção à borda, arrastando-se de forma audível.

Desta vez, o vampiro congelou.

Seus olhos dourados travaram fixos no objeto metálico. Lentamente, com uma cautela quase cômica para alguém daquele tamanho, ele fechou a revista e a colocou sobre as pernas.

— Não... — murmurou ele, a voz saindo em um sussurro tenso.

Eu quase desabei no chão de tanto rir.

— Não, não, não. Pode parar — ele continuou, falando sozinho com o cômodo vazio. Aquilo era absolutamente fantástico.

Emmett permaneceu encarando a moldura de prata como se estivesse desafiando o objeto para um duelo de alta intensidade. O porta-retratos continuou estático por alguns segundos. Então, reuni o último resquício de energia e dei um empurrão definitivo.

O objeto perdeu o equilíbrio e despencou da mesa de centro.

Tac.

O impacto contra o assoalho ecoou, seguido por um silêncio tenso. Emmett levantou-se em um salto acrobático, os olhos faiscando.

— Eu sabia! — exclamou ele.

O gigante disparou para trás do sofá. Olhou com violência atrás das cortinas de linho, espiou embaixo da mesa de centro e ergueu a cabeça para inspecionar o teto. O mais engraçado era que eu estava parada literalmente no meio da sala de estar, bem na frente dele, com os braços cruzados e uma postura de puro deboche. Mas, aparentemente, ele não conseguia me enxergar naquele momento.

Interessante. Muito interessante.

Talvez existissem regras complexas para a minha visibilidade sobrenatural. Talvez fosse mais difícil para os vivos me sintonizarem visualmente quando eu não estava ativamente tentando me projetar no plano deles. Ou talvez eu fosse apenas uma assombração inconsistente e defeituosa, o que também era uma hipótese muito sólida.

Passei uma de minhas mãos fantasmagóricas a poucos centímetros do rosto dele. Nenhuma reação biológica, ele continuava procurando pelo chão.

— Curioso... — murmurei para mim mesma.

Foi então que uma ideia ainda melhor floresceu na minha mente. A melhor ideia que eu tivera em todo o meu século de morte.

Aproximei-me dele com passos lentos, flutuando até ficar a meros centímetros de distância de seus ombros largos. Emmett continuava girando sobre os calcanhares, observando os cantos da sala com uma cautela quase militar.

— Fantasma? — ele chamou, o tom de voz modulando para algo quase... esperançoso. Como se estivesse tentando negociar termos de paz com o além. — Fantasma? Você está aí?

Meu sorriso aumentou tanto que minhas bochechas chegaram a doer. Eu estava adorando cada segundo daquela vulnerabilidade imortal. Inclinei meu corpo na direção da orelha dele, concentrei toda a minha energia espiritual nas cordas vocais fantasmagóricas e sussurrei em um sopro nítido:

— Boo.

O efeito prático foi imediato e devastador.

Emmett soltou um grito agudo tão absurdamente potente que tive a nítida impressão de que as vigas do teto haviam tremido. O vampiro deu um salto para trás — e quando digo salto, me refiro a um voo acrobático gigantesco que desafiou a gravidade —, atravessando metade da extensão da sala de estar em uma fração de segundo, até colar as costas contra a parede oposta.

Eu simplesmente desabei na gargalhada, dobrando o corpo no ar.

— NÃO TEM GRAÇA NENHUMA! — ele berrou para o vazio, os punhos cerrados e o peito subindo e descendo em uma simulação de fúria.

— TEM MUITA GRAÇA SIM! — respondi de imediato, a resposta saindo no automático antes que eu pudesse conter a minha própria língua.

No milissegundo seguinte, congelei no ar. Emmett congelou na parede também.

A sala inteira mergulhou em um silêncio tão denso que parecia palpável. O meu sorriso travesso desapareceu de forma instantânea. O dele também.

Nós nos encaramos. Ou melhor, eu o encarei com os olhos arregalados, e ele fixou o foco de suas órbitas douradas exatamente, milimetricamente, no ponto exato do espaço onde eu estava flutuando.

Os olhos do colosso expandiram-se lentamente. Muito lentamente. Ele ergueu um braço trêmulo e apontou o indicador na minha direção, a voz saindo em um fio desacreditado:

— Você...

Houve uma pausa dramática que pareceu durar um século.

— Você falou.

Eu pisquei, o pânico de ser descoberta finalmente me atingindo.

— Você... me ouviu de verdade? — perguntei, a voz saindo mais alta do que eu pretendia.

— VOCÊ FALOU! CARLISLE! EDWARD! A GAROTA MORTA FALOU COMIGO! — Emmett desandou a berrar, disparando em uma corrida desenfreada pela sala de estar, dando voltas ao redor dos móveis como um personagem de desenho animado em completo colapso mental.

Eu o observei por dois segundos antes de desabar no riso novamente, o som da minha gargalhada ecoando junto com os gritos de pânico dele.

E naquele momento tive absoluta certeza de uma coisa.

A eternidade talvez ainda fosse uma chatice.

Mas ter um vampiro assustadiço como brinquedo particular melhorava bastante a situação.


Descobri, alguns dias depois, que uma das melhores formas de passar o tempo era observar os Cullen pela floresta. Principalmente porque eles pareciam esquecer completamente que estavam sendo vigiados — o que, vamos combinar, era uma falha de segurança grave para uma família secular de predadores. Eu esperava muito mais profissionalismo.

Naquela tarde, por exemplo, eu estava confortavelmente sentada no galho mais alto de um pinheiro colossal nos limites da propriedade. A chuva ainda não tinha começado, mas o céu de Forks estava forrado por nuvens cinzentas e pesadas que prometiam transformar o mundo em uma piscina gigante a qualquer momento.

Eu gostava daquele lugar lá no alto. Era um dos poucos pontos de onde conseguia enxergar boa parte da clareira. Também me permitia julgar o comportamento alheio à distância, uma atividade humana extremamente subestimada e altamente prazerosa.

Lá embaixo, Edward e Emmett estavam correndo entre os troncos úmidos. Ou lutando. Ou brincando. Ou participando de alguma atividade recreativa vampírica estranha que eu ainda não compreendia em sua totalidade.

Era difícil dizer. Tudo o que eu sabia era que Emmett parecia genuinamente determinado a derrubar Edward, e Edward parecia igualmente determinado a transformar aquilo em uma experiência profundamente humilhante para o irmão.

— Volta aqui! — ouvi o eco da voz de Emmett rasgar a floresta.

Edward desviou do golpe com tanta facilidade que pareceu até ofensivo. Ele sequer exibia sinais de esforço físico; simplesmente dava um passo milimétrico para o lado, e Emmett passava direto pela névoa. Outro passo para a esquerda, e Emmett errava de novo. Mais um movimento sutil, e outro erro desastroso. Era exatamente como assistir a um gato de raça brincando com um cachorro de grande porte particularmente desastrado.

— Você está roubando! — acusou Emmett, parando e apontando o dedo.

— Não é minha culpa se seus pensamentos são tão óbvios — Edward rebateu, a voz perfeitamente controlada.

— Isso é roubo!

— Não é.

— É sim!

Edward soltou uma risada curta. Foi um erro tático. Aquilo apenas inflou a irritação de Emmett, que avançou outra vez como um touro enfurecido. Edward desapareceu do caminho em um piscar de olhos, e Emmett atingiu um pinheiro jovem de frente. A árvore, infelizmente, perdeu a discussão e quebrou ao meio.

Eu quase caí do meu galho de tanto rir.

— Isso não conta! — gritou o gigante, sacudindo a poeira de madeira dos ombros.

— Você disse exatamente a mesma coisa nas últimas oito vezes — relembrou Edward, apoiando-se em um tronco próximo e cruzando os braços com uma arrogância refinada.

— Porque você está trapaceando!

— Como exatamente eu estou roubando, Emmett?

— Eu não sei!

— Ótimo argumento jurídico.

— Mas você está!

Enxuguei lágrimas inexistentes dos meus olhos espirituais. Era simplesmente impossível não gostar de Emmett. O homem tinha a energia caótica de quem acordava todos os dias e escolhia a violência recreativa como seu hobby principal.

Antes que a discussão teológica sobre as regras do jogo pudesse continuar, as primeiras gotas grossas começaram a estalar contra as folhas. Em poucos segundos, a tempestade desabou de verdade, cobrindo a floresta com uma cortina densa e torrencial de água. Edward olhou para o céu cinzento, Emmett resmungou algum palavrão incompreensível e os dois começaram a empreender o caminho de volta.

Eu simplesmente deslizei para fora do galho e os acompanhei. Não andando, não correndo, mas flutuando suavemente pelo ar. Afinal, se você é um fantasma, precisa desfrutar das poucas vantagens biológicas disponíveis no pacote pós-vida.

Entramos na casa praticamente ao mesmo tempo. Edward mantinha aquele sorrisinho de canto de boca irritante; Emmett continuava marchando com uma indignação palpável.

— Você roubou.

— Eu não roubei.

— Roubou.

— Não roubei.

— Roubou, sim.

— Emmett, chega.

— Roubou.

Edward passou direto por Carlisle, que estava elegantemente acomodado em uma poltrona, compenetrado na leitura de um livro grosso.

— Ele está fazendo isso há vinte minutos sem parar — Edward informou ao patriarca.

— Porque você roubou! — Emmett insistiu, cruzando os braços.

Carlisle sequer levantou os olhos de suas páginas.

— Tenho absoluta certeza de que Edward trapaceou terrivelmente — disse ele, o tom carregado de uma solenidade fingida.

— Obrigado! — Emmett comemorou.

— Acho que isso foi sarcasmo, querido — Esme comentou docemente da mesa ao lado.

— Eu escolho ativamente acreditar que não foi.

Alice começou a rir alto do sofá. Edward revirou os olhos com dramaticidade.

— Vou tomar um banho — anunciou ele, seguindo em direção às escadas.

— Eu também vou — rebateu Emmett, pisando pesado logo atrás. — Mas você roubou.

— Boa noite, Emmett.

— Você roubou!

Os dois desapareceram no corredor do segundo andar. Fiquei observando o topo da escada por alguns segundos, processando o silêncio temporário. Foi quando uma ideia surgiu na minha mente. Uma ideia linda, de uma simplicidade tocante. O tipo de projeto que melhoraria significativamente a qualidade da minha tarde entediada.

Sorri e flutuei na esteira de Emmett.

O banheiro privativo dele ficava no final do corredor. Atravessei a madeira maciça da porta exatamente no instante em que ele a trancava pelo lado de dentro. O vampiro ainda estava resmungando em um monólogo revoltado.

— Roubou completamente — murmurou, puxando a camisa pelas costas. — Cem por cento manipulado.

Ele girou o registro do chuveiro.

— Nem foi uma competição justa.

Eu já estava flutuando perto do teto, sorrindo de orelha a orelha. O vapor quente da água começou a subir, preenchendo o ambiente aos poucos e embaçando as superfícies frias de mármore e vidro. Perfeito. Exatamente o cenário técnico de que eu precisava.

Desci suavemente e me aproximei do grande espelho acima da pia. Concentrei a minha essência. Interagir com a matéria ainda me custava um esforço hercúleo, mas escrever em superfícies cobertas de vapor era uma tarefa relativamente simples. Meu dedo indicador deslizou devagar pelo vidro úmido, limpando a névoa em traços precisos.

Uma letra. Depois outra. Mais uma. E outra.

Quando terminei, afastei-me flutuando para trás para admirar minha mais nova obra-prima literária:

Eu estou de olho em você

Simples. Elegante. Clássico. Uma mensagem atemporal da cultura pop. Puro Assombração 101. Assenti para mim mesma, orgulhosa do meu comprometimento com o terror psicológico.

Excelente trabalho, Bella.

Antes que ele saísse do box do chuveiro e percebesse qualquer alteração térmica no ambiente, atravessei a parede dos fundos e desci direto para a sala de estar.

Alice estava sentada em uma das extremidades do sofá, bem ao lado de Esme. Ambas mantinham uma infinidade de amostras de tecidos coloridos e catálogos de arquitetura espalhados pela mesa de centro. Pelo visto, estavam discutindo os rumos da decoração do casarão.

Eu nunca tinha entendido de verdade as pessoas que gostavam de design de interiores. Parecia um esforço intelectual absurdamente enorme apenas para mover almofadas de um lado para o outro. Sentei-me casualmente no espaço vazio ao lado de Alice. Ela continuou gesticulando e falando de forma totalmente normal, claro, sem fazer a menor ideia de que havia uma adolescente morta ocupando metade do seu estofado.

— Acho que aquela poltrona ficaria muito melhor perto da janela da frente — sugeria Alice, analisando uma paleta de tons neutros.

— Talvez, querida — Esme respondeu pacientemente.

— Ou podemos mudar a estrutura de toda a sala de estar de uma vez.

— Alice...

— É apenas uma sugestão viável!

— Sua sugestão viável envolve derrubar três paredes de sustentação estrutural.

— Meros detalhes, Esme.

Sorri, apoiando o queixo nas mãos. Eu gostava delas. Principalmente de Alice, ela tinha toda a energia vibrante de quem também criaria problemas e caos na vida dos outros pelo puro prazer da diversão.

Foi quando aconteceu.

Um grito agudo e ensurdecedor ecoou vindo do andar de cima. Um berro de pânico tão potente que praticamente fez as vidraças limpas da sala sacudirem e a estrutura da casa tremer.

— AAAAAAAAAAAH!

O som cessou abruptamente. Na sala de estar, o tempo pareceu parar. Carlisle ergueu os olhos do livro com uma lentidão calculada. Esme piscou, surpresa. Alice inclinou a cabeça para o lado, atenta. Rosalie, que tinha acabado de entrar no cômodo, fechou os olhos devagar, respirando fundo, demonstrando a expressão exata de alguém que estava sofrendo uma dor física intensa.

Então veio a segunda parte do espetáculo, berrada a pleno pulmões do topo da escada:

— ELA ESCREVEU NO ESPELHO!

Eu simplesmente me joguei para trás no sofá, afundando nas almofadas e gargalhando de forma histérica, embora sem emitir som para as duas ao meu lado.

— ELA ESCREVEU NO ESPELHO! CARLISLE!

Passos pesados e velozes atravessaram o corredor superior. Portas foram batidas com violência. Mais gritos indignados ecoaram pelo vão da escada.

— EU DISSE PARA VOCÊS QUE TINHA UMA DROGA DE UM FANTASMA NESTA CASA!

Rosalie cobriu o rosto perfeito com uma das mãos, soltando um gemido de pura exasperação. Edward apareceu de repente no topo da escada, com os cabelos acobreados ainda molhados da água do banho e uma expressão de completa confusão estampada no rosto.

— O que aconteceu agora, Emmett? — Edward perguntou, a voz ecoando pela casa.

— ELA ESCREVEU NO ESPELHO DO MEU BANHEIRO!

— Quem escreveu?

— A FANTASMA! A GAROTA MORTA DA CAMISOLA!

Eu já não conseguia sequer simular uma respiração de tanto rir, encolhida no sofá enquanto dava cambalhotas mentais de pura satisfação. Lá em cima, o vampiro de dois metros continuava surtando em um colapso psicológico completo, lá embaixo, absolutamente ninguém acreditava em uma única palavra da sua tese sobrenatural.

E, pela primeira vez em longas e arrastadas décadas de isolamento, cheguei à conclusão de que a eternidade estava finalmente começando a ficar genuinamente divertida em Forks.