Aos quinze anos, eu já tinha aprendido duas coisas bem importantes. A primeira era que achar uma família de vampiros imortais era bem mais difícil do que qualquer livro de fantasia fazia parecer. A segunda era que a falta de dinheiro continuava sendo um atraso de vida daqueles.

Cinco anos. Passei cinco anos inteiros pesquisando, investigando e caçando rastros desde que dei de cara com aquela foto borrada da Alice na internet. E finalmente eu tinha uma pista que prestava. Uma pista real que apontava direto para o estado de Washington. De novo. Pelo visto, os Cullen tinham uma relação tóxica com aquela região cinza e chuvosa.

O grande problema? Eu continuava morando em Chicago. E as empresas de avião tinham a péssima mania de querer receber em dinheiro de verdade pelas passagens.

— Bella.

— Hum? — respondi, sem tirar os olhos da tela.

— Você está me assustando.

Olhei para cima. Minha amiga, Sarah, me encarava do outro lado da mesa de plástico da lanchonete da escola, com a testa franzida.

— Por quê?

— Você está encarando uma planilha de gastos faz vinte minutos.

— É uma planilha muito bem feita — me defendi, arrumando a postura.

— Você tem quinze anos.

— E uma excelente planilha — dei de ombros, sem dar o braço a torcer.

A Sarah soltou um suspiro comprido de desistência. Ela já estava acostumada comigo e com a minha mania de fazer contas o tempo todo. O que não deixava de ser impressionante, já que nem eu mesma tinha me acostumado 100% a viver nesse corpo de adolescente.

Fechei o notebook com um estalo. Respirei fundo, organizei os pensamentos e tomei uma decisão. Uma decisão meio idiota, pensando com calma, mas não pior do que outras burradas que já tinha feito em vidas passadas.

— Sarah.

— Não gosto desse seu tom de voz — ela me cortou, parando de mexer o canudo e cerrando os olhos.

— Preciso de um favor.

— Definitivamente não gosto desse tom.

— Você consegue me emprestar cinco mil dólares?

A mesa ficou num silêncio tão absurdo que deu para ouvir a barreira do som quebrando. Claro que o barulho do resto do pessoal comendo e conversando na lanchonete continuou normal, mas na nossa mesa o clima travou de um jeito que achei que a Sarah tinha tido um treco.

— Sarah? — chamei, inclinando a cabeça.

Ela piscou três vezes, recuperando a fala por milagre.

— Quanto?

— Cinco mil.

— CINCO MIL? — o grito dela ecoou pelas paredes de azulejo.

— Tecnicamente, quatro mil oitocentos e setenta e dois resolveriam o problema — corrigi certinho, sem perder a pose.

— BELLA!

Um monte de gente das mesas do lado virou para olhar para a gente na hora. A Sarah chegou mais perto da mesa, falando num sussurro desesperado.

— Você enlouqueceu?

— Pensando bem, é uma possibilidade — admiti, tranquila.

— Você quer comprar um carro velho?

— Não.

— Uma moto?

— Não.

— Um rim no mercado negro?

— O quê? Não! Por que eu compraria isso?

— EU NÃO SEI! — ela jogou as mãos para o alto, desesperada, e depois passou a mão no rosto para se acalmar. — Para que diabos você precisa de cinco mil dólares?

Pensa rápido, Bella. Muito rápido.

Se eu mandasse a real, a resposta seria: “Estou tentando arrumar dinheiro para viajar para outro estado e achar o meu ex-namorado vampiro que lê mentes da minha outra vida”. O que, pelas leis normais, faria eu ser levada direto para um hospício de segurança máxima.

Então fui na desculpa mais normalzinha que consegui inventar:

— Quero viajar pelo mundo.

A Sarah piscou, com os miolos fritando.

— O quê?

— Viajar pelo mundo.

— Você tem quinze anos, Bella.

— E planos de negócios — dei de ombros.

— Você mora com os seus pais.

— Um detalhe técnico e passageiro.

— Bella!

Dei um sorriso de canto. Ela continuou séria, cruzando os braços com cara de brava.

— Você está falando sério?

— Super sério.

— Você quer pegar cinco mil dólares emprestados com a sua melhor amiga para turistar por aí?

— Falando desse jeito, até parece que o plano é meio irresponsável.

— Porque É irresponsável!

— Discordo da sua opinião — rebati.

— Claro que discorda.

Sarah ficou me secando com os olhos por uns segundos. Depois, cerrou os olhos, pegando alguma coisa no ar de um jeito bem perigoso.

— Tem caroço nesse angu. Tem alguma coisa acontecendo.

Meu coração novo deu um tropeço no peito. Alerta de perigo total para o meu disfarce.

— Tem nada.

— Tem sim — ela insistiu.

— Não tem.

— Tem.

— Não.

— Bella.

— Sarah.

— Você está aprontando alguma coisa grande, eu sei que está.

Que faro de detetive, credo. A Sarah estava ficando boa demais em pegar minhas mentiras.

— Sabe qual é o seu problema? — ela perguntou, encostando na cadeira.

— Eu tenho uma lista mental dos meus defeitos. Pode escolher o assunto.

— Você sempre parece estar esperando alguma coisa.

Aquilo me pegou totalmente desprevenida. Meu escudo de deboche falhou, porque eu não esperava levar uma patada emocional daquelas no meio de uma tentativa fracassada de arrumar dinheiro.

— O quê? — minha voz saiu meio fraca.

Sarah deu de ombros, olhando para o copo e mexendo no gelo com o canudo.

— Não sei. É como se você estivesse aqui... sentada nesta lanchonete... mas sempre olhando para outro lugar. Para além das paredes.

Fiquei quieta, sem mandar nenhuma resposta atravessada. Minha mente ficou muda. Porque ela estava certa. Totalmente certa. E o fato de uma garota normal de quinze anos ter descoberto o meu segredo sem nem tentar parecia uma baita sacanagem do universo.

— Eu só quero viajar — repeti, forçando a voz a voltar ao normal.

Sarah olhou para mim de novo. Aí, a cara de brava sumiu e ela deu um sorrisinho de canto, meio conformada.

— Você é a pior mentirosa que eu conheço, Bella.

— Isso é uma ofensa para a minha capacidade de negociação, tá?

— É a verdade.

— Mesmo assim, ofendeu.

— Continua sendo a verdade.

Ela levantou da cadeira, pegando a mochila e jogando nas costas.

— Não vou te emprestar cinco mil dólares.

— Covarde — acusei, torcendo o nariz com o meu mau humor de sempre.

— E você é doidinha varrida.

— Justo, aceito o argumento — cedi.

A Sarah começou a andar pelo corredor entre as mesas. Mas, depois de dar uns passos, ela parou e virou para trás, meio sem jeito.

— Ei, Bella?

— Hum? — olhei para cima, tirando os olhos do computador.

— Seja lá o que você estiver procurando... — ela deu uma pausa, caçando as palavras, e abriu um sorriso bem doce. — Espero que você encontre.

E deu meia-volta, sumindo no meio do povo no pátio.

Fiquei ali parada, olhando para o vazio onde ela estava. Pensativa. No meio daquele barulho da escola. Porque o nó da minha vida era exatamente esse. Depois de todos esses anos... depois de morrer, bater boca com o universo e nascer de novo em Chicago com o nome de Samantha Isabella... eu continuava caçando. Sempre procurando.

E, pela primeira vez na vida, comecei a me dar uma desconfiança chata: achar o Edward no meio da eternidade dele ia ser bem mais fácil do que conseguir explicar para as pessoas normais por que a minha alma precisava tanto dessa busca.

Quando cheguei em casa naquela tarde, passei o caminho todo tentando calcular quantos órgãos que eu não preciso para viver eu podia vender na lei para conseguir o dinheiro da viagem. A resposta da minha pesquisa, infelizmente, foi zero. A sociedade moderna tinha leis demais para o meu gosto. Péssimo para os meus planos de resgate.

Subi a rua distraída, chutando uma pedrinha no asfalto de Chicago enquanto pensava no que fazer da vida. Pensei na chance de ganhar na loteria, na chance de descobrir que era herdeira de algum bilionário... por fim, pensei que seria ótimo se um vampiro cheio da grana aparecesse para resolver a minha vida de forma mágica. O problema é que todas as três ideias tinham a mesma chance de dar certo: quase nenhuma.

Aí o barulho de umas vozes conhecidas me tirou dos pensamentos.

— Eu disse que foi gol!

— Não foi!

— Foi sim, cara!

— Não foi! Nem passou da linha!

Olhei para o outro lado da rua, focando a visão. E lá estava o Ethan.

Agora com quase dez anos. O que era muito bizarro de parar para pensar. Na minha cabeça, ele ainda era aquele bebezinho que babava em tudo e tentava roer o fio do meu carregador. Mas o tempo passa rápido. Ele tinha virado uma pessoa inteira. Um garoto independente, com os amigos dele, opiniões barulhentas e o dom de acabar com a minha paciência.

Ele estava jogando futebol de rua com os meninos da vizinhança. O cabelo castanho estava espetado para tudo quanto é lado, os dois joelhos estavam ralados e a camisa estava toda torta no corpo. A cara de qualquer menino de nove anos.

Aí ele me viu. O radar dele me achou na hora. A cara dele mudou no mesmo segundo, ficando com aquela expressão de puro sofrimento e vergonha de adolescente.

— Ah, não... — ele resmungou alto, dando para ouvir do outro lado da rua.

Parei no meio do caminho, inflando as bochechas. Meu orgulho de irmã mais velha ficou bem ofendido.

— "Ah, não"? É sério, Ethan?

Um dos meninos parou de olhar para a bola e ficou olhando para a gente.

— É a sua irmã, Ethan?

— Infelizmente — ele respondeu, com a maior cara de coitado.

Que traíra. E pensar que eu ajudei a criar esse moleque. Mais ou menos, fiz a minha parte.

— Ethan — chamei, com a voz bem mansa, que era para dar medo.

— Que foi?

— Eu limpei a sua bunda cheia de cocô e leite golfado, garoto. Respeite a hierarquia desta casa.

— Bella! Você não precisava falar isso na frente dos meus amigos! — ele reclamou, ficando vermelho na hora.

O bando de moleques caiu na risada no mesmo segundo, achando o máximo ver a pose do meu irmão desabar.

Vitória minha. Pequena, mas lavou a minha alma.

— E eu ainda tenho as fotos guardadas, tá? — emendei, cruzando os braços com um sorriso de deboche.

— BELLA!

— Tenho várias salvas no computador.

— MÃE! — ele berrou para as janelas do andar de cima, desesperado por socorro.

— Isso aí, Ethan. Chama a mãe, vamos colocar mais gente na conversa — zoei, sem perder a pose.

Meu irmão estava vermelho igual a um pimentão, combinando com a cor da camisa dele. Os amigos continuavam morrendo de rir do show de humilhação. Um deles, tentando parar de rir, apontou para mim com uma cara de medo.

— Cara... a sua irmã dá medo.

— Eu sei — o Ethan respondeu, conformado com o sofrimento.

— Você me ama, Ethan. Admite logo.

— Não.

— Ama sim. É coisa da biologia, esqueceu?

— Não amo, Bella.

— Ama.

— Não.

— Ama.

— Dá para você parar de agir como se tivesse cinco anos de idade de uma vez por todas?! — ele estourou, sem paciência.

A rua ficou num silêncio só. Pisquei duas vezes, fazendo as contas da frase dele.

— Ethan.

— Que é?

— Tecnicamente... eu tinha exatamente seis anos quando você nasceu e roubou o meu espaço em casa.

— Você entendeu o que eu quis dizer — ele revirou os olhos com força.

Uma mania que ele tinha pegado de mim e que vivia repetindo nos últimos tempos. Lembrei, por um segundo, de quando o Ethan era o meu chicletinho. Ele me seguia por tudo, queria que eu brincasse com ele, sentava no meu quarto e ficava inventando um monte de história maluca.

E agora? Agora ele vivia no mundo dos vivos normais: tinha os amigos dele, campeonatos de videogame, futebol na rua e uma opinião alta demais sobre a própria inteligência. Uma verdadeira tragédia para mim.

— Você ficou com aquela cara esquisita de novo — ele falou, quebrando o silêncio.

Ergui a sobrancelha, olhando para ele de cima a baixo.

— Esquisita como, garoto?

— Pensando demais.

— Isso por acaso é uma ofensa para a minha inteligência?

— Vindo de você, com certeza significa que vem problema por aí — ele rebateu, cruzando os braços iguaizinhos a mim.

— Ethan.

— Bella.

— Ethan.

— Bella.

A gente travou na fala ao mesmo tempo. Os amigos dele olhavam para a nossa discussão igual a quem assiste a um jogo de tênis na TV.

— Vocês... vocês fazem isso o tempo todo em casa? — um dos meninos perguntou, curioso.

— Sim — o Ethan respondeu na lata, sem parar de olhar para mim.

— Deve ser um saco.

— E é muito — meu irmão concordou.

— Eu concordo totalmente com vocês — falei, bancando a diplomática.

— Ei! — Ethan reclamou, se sentindo traído pelos amigos.

Mas enquanto ele gesticulava e brigava com o time, fiquei olhando para ele por mais uns segundos, em silêncio. Bem de perto. Porque me veio uma clareza na cabeça.

Aquele menininho que não saía da minha cola estava sumindo aos poucos. Não por causa de fantasma, claro. Ele só estava crescendo. Mudando o corpo, a voz, virando uma pessoa totalmente nova e dona do próprio nariz.

E achei aquilo bizarro. Porque passei tantos anos focada em caçar os padrões dos Cullen e planejar o reencontro com o Edward... que às vezes esquecia que o presente também continuava correndo bem na frente dos meus olhos, mudando tudo para sempre.

— Posso saber por que você está me secando com essa cara de julgamento? — a voz mais grossa do Ethan me puxou de volta para a calçada de Chicago.

— Estou avaliando a sua situação — respondi, limpando a garganta.

— O que nunca é boa coisa para o meu lado.

— Só estou decidindo se você ainda pode continuar na nossa família ou se a gente abre um processo de devolução para a adoção.

— EU NÃO SOU ADOTADO, BELLA!

— Ainda não assinamos o contrato final de permanência — dei de ombros, debochada.

— BELLA!

Os amigos dele se desmancharam em risada, segurando a barriga. Dei um sorriso bem afiado. O Ethan fez a cara feia de sempre, mas, por trás daquela marra de pré-adolescente, consegui ver o mesmo moleque de pijama de dinossauro de antes. Só que um pouco mais alto. Um pouco mais teimoso. Um pouco mais independente.

E, por um milagre do meu coração novo, aquela cena me deu uma paz gostosa. Porque vai ver... vai ver a minha missão com essa família nova nunca foi ser um escudo contra o mundo. Vai ver o plano era só estar ali. Presente de verdade. Sendo cuidada enquanto eles avançavam, e enquanto eu crescia e me acostumava à vida de novo. Mesmo que ninguém falasse isso em voz alta.

— Tchau, pestinha de quinta categoria — falei, dando meia-volta e subindo os degraus de madeira da varanda de casa.

— Tchau, chata de galocha! — ele gritou de volta, chutando a bola.

— Também te amo, Ethan — avisei, sem olhar para trás.

— Eu não falei isso em nenhum momento!

— Mas a sua cabeça pensou. É matemática pura.

— SOME DAQUI, BELLA!

Soltei uma risada gostosa enquanto abria a porta e entrava no quentinho de casa, ouvindo o barulho dos meninos rindo sumindo na calçada lá fora.

Eu podia continuar de olho nos fóruns da internet atrás de sinal de vampiro no Oregon. Podia continuar juntando dinheiro para uma viagem impossível para uma menor de idade. Podia, e ia, continuar pensando no Edward e no cheiro de chuva do quintal da Esme todo santo dia, sem falta.

Mas, por enquanto... no rádio do presente... eu também tinha um irmão mais novo super irritante para pentelhar todo dia. E cuidar daquela guerrinha em casa, para a minha surpresa, levava um tempo maravilhoso da minha vida na Terra.

Naquela noite, depois do jantar, eu estava no quarto tentando descobrir se dava para viajar escondida dentro de uma mala sem morrer sufocada no avião. O resultado das pesquisas no computador era bem deprimente. Muito ruim. Principalmente porque quase todos os textos diziam em letras garrafais: "Não faça isso." A internet moderna não tinha nenhuma criatividade para planos de risco.

Aí ouvi a batida na porta. Três toques rápidos, sem nem esperar eu dar autorização para entrar. Ethan. Claro.

— Entra — mandei, me arrumando na cadeira.

A porta abriu num soco. Ele apareceu na porta segurando o controle do videogame, com a cara de tédio de sempre.

— Que que você está fazendo? — ele perguntou, cerrando os olhos.

Fechei a tampa do notebook na hora, num estalo. Instinto de defesa. Anos de experiência escondendo pesquisas de vampiro e históricos suspeitos.

— Nada.

— Você sempre fala isso — ele reclamou, encostando no batente da porta.

— Porque é a verdade.

— Não é não.

— É sim.

— Não é.

— Você está ficando bem repetitivo, Ethan.

— Você também.

Ponto para ele. Infelizmente, a resposta do moleque estava ficando mais rápida do que as minhas desculpas.

Ethan entrou no quarto todo folgado. Olhou para a minha escrivaninha, olhou para a minha cama bagunçada e parou os olhos em mim.

— Você estava pesquisando alguma coisa esquisita.

— Isso é 90% das minhas buscas na internet, querido — dei de ombros, debochada.

— Justo — ele aceitou.

Deu mais dois passos e se jogou na minha cadeira giratória. A minha cadeira de estudos, arrumada para a minha altura. Sem nem pedir licença.

— Você vai embora daqui quando fizer dezoito anos?

A pergunta veio tão do nada e tão fora do assunto que o meu sistema demorou uns segundos para entender.

— O quê?

— Quando você fizer dezoito — ele repetiu, rodando de leve na cadeira.

— Faltam três anos inteiros para isso, Ethan.

— Eu sei.

— Então por que diabos a gente está discutindo planos para o futuro a essa hora da noite?

Ele só deu de ombros, com o controle do videogame no colo.

— Curiosidade.

Cerrei os olhos, ligando os meus alarmes de segurança. Desconfiei na hora daquela conversa. Porque se tinha uma regra sobre o Ethan aos nove anos, era que ele nunca fazia pergunta à toa. Ele tinha a mania de camuflar as intenções de verdade em papos bobos. Um talento irritante que ele com certeza aprendeu convivendo comigo.

— Talvez — respondi, bancando a diplomática.

— "Talvez"?

— Talvez.

— Isso não é resposta, Bella.

— É uma resposta bem ruim, confesso — concordei, sem perder a pose.

— Então responde direito.

Fiquei olhando para o meu irmão com mais atenção. O cabelo castanho espetado para tudo quanto é lado, o ralado novo no joelho esquerdo por causa do futebol da tarde, a cara de paisagem que, dava para ver nítido, tentava disfarçar uma preocupação de criança.

Aí me veio uma desconfiança de verdade na cabeça. Uma certeza que me deixou desarmada.

— Você está preocupado?

O quarto ficou num silêncio por um segundo. O Ethan torceu o nariz no reflexo, fazendo uma careta de poucos amigos.

— Não.

— Está sim, garoto.

— Não estou.

— Está.

— Não.

— Está.

— Bella.

— Ethan.

— Para.

— Você que começou o interrogatório.

Ele cruzou os braços com força, travando os ombros de um jeito igualzinho ao que eu fazia. O que era bem irritante para o meu orgulho; significava que ele estava copiando os meus piores jeitos sem nenhum filtro.

— Você é muito chata — ele decretou, inflando as bochechas.

— Isso não respondeu à minha pergunta, Ethan.

— Você também não respondeu à minha.

Droga. Tática de fugir do assunto e virar o jogo. O moleque estava ficando bom demais nisso.

— Talvez eu viaje — a resposta saiu da minha boca antes que o meu cérebro conseguisse parar.

Ethan ficou quieto na hora. Ficou mudo por uns segundos.

— Sozinha? — a voz dele ficou mais baixa.

— Uma hora ou outra, sim.

— Por quê?

Olhei para a janela do quarto, vendo as gotinhas de chuva e as luzes de Chicago piscando longe, atrás dos prédios. E, num reflexo inevitável, minha mente voou de volta para a neblina do Pacífico. Pensei nos olhos dourados do Edward, nas visões da Alice, nos Cullen. Pensei em todas as décadas que se passaram desde que morri em Forks.

— Tem um pessoal que eu preciso achar — a frase era a mais pura verdade. Só não estava completa, já que eu estava presa pelo juramento da praia.

— Amigos? — ele perguntou, curioso.

— Mais ou menos isso.

— Família?

— Não.

— Ex-namorado?

Meu cérebro simplesmente deu pane geral na hora. Travou tudo. Olhei para ele num susto, com os olhos arregalados.

— O QUÊ?

O Ethan abriu um sorrisão banguela gigante, pulando na cadeira de tanta alegria.

— RÁ! — ele gritou.

— Ethan!

— Eu acertei! Dá para ver na sua cara!

— Você só tem nove anos, garoto! — falei entre os dentes, sentindo minhas bochechas esquentarem no reflexo.

— Isso não respondeu à pergunta!

— Porque a sua pergunta foi absurda e sem pé nem cabeça!

— Então era um ex-namorado secreto!

— NÃO ERA! — disparei, perdendo totalmente a pose de irmã mais velha madura.

Rolou uma pausa gigante e super suspeita no quarto. O Ethan arregalou os olhões, pegando o meu desespero como uma confissão assinada em cartório.

— TINHA UM EX-NAMORADO SECRETO!

— NÃO TINHA NADA, ETHAN!

— TINHA SIM!

— ETHAN!

— MÃE! — ele berrou com toda a força do pulmão para o corredor.

— NÃO CHAMA A MÃE, SEU TRAÍRA!

Uns cinco minutos depois, a minha mãe estava na porta, tentando entender por que a filha de quinze anos parecia prestes a cometer um crime contra o irmão mais novo.

— O que está acontecendo aqui, pelo amor de Deus? — ela perguntou, cruzando os braços.

— Nada — decretei, fazendo a maior cara de paisagem do mundo.

— A Bella tem um ex-namorado secreto em outra cidade! — o Ethan dedurou, com a maior audácia do mundo.

— ETHAN!

— Que foi? Só estou passando os fatos para a gerência!

— EU VOU TE ENTERRAR NO QUINTAL DA FRENTE! — a ameaça saiu da minha boca voando, no puro reflexo do meu orgulho ferido.

O silêncio tomou conta do quarto na mesma hora.

Meu peito deu um nó e o meu coração deu uma pancada nas costelas. Senti a cara ficar branca. Porque cometi um vacilo terrível. Tinha esquecido. Esquecido totalmente de onde aquela frase vinha; da casa de Forks, da escavação do Emmett, do meu corpo enterrado embaixo do quintal da Esme por sessenta anos.

Minha mãe piscou três vezes, estátua. O Ethan piscou logo atrás, sem entender o peso que a minha voz tinha pegado do nada. Eu pisquei, xingando a minha falta de controle com as palavras.

— Metaforicamente — corrigi o erro super rápido, forçando uma vozinha de criança de novo. — Uma força de expressão, sabe?

— Claro, meu anjo — minha mãe limpou a garganta, fazendo aquela pose de mãe de adolescente difícil. — Metaforicamente.

— Muito metaforicamente, garanto — fechei o assunto, sem dar chance para conversa.

Ela deu meia-volta e saiu do quarto, claramente sem acreditar em uma palavra da nossa desculpa, mas feliz por não ter que apartar uma briga de verdade.

Assim que a porta fechou, o Ethan caiu na risada com tanta força que quase caiu da cadeira direto no tapete. Ele segurava a barriga, morrendo de rir do meu desespero.

— Você... você é muito ruim nisso, Bella! — ele tentava falar, com os olhos chorando de tanto rir.

— Você que começou a confusão, seu bandidinho — acusei, torcendo o nariz brava.

— Você falou super sério que ia me enterrar no quintal!

— E você inventou uma mentira sobre um namorado secreto só para acabar com a minha paz!

— Você ficou vermelha igual a um tomate! Eu vi!

— Minha pele continua na cor normal para o outono de Chicago, tá?!

— Ficou sim!

— Não fiquei, Ethan!

— Ficou!

Estiquei o braço e peguei o travesseiro de penas em cima da cama, medindo a mira. Ele sacou a movimentação no mesmo milissegundo, parando de rir e arregalando os olhos.

— Você não teria coragem — ele desafiou, puxando a cadeira para trás.

— As chances dizem que eu tenho sim.

— Bella...

— Corre, pestinha!

O travesseiro voou pelo quarto, acertando o peito do Ethan em cheio com um barulho abafado. Ele soltou um grito de surpresa, perdeu o equilíbrio e caiu direto no tapete fofinho.

Eu soltei uma risada limpa, aberta e de verdade.

E nos minutos seguintes, enquanto os travesseiros voavam pelo quarto e as penas enchiam o ar, o plano de achar os Cullen foi esquecido por um tempo. Não existiam vampiros imortais escondidos no Oregon. Não existiam regras ou promessas feitas em praias misteriosas. Não existia o peso de uma vida passada presa a Forks.

Tinha só eu, o meu irmão super irritante vivendo o presente e uma bela guerra de travesseiros que, como já era de se esperar, terminou com os dois sentados no corredor levando a maior bronca da dona da casa.

O que, pensando bem na minha nova vida, era uma lembrança bem humana e real que valia a pena guardar na gaveta certa da memória também.

Notas finais
Fico muito feliz de saber que estão gostando! Não deixem de comentar, amo saber a opinião de vocês! Ainda hoje postarei outro cap, até mais!