Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
23 Capítulo 23
Eu finalmente tinha um plano de ação pronto. Era um plano ruim, horroroso e totalmente impossível de realizar no momento, mas era um plano. E, no meu atual estado de criança sem direitos, ter uma direção era a única coisa que importava.
A ideia era bem simples: achar os Cullen, organizar uma viagem até o Oregon, interceptar a Alice no colégio daquele campeonato, conseguir o endereço do resto da família e, finalmente, encontrar o Edward. Super fácil no papel.
O único problema — humilhante e impossível de ignorar — era que eu estava presa no corpo de uma criança de nove anos.
Nove. Anos. Eu não tinha autoridade nem para atravessar a avenida de casa sozinha sem que algum adulto infartasse no portão.
Mesmo assim, com a teimosia de sempre, eu tentei. Claro.
Minha primeira ideia foi tentar conseguir o dinheiro para a viagem com os meus patrocinadores oficiais: meus pais.
— Pai, você poderia me dar mil dólares? — perguntei, fingindo costume, durante o café da manhã.
Meu pai quase morreu engasgado com o café, tossindo até ficar roxo.
— O... o quê? — ele soltou, limpando a boca. — Mil dólares?
— Sim, em dinheiro vivo, de preferência.
— E para que diabos uma criança da terceira série precisa de tanto dinheiro, Samantha?
Fiz a minha melhor cara de paisagem, caçando a desculpa perfeita na mente.
— Investigação científica avançada — mandei.
— Não.
— Fins educacionais super importantes.
— Não.
— Expansão dos meus horizontes intelectuais.
— Nem pensar, Sam.
Me joguei para trás na cadeira, bufando de ódio. Os adultos não tinham nenhuma visão de negócios.
Já que o banco dos pais fechou as portas, fui para a fase dois do plano: o livre mercado. Montei uma barraca de limonada na calçada.
Foi um fracasso comercial histórico.
Primeiro, porque Chicago no outono não era o melhor lugar do mundo para vender bebida gelada; segundo, porque cobrei um preço abusivo para a vizinhança.
— Dois dólares por um copo de limonada morna? — um vizinho idoso perguntou, achando um absurdo.
— Reajuste por causa da inflação — respondi, sem piscar.
— Menina, você só tem nove anos.
— E pelo visto já entendo de economia muito melhor do que o governo. Paga ou sai da fila.
Meu pai apareceu vinte minutos depois, confiscou meu cartaz de cartolina e me obrigou a baixar o preço para cinquenta centavos. Uma ditadura em casa.
Mesmo assim, nos meses seguintes, juntei cada centavo. Pegava moedas perdidas no sofá, notas amassadas de mesada, dinheiro que ganhava de aniversário de parentes que eu nem conhecia; sumia com tudo. Guardava a grana num pote de vidro escondido bem no fundo do armário. Meu "fundo de investimento vampírico secreto" — era assim que eu chamava o pote na minha cabeça.
Numa tarde fria de sábado, resolvi contar o caixa. Espalhei um mapa de estradas em cima da cama, olhei os preços de passagens de ônibus no computador e calculei tudo: distâncias, hotéis baratos, comida e ônibus locais.
Terminada a matemática, abri o pote de vidro para ver se a realidade batia com os meus cálculos.
O quarto ficou num silêncio de dar pena.
Olhei para o vidro. Olhei para o caderno. Olhei para aquele monte de moedas e notas amassadas de um dólar. O saldo total da minha multinacional de limonada era de exatos trinta e sete dólares e sessenta e cinco centavos.
Eu precisava de umas mil vezes aquilo para conseguir ir de Chicago até o Oregon. Talvez mais. Bem mais.
Fiquei sentada na beirada da cama por um tempão, sem me mexer. Senti o peso de uma derrota de verdade pela primeira vez desde que morri. Aquela barreira não dava para derrubar só com a minha teimosia obsessiva.
A realidade e as regras do mundo dos vivos eram um muro de concreto. Eu não podia simplesmente sumir. Não importava a força da minha vontade, a saudade doida ou o vazio que a falta daquela pele de mármore deixava no meu peito de criança. Eu era só uma menor de idade. Uma garota dependente, sem carro, sem cartão de crédito, sem autorização legal para viajar sozinha atrás de predadores imortais que nem sabiam que eu existia.
A vida humana era muito injusta.
Me encolhi na cama, abraçando os joelhos e encarando o teto escuro. Fiquei pensando no Oregon, nas visões da Alice... no Edward.
Será que ele estava perto dali? Será que, bem naquele segundo, ele estava tocando piano ou lendo algum livro numa biblioteca escura? Ou será que, depois de tantos anos que exumaram meu corpo em Forks, ele já tinha esquecido a Bella fantasma e seguido em frente?
Só de pensar nisso deu um nó doloroso na minha garganta, uma angústia que resolvi ignorar na hora.
Aí veio aquela batidinha de leve na porta. Um toque meio desajeitado que eu conhecia bem.
Ethan. Claro, quem mais seria?
Meu irmão mais novo colocou só a cabeça para dentro do quarto. O cabelo castanho estava espetado para tudo quanto é lado, o pijama de dinossauro estava meio torto e os olhões dele mostravam uma preocupação bem sincera.
— Sam? — ele chamou, bem baixinho.
Torci o nariz no reflexo, usando o meu escudo de sempre.
— Já falei mil vezes que odeio esse apelido. Não me chama assim.
— Tá bom — ele aceitou, entrando e fechando a porta. Ele hesitou um pouco antes de chegar perto da cama. — Você... você tá triste?
Olhei para a carinha dele na luz fraca do corredor. E, num estalo esquisito, não vi só o moleque pentelho de quatro anos que vivia invadindo o meu quarto. Vi aquele bebezinho minúsculo que meu pai colocou nos meus braços anos atrás; o menino que me seguia pela casa como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo; o pequeno desastre que conseguia me fazer sorrir de verdade mesmo nos dias mais chatos.
Lembrei dos anos que passamos juntos em Chicago. A rotina boba, os cafés da manhã barulhentos, o carinho daqueles pais. Toda aquela vida de verdade acontecendo ali. A minha família.
E alguma coisa dura dentro de mim cedeu, deixando a queda mais leve. Percebi uma coisa óbvia que eu estava ignorando na minha busca cega. Eu queria achar o Edward com toda a minha alma. Muito. Mas talvez... talvez o universo estivesse tentando me avisar que ainda não era a hora de mexer nos ponteiros do relógio.
Ethan subiu na cama todo desajeitado e sentou do meu lado, cruzando as perninhas.
— Que foi, Sam? — ele insistiu, sério.
Olhei para o pote de moedas vazio na mesa de cabeceira. Olhei para a foto borrada da Alice no computador. Por fim, olhei para a cara do meu irmão. E dei um sorriso pequeno, mas bem sincero.
— Nada, Ethan. Não foi nada.
— Mentira — ele rebateu, cerrando os olhos iguaizinhos aos meus. — Dá para ver na sua cara de velha rabugenta.
— Um bom palpite. Aprendeu a ler expressões comigo, foi?
— Eu nunca minto — ele estufou o peito de dinossauro, todo orgulhoso.
— Claro que não. Sua honestidade é quase comovente.
Ele abriu um sorrisão banguela e eu estiquei a mão para bagunçar o cabelo dele, esquecendo qualquer pose de brava. Pela primeira vez em semanas, fiz aquilo de verdade, sem ficar calculando rotas de ônibus no mapa, sem pesquisar sobre vampiros, sem ficar presa na melancolia do passado. Eu estava totalmente ali. Naquele quarto, com aquele irmão.
Porque a lógica da minha nova vida era bem clara. Eu passei sessenta anos parada em Forks, congelada no tempo, esperando alguém cavar o quintal e me achar. O ciclo fechou e eu ganhei uma chance de recomeçar.
E talvez o universo não tivesse me mandado de volta só para eu funcionar feito um míssil teleguiado atrás do Edward Cullen. Talvez eu também tivesse sido enviada para cá com uma missão humana: para fazer parte dessa casa, ser cuidada por esses pais e guiar os passos desse menino barulhento.
Ethan deitou a cabeça no meu ombro, ficando quietinho. Sentada ali, no escuro, senti uma paz gostosa brotar no peito. Os Cullen podiam esperar o tempo passar. O Edward e a eternidade dele podiam esperar eu crescer.
Porque entendi que eu tinha uma missão de longo prazo nessa vida também.
E se tinha uma lição que aprendi depois de morrer e nascer de novo, era que eu não ia, de jeito nenhum, abandonar a minha nova família no meio da história para viver presa ao passado.
Eu ia fazer cada página valer a pena.
Aos dez anos de idade, eu tive uma ideia. Uma ideia brilhante, perfeita, puramente estratégica. O tipo de sacada que provavelmente faria a Vida e a Morte revirarem os olhos lá do outro lado do universo.
Porque, pensando bem nas regras do meu trato espiritual, o negócio era bem claro: eu estava proibida de contar quem eu tinha sido na outra vida. Mas... o universo não tinha colocado nenhuma regra sobre mudar o nome na certidão de nascimento. E isso é o que os advogados chamam de uma belíssima brecha no contrato.
Passei as três semanas seguintes focada numa pesquisa exaustiva. Três semanas inteiras. Anotei argumentos, estudei como funcionava para mudar o nome na justiça, li sobre como o nome afeta a cabeça da criança e montei uma apresentação impecável. Eu estava prontíssima.
Fui para a cozinha numa noite de terça-feira decidida a abrir as negociações.
— Tenho uma proposta.
Meus pais pararam o que estavam fazendo e me encararam com uma desconfiança imediata. Achei uma ofensa.
— Por que você falou igual a um advogado? — perguntou meu pai, franzindo a testa e largando o pano de prato.
— Porque é um assunto sério.
— Samantha... — minha mãe começou, já suspirando.
— Já começamos mal — cortei, cruzando os braços.
Minha mãe balançou a cabeça, passando a mão na testa.
— O que foi agora?
Sentei à mesa com postura de reunião de negócios. Cruzei os dedos em cima da mesa, fiz a minha cara mais séria e soltei a bomba:
— Quero mudar de nome.
A cozinha ficou num silêncio total. Meu pai piscou, chocado. Minha mãe piscou logo atrás, tentando entender a audácia. Continuei firme, com cara de paisagem.
— Não — meu pai decretou, de primeira.
— Vocês nem ouviram meus argumentos.
— Não — minha mãe confirmou, sem choro.
— Mãe.
— Não.
— Pai.
— Também não.
Ditadura pura dentro de casa. Cheguei mais perto da mesa, endurecendo o tom.
— Escutem aqui.
Meu pai apontou o dedo para mim, meio chocado e meio rindo.
— Você fala igualzinho a uma senhora de cinquenta anos.
— Isso não vem ao caso — rebati, séria.
— Vem sim.
— Não vem.
— Vem.
— Pai, foco no assunto.
Ele simplesmente caiu na risada, tapando o rosto com a mão. Traidor. Minha mãe apoiou o queixo na mão, me olhando com uma paciência de dar pena.
— Samantha, você só tem dez anos.
— Exatamente.
— E o que isso tem a ver?
— Significa que já tive tempo suficiente para avaliar meu nome de forma crítica.
— Crítica?
— Sim.
— E qual foi a sua conclusão?
Respirei fundo, endireitando as costas. Finalmente. A pergunta perfeita que eu estava esperando para soltar o meu golpe.
— Samantha não tem impacto.
Mais um silêncio na cozinha. Minha mãe arregalou os olhos; meu pai tentou tossir para disfarçar a gargalhada.
— Impacto? — ele repetiu, com a voz falhando.
— Sim.
— E o que isso significa?
— Significa que quando alguém entra num lugar e fala "Samantha", ninguém para o que está fazendo.
— E daí?
— Agora imaginem alguém entrando e falando...
Levantei devagar da cadeira, bem dramática. Abri os braços e soltei:
— Isabella.
O tempo parou. Mais silêncio. Meu pai explodiu numa risada alta que ecoou pelos azulejos da cozinha.
— Meu Deus!
— O que foi?
— Você ensaiou isso?
— Talvez.
— Você com certeza ensaiou isso.
— Isso não importa agora — mudei de assunto rápido, focando no debate. — Isabella tem força — continuei.
— Claro.
— Tem classe.
— Certo.
— Tem história.
— Entendo.
— Tem presença.
— Você já falou isso.
— Porque é importante.
Minha mãe tentava esconder o sorriso com a mão. Péssimo sinal para mim. Significava que ela estava achando divertido. E pais nunca devem se divertir em negociações sérias; eles sempre acham que a nossa crise existencial é só uma "fase fofa".
— Não vamos mudar o seu nome.
— Por quê?
— Porque escolhemos com muito carinho.
Universo, me dá paciência. Apelo emocional. A tática mais difícil de quebrar com lógica.
— Eu respeito isso.
— Obrigada.
— Mas vocês erraram feio.
Meu pai quase caiu da cadeira de tanto rir.
Os dias seguintes viraram uma guerra de paciência. Uma campanha perfeita: insistente, profissional e diária. Toda vez que alguém tentava usar o meu nome antigo, eu mandava o contra-ataque.
Toda vez que me chamavam de Samantha...
— Isabella combina muito mais.
— Não.
— Só comentando.
— Não.
— Pensem com carinho.
— Não.
Uma semana depois, meu pai cruzou comigo no corredor logo cedo.
— Bom dia, Isabella — murmurei para mim mesma, passando por ele como se não fosse nada.
Ele travou no meio do caminho, com o cérebro dando pane por um segundo. Olhei para trás com um sorriso vitorioso.
— Viu? Soa super natural.
— Você acabou de se chamar de Isabella.
— E deu certo.
— Não deu não.
— Discordo.
Duas semanas depois, minha mãe entrou no meu quarto para pegar a roupa suja e deu de cara com um cartaz gigante colado na parede bem do lado da minha cama. O título explicava todas as vantagens da mudança: Elegante. Atemporal. Dramático. Impactante. Não é Samantha.
— Samantha! — ela gritou do corredor.
— Isabella — emendei da porta, corrigindo o erro.
— Tira isso da parede.
— Censura! — joguei na cara, cruzando os braços.
No fim da terceira semana de massacre, meu pai entrou no escritório, parou e olhou para a mesa de centro. Eu tinha montado uma apresentação de slides impressa, nível faculdade. Tinha gráficos de linha, tabelas coloridas e tudo.
— O que é isso? — ele perguntou, de queixo caído.
— Dados reais.
— Sobre o quê?
— A popularidade do nome Isabella na história.
— Você fez gráficos?
— Sim.
— Eu estou vendo uma criança de dez anos.
— E gráficos.
Naquela mesma madrugada, fiquei escondida no escuro do corredor, usando minhas habilidades de espionagem que treinei por sessenta anos em Forks. Meus pais cochichavam na cozinha.
— Ela não vai desistir, vai? — meu pai perguntou, soltando um suspiro cansado.
— Não — minha mãe admitiu, rindo baixinho.
— Ela fez gráficos.
— Eu sei.
— Gráficos, amor!
— Eu vi os gráficos.
— Ela fez até projeção de estatística.
— Eu também vi isso.
Ficaram quietos por um tempo, digerindo a teimosia da filha.
— Ela realmente odeia "Samantha".
— Parece pessoal.
— Acho que é.
Apertei os lábios no escuro, deixando um sorriso vitorioso aparecer no meu rosto. Vitória parcial.
A vitória veio numa terça-feira. O que foi bem decepcionante. Vitórias históricas deviam acontecer em noites de tempestade com uma música de piano de fundo. Não no meio de uma tigela de cereal e um dever de casa de matemática da quarta série.
Mas a vida, como eu já sabia, não liga para o drama.
Arrumei a postura na cadeira quando meu pai limpou a garganta, quebrando o silêncio da cozinha.
— Nós conversamos sobre o assunto.
Larguei a colher na hora, parando de mastigar. Meu pai e minha mãe estavam sentados bem alinhados, com caras super sérias. Sérias demais para uma manhã de terça.
Por um segundo de pânico, meu cérebro achou o pior: achei que alguém tinha morrido. Ou que eles tinham descoberto minhas pesquisas secretas sobre as escolas do Alasca e do Oregon. Ou pior, que tinham achado os mapas demográficos no meu armário.
— E aí? — perguntei, fechando os olhos de leve.
Minha mãe suspirou, relaxando os ombros.
— Não vamos mudar o seu primeiro nome.
Me joguei para trás na cadeira, indignada. Alta traição. Injustiça. A democracia estava morta em Chicago.
Mas meu pai levantou o dedo, me parando antes que eu começasse o meu show mental.
— Porém...
Parei. Essa palavra estava virando a minha favorita no dicionário.
— Porém? — repeti, ligando os radares para achar a brecha.
Meu pai sorriu de canto, olhando para a minha mãe.
— Achamos um meio-termo.
Cravei os olhos neles, desconfiada.
— O que vocês fizeram?
— Nós aceitamos colocar "Isabella" no seu documento.
Meu cérebro travou na hora. Deu pane geral. Por uns segundos, fiquei ali estátua na cadeira, só piscando devagar, sem conseguir falar nada.
— O quê? — a voz saiu meio fina.
— Samantha Isabella — minha mãe falou o nome, calmamente.
Pisquei mais duas vezes, tentando processar.
— O quê?
— Samantha Isabella.
— O QUÊ?
Meu pai caiu na risada, daquelas de chorar, e a minha mãe foi atrás, achando graça do meu estado de choque. Mas a verdade era que a risada deles parecia vir de longe. Eu não estava ouvindo mais nada. Porque, pela primeira vez em quase dez anos... o universo tinha aceitado as minhas exigências de papelada.
Fiz a checagem dos fatos para ter certeza.
— Vocês estão falando sério?
— Sim — ele respondeu, limpando o olho.
— Oficialmente?
— Oficialmente.
— No cartório?
— No cartório.
— Com papel assinado?
— Samantha...
— Isabella — corrigi na hora, sem dar chance para voltarem atrás no trato.
Meu pai apontou para mim, rindo e balançando a cabeça.
— Viu? É exatamente por isso que estamos fazendo isso.
Pulei da cadeira num salto só, esquecendo a pose de velha rabugenta.
O barulho da cadeira arrastando no chão foi tão alto que o pequeno Ethan entrou correndo na cozinha, assustado com a bagunça.
— Que foi? — ele gritou da porta.
— EU GANHEI! — berrei, com os punhos para o alto.
— Ganhou o quê? — o menino perguntou, com o pijama de dinossauro.
— JUSTIÇA!
— Ah — Ethan aceitou, se acalmando.
Ele deu as costas e voltou para o corredor, como se essa palavra explicasse todas as esquisitices da irmã mais velha. O Ethan era sábio demais para a idade dele.
Naquela mesma noite, deitada na cama em Chicago, fiquei olhando para o teto com um sorriso super bobo de vitória na cara.
Porque, legalmente falando... o meu nome agora era Samantha Isabella. O que significava uma coisa maravilhosa: "Bella" existia no mundo de verdade. Oficialmente. No papel. Se essa palavra existia na justiça, eu estava com ela.
Virei de lado, olhando a chuva escorrer pela janela. Minha mente voou de volta para a praia cósmica, para aquela mulher misteriosa que mudava de rosto e para a regra de ouro que ela tinha me dado:
“Você nunca poderá contar quem você foi.”
Eu não tinha contado. Não tinha falado uma linha que quebrasse o segredo. Não mudei nada sobre a minha história em Forks. Mas agora... agora eu tinha um nome de verdade na lei dos homens para me apresentar para o mundo. Um nome real. Um nome permitido pelo contrato.
Uma brecha tão linda que dava até um aperto gostoso no peito.
— Obrigada, burocracia — murmurei para o escuro do quarto, fechando os olhos realizada.
No dia seguinte, fui até a escolinha buscar o Ethan. Ele tinha acabado de fazer quatro anos e estava concentrado desenhando com giz de cera numa mesinha baixa. Assim que me viu na porta, largou tudo e correu na minha direção, com o cabelo todo espetado.
— Sam! — ele gritou, grudando no meu casaco.
Fiz uma cara de poucos amigos na hora.
— Ethan.
— Que foi?
— Meu nome mudou.
— Mudou nada — ele rebateu, piscando os olhões.
— Mudou sim.
— Não mudou.
— Mudou.
— Não mudou.
— Mudou.
— Não mudou.
Olhei para o teto da escola, sem paciência.
— Eu mereço esse castigo — suspirei.
Abaixei até ficar da altura dele, bem séria e profissional. Segurei ele pelos ombros.
— Escuta aqui.
— Tá — ele parou, prestando atenção.
— A partir de agora, você pode me chamar de Bella.
O corredor da escola ficou num silêncio por um segundo. Ethan piscou duas vezes, entendendo o comando novo. Aí, abriu aquele sorrisão banguela e leve que só criança tem.
— Tá bom, Bella!
E se soltou, saindo correndo para pegar a mochila no pátio.
Simples assim. Sem precisar de argumentos, planilhas de dados ou gráficos de estatística. Sem brigas na mesa da cozinha ou textões de psicologia.
Fiquei ali agachada no meio do corredor, vendo ele sumir na curva do prédio, com a maior cara de indignada do mundo.
— Foi... foi fácil assim? — resmunguei para o nada, inconformada por um moleque de cinco anos ter aceitado mais rápido do que a banca examinadora dos meus pais.
Mas enquanto a gente caminhava junto pela calçada indo para casa, debaixo do céu cinza de Chicago, senti um calor gostoso no peito. E sorri.
Porque, pela primeira vez desde que nasci de novo, a "Bella" não era só um segredo trancado na minha cabeça. O nome tinha o direito de ser falado no mundo real de novo. Estava vivo. Escondido no meio do documento de Samantha Isabella, mas estava no ar.
E um dia... quando a hora certa chegasse e eu finalmente cruzasse o caminho dos Cullen... quando eu estivesse na frente daquela pele de mármore e olhasse bem no fundo dos olhos dourados do Edward... eu ia poder estender a mão e falar:
— Oi. Eu sou a Bella.
e, pela primeira vez na história das minhas duas vidas... aquilo ia ser a mais pura verdade.
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