A primeira constatação que me ocorreu logo após o último suspiro foi puramente pragmática: Bom, isso é uma tremenda decepção.

Cadê os túneis de luz resplandecente? Cadê os querubins tocando harpa ou os coros celestiais que a literatura romântica tanto prometia? Não havia sequer um balcão de informações ou um folheto explicativo sobre as diretrizes básicas do pós-vida. Nada.

Em vez disso, eu estava descalça no meio de uma praia. Uma praia absolutamente colossal.

O oceano se estendia até onde a vista alcançava, tingido de um azul tão profundo e vívido que parecia desafiar as leis da física. Ondas suaves morriam sem pressa na areia branquíssima, sob um céu de tonalidade indecifrável — um meio-termo perpétuo entre o primeiro vislumbre da aurora e o último suspiro do crepúsculo. Era bonito. Irritantemente poético e bonito.

— Certo — murmurei para o vazio, cruzando os braços. — Então o grande grand finale é isso aqui?

O vento soprou de volta, gélido e mudo. Muito útil, de verdade.

Comecei a caminhar pela orla, deixando pegadas que sumiam logo em seguida. Depois de passar décadas flutuando como um fantasma entediado, eu tinha desenvolvido um ceticismo saudável em relação a cenários excessivamente pacíficos. Na minha experiência, calmaria demais costumava ser o prenúncio de que o universo estava prestes a me pregar uma peça.

E, de fato, eu não estava sozinha.

Mais adiante, sentada sobre uma rocha negra salpicada pela espuma do mar, havia uma silhueta. Uma mulher. Ou algo que se curvava na forma de uma.

O problema real era que o rosto dela se recusava a permanecer estático. Cada vez que minhas pálpebras piscavam, as linhas de sua face se reorganizavam: em um milissegundo, ostentava o frescor viçoso de uma jovem de vinte anos; no outro, a sabedoria ancestral de uma anciã milenar. Cabelos negros como a noite viravam fios brancos como a névoa num piscar de olhos.

Parei a poucos metros de distância, encarando aquela metamorfose ambulante.

— Isso é bem perturbador, sabia? — pontuei.

A mulher ergueu os olhos — que também mudavam de cor como um caleidoscópio — e me mediu de cima a baixo.

— Você também não é exatamente o padrão de normalidade, Isabella.

— Justo.

Ela permaneceu me observando por alguns segundos em silêncio. Então, soltou um suspiro pesado, carregado de uma empatia quase dolorosa.

— Coitada.

Meu orgulho, ferido por reflexo, inflou na hora.

— "Coitada"? É sério? Essa é a melhor primeira impressão que você conseguiu elaborar?

— Você passou sessenta anos presa como um espectro intangível em uma colina — ela rebateu, com a voz ecoando como o próprio oceano.

Houve uma pausa dramática.

— Ah... — limpei a garganta. — É. Bom ponto.

Não havia contra-argumento plausível para aquilo. Sem mais energia para sustentar a pose, desabei sentada na areia fofa, de frente para ela.

— E quem é você, afinal? O comitê de boas-vindas?

Ela apoiou o queixo na palma da mão, observando o horizonte.

— Sou a Vida.

Pisquei, processando.

— Certo.

— E a Morte.

Pisquei de novo, franzindo o cenho.

— Isso me parece um acúmulo severo de funções. Cadê o sindicato do funcionalismo cósmico?

Uma risada límpida escapou dela, misturando-se ao som das ondas que quebravam na orla.

— Nunca fui muito fã de burocracia.

— Então você é o quê? Uma deusa? Uma entidade cósmica suprema? Um conceito existencial que ganhou corpo?

— A última opção é a mais próxima da realidade — ela concedeu, inclinando a cabeça com um sorriso enigmático.

— Entendi. — Na verdade, eu não tinha assimilado um miligrama daquela conversa, e ela claramente percebeu a minha confusão, achando graça da minha audácia. — Então... este é o fim da linha? O apagão definitivo?

— Depende.

— Eu odeio essa palavra.

— Todo mundo odeia — ela deu de ombros, imperturbável.

— Então pare de usá-la. É péssimo para o diálogo.

Ignorando olimpicamente o meu conselho, ela estendeu a mão em direção ao oceano.

— Você pode simplesmente seguir em frente. Atravessar.

— E o que acontece se eu fizer isso?

— Significa terminar. Concluir o ciclo. Descansar.

A palavra "descansar" flutuou entre nós duas. Olhei de relance para o mar intransponível, para o céu impossível e, pela primeira vez em décadas, percebi que o pânico que me acompanhava em Forks tinha desaparecido. Não havia medo em mim. Apenas uma estranha e vasta curiosidade.

— E qual é a outra alternativa na mesa?

Os lábios dela se curvaram em um sorriso genuíno.

— Reencarnar.

Minha cabeça girou tão rápido em sua direção que, se eu ainda possuísse vértebras de carne e osso, o estalo teria ecoado pela praia inteira.

— O quê?

— Reencarnação. Você pode voltar ao fluxo.

— Eu posso voltar para o mundo dos vivos? Tipo, de verdade?

— Pode.

— Sem letras miúdas no contrato?

— Sim.

— Você está jogando uma informação desse calibre com uma calma que me assusta.

— Depois de algumas dezenas de milênios gerenciando o universo, Bella, tudo perde o teor de urgência.

— Outro ponto justo — admiti, embora minha mente estivesse trabalhando a mil por hora.

Fiquei em silêncio por exatos três segundos, ponderando as ramificações de uma nova existência.

— Eu quero voltar.

A entidade piscou, genuinamente surpresa com a minha falta de hesitação.

— Uma decisão impressionantemente rápida.

— Eu já passei tempo demais do lado dos mortos.

— Tecnicamente, você morreu duas vezes.

— Exatamente. O que significa que já tenho experiência acumulada para tomar decisões executivas.

Ela soltou uma gargalhada aberta, daquelas que sacodem os ombros e quebram qualquer postura divinal. Não era uma risada polida; era quase humana.

— Você sequer parou para refletir sobre os riscos!

— Eu passei sessenta anos refletindo dentro de uma casa vazia. Meu estoque de autorreflexão está esgotado pelos próximos dois séculos.

— Não posso argumentar contra isso — disse ela, levantando-se da rocha e limpando a areia invisível das vestes mudáveis. — Então, está decidido.

— Opa, espera aí. — Levantei-me num salto e apontei um dedo em sua direção. — Não tão rápido.

Ela suspirou, revirando os olhos com uma paciência maternal.

— Lá vem...

— Eu tenho uma reclamação formal a fazer antes de assinar qualquer termo.

— Claro que tem. Sou toda ouvidos.

— Eu sofri — comecei, cruzando os braços.

— Bastante — ela concordou.

— Muito mesmo. Foi um tédio excruciante misturado com um limbo emocional horroroso.

— Eu sei.

— Uma injustiça cósmica sem precedentes.

— Ainda estou de acordo.

Apertei os olhos, endurecendo a postura.

— Então eu exijo uma compensação. Uma indenização por danos morais espirituais.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo murmúrio distante das ondas. A Vida e a Morte me encarou por um longo, eterno momento, como se estivesse tentando decifrar se eu tinha perdido o juízo de vez.

Então, ela desabou a rir novamente. Uma gargalhada livre, ecoando pelo horizonte.

— Você está realmente tentando barganhar com as forças fundamentais da existência?

— Estou. Algum problema?

— Logo após a sua morte?

— É o melhor momento econômico para negociar, as ações estão em alta.

Ela balançou a cabeça, limpando uma lágrima imaginária no canto do olho, ainda sorrindo.

— Você é inacreditável, Isabella Swan.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Vou catalogar como um mesmo assim.

A mulher respirou fundo, recuperando a compostura, embora seus olhos caleidoscópicos ainda brilhassem com divertimento.

— Diga logo. O que você quer em troca?

Era a minha deixa. O momento pelo qual minha alma ansiava, a única coisa que justificaria o peso de recomeçar do zero. Não gaguejei. Não vacilei.

— Quero minhas memórias.

A frase flutuou entre nós, imponente. E, pela primeira vez desde que meus pés descalços tocaram aquela areia fina, a mulher silenciou.

O mar continuou seu vaivém coreografado às costas dela; o vento estranho ainda soprava, misturando a aurora e o crepúsculo. No entanto, a atmosfera havia mudado. Uma gravidade invisível despencou sobre a praia.

— Não — ela sentenciou, a voz desprovida de qualquer hesitação.

Pisquei, pega de surpresa.

— O quê?

— Não.

— Você nem parou para processar o meu pedido!

— Processei — ela rebateu, cruzando os braços de maneira espelhada à minha.

— Pensou por quanto tempo? Meio milissegundo?

— Tempo suficiente para saber que é inviável.

Estufei o peito, indignada.

— Isso é de uma injustiça tremenda.

— A vida costuma ser exatamente assim, Bella.

— Mas você é literalmente a porra da Vida! — apontei um dedo acusador na direção dela. — Isso me parece um conflito de interesses descarado.

A entidade simplesmente ignorou o meu surto. Claro que ignorou.

— Bella, preste atenção — ela começou, aproximando-se. — Almas não reencarnam carregando bagagens intactas. O esquecimento é a engrenagem que permite o recomeço.

— Eu também não deveria ter passado sessenta anos flutuando como um espectro intangível, mas aqui estamos nós.

Ela semicerrou os olhos mutáveis.

— Um argumento irritantemente válido.

— Obrigada.

— Continue sabendo que eu não gostei dele.

Soltei um suspiro teatral, jogando as mãos para o alto.

— Ah, por favor! Vamos recapitular? Eu passei mais de meio século presa em uma casa vazia. Fui assassinada em 1962. Assustei um vampiro de dois metros de altura no processo...

— O que foi particularmente hilário, admito — ela me interrompeu, com um princípio de sorriso.

— Obrigada.

— Foi um elogio genuíno dessa vez.

— Finalmente! Um milagre cósmico.

A mulher balançou a cabeça devagar, fitando-me como se tentasse ponderar se eu era extraordinariamente corajosa ou apenas monumentalmente problemática. Provavelmente uma mistura caótica das duas coisas.

— Por favor — insisti, deixando o deboche de lado por um instante. A seriedade na minha voz me surpreendeu. — Eu preciso lembrar. Quero saber quem eu fui.

Ela me encarou por longos, eternos segundos. O escrutínio de seus olhos caleidoscópicos era quase físico. Então, os ombros dela cederam em um suspiro derrotado.

— Existe uma brecha. Uma forma.

Imediatamente adotei uma postura ereta na areia, os olhos brilhando.

— Eu sabia!

— Não comemore antes da hora.

— Tarde demais, o otimismo já se instalou.

— Bella. — O tom dela me calou.

— Certo, certo. Prossiga.

A mulher se levantou da rocha negra. À medida que se erguia, sua expressão abandonou qualquer vestígio de leveza. Ela parecia mais séria, mais antiga — uma força primordial que já testemunhava o nascimento e a morte de galáxias muito antes de o conceito de humanidade existir.

— Existe uma condição inegociável.

Meu sorriso murchou. Condições nunca eram um bom sinal, especialmente quando vinham com a assinatura do universo.

— Que tipo de condição?

Ela cravou os olhos em mim, desnudando minha alma.

— Você poderá lembrar de absolutamente tudo. Cada linha da sua história. Cada rosto.

Meu coração espectral deu um salto violento de expectativa.

— Então onde está a pegadinha? Porque, obviamente, há uma cláusula leonina aí.

A entidade apontou um dedo firme em minha direção.

— Você nunca, sob hipótese alguma, poderá contar.

Pisquei, confusa.

— Contar o quê?

— Quem você foi.

O silêncio desabou novamente, espesso e asfixiante.

— Eu não entendi.

— Você terá permissão para carregar as suas memórias — ela explicou, pausando para dar ênfase a cada palavra. — Mas jamais poderá revelar sua vida anterior a nenhuma alma vivente.

— O quê? — Minha voz falhou. — Mas isso é ridículo!

— É uma salvaguarda necessária.

— Por quê? Qual o sentido disso?

A mulher desviou o olhar para a linha do horizonte impossível.

— Porque a vida precisa continuar sendo vida. Ela não pode ser apenas um eco do que já passou.

— Isso foi uma não-resposta poética. Não explicou nada.

— É a única resposta que você vai conseguir de mim.

Revirei os olhos com força.

— Eu odeio quando entidades fazem esse tipo de enigma metafísico.

— Eu sei que odeia.

— Então pare de fazer.

— Não.

Cruzei os braços, tentando digerir o peso daquela mordaça invisível.

— Então... eu vou caminhar pelo mundo sabendo exatamente quem sou.

— Sim.

— Mas condenada ao silêncio absoluto sobre o meu passado.

— Correto.

— Nem para os meus futuros pais?

— Não.

— Nem para amigos íntimos?

— Não.

— Nem para um psicólogo se eu estiver tendo uma crise existencial?

— Especialmente não para um terapeuta. Evite internamentos desnecessários.

— Uma regra curiosamente específica — resmunguei.

Ela ignorou o comentário, dando um passo à frente. O semblante dela se tornou ainda mais denso, e a próxima restrição veio carregada de um peso esmagador:

— Nem para o Edward.

O nome dele atingiu meu peito como um impacto físico, arrancando o ar que eu nem precisava respirar. Ficou ali, suspenso entre nós duas, ecoando na calmaria da praia. Doloroso. Reverberante.

Desviei os olhos para a areia branca, sentindo uma pontada aguda de desespero.

— Nem para ele? — perguntei, a voz reduzida a um sussurro frágil.

— Nunca, Bella.

Minha garganta se fechou em um nó.

— E se... e se os nossos caminhos se cruzarem de novo?

— A regra continua valendo.

— E se, por algum milagre, ele me reconhecer no olhar de outra pessoa?

— Continua valendo.

— E se ele me confrontar e perguntar diretamente?

— A resposta terá que ser o silêncio. Ou uma mentira. A condição permanece inalterada.

— Isso é de uma crueldade sem tamanho — acusei, sentindo lágrimas invisíveis queimando minhas pálpebras.

A mulher suavizou a postura. Pela primeira vez desde que a vi, ela pareceu genuinamente triste. Humana em sua melancolia.

— Não, minha querida. Cruel foi o que aconteceu com você naquela colina em 1962. O que estou lhe oferecendo é uma escolha. Esta é a condição: você poderá carregar sua história. Aprender com os seus erros, crescer com as suas dores. Mas terá que construir uma vida genuinamente nova.

— Sem poder reivindicar o meu próprio nome.

— Sem poder reivindicar o passado.

Fiquei em silêncio, a mente girando em círculos. Porque, no fundo da minha alma teimosa, eu entendia o propósito daquilo. Mesmo detestando com todas as minhas forças, eu compreendia a lógica cósmica.

Se eu pudesse simplesmente reencarnar, caminhar até Forks, bater na porta dos Cullen e dizer: "Oi, sou a Bella fantasma, estou de volta em um corpo novo", eu nunca teria realmente avançado. Eu continuaria presa no mesmo looping, vivendo na sombra da mesma tragédia, acorrentada à mesma morte. Seria apenas uma extensão da minha assombração.

A Vida e a Morte me observava fixamente, decifrando as nuances da minha expressão. Ela não tinha pressa. Tinha todo o tempo do universo para esperar pela minha decisão. E, de certa forma, ela já sabia o veredito.

Após o que pareceu uma eternidade concentrada em poucos segundos, soltei um suspiro pesado.

— Essa é uma condição absolutamente horrorosa.

— Eu sei que é.

— Eu odeio cada milímetro dessa regra.

— Também sei disso.

— E você não vai ceder nem um centímetro, vai?

— Não vou.

Olhei uma última vez para o oceano que brilhava à frente. Para a oportunidade absurda, impossível e magnífica que estava sendo estendida a mim. Uma nova chance. Uma vida inteira, em branco, esperando para ser escrita. Minha.

Engoli em seco e estendi a mão direita.

— Fechado. Temos um acordo.

Um sorriso terno e vitorioso iluminou o rosto mutável da mulher.

— Fechado.

No momento em que os seus dedos tocaram os meus, selando a promessa, o oceano inteiro explodiu em luz. Bilhões de pontos prateados e dourados irromperam das profundezas, transformando a água em um espelho do próprio cosmos.

O cenário começou a se desintegrar ao meu redor. A areia branca sob os meus pés desapareceu; o céu bicolor se desfez em partículas luminosas; o som do vento foi silenciado. Tudo estava sendo tragado pelo recomeço.

E a última coisa que alcançou a minha consciência nascente, pouco antes de eu ser puxada para o vazio do útero, foi a voz divertida da Vida e da Morte ecoando no vácuo:

— Ah, e Bella?

— O quê? — perguntei mentalmente, sentindo minha forma se dissipar.

— Tente não tentar negociar com entidades cósmicas na próxima existência, sim?

Senti meus lábios espirituais se curvarem em um último sorriso sarcástico.

— Sem promessas.

A gargalhada limpa e eterna dela foi o último som que existiu no limbo.

E então... o mundo recomeçou.

E… Eu voltei.