O toque dele ainda estava no meu rosto quando tudo começou a ficar... perigoso demais.

Não de um jeito sobrenatural, com luzes piscando ou vento dentro do quarto. Era perigoso de um jeito totalmente humano e cheio de emoção.

O Edward deu mais um passo na minha direção. Um movimento bem devagar e calmo, como se estivesse decidindo que queria ficar ali do meu lado para sempre.

E a minha cabeça percebeu o que ia acontecer antes mesmo de acontecer. A intenção dele estava clara. Era o tipo de situação que nunca deveria acontecer entre um vampiro super controlado e frio e uma fantasma surtada e sem memória.

Ele inclinou um pouco a cabeça. E, num piscar de olhos, eu entendi exatamente o que ele ia fazer. Ficar tão perto dele daquele jeito me deixou desesperada na hora.

Eu me afastei. Dei um pulo para trás no ar, bem rápido.

O toque da mão fria dele sumiu no mesmo instante. O quarto pareceu gigante de repente, como se tivesse aumentado só para me deixar com vergonha.

— Não — falei.

Minha voz saiu bem mais firme e séria do que eu esperava.

O Edward parou na hora, feito uma estátua. Não tentou chegar mais perto e nem me forçou a nada. Só continuou olhando bem nos meus olhos.

— Por quê? — perguntou ele.

A pergunta veio bem baixinha, mas carregada de sentimento.

Soltei uma risada fraca, sem graça nenhuma. Um riso nervoso que estragou o meu fingimento de durona.

— Porque isso não vai dar certo.

Ele franziu a testa, preocupado.

— Bella...

E foi aí que todo o meu controle foi para o espaço de uma vez só.

— Não, você não entende! — comecei a falar bem rápido, como se as palavras estivessem doidas para sair. — Isso nunca vai dar certo, Edward!

Ele continuou totalmente parado, me ouvindo. E eu continuei desabafando sem conseguir parar:

— Eu posso simplesmente... sumir! Você entende isso? Eu posso estar aqui agora e sumir no segundo seguinte! Posso desaparecer porque o universo resolveu me desligar como se eu fosse um erro.

Respirei fundo por puro hábito, mesmo sabendo que o meu peito não precisava de ar.

— Eu não sou estável. Eu não dou garantias a ninguém. Eu nem tenho um corpo de verdade, pelo amor de Deus!

Minha voz falhou por um segundo, perdendo o fôlego que eu nem tinha. Mas o meu orgulho machucado me fez continuar:

— E você... você é você. E isso...

Parei de falar na hora. Porque percebi que não sabia como terminar aquela frase sem estragar tudo de vez e passar o maior vexame da minha vida.

O Edward nem se mexeu. Só ficou me olhando com uma calma absurda. Calmo demais para o meu desespero. Parecia estar esperando eu terminar de surtar sozinha para depois falar.

E então, dando um passo rápido, ele chegou perto de mim de novo. Desta vez, sem hesitar. Ele não encostou de leve como antes. Ele levantou os braços e segurou o meu rosto com as duas mãos geladas e firmes. Com tanta força e certeza que parecia estar me prendendo de verdade no mundo real.

— Você não vai sumir — disse ele.

Simples. Direto. Sem me dar espaço para discutir.

Abri a boca para inventar uma piada e discordar dele, mas ele continuou falando antes que eu pudesse fugir:

— Eu não vou deixar.

Silêncio total no quarto.

Meu cérebro de fantasma deu um nó completo. Ele me olhava com tanta certeza que aquela frase parecia uma lei que ninguém podia quebrar. Como a gravidade da Terra.

— Edward... — comecei a falar, com a voz bem fraquinha e sem saber o que dizer, amolecendo com o toque das mãos dele.

Ele não soltou o meu rosto nem por um segundo.

— Eu vou passar a eternidade assombrando você, se for preciso — disse ele, com um leve sorrisinho no rosto.

Pisquei os olhos de fantasma, sem acreditar no que tinha ouvido. E então... acabei dando uma risada gostosa. De verdade. Sem conseguir me controlar.

— Assombrando? — perguntei, levantando a sobrancelha.

Ele não deu um sorriso grande, continuou com a cara séria de sempre. Mas o olhar dele ficou muito mais doce.

— É um jeito de dizer.

— Você escolheu um péssimo jeito de dizer.

— Eu sei.

O silêncio que veio depois não foi chato. Foi um silêncio gostoso e cheio de vida, mesmo comigo sendo um fantasma que nem coração batendo tinha.

Fiquei olhando bem nos olhos dele. Ainda sentindo as mãos frias dele segurando minhas bochechas. Ainda perto demais dele.

E, por algum motivo maluco, a ideia assustadora de sumir no ar de Forks pareceu um pouco menos provável. Não que fosse impossível, claro. Mas parecia menos assustadora agora.

— Você é péssimo para fazer promessas bonitas — murmurei bem baixinho, tentando fingir que não estava mexida.

— Eu posso melhorar.

— Não incentiva.

Ele soltou um barulhinho pelo nariz que parecia quase uma risada de verdade.

E eu continuei ali, parada. Presa entre o medo de sumir sem descobrir a verdade sobre o ano de 1962... e a vontade enorme e irritante de ficar exatamente onde eu estava, abraçada com aquele vampiro convencido.

O momento ficou suspenso no ar, como se a casa inteira de Forks estivesse segurando a respiração junto com a gente.

As mãos frias do Edward continuavam segurando o meu rosto. Firmes e reais, mas sem machucar. Era uma sensação incrível: parecia que ele estava me segurando de verdade no mundo dos vivos, sem me obrigar a nada.

Pelo meu orgulho, eu deveria ter saído dali voando. Deveria ter feito uma piada debochada para mudar de assunto. Deveria ter inventado qualquer desculpa para não ficar ali parada, olhando para a cara dele como se o resto do mundo não importasse mais.

Mas eu não fiz nada disso. Porque o palhaço do Edward tinha toda a razão. E o pior de tudo era perceber que ele estava certo, o que me deixava ainda mais caidinha por ele.

— Você é impossível — murmurei bem baixinho.

— Você já disse isso — respondeu ele, com a voz suave tocando a minha pele.

Soltei uma risadinha fraca, sem deboche nenhum. O silêncio voltou para o quarto, mas era um silêncio diferente. Sem brigas, sem defesas. Só expectativa.

Os olhos dourados dele não saíam dos meus. E eu senti aquela sensação estranha no estômago de novo. Aquele frio na barriga que eu ainda não sabia se era um defeito de fantasma ou se era o meu coração apaixonado.

Respirei fundo por puro hábito.

— Se eu sumir no meio disso tudo, a culpa vai ser oficialmente sua, Cullen — falei, cruzando os braços para esconder que eu estava tremendo.

— Eu aceito a culpa.

— Você não devia aceitar tão rápido.

— Eu pensei muito nisso.

Revirei os olhos, tentando fingir costume. Mas a verdade é que eu não me afastei dele nem um centímetro. E isso era a única coisa que importava.

O silêncio ficou mais pesado e cheio de tensão. O Edward não chegou mais perto para me beijar, mas também não se afastou. E percebi que ele estava me deixando escolher o que fazer.

O que era muito pior para mim. Porque escolher exigia uma coragem que eu achava que não tinha mais.

— Você está me olhando como se eu fosse um problema difícil de matemática — falei bem baixo.

— E você é.

— Isso foi uma provocação?

— Não. — Ele esperou um pouco. — É só a verdade.

Eu devia ter ficado brava com ele, mas não consegui. Não fiquei brava. Só continuei ali, parada com ele. E, pela primeira vez desde que o Jasper trouxe aqueles papéis com o nome do Riley Thompson, eu não tive vontade de fugir.

Levantei minha mão transparente bem devagar. Toquei o braço duro dele, sentindo o tecido da roupa. Depois, fui subindo os dedos até encostar no ombro dele. O Edward não se mexeu. Só continuou me olhando com uma atenção enorme.

— Isso é uma péssima ideia — sussurrei, deixando todo o meu orgulho de lado.

— Provavelmente.

— Você concorda demais comigo quando o assunto é dar errado, Cullen.

— Eu concordo com você quando você fala a verdade, Bella.

Fiz uma careta, franzindo o nariz.

— Essa resposta não ajuda o meu orgulho.

— Ajuda, sim.

Respirei fundo de novo. E desta vez, quando olhei bem fundo nos olhos dourados dele... eu não estava mais pensando em sumir. Nem nas regras do mundo dos mortos. Nem na chance de o universo me desligar a qualquer momento.

Eu só conseguia pensar nele. Naquele vampiro bonito na minha frente. E no fato de que ele estava ali, bem perto de mim, sem me empurrar para longe.

— Edward — chamei bem macio.

— Sim?

Hesitei por um segundo. O tempo certinho para quase amarelar.

Mas eu não amarelei.

Puxei a camisa azul-escura dele com as minhas mãos de algodão. Não fiz força, mas foi o suficiente para puxar ele para perto de mim e acabar com todo o espaço que tinha entre nós.

O Edward não me segurou e nem tentou parar. Na verdade, ele veio junto comigo.

E o mundo inteiro ao redor pareceu sumir de uma vez quando os nossos lábios finalmente se encontraram no meio do quarto.

Não teve luzes piscando nem nada quebrando na casa. Foi só um silêncio puro e gostoso. Aquele tipo de silêncio calmo que faz a gente parar de lutar contra o que sente.

E, por um segundo impossível, eu não tive medo de sumir no ar de Forks. Nem lembrei das memórias tristes de 1962. Nem tive medo do futuro.

Eu só senti que estava ali, inteira e viva de verdade.

E o Edward também.

O primeiro toque foi bem leve, muito cuidadoso. Como se ele estivesse me perguntando se podia continuar.

Eu não respondi com palavras. Não precisava de palavras.

Quando a gente se beijou, tudo ficou quieto dentro de mim.

Não era o silêncio da casa, nem o silêncio da floresta. Era um silêncio interno, como se o barulho da minha cabeça tivesse desligado.

Senti a mão dele no meu rosto, me segurando de um jeito firme, mas leve o bastante para eu saber que podia me afastar se quisesse. Esse cuidado dele sempre me lembrava de que a escolha era minha.

E eu não me afastei. Eu fiquei.

E isso mudou tudo.

O beijo deixou de ser tímido e virou certeza. Não tinha pressa, mas não tinha dúvida nenhuma. Era como se, depois de tanto tempo com perguntas sem respostas, a gente finalmente tivesse achado algo que não precisava de explicação.

O mundo lá fora continuava existindo, mas parecia muito longe. A TV devia estar ligada na sala, a casa continuava ali, mas nada disso importava mais.

Percebi que não tinha frio entre nós. Não tinha aquela sensação de que eu era um fantasma transparente. Por um segundo curto demais, eu não fui um fantasma. Eu fiz parte do mundo real de novo.

Subi minha mão pela camisa dele sem nem pensar. Um gesto simples, tentando ter certeza de que tudo aquilo era real.

O Edward não se afastou. Pelo contrário, chegou ainda mais perto.

E foi aí que a coisa mais perigosa aconteceu.

Não foi uma paixão doida. Foi a sensação de estar segura.

A sensação incrível de que ele não estava ali por curiosidade ou por causa de um mistério de fantasma. Ele estava ali porque queria ficar comigo.

E essa escolha dele me machucou e me curou muito mais do que qualquer lembrança do meu passado.

Quando nos afastamos, foi bem devagar. Como se ninguém tivesse certeza de que era seguro voltar para a realidade.

Fiquei olhando para ele sem dizer nada.

E o silêncio entre nós não tinha mais perguntas.

Tinha uma resposta.

O silêncio depois do beijo continuou ali, firme entre nós. Como algo real que a gente podia quase tocar.

O Edward continuava bem perto, e eu sentia a presença dele como se fosse uma força que me puxava para perto dele.

Eu não sabia o que fazer com as minhas mãos, com o meu olhar, com a minha cabeça. Tudo tinha mudado dentro de mim.

— Isso foi... — comecei a falar, com a voz meio trêmula.

E parei na metade. Qualquer palavra agora podia estragar o momento.

O Edward não se afastou, mas também não avançou. Só ficou ali, me olhando com aquela calma dele, tentando entender o que se passava na minha cabeça.

— Foi uma péssima ideia? — perguntou ele baixinho.

— Provavelmente.

— Você quer que seja uma péssima ideia?

Pisquei os olhos, pega de surpresa. Aquela pergunta foi direto no meu coração. Não porque era difícil, mas porque era a mais pura verdade.

Olhei para o rosto dele de novo. Ele continuava ali, lindo e perfeito. Nada tinha mudado nele, mas tudo tinha mudado dentro de mim.

— Eu não sei — respondi, sendo honesta de verdade pela primeira vez.

O Edward concordou devagar com a cabeça, aceitando a minha resposta. Ele era paciente demais comigo.

Passei a mão pelo meu rosto, tentando colocar a cabeça no lugar. Não adiantou nada, claro.

— Isso complica tudo — murmurei para o quarto vazio.

— Tudo já estava complicado, Bella.

— Isso complica mais ainda, Cullen.

Ele deu um sorrisinho de canto. Pequeno e perigoso.

— Eu percebi.

Eu devia ter ficado brava com a folga dele, mas não consegui. Eu só conseguia sentir o meu peito cheio daquela sensação gostosa de estar perto dele.

Dei um passo para trás no ar. Não porque eu queria ir embora, mas para testar se eu ainda conseguia me mexer.

O Edward não veio atrás de mim. Ficou parado, respeitando o meu espaço.

— Você está bem? — perguntou ele depois de um tempo.

Quase rir de novo.

— Eu sou um fantasma que acabou de beijar um vampiro, Edward. — Esperei um pouco. — "Bem" não é a palavra certa para usar agora.

Ele deu uma risadinha fraca pelo nariz. Mas continuou sério, me olhando.

— Você não sumiu.

Parei no ar. Era verdade. Eu continuava ali, inteirinha no meio do quarto.

— Não ainda — brinquei, para não perder o costume.

O Edward deu meio passo na minha direção, sem invadir o meu espaço.

— Você sempre espera pelo pior, Bella?

Olhei bem nos olhos dele.

— Eu não tenho um histórico de finais felizes, Edward.

O silêncio que veio depois foi pesado. Ele guardou aquelas palavras com carinho, como se estivesse prometendo mudar a minha história.

— Então talvez você precise de um novo histórico — disse ele, com a voz muito doce.

Levantei a sobrancelha, fingindo que não acreditei.

— Você está tentando mudar o meu jeito de pensar, Cullen?

— Estou tentando não deixar você acreditar que já sabe como a sua história termina.

Fiquei quieta. Aquilo mexeu muito comigo. Não só o beijo, mas o jeito como ele cuidava de mim.

Olhei para a janela. Lá fora, a floresta de Forks continuava cinzenta e cheia de névoa, do mesmo jeito de sempre.

— Edward... — murmurei bem baixo.

— Sim?

Pensei por um segundo. A frase já estava na minha cabeça, pronta para sair. Fria, sincera e assustadora.

Eu gosto de você.

Era uma frase simples, mas que mudava tudo.

O Edward continuava me olhando, esperando. Ele parecia ter todo o tempo do mundo.

Eu abri a boca para falar. Mas o mundo não deixou.

A memória veio com tudo. Sem aviso. Foi como se alguém tivesse me arrancado daquele quarto e me jogado no passado de novo.

Chuva. A primeira coisa que senti foi a chuva fria e pesada caindo sobre mim. Meu corpo estava sendo arrastado. Eu ouvia o barulho da madeira da casa ficando para trás.

— Para... — tentei pedir.

Mas eu não tinha voz. Só sentia mãos puxando meu braço com força.

Riley. O rosto dele aparecia no meio do escuro e da chuva. Não era uma foto velha. Era ele ali, de verdade, respirando, vivo. E me arrastando.

As escadas passaram por mim de qualquer jeito. A casa ficou para trás. O vento soprava forte e a floresta parecia uma boca preta engolindo a gente. Ele me arrastou até o chão, até a terra molhada.

O som de uma pá cavando a terra era constante. Ritmado. Como se ele estivesse fazendo um trabalho qualquer. Como se eu não estivesse ali.

— Não... — tentei gritar na minha cabeça.

Mas tudo estava longe. Meu corpo caiu num buraco fundo. Frio. Molhado.

E a terra começou a cair por cima de mim. Uma camada, depois outra. Pesada. Cobrindo tudo. Me enterrando.

Voltei para o presente com um puxão de ar desesperado. Meu corpo estava todo travado, como se eu ainda estivesse debaixo daquela terra toda.

Eu estava de joelhos no chão do quarto, sem conseguir me segurar direito.

— Bella!

A voz do Edward veio de longe e depois chegou perto. Em um segundo, ele estava do meu lado, segurando meus ombros.

— O que aconteceu? — perguntou ele, preocupado.

Tentei responder, mas minha voz não saía. Minha garganta parecia fechada. Porque aquilo não tinha sido só uma lembrança. Tinha sido uma certeza.

Respirei fundo, apavorada, e consegui sussurrar:

— Eu sei onde...

Parei. Engoli em seco e olhei bem nos olhos dele.

— Eu sei onde o meu corpo está.

Silêncio total. O Edward congelou na hora.

E eu repeti, bem baixinho, com o coração na mão:

— No jardim...

Minha voz falhou, mas continuei:

— No jardim da Esme.

E, naquele segundo, a casa inteira pareceu diferente.

Como se o chão sob os nossos pés estivesse guardando um segredo horrível.

Um segredo enterrado ali, só esperando para ser encontrado.