Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
15 Capítulo 15
Os dias voltaram a fingir que tudo estava normal. Foi uma tentativa meio sem vergonha do calendário de Forks, vamos combinar, mas funcionou bem o suficiente para garantir que ninguém naquela casa enlouquecesse de vez.
A investigação sobre o meu passado foi sendo empurrada, bem devagar, para um canto escuro da cabeça dos Cullen — parecia aquela caixa cheia de mofo que todo mundo tem medo de abrir.
Riley Thompson. Pessoas sumindo. Minhas memórias todas quebradas. Perguntas demais sem resposta.
Tudo isso foi sendo deixado de lado. Ninguém mais tocava no assunto, ninguém dava explicações. Combinamos em silêncio: ninguém mexe nesse vespeiro agora.
E, sendo bem honesta, o meu orgulho agradeceu. Eu ajudei a fingir que tinha esquecido. Não porque eu tinha resolvido o mistério da minha vida, mas porque eu não aguentava mais sentir aquela dor horrível. Era péssimo puxar um fio de uma história antiga e descobrir que eu estava presa nele.
Então, com a minha incrível maturidade de dezenove anos, fiz o que eu sei fazer de melhor quando a vida fica difícil demais: fingi que não era comigo. Deletar arquivo.
O Edward percebeu a minha fuga, claro. Com aquele radar de vampiro que lê mentes, ele sempre sabia o que eu estava sentindo. Mas, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele simplesmente escolheu não me pressionar e nem me obrigar a falar sobre o assunto.
O que foi bem estranho, para falar a verdade. O Edward não era o tipo de pessoa que deixava as coisas para lá tão fácil. Pensei sobre isso por uns dois dias, mas depois resolvi ignorar essa estranheza também. Excelente ideia. Não resolveu nada do problema real, mas me manteve funcionando. Mais ou menos.
A nossa nova rotina era estranhamente confortável. Eu continuava totalmente visível para todo mundo. No começo, isso tinha sido um evento gigante, com o Emmett gritando e comemorando pela sala. Agora? Tinha virado só um dia normal.
O Emmett, inclusive, tinha perdido a graça em ficar testando se eu era um fantasma de verdade. O que foi bem chato para o meu ego.
— Eu esperava que você ficasse mais assustado comigo — reclamei, entediada, flutuando de cabeça para baixo do lado dele no sofá enquanto ele assistia à TV.
— Eu só me acostumei, Bella — respondeu ele, super calmo, sem tirar os olhos da tela. — Você não dá mais medo.
— Isso é muito ofensivo para o meu currículo de fantasma.
— É só a verdade.
Soltei um suspiro alto, balançando os pés no ar.
— Você era muito mais divertido quando tinha medo de canetas caindo e de mensagens no espelho.
— E você era muito mais misteriosa, admite.
— Eu ainda sou extremamente misteriosa!
— Agora você é só um fantasma chato.
Ficamos em silêncio por um segundo.
— Mas ser chata não é o próximo passo de ser misteriosa?
Ele nem se deu ao trabalho de responder. Só esticou o braço enorme e apontou para a TV.
— Olha para isso aqui.
— Não quero, estou com tédio.
— É um documentário sobre ursos.
— Eu já vi ursos de verdade na floresta, Emmett. É tudo igual.
— Mas esse urso está tentando atacar um carro em movimento.
— Ah, bom. Nesse caso, é um filme de ótima qualidade.
Ele soltou uma risada alta e gostosa. E pronto: o Emmett tinha oficialmente se acostumado a morar com um fantasma. Uma pena para a confusão que eu gostava de arrumar.
A Rosalie foi a maior surpresa de todas. Eu tinha certeza de que ela iria odiar a minha camisola antiga para sempre, ou que iria me ignorar com aquele jeito chique dela.
Mas não. Para a minha surpresa, ela começou a falar comigo. Pouco, é verdade. Com uma voz bem seca e direta, mas falava.
— Você está bem no meu caminho — disse ela em uma tarde, parando na escada quando me viu sentada lá no alto.
— Eu não ocupo espaço de verdade, Rosalie. Você pode passar por dentro de mim se quiser testar a física.
— Você entendeu muito bem o que eu disse.
— Eu sempre te entendo, loira.
— Isso não ajuda em nada.
E ela simplesmente passou direto por mim, descendo os degraus como se ter uma garota morta no meio da decoração fosse a coisa mais normal do mundo.
Fiquei olhando para o nada por uns segundos e resmunguei:
— Isso foi quase o começo de uma grande amizade.
Ela não respondeu nada, mas também não disse que não. Para o padrão da Rosalie, aquilo era o equivalente a me dar um abraço bem apertado.
E o Edward... bom, o Edward continuava sendo ele mesmo. O que significava que ele ainda me olhava demais pelos cantos da casa. Mas agora eu percebia uma diferença no jeito dele. Antes, ele me olhava como se estivesse estudando um problema científico. Agora? Ele me olhava com um carinho muito suave.
E isso era muito mais perigoso para o meu plano de ignorar os meus sentimentos. Porque carinho mostra que a pessoa quer alguma coisa. E ter uma intenção significa que a história não acabou. Eu tentava não pensar nisso também, fingindo costume. Uma ótima atuação da minha parte, nota dez.
Em uma tarde cinzenta, eu estava sentada no banco do piano da sala. Eu não tocava nada, claro. Eu não sabia tocar piano e nem tinha como apertar as teclas. Mas gostava de sentar ali porque achava que ficava com uma pose chique. E também porque era o lugar onde o Edward passava horas tocando. O que era um motivo totalmente neutro, claro. Zero sentimentos envolvidos, eu garanto.
O Edward entrou na sala sem fazer nenhum barulho com os seus passos de vampiro, como sempre fazia para me testar. Andou até perto do piano.
— Você está fugindo do seu passado — disse ele, com aquela voz calma.
Nem mudei de posição, continuei olhando para as folhas de música no piano.
— Eu só estou evitando surtar, Cullen.
— Dá no mesmo, Bella.
— Não dá, não.
— Dá sim.
Soltei um suspiro alto, fingindo que precisava de ar.
— Edward.
— Bella.
— Você prometeu que não ia tocar mais nesse assunto.
— Eu não prometi nada, Bella.
— Mas você concordou em deixar os papéis do Jasper de lado.
— Você me venceu no cansaço com a sua teimosia, vamos confessar.
— Isso é uma grande mentira sua.
Ele deu um sorrisinho de canto e se sentou do meu lado no banco, dobrando as pernas compridas. Ficamos ali quietos por um tempo. Depois, ele falou bem baixinho e com muito cuidado:
— Você está bem mesmo com todo esse silêncio?
Olhei bem no fundo dos olhos dourados dele. E, pela primeira vez em dias fingindo que nada estava acontecendo, fui honesta:
— Não sei, Edward. Eu realmente não sei.
Ele concordou devagar com a cabeça, como se essa resposta fosse o suficiente para ele. E talvez fosse mesmo. Porque, por mais que eu tentasse ignorar a história do Riley Thompson e o ano de 1962, o passado não tinha sumido. A poeira só tinha sido empurrada para baixo do tapete. E eu ainda conseguia sentir que aquela história estava ali, quietinha, só esperando a hora de voltar.
Mas, por enquanto... no presente...
Eu tinha o Emmett fazendo barulho e vendo programas de urso comigo no sofá. Tinha a Rosalie me aguentando nas escadas. Tinha a Alice tentando me vestir com roupas de moda na cabeça dela. E tinha o Edward Cullen me olhando daquele jeito fixo, como se eu fosse um mistério gostoso de resolver que ele não queria deixar para lá de jeito nenhum.
E, de um jeito muito louco e sem explicação... tudo aquilo parecia muito com ter uma vida de verdade.
Uma vida meio estranha, sim. Uma vida cheia de complicações nas paredes. Mas uma vida que era minha.
Pelo menos até o próximo problema aparecer e me encontrar de novo naquela casa de Forks.
A casa estava quieta de um jeito até esquisito.
Sem o Emmett quebrando móveis velhos no andar de baixo só por diversão. Sem a Alice avisando sobre roupas feias antes de qualquer um vestir. Sem a Rosalie parecendo brava com a existência do mundo. Sem a Esme organizando a casa.
E essa calmaria toda significava uma coisa bem perigosa para mim: o Edward e eu tínhamos a casa inteira só para nós. Na teoria, deveria ser algo calmo. Na prática, era só... arriscado.
Eu estava deitada de qualquer jeito na cama dele, sem nenhum respeito por um quarto de vampiro. Eu olhava para a televisão ligada na parede, assistindo a um programa que eu nem devia estar prestando atenção. Era um concurso de cozinha. Tinha pessoas chorando na TV porque o purê de batata tinha dado errado.
— Ele queimou o molho — comentei para o quarto vazio, indignada. — Isso devia ser proibido por lei.
O Edward, sentado na poltrona de couro ali perto, virou a página de um livro grosso sem nem me olhar.
— Você já disse que três coisas diferentes deveriam ser proibidas nos últimos vinte minutos, Bella.
— Porque as pessoas não sabem mais cozinhar e ninguém faz nada! — respondi, ajeitando minha camisola de algodão.
— Ou porque você está envolvida demais com um programa de comida que você nem pode comer.
Olhei para ele brava na hora.
— Isso foi uma provocação direta para mim?
— Foi só uma observação.
— Você é muito chato, Cullen.
— E você está falando sozinha com a TV como se estivesse em um tribunal.
— Porque alguém precisa julgar esses pratos horríveis — resmunguei, cruzando os braços.
Ele deu um sorrisinho de canto. Aquele sorriso pequeno e controlado dele que sempre mexia comigo.
Revirei os olhos e voltei a olhar para a TV. Por alguns minutos, o quarto ficou numa paz gostosa. Uma paz esquisita e quieta, daquelas que fazem a gente desconfiar de que alguma coisa grande vai acontecer a qualquer momento.
Eu já estava pensando em mudar de canal para não me estressar com a comida quando ouvi a voz dele de novo. Bem mais baixa e suave dessa vez.
— Bella.
Olhei para ele. O Edward continuava na poltrona, mas já tinha parado de ler. O livro estava fechado no colo dele.
— O quê? — perguntei, com a voz fraca.
Ele demorou um segundo para falar, como se estivesse pensando se devia mesmo dizer aquilo.
— Posso tentar de novo?
Pisquei os olhos, perdendo toda a minha postura de deboche.
— Tentar o quê? Não tem nada aqui para você testar.
Ele olhou bem nos meus olhos, compenetrado.
— Tocar em você.
O silêncio que veio depois tomou conta do quarto no mesmo instante. A televisão continuava falando sozinha ao fundo, mas parecia que o mundo inteiro tinha parado de respirar. O meu coração de fantasma — que não servia para nada e nem precisava bater — resolveu dar um pulo no meu peito, me deixando nervosa na hora.
— Por quê? — perguntei, com a voz tremendo mais do que eu gostaria.
O Edward não parou de me olhar por um segundo sequer.
— Porque nós nunca entendemos direito o que aconteceu daquela vez no jardim, Bella.
Engoli em seco, um hábito bobo de quem não precisa de ar. Ele continuou explicando com a sua lógica de sempre:
— E porque eu quero ter certeza de que aquilo não foi só uma coincidência.
Coincidência. Uma palavra muito pequena para explicar uma sensação que me deixou tonta por dias inteiros.
Fiquei olhando para ele por um longo tempo. Depois, olhei para a minha própria mão transparente. Fina, invisível, totalmente errada para o mundo real.
— Isso é uma péssima ideia, Cullen — brinquei, tentando fingir coragem.
— Provavelmente é.
— Então por que você quer fazer isso?
Ele inclinou a cabeça devagar, olhando no fundo do meu olhar.
— Porque você não vai conseguir fugir do que sente só fingindo que não liga e jogando o assunto fora, Bella.
Soltei uma risadinha sem graça.
— Eu não estou fugindo de nada.
Ele levantou uma das sobrancelhas, sabendo que tinha me pego no pulo.
— Bella.
Silêncio total. Soltei um suspiro demorado. Porque, para o meu azar, ele estava coberto de razão. E isso me irritava profundamente.
— Tá bom — falei por fim, levantando da cama num pulo. — Mas fique sabendo que, se isso der errado e estragar o meu corpo de fantasma, eu vou assombrar a sua vida para sempre. Suas estantes de livros nunca mais terão paz.
— Combinado.
Me levantei devagar, ficando firme no ar. A TV continuava passando o programa de cozinha, mas eu nem prestava mais atenção. O Edward veio na minha direção, bem devagar e com muito cuidado, como se tivesse medo de me assustar ou quebrar alguma coisa invisível entre nós.
Parei bem na frente dele.
— Sem truques de vampiro, Cullen — murmurei, franzindo a testa.
— Sem truques — prometeu ele baixinho, com a voz muito suave.
Respirei fundo por puro hábito. Mas o meu corpo teimava em fingir que estava vivo toda vez que ele chegava perto demais de mim.
— Faz esse teste de uma vez antes que eu mude de ideia e vá embora — falei, cruzando os braços.
O Edward levantou a mão devagar, sem hesitar. E então, encostou a ponta dos dedos frios e duros direto na minha bochecha.
O toque foi muito leve. Tão cuidadoso que parecia que ele estava testando se eu existia de verdade.
E, no mesmo segundo em que os dedos dele encostaram na minha pele... o meu mundo inteiro mudou de cor.
Não ficou tudo escuro nem deu um estalo de luz. Ficou tudo real. Intenso. Eu senti a pele fria dele de verdade no meu corpo. Como se alguma coisa guardada há muito tempo dentro de mim tivesse lembrado, por um segundo impossível, como era sentir o toque de uma pessoa viva.
Minha respiração de mentira travou na hora. Meu corpo inteiro congelou no ar, parando de flutuar. E o meu coração morto — aquele que não devia bater segundo a biologia dos fantasmas — começou a bater com muita força contra as minhas costelas, só para me desmentir e mostrar o quanto eu estava mexida.
— Edward... — sussurrei trêmula, sem conseguir tirar os meus olhos dos olhos dourados dele.
Ele não disse nada. Ficou ali parado, bem perto de mim, feito uma estátua. Parecia estar prestando atenção em tudo o que eu estava sentindo e confirmando todas as certezas que ele já tinha sobre o meu nervosismo.
E o meu orgulho odiou descobrir que, naquele exato momento... a garota fantasma não queria que ele tirasse a mão do rosto dela de jeito nenhum.
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