Como Ser O Pior Aluno de Hogwarts
5 Lição 4 – Acorde atrasado no primeiro dia. Ponto extra se não souber onde fica a sala de aula.
O caminho até a torre fora silencioso. Era muita coisa para digerir, muito no que pensar. Um turbilhão de pensamentos rondava sua cabeça, mais precisamente, sobre sua família. Algo lhe dizia que estava deixando alguma passar em branco. Havia algo lá trás, algum detalhe que não prestara a devida atenção na época, mas que agora deveria ser relevante. Sua mente ia e voltava repetidamente no tempo, em busca da peça que lhe faltava.
Em meio a isso, se pegou pensando na professora Royer. Como chegou a ela, ainda era um mistério, mas aqueles olhos verdes, aquele ar presunçoso no rosto, aquelas sardas, lhe vieram à cabeça. Claro, a beleza dela era o mais marcante, talvez fosse por isso que estivesse tão ansioso para saber mais. Ele se divertia com esse quebra-cabeça.
— Pensando na professora Royer? – Black perguntou quando Logan fez um sorriso de quem está pensando em besteira.
O escocês franziu a testa, voltando-se para problemas mais urgentes.
— Na verdade, não. – Afirmou, parando no meio das escadarias, enquanto os lances mudavam de lugar, realocando-se do outro lado da torre. Ia perguntar como faziam aquilo, mas tinha desistido de entender o lugar.
— Não seja mentiroso. – O professor repreendeu. – Eu posso ler mente sabia?!
— Precisa usar a varinha pra isso? — Kendrick não tinha certeza, era apenas um chute. Já que para fazer um feitiço, tinha que se sacar a varinha, então fazia sentido que para ler a mente de alguém era necessário usar a arma.
— Muito esperto. – Black riu, continuando a subir as escadas. – Mas eu não preciso da varinha para fazer isso. – Falou, bastante seguro de si. – Uma das habilidades mais avançadas do exscribend testatem é a leitura de mentes.
“Legal”, pensou Logan, rindo como um idiota. Seria interessante aprender isso, mesmo que fosse errado. Na hora de uma prova nem precisaria estudar, bastava apenas ler a cabeça do mais inteligente da sala. Ou quando fosse passar alguma cantada, já saberia como atacar.
— Quando vou aprender a ler mentes? – Perguntou animado, doido para ir direto ao assunto.
— Em breve. – Respondeu, achando graça naquela vivacidade toda. – Primeiro tem que aprender a camuflar esse olho. Não quer ficar cego, ou pior...
A voz do professor ficou esquisita depois da palavra “pior”. Parecia mais sombria, mais tensa do que o habitual.
— O que ruim é esse “pior”? – Ficou curioso. Com toda razão, afinal, ficar sem enxergar de já ruim o bastante, e ter uma conseqüência mais tenebrosa era de deixar qualquer um apreensivo.
— O que acontece quando você enche demais o HD de um computador? – Black indagou, ao entrarem em um corredor extenso, cheio de pinturas e portas de madeiras dos dois lados. Estava mal iluminado, por causa do vento forte que entrava pela janela no final e apagara algumas das tochas espalhadas ao longo do caminho.
Logan achou estranho que um bruxo soubesse o que é um computador. Se bem que, seria mais atípico se ele não conhecesse um. Em 2017 era mais comum que fogões e geladeiras.
— Ele fica lento, e você tem que formatar. – Respondeu como se fosse a mais fácil das perguntas. – E se estiver muito estragado a gente joga fora e compra um novo.
— Com o exscribend testatem é o mesmo princípio. – O professor entrou na primeira entrada a esquerda, recomeçando a subir mais um lance de escadas que se moviam. – Se você armazena muitos feitiços, uma hora seu cérebro vai ficar cheio. Tão cheio, que seus neurônios vão ficar sobrecarregados. E mesmo que se consiga transferir parte desses pensamentos com uma penseira, as seqüelas que ficam são irreversíveis. E como não dá para comprar um cérebro novo... – Ele deu de ombros.
“Caraca, me lasquei”, Kendrick disse a si mesmo. Ou seja, quanto mais ele usasse, pior seria. Realmente, o “pior” que Black mencionara era pior do que ficar cego.
— Sabe, nos meus primeiros anos na Durmstrang, eu pensava que seria muito mais fácil passar o tempo inteiro com exscribend testatem ativo e acumular o máximo de magia possível. – Explicou, enquanto subiam mais um lance de escadas. – Até que um dia tive um colapso no meio do pátio quando usaram um feitiço bobo que fazia um bando de pássaros voarem da ponta da varinha. – Ele riu, se lembrando da forte dor que sentira entre as sobrancelhas e apagando logo em seguida. – Passei dois dias desacordado na enfermaria. Acabei perdendo as provas finais por causa disso.
Logan se assustou com a história. A dor excruciante que correra por seu olho voltara a sua memória. Saber que poderia sentir aquilo de novo, era o que mais preocupava, sem tirar o fato que ficar desacordado por alguns dias não lhe parecia nada convidativo. Mas ainda havia uma pergunta que precisava de resposta.
— O que Durmstrang? – Questionou.
— É uma escola. – Respondeu o professor, rindo da própria burrice. Devia ter explicado antes. – Só que ela tem ênfase maior nas artes das trevas. O meu avô, Alphard, achava que Hogwarts era muito fraca por aceitar nascidos trouxas. Meu pai era contra, afinal um dos nossos foi diretor daqui, mas como defunto não tem vontade... O velho acabou me matriculando em Durmstrang. Lugar horrível. Parecia o exército. Era frio, sem graça, que mais parecia festa da salsicha de tanto homem, e as poucas mulheres que tinham ainda eram chatas de dar dó. – Ele fez uma careta de nojo.
O escocês riu. Não imaginava alguém, todo brincalhão e informal como o bruxo, tendo que ficar sério e seguir uma disciplina rígida todos os dias. A outra escola não combinava em nada com o mestre.
— Chegamos. – Avisou Black ao subirem o último degrau, parando em frente a uma moldura vazia. – Droga, cadê aquela desvairada?! – Esbravejou.
A mulher gorda não tardou a aparecer. Estava ofegante, com o vestido branco de festas completamente banhado de suor, as bochechas tomadas por um rosa forte, e a mão direita no peito, como se fosse ter um ataque cardíaco a qualquer momento.
— Nossa... Nunca corri tanto na minha vida. – Ela reclamou. Ainda tentando recuperar o fôlego.
— Você demorou. – Repreendeu o professor.
— Me desculpe professor Black. – A mulher ficou envergonhada. – Quem é esse aí? – Apontou o dedo obeso para Logan e torceu o rosto.
— Aluno novo. – Black deu de ombros.
— Não é um pouco velho para ser aluno? – Ela perguntou curiosa.
— Eu juro que vou dar uns murros no próximo que falar que sou velho demais pra estar aqui. Seja quadro ou humano. – Logan disse de forma exaltada, balançando a mão direita com raiva e o dedo indicador em riste.
— A senha. – Pediu, sem se importar com que o aluno dissera.
— Legião romana. – O bruxo ainda ria da cena quando falou a senha.
A parede onde estava o quadro fez um barulho e se abriu, como se tivesse dobradiças, revelando um corredor, com uma luz brilhante no final.
— Tome. – Black tirou um papel de dentro das vestes. – Estes são seus horários. Esteja lá na hora marcada. As nove em ponto. Só mais uma coisa. – Ele voltou-se para o aluno, e falou com um tom sério. –Tome cuidado ao entrar aí dentro. Os garotos daí devem estar empolgados para usar magia. Passaram o verão inteiro em casa, sem ter a oportunidade de nem ao menos tocar na varinha. Devem estar fazendo gracejos e azarações para todos os lados. Então, nada de gracinhas, vá direto para o dormitório. Não tente bancar o herói como fez no Expresso Hogwarts, Faulkner não estará lá pra ajudá-lo se acontecer alguma coisa.
O escocês balançou a cabeça, concordando com o que estava ouvindo. Se não soubesse do que poderia acontecer se usasse demais o olho, talvez ignorasse o aviso, como sempre fazia quando lhe mandavam. Mas na situação atual, não poderia correr risco.
— E outra, quando estiver com a professora Royer, não faça nada idiota. Eu sei que aqueles olhos verdes são hipnotizantes, que ela é bonita e tudo o mais, mas eu conheço a peça a mais tempo. Lily devora garotos como você no café da manhã.
— Garotos como eu? – Kendrick franziu a testa, e arqueou uma das sobrancelhas, criando uma careta irônica. Não parecia levar muito a sério o aviso.
— É, garotos como você. Impulsivos e excitados, igual a trasgo no cio. – Respondeu o professor. – Você está assim porque ainda não a conhece. Quando a conhecer direito, vai querer afogá-la na privada de tão sarcástica que ela é. Além disso, ela é muito poderosa, não é alguém que você iria querer como inimigo.
Logan entrou no corredor sem dar ouvido aos conselhos de Black. Pelo o que constava ao rapaz, ela poderia ser uma pessoa realmente odiosa, mas ele queria ver com seus próprios olhos. Preferia enfrentá-la, a ficar se escondendo.
Não teve muito trabalho para seguir o conselho do professor Black. O salão comunal da Grifinória estava deserto, todos já haviam ido se deitar. Era um belo lugar, isso tinha que admitir. As paredes de tijolos claros, quadros mostrando toda a glória da casa desde a fundação, times de quadribol, alunos importantes que um dia andaram por aquela mesma sala, ex-diretores do lugar... Tinha um lustre luxuoso, com correntes de bronze com algumas velas brancas apagadas pelo adiantar da hora, uma lareira acesa, iguais das típicas casas inglesas no centro de Londres, com poltronas de couro, de estofado macio e que pareciam realmente aconchegantes. Entre elas, uma mesinha de centro com uma garrafa que devia ser de suco de abóbora. Com certeza estava melhor ali do que naquele pardieiro que chamava de casa em Edimburgo.
Enfiou a mão no bolso da calça e tirou o fino smartphone de dentro. O relógio marcava dez para meia-noite. Queria ligar para Holly, mas o adiantar da hora o impediu. A amiga gostaria de saber tudo, desde o trem, o quadribol, dragões, os quadros que se moviam, as escadas que trocavam de lugar, seu olho escuro, o professor Black e a professora Royer. Deus, lá vai ele pensar nela de novo! Parecia um daqueles tolos apaixonados que gostava tanto de desdenhar.
Caminhou para dentro do dormitório masculino, desfazendo o nó da gravata. Não iria usar mais a peça, na manhã seguinte ela seria trocada pela vermelha e com listras douradas, cores da Grifinória.
Eram oito e quarenta da manhã quando Logan entrou correndo pelo salão principal, dando passadas rápidas. O rosto estava amassado — com cara de travesseiro como Holly diria — A camisa estava para fora da calça, o colarinho levantado e ele brigando para conseguir refazer o nó da gravata, que até antes de dormir era preta e quando acordara de manhã, estava tomada pelas cores da casa para qual foi selecionado. Tirando isso, todo o resto estava no lugar, e a varinha no bolso da calça, perto do celular e a mochila de couro com todo o material jogado de maneira bagunçada.
Amaldiçoava a peça de roupa e a si mesmo por ter sido tão preguiçoso e não ter colocado o despertador para tocar mais cedo. Nem tempo de tomar banho tivera, e para piorar tudo, não sabia aonde tinha guardado o barbeador e creme pra barbear. Se não os encontrasse, teria que comprar tudo de novo quando fosse ao vilarejo vizinho, se é que lá vende algo do tipo.
— Deixe-me ajudar. – Disse a garota loira e com um belo par de olhos azuis, sentada ao lado de Teddy Lupin, enquanto os irmãos Potter, e o resto dos Weasley riam do desleixo do escocês. Quando ela apontou a varinha para gravata, o rapaz discretamente fechou o olho direito. Podia ser um feitiço simples, mas ele mesmo é que não iria arriscar. – Nodusfaciunt.
Em questão de segundos, a peça de roupa se torceu, deu voltas, enrolou, subiu, desceu e logo um nó de Windsor, muito bem feito e sem nenhuma ponta sobrando.
— Muito bom. – Disse analisando de todos os lados, para ver se encontrava algum defeito.
— Victorie não é brilhante? – Teddy parecia maravilhado pelas habilidades de Victorie. Ela deu-lhe um leve selinho e uma onda de suspiros e risadas começou entre os Weasley e os Potter.
— Por que desfez o nó? – Perguntou Albus, enquanto Logan enchia o prato com uma fatia gigantesca de bolo de baunilha com gotas de chocolate que derretiam quando tocavam a língua e se servia de um copo de suco de abóbora.
— Achei que como iria ter que trocar por uma gravata com as cores da casa, não precisaria mais dessa. – Respondeu, com farelos caindo por todos os lados.
— Madame Malkin enfeitiça os uniformes do primeiro ano para mudarem de cor depois que a casa é escolhida. – A garota de longos cabelos negros, de pele escuras, o rosto salpicado de sardas, nariz reto e arrebitado, e aparentando ter por volta do 15 anos falou como se fosse uma informação trivial. – Por isso os uniformes do primeiro ano são mais caros.
“Ainda bem que não fui eu quem pagou por eles”, pensou o escocês, engolindo de forma apressada mais um pedaço da refeição. De certo, fazia sentido. Era mais fácil enfeitiçá-los do que fazer um novo.
— Eu sou Roxanne. – Ela estendeu a mão, com as unhas pintadas de dourado. – Mas todo mundo me chama de Roxy. Já pensou em fazer teste para o time de quadribol?
Logan arqueou a sobrancelha direita e torceu os lábios. Seria legal fazer parte de alguma coisa na escola.
Tinha assistido muitas daquelas comédias americanas sobre High School e sabia que quem participava de esportes geralmente escapava de ser alvo de bullying. Sem tirar que, com o tamanho dele, era capaz do outro time nem aparecer e eles ganharem por WO.
— Não dê bola a minha irmã faladeira. – O garoto de escuros, olhos escuros e nariz reto e lábios iguais ao de Roxy entrando no meio da conversa. – Ela está pagando de recrutadora porque quer que o Black a nomeie capitã no lugar do Fiennes. Se bem que, olha o tamanho do braço dele... Daria um ótimo apanhador.
Fiennes era da equipe. Uma informação útil para o escocês.
— Ou artilheiro. – O garoto loiro do outro lado da mesa comentou. – Estamos com poucos bons artilheiros desde que o Flynn saiu para entrar no lugar da Tia Gina no Harpias Holyhead...
— Por mais que eu queira participar. – Interrompeu Logan, tirando os Weasley dos devaneios sobre qual seria a posição ideal para o novato. – Nunca vi um jogo de quadribol na vida. Não sei nem como se joga isso.
Mark havia explicado como funcionava, mas é claro que na vida real as regras deviam funcionar de forma diferente.
— Podemos resolver isso. – Roxy disse, sobressaindo a conversa entre os primos sobre como alguém não podia saber como era o quadribol. – Vá ao campo quando as aulas terminarem. Eu e o Fred vamos te ensinar, se for realmente bom, vamos falar com Black pra colocá-lo no time.
Ele abriu um sorriso. Pelo jeito, estava enganado sobre Grifinória. Pensava que haveria um exército de alunos metidos a valentões como Fiennes, mas aquele grupo parecia ser bem receptivo. Bom que estando no meio deles, qualquer um se sentiria intimidado, estavam em grande número, já que pôde contar pelo menos sete ou oito que faziam parte do bando.
— Já sabe qual a sua primeira aula? – Rosie finalmente abrira boca, quando os primos começaram a se levantar, apanhando as mochilas carregadas de livros.
O escocês procurou dentro dos bolsos pelo papel que recebera antes de adentrar na sala comunal na noite anterior. Rezava para não ter esquecido sobre o criado-mudo, onde jogara a varinha antes de ir dormir.
— Encontrei. – Tirou o pergaminho todo amassado no compartimento interno das vestes negras. – “Aula Especial – Royer. Sala de Poções, Masmorras”. – Leu o primeiro dos quadrados com a marcação de seus horários.
Os Weasley pararam de se mexer e se entreolharam com caretas assombro e espanto. Parecia que tinham ouvido alguém berrar a plenos pulmões o nome “Voldemort”. Tudo bem que o Lord das Trevas estava morto há quase 17 anos, mas seus seguidores, os chamados comensais da morte, ainda estavam por aí, seguindo os ensinamentos de seu mestre.
— Eu pensei que a Royer não dava aula nas segundas-feiras. – Fred exclamou, dando olhando sobre o ombro de Logan. — Lembra o quanto ela ficava mal-humorada quando nos dava aula. Parecia aquele cara que dava aula de poções pro pai e pra mãe que eles odiavam.
— Eu lembro que o papai contando que ele estava sempre irritado e que uma vez deixou o ele e o Tio Fred de castigo só porque os dois deram uma risada mais alta. – Roxy contou, com a testa franzida, puxando na memória a história que George contara a alguns anos. – Depois ele até virou diretor daqui. Como era o nome dele?
— Snape. – Gritou Teddy. – Mas o Sr. Weasley falou que tinha gente que chamava ele de Seboso Snape.
Kendrick notou que Albus se encolheu quando começaram a falar besteiras sobre o tal Snape. Viu-o ficar subitamente envergonhado ou qualquer coisa do gênero, o garoto queria se esconder dentro de seu assento, tentando fugir daquela conversa incômoda.
— Al, pode me ajudar a encontrar a sala. – Logan virou para o jovem Potter e tratou de esconder o papel dentro do bolso.
— S...Sim. — Gaguejou, percebendo na hora que o escocês fizera isso para tirá-lo dali o mais rápido possível.
Albus juntou seu material de forma apressada enquanto o rapaz mais velho se despedia dos Weasley.
Os dois caminharam para a porta e sumiram no meio da multidão de alunos que se dirigiam para suas aulas.
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