Notas iniciais
Mais um.

- Então, Brody, como foi a produção de feno este ano? – perguntou papai, tentando puxar conversa.

- Boa, eu acho.

Brody parecia inseguro até mesmo para dar essa resposta simples, provavelmente por estar na berlinda, sob a inspeção dos meus pais.

- Eu ficaria feliz em mostrar alguns dos controles de pragas sem química que nós usamos, se você tiver interessado...

- Pai – interrompi. – Você prometeu. Nada de sermões ambientais.

Por que meus pais tinham feito tanta questão de jantar com Brody, afinal? Eles viviam falando em espaço pessoal e autonomia de aprendizado – até que chegou a hora de eu sair com um cara. De repente viraram a própria família americana tradicional, insistindo para que Brody jantasse com a gente, apesar de ele ter crescido ali do lado e entregar feno na nossa casa quase toda semana. Era uma pagação de mico. E o fato de Quinn estar de péssimo humor não ajudava em nada.

- Mais leite de soja? – ofereceu mamãe.

Brody levantou a mão, um pouco depressa demais.

- Não, obrigado.

- A gente acaba se acostumando com o gosto – falei, dando força.

- Ah, é. Acho que sou mais fã de leite comum.

- Que explora as vacas – acrescentou papai, apontando um garfo na direção de Brody. – Pobres animais, postos em fila, com as tetas presas no metal frio...

Tetas?

- Papai, por favor. Não fale essa palavra...

- O que é que tem? – Papai levantou as mãos, cheio de inocência. – Brody mora numa fazenda. Tenho certeza de que ele está familiarizado com as tetas das vacas.

Cada gota de sangue no meu corpo correu para o rosto. Era bem típico de o meu pai falar da anatomia das vacas durante meu primeiro jantar com Brody e depois acusa-lo de estar “familiarizado” com o equivalente bovino dos seios. Como se Brody gostasse de dar uns pegas nos animais de criação ou algo parecido. Olhei para Quinn, esperando que ela desse um sorrisinho afetado, mas ela apenas remexia a salada, examinando um dos premiados tomates-cereja de papai como se fosse uma forma de vida alienígena melequenta que inexplicavelmente tivesse ido parar na ponta de seu garfo.

- Leroy – interveio mamãe. – Talvez a gente pudesse mudar de assunto.

Experimentei um breve instante de alívio, até que mamãe se virou para Brody e comentou:

- Soube que vocês estão lendo Moby Dick na aula de literatura.

- Ah, é.

- Adorei esse livro quando tinha a idade de vocês – disse mamãe. – A ideia da aventura no mar. E como provoca reflexões! O que pensar da baleia branca? O que ela simboliza? – Perguntou ela, ainda falando com Brody. – Deus, a natureza, o mal ou simplesmente o orgulho de Ahab?

Houve um momento de silêncio, enquanto o pobre Brody tentava pensar numa resposta àquela pergunta, o que, pela expressão dele, era quase tão palatável quanto o leite de soja.

- É... Todas essas coisas? – propôs ele finalmente.

- Estamos lendo a versão resumida – observei, feito idiota. Eu estava acostumada a morar com uma professora: sempre havia algum tipo de questionário durante o jantar. Mas será que mamãe precisava atormentar o coitado do Brody? – Talvez tenham cortado algumas metáforas...

- A baleia representa as forças ocultas da destruição que anseiam romper a superfície de um mundo complacente – intrometeu-se Quinn, falando pela primeira vez e fazendo com que todas as cabeças se virassem na sua direção.

- Hein? – reagiu Brody, claramente desconcertado. Depois se controlou e me lançou um olhar sem graça.

- Eu gosto da baleia – acrescentou Quinn mal-humorada, ainda encarando seu prato. – E de Ahab. Eles sabiam o que era persistência. Sabiam esperar o momento adequado. – Ela ergueu os olhos verdes e me lançou um olhar tão afiado quanto suas presas. – E aceitavam seu destino mútuo, por mais desagradável que fosse.

Não. Meu estômago ficou embrulhado. Se Quinn começar a falar do noivado, Brody vai fugir para as montanhas. E por que Quinn está se referindo ao destino comigo como “desagradável”, afinal? Está sugerindo que se casar comigo seria tão ruim quanto ficar amarrado a uma baleia agonizante?

- Ô, Quinn, como foi o treino de vôlei? – perguntei tentando desesperadamente mudar de assunto e deixar a conversa sob controle.

Vi você na quadra hoje – observou Brody. – Você está, tipo, no nível de seleção. Poderia levar o time para o campeonato estadual com aquele saque potente. Acertou quase todos nos treinos.

- Ah, é, os treinos – disse Quinn, entediada.

- “Treinar é aprimorar” – sugeriu Brody.

- Treinar é se entediar – contrapôs Quinn, sem olhar para Brody. – Prefiro a competição.

- Você pratica luta, não é Brody? – perguntou papai, passando mais saag para nosso convidado. Meus pais estavam na fase da comida indiana. A entrada da noite consistia em espinafre murcho. Só nos meus sonhos a gente receberia as visitas com um churrasco.

Brody observou cauteloso o conteúdo verde e mole, mas aceitou a tigela.

- É. Sou o capitão do time este ano.

- Que coisa mais greco-romana... – comentou Quinn secamente, levantando um bocado de espinafre e deixando-o pingar do garfo – ficar se embolando num tatame.

Brody me lançou um olhar confuso. Respondi com um dar de ombros que queria dizer “ignore a aluna de intercâmbio ranzinza”.

Mamãe jogou o guardanapo na mesa.

- Quinn será que posso falar com você na cozinha?

Ah, graças a Deus. Eu limparia meu quarto ou lavaria uma trouxa extra de roupas para compensar. Lavaria até as calcinhas de Quinn. Fiquei devendo uma a ela.

Quinn foi atrás da mamãe se arrastando. Houve uma pausa desconfortável à mesa, durante a qual todos fingimos não escutar as expressões “participar de uma conversa educada”, “paspalhão débil mental” e ”retire-se” vindos da cozinha em sussurros altos demais.

Alguns minutos depois a porta da cozinha foi batida. Mamãe voltou sozinha.

- Quem quer mais pão sírio? – perguntou ela com um sorriso de carranca, sem oferecer explicação para o sumiço de uma adolescente romena muito irritadiça.

Do outro lado da mesa, o saag de Quinn ficou coagulando em seu prato abandonado.

***

Depois que Brody saiu, fui até a garagem, Quinn estava treinando arremesso, usando um aro velho e enferrujado. Quicar, mirar, arremessar. Olhei-a fazer umas 10 cestas seguidas antes de interrompê-la. Ela era boa também no basquete.

- Oi.

Ela se virou, enfiando a bola em baixo do braço, parecendo uma americana comum com o moleton da Faculdade Grantley que mamãe havia comprado para ela. Até que abriu a boa:

- Boa noite, Rachel. A que devo a visita? Não está entretendo convidados está noite?

- Brody precisou ir embora.

- Que pena.

Quinn jogou a bola por cima do ombro. Ela caiu através do aro.

- O que foi que deu em você? Sabia muito bem que dava para ouvir quando insultou Brody na cozinha.

- Verdade? – Quinn pareceu meio desconcertada. – Não foi minha intenção. Que grosseria.

Cruzei os braços.

- Tem alguma coisa a dizer sobre mim e o Brody? Por que se tiver, diz na minha cara. Não fica fazendo um sermão cifrado durante o jantar sobre baleias e destino.

- O que eu poderia dizer? Você deixou sua opinião bem clara.

- Não sei aonde você quer chegar – respondi honestamente. – Quando comprou o vestido, achei que era seu modo de dizer que não se importava se eu saísse com o Brody.

A bola rolou perto dos pés de Quinn e ela se abaixou para pegá-la, depois acompanhou com o polegar as costuras gastas, evitando meus olhos.

- É. Foi o que pensei. Mas hoje, quando o vi olhando para você...

- O que é que tem?

Quinn estava mesmo com ciúme?

- Apenas não gosto dele, Rachel – disse por fim. – Ele não é bom o bastante pra você. Independentemente do que pense sobre nosso relacionamento tênue nesse instante, não se venda barato a homem nenhum. A garoto nenhum.

- Você não conhece o Brody – resmunguei com raiva. – Nem tentou conhece-lo. Ele se esforçou para ser legal com você durante o jantar.

Quinn deu de ombros.

- Eu o vejo na escola. Ele luta até para entender os conceitos básicos da literatura inglesa. Isso é muito revelador, não acha?

- Então Brody não gosta de Moby Dick. Quem se importa? Eu também não gosto.

Quinn pareceu desapontada comigo. Ou triste por algum motivo. Ou as duas coisas.

- Acho que meu humor está muito atípico hoje, Rachel – disse ela, evitando meu olhar de novo. – Não sou uma companhia muito boa agora. Poderia me dar licença e me deixar com minhas atividades solitárias?

- Quinn...

- Por favor, Rachel.

Ela me deu as costas e arremessou com um movimento rápido do pulso. Ela passou pelo aro sem tocar na borda.

- Ótimo, fui.

Quinn ainda fazia arremessos quando fui lá verificar uma hora depois. Estava escuro e ela jogava no pequeno círculo de luz de um holofote na garagem. Tinha passado a fazer bandejas. Ia gritar um cumprimento, mas mudei de ideia. Algo no modo obstinado com que ela convertia uma cesta atrás da outra, sem errar, saltando perto do aro para fazer uma cesta como se tivesse castigando a bola, me assustou.

***

CARO TIO BASILE,

Desejo-lhe tudo de bom, enquanto nos aproximamos do Dia das Bruxas. O senhor gostaria muito das representações dos vampiros que os americanos fazem de modo um tanto compulsivo nesta época do ano. Seria de pensar que toda a nossa raça consistisse em homens pálidos, de meia-idade, com tendência genética a ter o couro cabeludo formado em V na testa e uma queda por gel em excesso.

Mas vamos logo ao ponto. Odeio admitir que vejo a situação aqui fugir cada vez mais ao meu controle.

Como anunciei em minha última correspondência, de fato tentei várias estratégias “americanas” para ao menos criar algum tipo de relacionamento com Anastácia – inclusive usar calças “jeans” (que aliás, são bastante confortáveis) e, como mencionei, jogar vôlei, um esporte para “garotas americanas”.

Porém, até agora, Anastácia parece muito pouco impressionada com meus melhores esforços. Na verdade está “se envolvendo” com o camponês. (Basile, se o senhor o ouvisse tentando participar de uma conversa... É insuportável. Eu preferiria ter nossas onipresentes lentilhas enfiadas nos meus ouvidos do que escutá-lo por mais de dois minutos.)

Para ser sincera, Anastácia me deixa perplexa. Outro dia pensei que havíamos experimentado um avanço significativo. Comprei um vestido magnífico para ela – se o senhor a visse nele, teria achado que estava quase pronta para assumir o trono. Por um momento brevíssimo achei que fizéramos progresso. A expressão em seus olhos, observando-se ao espelho... Algo ficou diferente nela, Basile. Diferente em relação a mim, eu poderia jurar!

No entanto o camponês gruda feito um parasita. Uma sanguessuga ou um carrapato que não pode ser arrancado. O que a Anastácia vê nele? E por que insiste em continuar a ver? Eu poderia lhe oferecer muito mais. Em particular, conversa. Réplicas. Para não mencionar a liderança de dois clãs poderosos. Um castelo. Serviçais. Qualquer coisa que desejasse. Coisas que ela merece, Basile.

Maldição. Estou falando bobagens.

O cerne da questão é que temo que o senhor fique desapontado comigo se eu não conseguir convencer Anastácia a honrar o pacto e me aceitar como esposa. E, com toda honestidade, seu desapontamento é uma perspectiva bastante temível. Com isso, sinto-me compelida a mantê-lo a par da situação à medida que esta se desdobra. Certamente não quero lhe apresentar um fracasso antecipado. Prefiro apenas prepara-lo para a pior eventualidade – ao mesmo tempo em que pretendo continuar a me empenhar.

Sua sobrinha, humildemente,

Quinn

P.S: se alguém lhe oferecer “saag”, recuse, se for possível fazer sem violar as regras da boa educação. Há alguma chance de o cozinheiro enviar pra cá uma ou duas lebres congeladas.

P.P.S: o investimento que fiz com seu depósito chegará logo. Estou ansiosa.

P.P.P.S: o camponês não entende o simbolismo da baleia e Moby Dick, Basile. Juro. Conceitos que foram literalmente golpeados no meu cérebro (lembra-se da minha tutora meio cigana, Bogdana, cujo entendimento de estratagemas literários só era suplantado pela capacidade de usar a chibata?) durante a pré-adolescência permanecem fora do alcance dele. Será que tem alguma deficiência mental? Ou será simplesmente tapado?

Parasita.

***

- Oi, Bela. – Eu sorri, dando um tapinha firme no pescoço musculoso da minha égua appaloosa. – Pronta para se exercitar? Faltam poucas sessões de treino antes da apresentação. – Meu sorriso sumiu de repente. O concurso do Clube da Juventude seria dali a apenas algumas semanas e tinha parecido uma boa ideia quando me inscrevi, mas agora eu estava sofrendo sérios ataques de nervosismo.

Bom, era tarde demais para desistir. Não era?

Quando estendi as mãos para pegar as rédeas, tirando-as de um prego na parede, ouvi uma picape parar do lado de fora do estábulo. Olhei para a porta e vi um estranho caminhar em minha direção. Um homem baixo, de macacão sujo, segurando uma prancheta.

- Pois não? – perguntei.

- Você conhece uma tal de ... – Ele olhou para prancheta. – Uma tal de Kin Fab... Aqui. – Ele estendeu a lista de nomes em minha direção. – Não consigo entender esse nome.

- Ah, não. – Meu coração afundou. Eu nem precisava olhar. – Fabray. O que ela fez agora? Encomendou alguma coisa?

- É. E precisa receber esse monstro que está arrebentando meu trailer de tanto chutar. Quero essa coisa fora de lá agora mesmo.

- Monstro?

- Estão me procurando?

Como se captasse a deixa da palavra monstro, Quinn apareceu das sombras, pegou a prancheta e uma caneta e assinou o papel.

- Espero que saiba o que está fazendo – disse o entregador, balançando a cabeça.

- Ah, mas é claro que sei.

Fui atrás enquanto Quinn e o homem passavam pela arena interna de montaria, indo na direção da porta.

- Quinn, o que você comprou?

O homem de macacão gritou por cima do ombro, respondendo por ela:

- Sua amiga comprou uma égua assassina. Esse bicho devia ser sacrificado.

- Quinn?!

Todos passamos pela porta do estábulo e chegamos ao caminho de terra, onde vi um trailer usado para transportar cavalos. Sacudindo-se. Sons de pancadas fortes vinham lá de dentro.

- Você tira esse bicho de lá, garota – insistiu o sujeito. – Não vou tocar nele de novo.

Sem hesitar, Quinn se aproximou da traseira do trailer, destrancou sua porta e a abriu.

- Ah, Quinn? Será que você deveria mesmo entrar aí?

- A garota está morta – observou o entregador.

Houve um som de luta, depois escutei a voz de Quinn acalmando o animal e cascos batendo no metal. Em seguida, silêncio. Um longo silêncio. Finalmente, Quinn voltou, puxando um animal arisco e muito forte. A égua mais negra que eu tinha visto na vida. Devia medir uns dois metros de altura. Seus olhos se reviravam enlouquecidos, mostrando a parte branca em contraste com o focinho de ébano. Recuei quando passaram, mas ela se assustou e tentou me morder.

- Fique calma – tranquilizou-a Quinn. E gritou para mim: — Desculpe-me, ela está um tanto agitada.

O entregador partiu, murmurando algo sobre crânios partidos, e eu acompanhei Quinn, que estava convencendo sua nova montaria a entrar numa baia. Ao lado da Bela.

- Quero que elas sejam vizinhas – sorriu Quinn.

Foi minha vez de revirar os olhos.

- Maravilha.

- Calma – disse Quinn a égua de novo, enquanto ela tentava morder seus dedos. Ela apertou o focinho do animal, lutando com ela enquanto prendia seu cabresto nos dois lados da baia. Quando estava amarrada, ela a soltou e a égua deu um grande salto sobre Quinn, mordendo seu antebraço.

- Droga!

Firmei os pés no chão e cruzei os braços.

- Você comprou uma égua? Essa égua?

- Sim – respondeu Quinn, esfregando a mordida. — Lembrei que você tinha dito que, nós não tínhamos nada em comum. – Ela virou o polegar na direção da sua égua demoníaca. – isso é algo que podemos compartilhar. Uma atividade. Um modo de passarmos mais tempo juntas.

- Você não vai participar do concurso do Clube da Juventude – avisei.

- Meu blazer comemorativo do clube está sendo bordado nesse momento. – Ela sorriu. – Estou ansiosa para usar aquele veludo cotelê azul. Em sua língua, veludo contelê é “corduroy” e você sabe que “corduroy” significa “jeans de reis”, não é? Considero bem adequado.

- Mas eu achei que você tivesse desistido...

Quinn franziu a testa, acariciando o focinho da sua égua. Dessa vez ela se encolheu, mas não mordeu.

- Você achou que eu havia me esquecido de um pacto que fui preparada para cumprir desde a infância porque suporto os avanços grosseiros do Atarracado para cima de você? Não mesmo.

- Pare de chama-lo de Atarracado e de insinuar que ele é idiota. Brody é um cara muito legal.

- Legal... Bem, essa é uma qualidade superestimada. – Quinn soltou os lados das cordas que continham sua égua e ela empinou. Ela deu um tapinha no pescoço do animal. – “Legal” não é superestimado? – ela fez uma pausa, virando-se ara mim. – Que nome devo dar a ela? Ela precisa de um nome, já que vou escrevê-la na prova de salto.

- Você não pode fazer isso! – exclamei. – Eu vou competir nessa categoria.

- Eu sei. Achei que poderíamos treinar juntas.

- Eu já disse que não quero sua ajuda.

- Não está com medo de uma competição amigável, está?

Bati o pé. Em parte porque não, não queria competir com ela. Ela era uma atleta nata. Uma estrela do polo na Romênia. Também não queria que ela começasse a passar seu tempo no estábulo.

- Eu disse que não quero montar com você.

- Você está reagindo de forma exagerada

- E você é uma... Uma... vampira idiota! Nunca me escuta. Eu disse especificamente para não interferir nessa parte da minha vida. Nós moramos juntas e frequentamos a mesma escola. Esse é o único lugar onde não tenho você pegando no meu pé o tempo todo.

- Uma vampira?

A voz veio de alguém atrás de nós duas.

Epa.

Quinn e eu nos viramos e vimos Kitty Wilde, curiosa e meio confusa, observando nossa discussão. Seus braços levemente pálidos estavam cruzados sobre a camiseta justa de líder de torcida e o rabo de cavalo loiro balançava, brilhando à luz fraca, enquanto ela inclinava a cabeça.

- Você chamou Quinn de vampira?

Gaguejei, procurando uma explicação.

- Ela... ela está sugando toda a minha energia vital – respondi finalmente.

- Rachel vive me dando apelidos. – Quinn sorriu, sem graça. E estendeu a mão. – é um prazer vê-la fora da sala de aula, Kitty.

Ah, meu pai.

Kitty pareceu um tanto surpresa, mas estendeu a mão também.

- Ah... Você também, Quinn.

Quinn não apertou a mão dela. Beijou-a de leve.

- Encantada, como sempre.

- Uau. Isso foi diferente. – Kitty puxou a mão de volta, dirigindo-se a mim, a cavalariça, como se só agora me notasse. – Oi, Jenn.

- É Rach.

- Certo – Mas a atenção de Kitty havia se desviado de novo, para o animal sem nome. – Que égua linda. Vi quando você a trouxe para dentro. Mas parece perigosa.

Quinn soltou a outra corda, liberando seu novo bicho de estimação.

- Acredito que os cavalos, como as pessoas, são maçantes quando totalmente domados. Prefiro um pouco de determinação.

O animal sacudiu a cabeça, mas Quinn a tranquilizou:

- Calma, calma. – Então se dirigiu a Kitty e a mim: — Ela foi maltratada coitadinha. Teve uma infância desagradável.

- Desagradável? – perguntou Kitty, inclinando a cabeça.

- Nunca chegue perto dela com um chicote – alertou Quinn. – Foi o que o antigo dono me recomendou com muita ênfase. Parece que o primeiro proprietário, tinha a mão muito pesada.

Criada no chicote. Pensei na confissão de Quinn sobre levar surras dos tios. Repetidamente. Imaginei se teria escolhido aquela égua de propósito, por causa da conexão cruel que compartilhavam. Parecia típico dela.

Kitty e eu recuamos, abrindo caminho enquanto Quinn guiava a égua para fora da baia.

- Você vai montar nela? – indaguei incrédula.

Quinn franziu a testa.

- É o que nós fazemos com os cavalos, certo?

- Eu tenho uma sela extra – ofereceu Kitty.

Olhei-a confusa.

- Não! – gritei. – Está falando sério? – Kitty não era o tipo de pessoa que a gente podia questionar, mas não pude acreditar que ela achava que Quinn deveria tentar montar naquela égua que tinha uma expressão diabólica nos olhos e a mania de morder. – Quinn, nem pense nisso.

- Ah, não creio que ela vá gostar de uma sela – disse ela. – Pelo menos não por enquanto. Primeiro vou acostumá-la a carregar só o meu peso.

Balancei a cabeça.

- Ela vai matar você.

Quinn me lançou um olhar conspirador.

- Você, mais do que ninguém, deveria saber que isso é improvável. Os animais não são capazes de usar ferramentas.

Sem hesitação, ela ficou ao lado da égua e saltou em seu lombo com a mesma facilidade demonstrada ao fazer arremessos na quadra de basquete. A égua relinchou e girou imediatamente, mas Quinn provou que não era só garganta. Em segundos ela estava dominada e os dois – mulher louca e animal louco – foram para o centro da arena num passo rápido, porém controlado. Quinn guiando com os joelhos e o cabresto. A intervalos de alguns passos, a égua refugava ou virava para morder as pernas dela. Mas as duas mantinham uma parceria firme, ainda que tensa.

- Em pouco tempo, estaremos saltando – gritou Quinn sorrindo.

Ela estava conseguindo. Montava a égua de aparência mais maligna que eu já tinha visto. Meu alívio durou pouco. Percebi exatamente o que sua sobrevivência significava pra mim. Quando chegasse a hora do concurso, eu competiria com Kitty Wilde e uma estrela romena que montava uma égua demoníaca.

Quinn instigou a montaria a trotar. Depois, a andar em meio galope. Era uma mistura de dança com briga de bar.

- Impressionante. – Kitty olhava as duas, admirada. – Quinn deve ter, tipo, uma espécie de magia. Achei mesmo que ela fosse mata-la.

- É só uma questão de tempo – respondi, baixinho.

Notas finais
O próximo sai amanhã gente.