Como Se Livrar De Uma Vampira Apaixonada
5 Capítulo 5
Notas iniciais
CARO TIO BASILE,
Talvez a lentilha seja o alimento mais versátil e indestrutível do mundo.
É impossível comer lentilhas sem adornos, casá-la com seu primo de primeiro grau, o rude “bulgur”, ou tentar afogá-la em vinagre para uma “salada vegana”. Mas, infelizmente, a lentilha sempre sobreviverá. De fato, no lar dos Barry, a pequena e tenaz leguminosa ressuscitará à força, sempre livre de qualquer coisa que se assemelhe a sabor, e insinuará seu eu indomável, lenticular, em mais um prato de refeição, esperando ser consumida. De novo e de novo e de novo.
E nem me fale de gelatina e de sanduiche de carne moída.
PELO AMOR DE DEUS, BASILE.
Por quanto tempo mais devo suportar tudo isso no interesse da paz entre os clãs? Devo me sacrificar como o primeiro prisioneiro em uma guerra que ainda nem começou?
Honestamente, Basile, não se trata apenas de comida (ou do que os Barry e o Departamento de Educação da Pensilvânia insistem em chamar de comida).
As escolas de ensino médio dos Estados Unidos deveriam ser consideradas ilegais segundo as regras da Convenção de Genebra. As crueldades indescritíveis que suporto deixariam perplexo até o senhor, um especialista no assunto!
Como sabe, sempre fui curiosa a respeito de nossa imortalidade, sobre como será continuar a viver através dos anos (presumindo que evitemos a estaca, como pretendo fazer). Não preciso especular mais. Senti uma amostra da eternidade na aula de “estudos sociais” da Srta. Campbell, no quinto tempo de aula. Três dias sobre o conceito de “Destino Manifesto”, Basile. TRÊS DIAS. Minha vontade era me levantar, arrancar as anotações de suas mãos pálidas e gritar: “Sim, os Estados Unidos se expandiram para o oeste! Isso não é lógico, dado que os europeus se estabeleceram na margem leste? O que eles poderiam fazer? Avançar inutilmente mar adentro?”
Mas não devo reclamar. Não seria de bom-tom perder a compostura. Devo perseverar, lutando contra a tentação de apenas ficar com cara de boba, como faz a maioria dos meus “pares”(em seus sonhos!), que mergulham em um estado de torpor coletivo, de vazio, parecido com um transe, e que o dura o tempo de cada aula. (Se bem que às vezes invejo secretamente sua capacidade de esvaziar a mente por completo durante 50 minutos, reanimando-se apenas ao som de uma campainha, como cães de Pavlov. E então, saem latindo e seguindo pelos corredores até que as aulas recomecem...)
No entanto, sem dúvida, o senhor está mais intrigado com as notícias da corte do que com a minha “educação”. Assim sendo, passarei a falar de meu progresso com Anastácia.
Fico contente em informar que, às vezes, minha futura princesa demonstra sinais de possuir grande presença de espírito. Infelizmente, toda a considerável força de vontade de Anastácia, seu “pique” (para usar uma palavra daqui), se concentra em rejeitar a minha pessoa.
Verdade seja dita: ela demonstra uma dedicação implacável a essa missão.
Enquanto isso, tenho a sensação de que Anastácia sente uma atração indique por um carregador de feno (um camponês, ainda por cima !) que tem a aparência e a postura tão pouco notáveis a ponto de, mesmo ocupando uma carteira perto da minha na aula de literatura inglesa (em grande medida assumi o papel de orientador nessa matéria – talvez eu ganhe uma “monitoria”!), eu nunca consegui me lembrar do seu nome. Brad? Brent? (infelizmente esses dois palpites são bons. Parece que temos um punhado de cada um deles aqui, na Woodrow Wilson.)
O fato, é que pareço ter “concorrência”, Basile. Concorrência por parte de um camponês, cujas grosseiras estratégias para cortejá-la incluem aparecer na fazenda dos Barry, desnecessariamente sem camisa, para contrair os músculos na frente dela! Exibindo-se como um faisão estufado! E se o senhor pudesse vê-la flertando com o palerma...
Será que isso pesa contra Anastácia – ou contra mim, a quem ela despreza?
E se os Dragomir desenvolveram uma queda por camponeses, não deveríamos deixar que sua linhagem se rebaixe naturalmente, em vez de nos unirmos a eles?
Estou de pilhéria.
Claro que vencerei. (Uma Fabray contra um trabalhador braçal... Eu poderia ganhar Anastácia com uma das mãos amarradas às costas e talvez usando uma venda.) Mas toda a situação é desanimadora, para dizer o mínimo. Pensar que Anastácia considera flertar com um caipira quando uma princesa demonstra interesse... Quando uma Fabray demonstra interesse! Culpo as lentilhas. Pode-se esperar que uma nobre acostumada com carne alcance o máximo de rendimento à base de grãos empapados?
Recentemente, me senti ainda mais desanimada ao testemunhar Anastácia sendo maltratada por um dos personagens mais tediosos da Woodrow Wilson, uma garoto com o nome infeliz de David Karousfky. (Não é de espantar que ele seja a própria dormência!) Imagine só: um simplório insultando uma princesa vampira. Fiquei ali sentada, perplexa, incapaz de acreditar no que via e ouvia, isso não acontecerá de novo. Estou ciente de que devo seguir as regras de conduta locais (infelizmente há sensações rígidas contra cabeças rolarem nas ruas por aqui), mas outro insulto vindo de um “Dormente” não será suportado. Minha futura esposa – ainda que com uma inclinação camponesa temporária – não precisará mais aceitar insubordinação.
Não é apenas o insulto que me perturba, Basile. Eu lhe pergunto: como Anastácia pode entender seu real valor sendo criada nessas circunstâncias? É surpreendente que pense em ser namorada de um roceiro? Se houvesse sido criada na Romênia, educada como uma governante, Anastácia jamais aceitaria um insulto vindo de um plebeu. Teria ordenado que o ofensor fosse executado coo um vira-lata imundo que ele é. Aqui, tudo o que ela pôde fazer foi contra-atacar com sua sagacidade (grosseira, mas encorajadoramente cortante) – uma arma, sim, mas uma princesa deveria ter poder verdadeiro em suas mãos.
Estou preocupada com isso, Basile. Os governantes não nascem prontos, como sabe. São forjados. Anastácia não sabe nada sobre exercer o poder. O que isso significará para ela e para os clãs que comandará quando assumir o trono?
Mas eis o ponto principal da minha missiva. O senhor poderia liberar, digamos mais 23 mil lei – o equivalente a cerca de 10 mil dólares americanos – do meu dinheiro sob sua custódia? Estou interessado em uma pequena compra, relacionada, obviamente, à corte que faço a Anastácia. E pode ser que eu precise usar uma pequena parte para adquirir um módico estoque de carne vermelha.
Desde já, agradeço pela generosidade.
Sua sobrinha,
Quinn
P.S: o treino de vôlei começará logo. Talvez o senhor queira pegar um avião e assistir a um jogo.
Acho que não.
- Por que Quinn não ajuda com os pratos? – reclamei entregando a mamãe um prato que pingava. – Ela come com a gente. Poderia ajudar na limpeza. E, além disso, estou cansada de cuidar da roupa suja dessa garota. Ela sempre reclama e pede goma. Quem usa goma, afinal?
- Entendo sua frustração, Rachel. – Mamãe enxugou o prato com um pano. – Mas seu pai e eu discutimos isso e ambos achamos que Quinn tem dificuldades suficientes em se adaptar à vida nos EUA.
- Ela se adaptou muito bem. Bem demais, se quer saber.
- Não confunda a presunção de Quinn com felicidade. A vida dela sofreu mudanças drásticas, isso sem termos que força-la a um trabalho extra que, na casa dela, seria feito pelos serviçais.
- Pelo menos é o que ela diz.
Mamãe riu.
- Independentemente do que esteja pensando sobre a... é... a vampirice de Quinn...
- Acho que isso não passa de um monte de mer... Quero dizer, de papo-furado.
- A verdade é que Quinn vem de uma família muito rica, privilegiada.
Mergulhei as mãos na água com detergente, procurando talheres submersos.
- Privilegiada até que ponto? Às vezes fico em dúvida sobre os cavalos de polo e as viagens a Viena.
- Ah, eu não ficaria surpresas, Rachel. A família Fabray mora numa propriedade bem impressionante. É um castelo, na verdade. No alto dos montes Cárpatos.
- Um castelo? – Ninguém mora em castelos, a não ser nos filmes da Disney. – E você viu esse “castelo”?
- Só pelo lado de fora e era bem imponente. Não tivemos permissão para entrar. Os Fabray não eram os vampiros mais acessíveis... – Pareceu que ela iria se aprofundar nisso, mas mudou de ideia. – Os Dragomir foram mais receptivos.
Estávamos chegando muito perto de uma discussão sobre meus pais biológicos.
- Como era? O castelo?
Mamãe sorriu.
- Essa é a primeira vez que vejo você intrigada com alguma coisa relacionada à Quinn.
Lavei algumas facas.
- Só com a casa dela.
Mamãe jogou o pano de prato no ombro e se encostou na bancada.
- Não com Quinn? Nem um pouquinho?
Percebi a sugestão sutil em sua voz.
- Mãe! Não!
- Rachel admita: Quinn é uma garota atraente e sem dúvida está interessada em você. Seria natural se você demonstrasse algum interesse também. Não seria algo do que se envergonhar.
Enfiei um pirex embaixo d´água e o esfreguei um pouco pra soltar a lentilha grudada nas laterais.
- Ela acha que é uma vampira, mamãe.
- Isso não muda o fato de que Quinn Fabray é uma garota charmosa, poderosa, rica e bonita.
Lembrei-me da sensação da mão macia de Quinn roçando meu rosto na noite em que nos conhecemos. Daquela sensação de frio na barriga. E do fato de ela ter verbalizado a intenção de morder meu pescoço.
- Alguma vez você me viu olhar pra Quinn com algo que não fosse aversão? Fala sério.
Mamãe sorriu.
- Você ficaria surpresa com a frequência com que a aversão vira desejo.
Havia uma expressão de sabichona em seus olhos, como se ela tivesse acabado de ler minha mente enquanto eu me lembrava de Quinn tocando meu rosto.
Fiquei vermelha.
- Isso parece alquimia, que é tão real quanto os vampiros.
- Ah, Rachel. – Mamãe suspirou. – o que é o amor, senão uma forma de alquimia? Existem forças no Universo que simplesmente não somos capazes de explicar.
É. Forças como a gravidade de um buraco negro distorcendo o tempo. E a infinidade de pi vagando pelo Universo. Essas eram forças a realidades verdadeiras. Misteriosas, é claro. Mas, também mensuráveis e talvez compreensíveis se aplicássemos a matemática e física. Por que meus pais não conseguiam entender isso? Por que precisavam olhar o mundo e enxergar magia e sobrenatural onde eu via números e elementos?
- Eu não gosto da Quinn, mamãe, então pode esquecer a alquimia, a aversão e principalmente o desejo – anunciei, enxaguando o pirex.
Minha mãe não pareceu convencida enquanto enxugava mais pratos.
- Bom, se os seus sentimentos mudarem, pode conversar comigo. Tenho a sensação de que Quinn é uma garota muito experiente. Eu não gostaria que você se sentisse perdida...
- Rachel está perdida em alguma coisa? Posso ajudar?
Mamãe e eu nos viramos e vimos Quinn parada junto a porta da cozinha.
Há quanto tempo estava ali? O que será que ouviu? “Aversão vira desejo”?
Se minha mãe ficou sem graça por ser pega falando de Quinn pelas costas, isso não se revelou no seu rosto.
- Rach vai ficar bem, Quinn. Mas, obrigada por perguntar. O que a traz lá da garagem?
- Desejo por aquele delicioso sorvete de tofu e alfarroba que a senhora guarda no freezer. – Quinn foi até a geladeira e abriu a porta de cima. – Estão servidas?
- Eu vou ao estábulo ver uns gatinhos que seu pai achou – respondeu mamãe, falando comigo. – Acho que podemos abrigar mais uma ninhada, mas gosto de fingir resistência. Se encorajá-lo demais, ele vai extrapolar. – Ela deu um tapinha no ombro de nossa estudante de intercâmbio enquanto saía da cozinha. – Boa noite Quinn.
- Tenha uma noite agradável, Dra. Corcoran. – Quinn pôs a imitação de sorvete na bancada e pegou duas tigelas no armário, estendendo-as em minha direção. – Rachel, posso tentá-la?
- Obrigada, mas estou evitando sobremesas.
- Por quê? – Quinn pareceu curiosa. – Sei que alfarroba não é o sabor mais atraente do mundo, mas as sobremesas são um dos maiores prazeres da vida, não acha? Raramente deixei de comer, a não ser quando seu pai tentou fazer aquela torta de abóbora sem ovos ou leite. Nem valia o esforço de levar o garfo à boca.
Tirei o protetor do ralo da pia, deixando a água escoar.
- Você não é gorda, pode comer sobremesa.
Quando levantei o olhar do redemoinho da água, Quinn franzia a testa e me olhava de cima a baixo.
- O que é? – Olhei para minha camiseta regata e meu short. – Tem alguma coisa em mim?
- Certamente você não acha que está acima do peso, Rachel – disse ela com incredulidade nos olhos. – Você acreditou naquele imbecil que a provocou no refeitório? Eu sabia que deveria tê-lo silenciado.
- Isso não tem nada haver com o Karoufsky, que é problema meu, não seu. Só preciso perder um quilo, só isso. Fica tranquila.
Quinn abriu o pote balançando a cabeça.
- Mulheres americanas. Por que todas vocês querem ficar quase invisíveis? Por que abrir mão de ter uma presença física no mundo? As mulheres deveriam ter curvas e não ângulos, — Com um tremor debochado que ela geralmente reservava para a culinária do meu pai, acrescentou: — as mulheres americanas são pontudas demais, todas projetando omoplatas e ossos do quadril.
- Está na moda ser magra – argumentei. – É bonito.
- Nunca se deve confundir moda com beleza – corrigiu Quinn. – Confie em mim: As pessoas não gostam do que dizem as revistas de moda. Elas não acham que as mulheres esqueléticas são bonitas. A maioria prefere curvas. – Ela enfiou uma colher no tofu congelado e avançou em minha direção, estendendo-a para o meu rosto. – Coma. Fique feliz por ter curvas. Por ter presença.
Dei um sorriso sem graça, mas mesmo assim empurrei sua mão. Pretendia perder uns dois quilos.
- Não, obrigada.
Quinn suspirou irritada e enfiou a colher de volta no pote.
- Anastácia, aceite quem você é. Uma mulher com o poder que você desfrutará não precisa seguir a moda nem se abalar com a zombaria maliciosa dos inferiores.
- Pode parar com esse papinho de realeza – avisei, batendo com o pano de limpar a pia. Qualquer pequeno sentimento caloroso que eu pudesse ter sentido pela Quinn desapareceu. De repente senti raiva. – E não me chame por esse nome.
- Ah, Rachel. Eu não quis chateá-la – disse ela, pousando o pote na bancada. Sua voz se suavizou. – Eu só tentei...
- Sei o que você tentou. Você tenta todo dia.
- Nós estávamos paradas, olhando uma para outra. Quinn começou a estender a mão para mim e de repente mudou de ideia.
- Olha, precisamos ter uma conversa séria – anunciei. – Sobre todo esse negócio de “pacto”. Esse lance de “fazer a corte”.
Quinn fez uma pausa, pensativa. E então, para minha surpresa, concordou.
- É. Acho que deveríamos.
- Agora.
- Não – respondeu ela, pegando a imitação de sorvete de novo. – Amanhã à noite. Nos meus aposentos. Tenho algo para lhe mostrar.
- O quê?
- Prefiro que seja surpresa. É outo dos grandes prazeres da vida. Na maior parte das vezes. Bom, algumas vezes.
Não gostei da ideia. Tinha encarado surpresas o bastante nos últimos tempos. Mas mesmo assim concordei. Não me importava se Quinn me daria de presente a escritura do seu castelo, um rebanho de ovelhas – ou o que quer que usassem como dote na Romênia. Iria convencê-la de uma vez por todas de que nosso “noivado” estava rompido.
- Então, até amanhã à noite – falei, enxugando a bancada. – E lave a tigela quando terminar.
- Boa noite, Rachel.
Eu sabia que encontraria aquela tigela na pia no dia seguinte.
***
Mais tarde naquela noite, caí no sono pensando na afirmação de mamãe, de que a aversão podia se transformar em desejo. Com certeza isso não era verdade. Ou era? Ninguém mais acreditava em alquimia. Não era possível criar ouro a partir de pedras ou de chumbo.
Mas, quando dormi, sonhei com Quinn. Estávamos de pé na cozinha e ela segurava aquela colher perto do meu rosto. Só que não estava mais cheia de tofu congelado. Estava cheia de calda de chocolate mais deliciosa e luxuriante que se poderia imaginar.
- Experimente – instigou Quinn, apertando a colher de leve contra meus lábios. – O chocolate é um dos maiores prazeres da vida. – Seus olhos verdes reluziam. – Um deles, pelo menos.
Senti vontade de protestar. Estou gorda... Muito gorda... Mas ela ficava segurando aquela colher e o chocolate, começando a pingar, era tentador demais para que qualquer mortal resistisse. Acabei abocanhando tudo. Era suave como seda na minha língua. Juro que senti o gosto. Apertei a mão de Quinn com força, firmando-a e fechando os olhos enquanto engolia o resto do doce elixir imaginário. Quando terminei e abri os olhos, a colher havia desaparecido, como acontece com as coisas nos sonhos, e éramos só Quinn e eu, meus dedos entrelaçados nos dela, meu peito e minhas curvas pressionadas contra seu corpo firme.
Ela sorriu pra mim, revelando aqueles dentes incríveis de um branco surreal.
- Você não se arrependeu disso, certo? – Perguntou ela e começou a cheirar meu pescoço. – Foi perfeito, não foi? – sussurrou no meu ouvido. Então Quinn me envolveu completamente em seus braços. Me abraçou, me apertou...
E aí acordei, estatelada na cama.
Estava amanhecendo e a luz do sol entrava pela minha janela. Eu estava ofegante. Uau.
Fiquei de lado, encolhida. Estava voltando à realidade quando a luz do sol se refletiu em alguma coisa brilhante no piso ao lado da porta fechada. Um marcador de prata se projetando de um livro. Um volume fino.
Afastei as cobertas, peguei o livro e virei-o para ler o título: Crescendo como morto-vivo – Um guia para o vampiro adolescente sobre namoro, saúde e emoções. A parte de cima do marcador estava gravada com as iniciais QF, em letras grossas.
Ah, meu Deus, não. O guia de que Quinn falou no dia em que nos conhecemos. Tive uma vaga lembrança de ela ter mencionado aquilo – logo depois de anunciar seus planos de me morder.
Desabei no chão, olhando o presente não desejado.
Então, mesmo contra o bom senso, abri nas páginas marcadas, lendo o capítulo intitulado “Mudanças no seu corpo”. Ah, fala sério! Havia um trecho sublinhado em tinta vermelha. “As jovens damas tendem a se sentir confusas com as mudanças no corpo. Mas não fiquem com vergonha! Desenvolver curvas é parte natural de se tornar uma vampira adulta.”
Contive a vontade de gritar. Não preciso de conselhos de Quinn Fabray sobre me tornar “adulta”, especialmente uma “vampira adulta”. E quem escreveu essa porcaria, afinal? Quem publicaria um livro de educação sexual para seres míticos? Isso só serviria para alimentar a loucura de gente iludida...
Antes que eu jogasse aquela coisa no cesto de lixo, que era o lugar adequado, dei uma olhadinha rápida nas páginas iniciais, procurando o nome da editora. Mas um bilhete escrito à mão atraiu meu olhar.
Querida Rachel,
Claro que nunca precisei de conselhos em nenhum desses tópicos – por favor, “emoções”? -, mas achei que você, como “recém-chegada”, por assim dizer, pudesse encontrar alguma utilidade nesse guia. Apesar do tom irritante e superficial, ele é bastante respeitado por nossa raça.
Aproveite – e me consulte se tiver dúvidas. Eu me considero uma especialista. A não ser no quesito “emoções”.
Sua,
Q.
P.S: Sabia que você ronca? Acho que tem sonhos agradáveis!
Ela simplesmente não desistia.
Quando fechei o livro, notei que tinha algo enfiado perto das páginas finais. Um envelope. Era macio e quase transparente. Respirei fundo ao perceber que continha uma foto. Mesmo através do papel pude distinguir a imagem de uma mulher.
Não.
Eu sabia, mesmo sem olhar, quem estava na foto. Minha mãe biológica...
Enfiei o envelope de volta no livro. Quinn não iria me manipular, não me forçaria a encarar o passado. Não podia me obrigar a olhar para a mulher perturbada que tinha me entregado a estranhos.
Lutando contra a raiva – raiva de Quinn, dos segredos tristes e embaraçosos do passado — , joguei o livro debaixo da cama. Não queria que mamãe o encontrasse quando esvaziasse o cesto de lixo. Eu poderia rasga-lo e enterrá-lo na pilha de adubo mais tarde.
Enquanto o volume fino deslizava pelo piso de madeira até parar em meio aos cotões de poeira, fiquei pasma com a constatação: será que Quinn estava parada do outro lado da porta enquanto eu sonhava com ela? Ai que vergonha! Por que fui ter aquela fantasia noturna? E o que Quinn quis dizer com “sonhos agradáveis”? Por que escreveu aquilo?
Só esperava que, além de roncar – coisa que eu não fazia -, eu não falasse durante o sono. Então me lembrei com algo mais do que apenas receio, de que havia concordado em encontrar Quinn sozinha em seu apartamento, naquela noite.
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