Como Se Livrar De Uma Vampira Apaixonada
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Incapaz de localizar um papel de carta mais adequadamente pomposo no meio da noite, redigi meu bilhete de abdicação no verso de um panfleto de turismo que descrevia as belezas no nosso lar ancestral – VEJA UMA MASMORRA DE VERDADE! CONHEÇA A VISTA DAS TORRES! – que encontrei perto da porta da frente.
Escrevi:
Querida família,
É inútil travar uma guerra contra os Fabray. Decidi que é do nosso interesse que eu retorne aos Estados Unidos, que abdique do posto de princesa. Porém, meu último ato como sua soberana é ordenar que todo Dragomir se submeta sem luta ao domínio dos Fabray. Estou colocando nosso clã sob o poder de Quinn Fabray para que possamos ter paz. Daqui em diante, vocês serão súditos dela.
Esta é a minha ordem, dada à meia noite de 10 de julho e efetiva a partir da 06h30 deste mesmo dia.
Anastácia Dragomir.
Pus o bilhete na comprida mesa de jantar, ainda cheia de pratos e taças da festa arruinada, onde tinha quase certeza de que Dorin iria encontra-lo na hora do café da manhã. O panfleto parecia ridículo apoiado num candelabro de prata manchado e eu esperava que ao menos minhas palavras soassem oficiais.
De qualquer maneira, se alguém lesse minha diretriz, eu já estaria morta. O destino dos clãs não seria mais um problema meu.
Isso não vai acontecer, Rachel.
Eu desejava me apresentar a Quinn de modo majestoso e poderoso, por isso não havia tirado o vestido, o que tornava difícil mudar de marcha do apertado Panda. A cauda se prendia na embreagem, mas consegui manobrar para fora do estacionamento e sair para a estrada estreita e tortuosa que se retorcia como uma trepadeira venenosa em direção ao castelo de Quinn.
Felizmente eu havia gravado o local da casa dela – sua proximidade da minha propriedade ancestral, sua grandiosidade horrível – na vinda com Dorin, porque pude refazer o caminho, mesmo sendo uma rota confusa nas montanhas escuras. Ou talvez eu tenha me perdido algumas vezes, porque a viagem pareceu durar uma eternidade. Por fim, vi as torres pontudas do castelo tentando esfaquear a lua cheia e peguei a trilha que seguia para lá, quase vertical, interrompidas por curvas fechadas que brotavam da escuridão como bonecos de caixas de surpresa e me obrigavam a apertar o freio várias vezes para não voar pelos penhascos íngremes que apareciam à esquerda e à direita, nas aberturas da floresta densa.
– Vai! – Eu encorajava o Panda, dando tapinhas no volante, instigando o motor que lutava, certa de que ele estava prestes a desistir.
O asfalto terminou, mudando para terra batida, e continuávamos a subir.
Finalmente, quando começara a acreditar que a montanha não acabaria nunca, um portão de ferro surgiu diante de mim, com pelo menos dois metros e meio de altura. Por que não pensei nisso? Parei o carro e puxei o freio de mão com o máximo de força que pude, tendo visões do pobre Panda desaparecendo pela estrada vertical e mergulhando na ribanceira, para jamais ser visto de novo. Levantando o vestido para que a cauda não se arrastasse na estrada de terra, fui até o portão e me aventurei a puxar a pesada argola de ferro que servia de maçaneta, certa de que seria uma tentativa inútil.
Porém, para a minha surpresa, o portão se moveu uns dois centímetros. Puxei com mais força, lutando contra o peso, e consegui abri-lo apenas o bastante para me esgueirar para dentro. Grande sistema de segurança de Quinn!
Dei alguns passos na terra dos Fabray e o portão se fechou atrás de mim, metálico, como um gongo de mau agouro na floresta silenciosa. Olhei para trás me sentindo imediatamente vulnerável, longe do carro e trancada com o quê? Vampiros, com certeza, e talvez coisas mais apavorantes ainda. Pensei no uivo do lobo. E em cachorros. E se Quinn tivesse cães de guarda?
Será que devo empurrar o portão de novo, tentar abri-lo e voltar para o carro?
Mas tive uma sensação terrível que estava trancada por dentro. Além disso, não tinha intenção verdadeira de voltar.
Eu mal conseguia discernir o caminho à minha frente, mesmo com o luar atravessando as árvores densas. Não tinha escolha a não ser seguir adiante, então ajeitei os ombros e comecei a andar. A cada passo minha consciência dos sons da floresta aumentava: o estalar de galhos a distância, o farfalhar de folhas enquanto algum animal – por favor que seja algum roedor da Romênia – se afastava correndo, espantado pelos meus passos.
Havia coisas maiores por lá também. Dava para ouvi-las por perto. Apressei o passo, a princípio só andando mais depressa, depois começando quase a correr o mais rápido que conseguia no caminho irregular, de terra e pedras. Por favor, por favor, que o castelo apareça. Minha respiração começou a sair tão ruidosa que os outros sons foram abafados, mas os monstros estavam tão ativos na minha imaginação que eu não precisava escutá-los para saber que estavam lá, mordiscando meus calcanhares. E então, tropecei.
Antes que pudesse cair de joelhos, porém, dois pares de mãos seguraram meus braços e me puxaram para cima, me erguendo bruscamente.
Nem tive tempo de gritar. Enquanto tentava ver quem me agarrava, vi Quinn diante de mim, banhada pelo luar. Estava parada, braços cruzados, bloqueando o caminho. Meus braços ainda estavam contidos com força e olhei para os lados. Dois rapazes – vampiros, presumi – me seguravam.
– Me soltem! – gritei, tentando afstá-los.
– Eliberati-o! – ordenou Quinn em romeno. – Soltem-na!
A ordem foi cumprida e eu fiquei de pé sozinha, espanando-me, como se eles tivessem me sujado com o seu toque.
Os jovens vampiros esperaram as determinações de Quinn, ansiosos para me recapturar.
Mas seriam frustrados, para o meu alívio.
– Margeti. Läsati-ne în pace – disse Quinn, aparentemente dispensando seus guardas, porque eles desapareceram na noite.
Ouvir Quinn se comunicar numa língua familiar para ela mas não para mim, muito depois da meia-noite, numa floresta remota e sinistra, só enfatizou como Quinn havia se tornado uma completa estranha, e parte da minha decisão desmoronou.
Estávamos nos encarando em silêncio, o corpo dela fechando o caminho para o seu castelo.
– Há quanto tempo você estava me seguindo? – perguntei.
– Os faróis do seu carro de brinquedo são fracos, mas mesmo assim visíveis a muitos quilômetros de distância. Poucas pessoas pegam esse caminho à noite. A estrada é traiçoeira demais e o destino, mais perigoso ainda.
– Então é por isso que o portão estava aberto. Você sabia que eu vinha.
– Sabia mesmo. Queria ver até onde levaria essa visita imprudente. – Ela andou na minha direção, as mãos cruzadas às costas. – Devo admitir que você chegou muito mais longe do que eu previa. Está praticamente na minha casa.
– Não tenho medo do escuro – menti.
Quinn chegou mais perto, erguendo-se diante de mim.
– Há lobos nessa floresta – alertou, inclinando-se para olhar meu rosto. – E eles achariam difícil resistir a uma mulher tão tentadora quanto você. Ainda mais nesse magnífico vestido vermelho-sangue.
Olhei para o meu vestido enquanto Quinn andava ao meu redor, examinando-me, numa paródia de que havia feito meses antes no estábulo dos meus pais, no dia em que nos conhecemos. Ela havia mudado desde então – e eu também. Nada de botas sujas, camisetas rasgadas. A seda vermelha cintilava ao luar.
– Você nunca leu chapeuzinho vermelho, Rachel? – perguntou Quinn, ainda me rodeando devagar, chegando perto e me cercando. – Não sabe o que acontece com inocentes que andam sozinhas em florestas escuras?
Fui atravessada por uma estranha onda de terror misturada com ansiedade. Quinn estava perto demais – e ao mesmo tempo não o suficiente. Eu não podia ver direito os seus olhos na escuridão. Não podia avaliar seu humor. Ela estaria brincando comigo como prelúdio de um beijo... ou de um golpe de estaca no peito?
Você está apostando sua vida na primeira opção, Rach.
– Esqueci a história, Quinn. É só um conto pra criancinhas.
– Ah, é uma das minhas histórias prediletas – disse ela, fazendo uma pausa atrás de mim. Fiquei tensa, me sentindo vulnerável com ela às costas. – As origens estão perdidas no tempo. E há muitas adaptações. Em algumas a menina é salva. Mas eu adoro o final relatado por Perrault, na versão clássica.
– Como... como termina? – perguntei sem me mexer.
– “Vovó, que DENTES grandes você tem!” – recitou Quinn, tão perto dos meus ombros que seus lábios roçaram minha orelha, quase me mordendo. – “São para comê-la ’! E, dizendo essas palavras, o Lobo Mau saltou sobre Chapeuzinho Vermelho e a devorou”.
Estremeci enquanto ela contava a história, em parte por causa da sua proximidade, em parte pelo prazer evidente com ela relatava a conclusão medonha.
– Não é um final simples e satisfatório, Rachel?
Ela riu baixinho.
– Eu gosto mais dos finais felizes – afirmei.
Quinn riu com mais intensidade.
– O que poderia ser mais feliz... para o lobo? Por que os humanos sempre olham essas coisas pela perspectiva errada? Os predadores também merecem nossa simpatia.
– Não vim aqui para escutar contos de fadas – respondi, quebrando o feitiço. Ela estava começando a me irritar.
– Então corra para casa Chapeuzinho Vermelho – disse Quinn, segurando meus ombros e me virando de volta para o carro. – É tarde e você corre o risco de virar comida de lobo. O que eu diria na carta para os seus pais? Que deixei Rachel ser devorada, ter os membros arrancados, depois deles terem sido tão hospitaleiros comigo?
Estremeci de novo, desta vez principalmente de frio, e me virei, desvencilhando-me de suas mãos.
– Quero entrar e conversar. Vim aqui propor um trato a você.
Quinn fez uma pausa, inclinando a cabeça e achando divertido.
– Um trato? Comigo? Mas você não tem com que negociar. – Mesmo assim dava para ver que ela estava intrigada. – Tem?
– Acho que sim.
– E esse trato termina com você retornando à Pensilvânia, que é o seu lugar?
– Pode terminar com minha partida – respondi. Deste mundo. Para sempre.
– Você despertou meu interesse – admitiu Quinn, tocando meu ombro de novo. – E está tremendo de frio. Sou uma anfitriã grosseira, provocando-a no ar gelado, quando você não está acostumada à primavera nos Cárpatos. Vamos entrar, onde posso enfurecê-la e inspirar ódio com todo conforto.
Começamos a andar lado a lado pelo caminho. Os pés de Quinn seguiam seguros no terreno familiar para ela, enquanto eu tentava me equilibrar usando trajes inadequados para aquela caminhada noturna. Oscilei ligeiramente e Quinn estendeu a mão para me firmar. Depois de recuperar meu equilíbrio, ela manteve a mão no meu cotovelo e senti que com aquele gesto simples eu tinha avançado mais um passo para ganhar a guerra entre os Fabray e os Dragomir.
Ou talvez não. Porque quando a enorme porta de madeira de seu castelo se fechou atrás de nós, lacrando-nos num imponente salão gótico de pedra, que desaparecia sobre mim numa escuridão alta demais para ser penetrada por círculo de 20 tochas de verdade. Quinn observou:
– Você sabe que declarou guerra esta noite. E agora é a minha primeira prisioneira.
Eu me virei a tempo de vê-la fechar um cumprido trinco de ferro, trancando-nos em sua mansão monstruosa.
– Você está brincando, não é Quinn?
Era a coisa errada a dizer. Seus olhos estavam duros quando me encaravam.
– O mais triste, Rachel, é que esta noite quase pensei que você finalmente havia aprendido a não confiar em mim.
Enquanto eu olhava horrorizada, Quinn levou as mãos Às costas e pegou uma coisa que aparentemente estivera escondida, enfiada em seu cinto, o tempo todo em que estivéramos juntas numa floresta escura dos Cárpatos.
Uma estaca manchada e afiada.
***
Quinn bateu na palma da mão com aquele instrumento rudimentar, mas mesmo assim potencialmente mortal.
– Fiz tudo que pude para impedir que chegássemos a esse ponto, mas você se recusa a cooperar. Vou lhe oferecer uma última chance, Anastácia. Eu vou abrir o trinco, você vai sair para a noite e meus guardas garantirão seu retorno em segurança ao carro. De lá, você viajará para casa e esquecerá todo esse episódio. Essa é a minha oferta, que está sobre a mesa.
Enquanto Quinn falava, seus olhos tinham ficado completamente pretos, as íris consumindo a parte branca, como se ela fosse algum exótico animal noturno. A transformação era tão cativante e aterrorizante quanto fora na primeira vez em que eu a vira, na sala de jantar dos meus pais, quando Quinn sentiu sede do sangue que iria curá-la. Foi necessário cada grama da minha coragem para que eu não implorasse para ela abrir o trinco, deixando que eu fugisse em segurança. Mass eu não podia fazer isso. Nosso relacionamento curto, intenso e confuso chegaria ao clímax naquela noite, para o bem ou para o mal. Eu não iria esperar nem mais um dia.
Dominei a voz com esforço.
– Não estou interessada em sua oferta de fuga. – Apontei para a estaca. – É exatamente por isto que eu estou aqui. Isto, na sua mão, é o ponto crucial do meu trato também.
Quinn me observou atenta, sem dúvida fora pega desprevenida.
– Você esperava que eu sentisse medo, Quinn? – perguntei, desejando que meus olhos e minha voz não traíssem meu pavor.
– Esperava.
– Pela primeira vez, acho que você é que foi ingênua. Subestimou minha capacidade.
Quinn hesitou e o silêncio naquele salão quase fúnebre foi ensurdecedor, a não ser pelos estalos das tochas.
– Vamos conversar – disse ela por fim.
Andando à minha frente, sem esperar para ver se eu a seguia, ela me guiou por um labirinto de corredores que se abriam em aposentos amplos, como uma série de túneis ligando cavernas – às vezes se abaixando alguns lintéis construídos numa época em que as pessoas eram muito baixas, muito mais baixas do que Quinn Fabray, às vezes subindo rápido lances de escada que pareciam não ter propósito. Aquele não era um castelo destinado a dar boas-vindas aos visitantes, e sim confundir inimigos. Não era um lar. Era um covil. Uma teia de aranha feita de pedras. Enquanto penetrávamos mais fundo no imponente palácio, as curvas pareceram ficar mais fechadas; mais estreitos; as escadas, mais íngremes. Percebi, sentindo algum pânico, que estava completamente perdida. Inteiramente à mercê de Quinn. Se as coisas não acontecessem como eu esperava, eu jamais escaparia. Meu corpo jamais seria encontrado.
Ela parou tão de repente que trombei em seu ombro enquanto ela estendia a mão para abrir uma porta que eu nem tinha percebido na parede. Virando a maçaneta e empurrando-a, Quinn ficou de lado.
– Primeiro, as damas – disse ela.
Observei-a com cautela. Seus olhos não estavam mais totalmente negros, mas continuavam frios. Passei por ela.
– Obrigada.
Enquanto Quinn fechava a porta, olhei para o aposento, depois para Quinn.
– Quinn... isso é lindo.
No coração do labirinto dos Fabray havia uma biblioteca ricamente decorada, uma versão magnífica do cenário que Quinn havia montado em nossa garagem. Um gigantesco e antigo tapete turco cobria o chão de pedras e as paredes eram forradas com estantes cheias de livros – como eu esperaria de Quinn. Poltronas de couro rasgado e gasto, testamento das horas que sem dúvida ela havia passado com as obras de Brontë, Shakespeare e Melville. Enfiado no meio dos livros havia um troféu vermelho, com um jogador de vôlei. O prêmio de Quinn por ter ganhado como melhor jogadora de um torneio em dezembro. Virei-me para ela, sorrindo, animada porque ela guardara um pedacinho de sua vida de adolescente americana.
– Você trouxe o seu troféu.
Quinn sorriu também, mas com sarcasmo.
– Aquilo? Foi Dorin que resgatou. Guardei para me lembrar de nunca ser idiota de novo, me entregando a jogos ridículos quando há bons negócios a fazer.
Não acreditei nela. Mas deixei para lá.
Tirando o sobretudo, Quinn se abaixou para pegar um pedaço de lenha e o jogou numa lareira meio apagada. Fagulhas subiram em profusão e o fogo voltou a vida. Ela havia enfiado a estaca de volta no cinto e eu poderia tê-la apanhado naquele momento em que ela ficou de costas para mim e atirado-a nas chamas...
– Nem pense que você seria rápida o bastante – avisou Quinn sem sequer se virar, cutucando os pedaços de lenha com a bota, instigando-os a reviver.
– Isso nem me passou pela cabeça – respondi.
Quinn se virou com um sorriso de quem sabe das coisas.
– Claro que não.
Em seguida, pegou a estaca novamente, passando a mão ao longo dela, testando a ponta com o dedo.
– Quinn, você não acha mesmo que vai me destruir esta noite, acha?
Em vez de responder, Quinn veio até mim, pegando-me pelo pulso, e me puxou até o centro da sala, onde o complicado desenho do tapete culminava num círculo mais claro, gasto.
– Olhe para baixo – ordenou, a voz muito áspera de repente, apertando meu braço com força demais para ser confortável.
Obedeci e vi uma mancha escura que se espalhava pelas fibras. Sangue... Não parecia que alguém tivesse tentado limpar.
– Isso é...?
– Basile. Foi onde o matei. É aqui que eu destruo.
Quando levantei a cabeça de novo, afastando o olhar daquela mancha para examinar o rosto de Quinn, vi que seus olhos estavam estreitados e eram puro negrume outra vez. Estávamos tão perto que eu podia espiar fundo suas íris grandes, quase como se pudesse enxergar seus pensamentos verdadeiros, ler sua mente através dos olhos, como os vampiros de verdade supostamente seriam capazes de fazer. E os pensamentos que giravam no cérebro de Quinn eram tão sombrios que me encolhi. Em seus olhos vi minha destruição.
– Quinn, não – comecei a protestar, mas, numa fração de segundo, ela estava atrás de mim, um dos braços envolvendo meu peito com firmeza, minhas mãos presas na dela, e a estaca firmada de baixo para cima sob meu esterno, quase furando a pele, penetrando na seda vermelha do meu vestido, parando bem a tempo. Prendi a respiração, com medo de me mexer.
– Você disse que tinha um trato a propor – rosnou ela. – Fale agora.
– É isso – consegui dizer, pressionando o meu corpo contra o peito dela, para longe daquela ponta afiada. – Deixei um bilhete dizendo à minha família que abdiquei. Mas meu último ato foi ordenar que eles se submetessem à sua liderança sem lutar.
– Isso não é um trato. – Quinn gargalhou. – Isso é submissão.
– Não. – Balancei a cabeça, sentindo meus cabelos roçarem no seu queixo. Seu braço estava pesado e tenso sobre o meu peito. Em outro tempo, em circunstâncias diferentes, seria o paraíso estar nessa posição com ela, de modo protetor. Exceto pela estaca no meu peito. – Se você não me destruir esta noite, como parece disposta a fazer, eu vou pra casa antes de Dorin acordar e jogo fora o bilhete. A guerra vai continuar.
Quinn parou, pensativa.
– Você sabe que não tenho problemas quanto a continuar a guerra.
– E diz que não tem problemas quanto a me destruir. A me sacrificar. Então faça isso. Faça e impeça a guerra. Eu estou me sacrificando, Quinn. – Ouvi minha voz subir de volume juntamente com minhas emoções. – Faça isso, se você está tão endurecida! Tão maligna! Faça o que disse que ia fazer o tempo todo!
O medo, a frustração e a raiva contra sua obstinação, suas mudanças e suas recusas em aceitar nosso amor – sentimentos que tinham sido reprimidos em mim por tanto tempo – explodiram, me deixando imprudente, e me peguei pressionando-a com intensidade, mesmo sabendo que os riscos eram gigantescos.
– Vá em frente, Quinn! Faça isso!
– Vou fazer – disse ela, com convicção na voz, e eu senti a ofegar, o peito arfando contra minhas costas. A estaca se apertou um pouco mais em minha carne, afiada, e arqueei o corpo tentando me afastar dela. – Não me teste! – gritou ela.
– É exatamente o que eu estou fazendo – respondi, arquejando. Quando falei, a estaca me furou, fazendo minha respiração sair curta e entrecortada. Soltei um grito e torci a cabeça contra o ombro dela, tentando me afastar da arma, e ela cedeu um pouco.
– Estou testando você, Quinn – continuei, lutando para dominá-la enquanto ela mostrava o mínimo de vulnerabilidade. – Estou arriscando minha vida para provar que você não é Basile. Que você não está perdida. Que me ama demais para me destruir em qualquer momento, quanto mais agora. Estou apostando tudo no fato de que você vai me poupar.
– Não posso poupar ninguém! – rugiu Quinn, perdendo a frieza. Sua mão sob minhas costelas tremeu. – Todas as minhas opções são cruéis, Anastácia! Eu destruí meu próprio tio. Coloquei seus pais em perigo, mesmo quando eles tentaram me salvar. Minha égua foi destruída. Minha mãe foi destruída. Meu pai foi destruído. Você, não importa o que eu faça, está destruída. Não posso deixa-la para trás, você não vai permitir. E não posso arrastá-la para esse...esse meu mundo. Tudo...tudo à minha volta é destruição!
Então ela enterrou o rosto no meu cabelo, exausta, e sua mão se afastou do meu peito. A estaca tombou no chão, rolando pelo tapete, e eu soube que eu tinha vencido. Tinha apostado e vencido.
Girei lentamente, ainda encostada em Quinn, presa por seu braço e envolvi seu pescoço com minhas mãos, puxando sua cabeça para o meu ombro, confortando-a. ela permitiu que eu a segurasse daquele jeito, acariciasse seu cabelo loiro e afagasse seu rosto passeando pela cicatriz no queixo que não me amedrontava mais.
– Rachel – disse ela com a voz insegura. – E se eu tivesse sido capaz...
– Mas não é. Eu sabia que você não seria capaz.
– E se algum dia...
– Nunca, Quinn.
– Não, nunca – concordou ela, levantando a cabeça do meu ombro e aninhando meu rosto nas mãos, enxugando meus olhos com os dedos. Eu nem tinha percebido que estava chorando. – Nunca faria mal a você.
Ela me puxou, pousando a cabeça de volta no meu ombro, enquanto nós duas nos recuperávamos. Ficamos assim por um longo tempo, até que Quinn sussurrou:
– Sempre haverá uma parte de mim que é traiçoeira, Anastácia. Isso nunca vai mudar. Eu sou uma vampira, uma princesa vampira. Governante de uma raça perigosa. Se você quer fazer isso, deverá entender...
– Não quero que você mude, Quinn – garanti, recuando para olhar em seus olhos.
– E esse mundo... – disse ela. – Eu me preocupo com você nesse mundo. Você terá inimigos. Uma princesa vampira sempre enfrenta adversários implacáveis. Outras pessoas vão querer seu poder e não hesitarão em fazer o que eu não consegui.
– Você me protegerá. E eu sou mais forte do que pensa.
– É mesmo. É mais forte do que eu – admitiu Quinn, conseguindo dar um meio sorriso relutante, apesar de ainda estar claramente abalada, como eu. – Fiz tudo o que pude para ter o que desejava, mantê-la longe de mim e de nossa espécie, mas você consegue o que quer, como uma princesa de verdade.
– Eu queria você Quinn. Tinha que conseguir.
Abraçamo-nos no meio da sala, de pé sobre a mancha de sangue que marcava a destruição do vampiro que havia tentado fazer de Quinn um verdadeiro monstro. Atrás de nós o fogo estalava e eu pensei no baile de natal, quando fui transportada para essa cena, enquanto dançávamos. Esse era o lugar que eu havia imaginado.
Quinn inclinou a cabeça e encostou os lábios nos meus, ainda segurando o meu rosto, e no coração daquele labirinto de pedra nós nos beijamos, a princípio com ternura, os lábios mal se encostando, de novo e de novo. Então Quinn levou uma das mãos à minha nuca e a outra à minha cintura, um gesto ao mesmo tempo protetor e possessivo, e me beijou com mais ferocidade enquanto sua língua explorava a minha boca em um reconhecimento mútuo, e eu soube que ela finalmente estava me tomando para si como sua parceira prometida, de uma vez por todas. Eu soube que cumpriríamos o pacto.
Ela se afastou examinando meu rosto. Toda a suavidade estava de volta em seus lindos olhos verde. Eu sabia que tornaria a ver a guerreira, princesa muitas vezes. Ela ainda era Quinn Fabray. Mas a dureza, a aspereza que havia dentro dela jamais seria direcionada de novo contra mim. Na verdade nunca tinha sido. Só na imaginação e nos temores dela.
– Isso é a eternidade, Rac...Anastácia – disse ela, ao mesmo tempo alertando e implorando. – A eternidade.
Ela me dava uma última chance de ir embora – e suplicava que eu não fosse.
Eu não tinha intenção de ir a lugar algum longe daquela sala ou do seu abraço. Inclinei a cabeça para trás, cedendo sem palavras, e fechei os olhos enquanto Quinn encontrava de novo o ponto em que minha pulsação batia mais forte no pescoço. Desta vez não houve hesitação, além de algumas respirações brevíssimas em que ambas saboreávamos o momento que nos reuniria para sempre. Então seus dentes se cravaram no meu pescoço e eu gritei baixinho, sentindo-a mergulhar, com força e segurança, mas também com delicadeza infinita, na minha veia, me devorando.
– Eu te amo Quinn. – Ofeguei, sentindo-me atraída para o seu corpo, tornando-me parte dela. – Sempre amei.
Minhas presas foram liberadas, acabando com a dor, e, quando Quinn terminou, minha garganta ardia com um prazer inimaginável. Ela me levou até um dos sofás, puxando-me de modo que eu pudesse alcançar sua garganta com facilidade, e pareceu natural demais encostar os dentes no pescoço dela.
– Aqui, Anastácia – sussurrou Quinn, pondo as pontas dos dedos suavemente sob meu queixo, me guiando ao lugar certo, e, no momento em que senti sua pulsação latejar logo abaixo da pele, não pude esperar mais. Cravei os dentes fundo, sentindo seu gosto, tornando-a parte de mim.
Quinn gemeu, me apertando mais perto, e assim meus dentes penetraram mais fundo e o sangue correu mais depressa, escorrendo fresco e intenso em minha boca. Seu sangue tinha gosto de poder e paixão com um toque de doçura... exatamente como Quinn.
– Ah, Rachel – sussurrou ela, acariciando meu rosto e me ajudando a soltar com relutância os dentes ainda pouco familiares enquanto eu terminava de beber. – Também sempre te amei.
Dormimos nos braços uma da outra no sofá diante da lareira, exaustas, satisfeitas e felizes. Pelo menos eu dormi durante toda a noite. Quinn, num determinado momento, se levantou e saiu, porque, quando acordei, logo antes de amanhecer, percebendo que precisava correr de volta para casa e destruir o bilhete – antes que abdicasse – Quinn me avisou que os jovens guardas vampiros já haviam sido despachados na madrugada, para garantir que o meu reinado não terminasse inesperadamente cedo.
E enquanto eu ficava aninhada nos braços de Quinn, com a cabeça em seu peito, protegida por seus braços, os dedos tateando as feridas sensíveis no meu pescoço, percebi que ela havia feito mais do que ordenar que seus lacaios cumprissem a ordem.
A estaca que havia caído no tapete desaparecera.
Quinn nunca me contou o que foi feito dela. Não disse se jogou no fogo — que foi realimentado durante toda a noite – a lembrança de seu feito mais violento e de nosso momento mais sombrio ou se escondeu a estaca em algum lugar no castelo, para o caso de querer usá-la outra vez. E eu nunca perguntei.
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