Notas iniciais
Oi. O que aconteceu será explicado nesse capítulo. Boa leitura.

– E o prêmio de espírito escolar da Escola Woodrow Wilson vai para... Kitty Wilde.

Meus dedos seguraram a cerca de arame enquanto a garota responsável pela destruição de Quinn caminhava até o tablado como uma espécie de heroína, subindo os degraus sob um coro de assobios e aplausos de um mar de formandos que usavam capelos e becas azul-marinho. Sob o capelo, os cabelos loiros de Kitty se agitavam sob uma bandeira ao vento enquanto ela recebia o prêmio e acenava para a multidão.

O entorpecimento que eu havia alimentado cuidadosamente como estratégia para enfrentar a dor, a fúria e a perda quase se despedaçou ao ver Kitty ser aplaudida e não sei como me contive para não soltar um grito.

Por que vim assistir a formatura? Eu havia me recusado a participar da cerimônia, mas alguma coisa perversa dentro de mim tinha me atraído para o campo de futebol. Eu estava ali para testemunhar meus colegas de escola receberem seus diplomas. A maior parte deles eu conhecia desde a infância. Alguns haviam participado do extermínio da pessoa que eu mais amara nesse mundo. Acho que queria ver o rosto deles. Haveria algum vestígio do ato maligno cometido no celeiro? Ou teriam se convencido de que nada acontecera, como Dorin aconselhara? O que me deixava mais arrasada era pensar que um ou dois deles acreditavam que tinham feito uma coisa boa. Será que Brody sentia isso? Ele dissera naquela noite: “Tinha que ser eu.” O que isso significava?

– Anastácia. – A voz era baixa, porém nítida. – Não adianta se torturar. Ainda que sonhar com uma vingança seja um comportamento muito típico de um vampiro.

Eu me virei e o vi.

Um vampiro ligeiramente gorducho, meio careca, a poucos metros de mim, encostado na parede de um quiosque. Usava uma camiseta azul-marinho com o mascote da Wilson – um cachorro de aparência durona, com papada, chamado Woody – bordado no peito.

Encontrando meu olhar, o vampiro acenou.

Só de ver Dorin, alguém ligado a Quinn e àquela noite, senti vontade de vomitar. Quando meu estômago parou com os espasmos, comecei a andar feito uma zumbi.

Atrás de mim, ouvi mais aplausos enquanto Blake Strausser ganhava o prêmio de melhor atleta.

Os aplausos pareciam vir de quilômetros de distância à medida que eu caminhava pela grama na direção de Dorin. Na direção de um passado breve, porém intenso que ainda me consumia.

– Ora, ora, ora. Você está tão pálida e séria! – Dorin riu enquanto eu me aproximava. – Quase como uma vampira de verdade. – Ele me abraçou, mas fiquei rígida. Eu ainda não o perdoara por fracassar em proteger Quinn. – Por que não está se formando hoje, como os outros?

– Eles não significam nada para mim – respondi, me afastando dele.

– E, no entanto está aqui!

– Dorin, esquece isso. O que você está fazendo aqui?

– Hum. – Ele franziu a testa. – É um negócio muito complicado. Muito difícil de explicar.

Eu não estava a fim de nada desafiador, mas perguntei assim mesmo:

– Que tipo de negócio complicado?

– Está havendo uma disputa ferrenha na Romênia. – Dorin suspirou, evitando meu olhar. – Na verdade é uma tremenda confusão. Você não deveria saber disso, é claro. Mas não achei justo mantê-la no escuro. Provavelmente fizemos isso por mais tempo que o recomendável. Foi ideia da Quinn. Não me culpe. Se ela soubesse que estou aqui...

Meus joelhos quase se dobraram e Dorin avançou depressa para segurar meu cotovelo.

– Firme, aí!

– Você disse... Quinn? Se Quinn soubesse que você está aqui? – Mas isso é impossível... Quinn tinha sido destruída...

Dorin pigarreou, parecendo culpado e nervoso.

– Ela achou que seria melhor fazer a coisa ao modo dela. Mas Quinn está arrasada e as coisas estão desmoronando na Romênia.

Agarrei Dorin pelos ombros, sacudindo-o com mais força do que jamais havia sacudido qualquer coisa na vida.

– QUINN... ESTÁ... VIVA?

– Ah, sim, bastante – admitiu Dorin, tentando se soltar. – Mas do jeito que as coisas vão...

É estranho como o alívio, a alegria e a fúria podem se misturar totalmente e, em circunstâncias como essas, a próxima coisa que a gente percebe é que está soluçando, gargalhando, dando socos no peito de um vampiro e empurrando-o de costas contra um quiosque.

Quando recuperei um nível mínimo de compostura fomos para casa pegar meu passaporte. Eu estava indo para a Romênia. Para casa. Encontrar Quinn.

***

– Então Brody se mostrou à altura do desafio, por assim dizer. Concordou com atrama toda. Disse que até admirava Quinn, apesar de tudo. Tinha algo haver com Quinn defender você do valentão David Karoufsky.

– E isso bastou para convencê-lo a cravar uma estaca no peito de Quinn?

Eu estava cética.

– Bom, eu posso tê-lo ameaçado também. Só um pouquinho – confirmou Dorin. – Mas Brody é um garoto legal. Foi uma coisa boa Quinn ter falado dele nas cartas para casa.

– Quinn tinha falado dele?

– Ah, claro – respondeu Dorin. – Ela vivia reclamando do garoto “atarracado e legal” que estava estragando toda a corte.

Legal. Aquela palavra de novo. Dessa vez me fez sorrir.

– É, Brody é um cara legal.

Se algum dia eu voltasse ao condado de Lebanon, iria agradecer a ele.

– Quer uma rosquinha?

– Não, obrigada. – Estávamos voando a uns 35 mil pés, em direção à Romênia, de volta à terra em que nasci, e Dorin me colocava a par de toda a história. Contava como havia atraído Brody num plano de última hora para cravar a estaca em Quinn, certificando-se de que Blake Strausser ou algum outro fanático não tivesse uma chance.

Acabou que Brody quase havia ido longe demais.

– O garoto não conhece a própria força. – Dorin suspirou, sacudindo as rosquinhas que estava segurando. De algum modo tinha conseguido uns 10 sacos com a comissária de bordo. – O jovem Sr. Weston ficou bastante apreensivo durante um bom tempo. Mas a encenação precisava ser realista. Eu disse a ele para que não se preocupasse. Tudo correu bem.

– Por que Quinn não fugiu, simplesmente?

Assim que fiz a pergunta, percebi como a ideia era absurda. Uma princesa vampira dar as costas? Bem improvável.

– Não seja ridícula – disse Dorin, ecoando meus pensamentos. – Quinn nem gostaria de saber que meti Brody no negócio. Ela queria mesmo ser destruída naquela noite. Ficou bastante surpresa e um pouco irritada quando acordou ainda viva. Mas superou isso.

Olhei as nuvens que passavam.

– Como Quinn pôde fazer isso comigo? Fiquei pensando que ela havia morrido! Por que não entrou em contato?

Dorin deu um tapinha no meu braço.

– Ela achou que era melhor que você acreditasse que ela havia morrido. Quinn enxerga o próprio lado sombrio. Com muita clareza.

– Quinn é capaz de controlar esse lado dela. Só não acredita nisso.

– É – concordou Dorin. – Você e eu temos certeza de que Quinn é honrada. Qualquer um pode ver isso. Na verdade, a luta interminável de Quinn com a própria consciência é a prova da força do seu lado bom. Mas Basile tentou desviá-la, fazendo dela um “peão” em seus planos cruéis. Por isso Quinn aparenta desconhecer sua verdadeira natureza. Princesa nobre ou vilã maligna? Os dois? Ela é uma vampira em guerra consigo mesma.

Depois de um tempo, Dorin acrescentou:

– Ter comprado aquela égua, Fera, não ajudou. Quinn ficou obcecada por ela. Sentia uma ligação com o animal e começou a pensar que talvez também estivesse corrompida demais para viver. Que mais cedo ou mais tarde ela faria mal...

– A mim.

– É. Ela não queria que você precisasse passar a eternidade com um mostro, no sentido mais técnico do termo. Você sabe, alguém capaz de terríveis crueldades... — Dorin deixou a frase no ar. – Mas agora ela sofre.

Olhei meu companheiro de viagem.

– Como assim?

– Quinn precisa de você. Ela sofre por você. Ela a ama. Isso é muito raro. Alguns dizem que o amor verdadeiro entre os vampiros é um mito. Que somos malignos demais por natureza. Mas Quinn ama. E ela ama você...como você a ama.

Mais do que qualquer coisa eu queria que Quinn me amasse. Mas ainda estava magoada.

– Ela não percebeu que a coisa mais cruel que ela poderia fazer era me abandonar?

– Quinn achou que você se recuperaria depressa, seguiria sua vida. É isso que os adolescentes fazem, não é?

– Mas eu não sou uma adolescente normal.

– Claro que não. – Dorin fez uma pausa. – Mas Quinn achou que lhe fez um favor. A um grande custo para o coração dela.

Meus olhos se encheram de lágrimas, como sempre acontecia quando pensava em Quinn.

– Sinto muita falta dela.

– Claro. Mas você deve se preparar para quando a vir. O lado sombrio dela está ficando mais poderoso a cada dia. Ela destruiu Basile, sabia?

– O quê?

Achei que não tinha escutado direito.

– Ah, sim. Quando Basile descobriu que Quinn ainda estava conosco, e na Romênia, ordenou que ela fosse destruída por desobediência, por abandonar o pacto que deveria cumprir. Bem, Quinn entrou no castelo e disse: “Faça você mesmo, velho”, ou alguma coisa do tipo. E Basile disse: “Moleca, impertinente” e partiu para cima de Quinn como um lobo que avança em um corvo.

Quinn lutando com Basile? Não parecia justo. Quinn era forte, mas Basile era mais do que forte. Era como uma força da natureza.

– O que aconteceu?

– Quinn venceu. E, numa luta até a morte, alguém acaba morrendo.

– Ah.

Ainda que Basile tivesse sido absurdamente cruel, era difícil imaginar Quinn mergulhando uma estaca no peito de alguém...

Dorin leu meus pensamentos.

– Quinn não tinha opção. Mas ficou quase destroçada quando a luta terminou. Não quis comer durante dias. Mesmo assim, o que poderia ter feito? Ficar parada e deixar que Basile a destruísse? Acho até que a garota já havia suportado demais. O mundo é um lugar melhor com Basile fora do caminho.

– Mas Quinn não consegue aceitar isso, não é?

– Não. Claro que não. Quinn foi criada e doutrinada para honrar a família acima de tudo. Foi ensinada desde a infância a respeitar Basile e protegê-lo, como seu mentor e superior. Claro que Quinn vê a desobediência e, em última estância, a destruição de Basile como mais uma prova de que é irrecuperável. Por isso age como tal.

– O que, exatamente, ela está fazendo?

Eu estava morrendo de medo de ouvir a resposta.

– Está precipitando uma guerra.

– Como?

– Nosso povo, o clã Dragomir, está furioso com o pacto. Acha que Quinn deixou você para trás de propósito, com o objetivo expresso de nos negar nossa princesa e o poder compartilhado. Quinn não somente permite que essa interpretação equivocada cresça de modo infeccioso como ela a alimenta. Ela nos incita à guerra. Já acontecem escaramuças entre os Fabray e os Dragomir. Vampiros têm sido destruídos por outros vampiros em fúria. Milícias estão sendo formadas. Logo será uma guerra geral.

– Vampiros são destruídos porque eu não voltei com Quinn? Enquanto eu estava perdendo tempo limpando baias, meus parentes tinham o peito cravado por estacas? Por que você não foi me buscar?

Dorin se remexeu, sem jeito.

– Não sou forte como você, Anastácia. Temi a fúria de Quinn. Ela me disse que você não deveria ir para a Romênia, não deveria saber que ela estava viva. Mas a situação foi longe demais. Não posso permitir que outros Dramomir sejam perdidos só porque tenho medo de desafiar o decreto dela. Precisava busca-la.

Apertei a mão do meu tio, quase como se eu fosse o vampiro mais velho, mais experiente.

– Bem, pelo menos você fez a coisa certa no final. Prometo que farei o máximo para protegê-lo da “fúria” de Quinn.

– Acho mesmo que você é a única força capaz de trazer de volta o lado bom de Quinn. Minha existência depende disso, e o destino do nosso povo também. Porque numa guerra com os Fabray...Bem, no período de paz que começou com sua cerimônia de noivado, nós, os Dragomir, nos permitimos ficar mais brandos. Se essa guerra não puder ser evitada, temo que, apesar de toda a nossa revolta, não seremos páreos para os Fabray.

– Até que ponto isso seria ruim para nossa família?

– Ela seria aniquilada – respondeu Dorin, em tom sinistro.

– Então, se eu não puder convencer Quinn, num último esforço, a admitir que me ama e honrar o pacto...

– Acho que em pouco tempo os Dragomir não existirão mais. Não podemos esperar que Quinn, do jeito que está agora, demonstre muita misericórdia.

Apoiei a cabeça no encosto da poltrona, procurando absorver tudo isso. Minha nova lista de coisas a fazer: controlar vampiros Dragomir furiosos. Recuperar uma noiva não mais destruída, porém relutante e violenta. Impedir a guerra iminente.

Segurei o jaspe-sanguíneo que estava em meu pescoço. Eu enfrentaria o desafio. Não tinha escolha.

O avião encontrou um pouco de turbulência e fomos sacudidos com força várias vezes. Alguns passageiros gritaram.

Dorin segurou minha mão e sorriu.

– Bem-vinda de volta à Romênia, princesa Anastácia.

Notas finais
Mais tranquilos rs ??