Notas iniciais
Oi.

– Rach, a gente vai se atrasar para a aula de cálculo – disse Mindy, praticamente me arrastando pelo corredor.

Fiz força no sentido contrário.

– Acho que vou matar aula.

– De novo? – Havia preocupação na voz de Mindy. – Rach, você nunca matava aula. Agora quase não assiste. E é matemática, Rach. Sua aula favorita!

– Não estou a fim Mindy.

– Qual é a sua Rachel? É a Quinn? Porque vocês duas mudaram. E ela estava toda machucada... O que está acontecendo na sua casa?

– Nada, Mindy. Eu juro.

– Você está matando aula, Brody já era, Quinn parece sempre prestes a cometer um assassinato e não está acontecendo nada?

Fui em direção ao banheiro.

– Pode ir pra aula, beleza? Vou ficar por aqui até os corredores esvaziarem pra eu dar o fora.

– Estou preocupada com você, Rach – disse Mindy, segurando os livros contra o peito. – Preocupada de verdade.

– Não é nada – garanti. Nada além de um coração partido, um pacto desfeito e uma guerra que se aproxima. Como eu poderia me concentrar em livros didáticos chatos, deveres de casa sem sentido e aulas maçantes quando tudo estava desmoronando? Quando vidas estavam em jogo? – Te ligo mais tarde.

Mindy ainda estava ali, com cara de assustada, quando entrei no banheiro e me tranquei numa das cabines. Mas o sofrimento não me deixava em paz nem no banheiro. Enquanto estava ali, sentada, esperando o sinal tocar, Kitty Wilde entrou com sua amiga Lisa Clay. Pela fresta entre a parede e a porta da cabine vi as duas assumindo os lugares diante do altar do espelho, prontas para a autoadoração.

– E aí? Como vão as coisas entre você e a Quinn Luxuriante? – perguntou Lisa, remexendo a bolsa e pegando um brilho labial. Passou uma camada gosmenta na boca. – E quem deixou a garota com aquele olho roxo?

– Ela não quer dizer. – Kitty deu de ombros, escovando o cabelo. – Você conhece a Quinn. É cheia de segredos. Mas desde que isso aconteceu ela ficou, tipo, totalmente doida.

Lisa passou um pouco de blush cremoso nas bochechas.

– Doida boa ou doida ruim?

– Doida por mim – reclamou Kitty, revirando os olhos. – Tipo, não me deixa sozinha. Quer me dar uns amassos o tempo todo. E é uma coisa intensa demais.

Lisa virou a cabeça para um lado e para o outro, verificando se havia alguma mancha nas bochechas.

– Adolescentes. São tão cheios de tesão!

– É, mas isso é, tipo, supertesão. Nunca fica satisfeita. A gente vai para o apartamento dela atrás da casa dos Berry e ela praticamente me arrasta para cama.

Ela está transando com a Kitty.

Meus dentes doíam, tanto, que por um segundo achei que minhas presas iriam rasgar minhas gengivas e tive que segurar um grito, apertando minha boca com a mão e dobrando-me de dor. E a sede... eu precisava de sangue, desesperadamente... Quinn está transando com Kitty Wilde atrás da minha casa. Minha noiva está me traindo, traindo sua princesa...

– Mas eu vivo dizendo a ela – continuou Kitty, sem perceber meu tormento silencioso na cabine do canto – que não vou jogar fora todo o meu futuro por causa de sexo, pelo menos até minha mãe deixar que eu tome minhas próprias decisões sérias. Cara, eu não vou estragar minha vida antes de ir para Stanford.

Então não é sexo. Não vai até o fim. Tentei aplacar o ciúme e a fúria. Mas meus dentes continuavam a pulsar de dor ao pensar em Quinn no cobertor de veludo com Kitty. Encostei a mão na parede fria do azulejo, abalada e sofrendo, e tentei me acalmar.

– É – concordou Lisa. – Por que ela não se contenta com uma... – Ela pôs a mão em concha no ouvido de Kitty e sussurrou algo que não pude ouvir. Mas deu pra adivinhar pelos risinhos.

– Pois é – disse Kitty, rindo – Tipo, é quase a mesma coisa que ir até o fim. E a Quinn faz uma coisa que é praticamente melhor do que... – Ela parou, como se percebesse que tinha revelado demais.

Que coisa? QUE COISA?

– Ei, não me mata de curiosidade! – exclamou Lisa, sacudindo o braço da amiga. – O que ela faz?

– É só... – Kitty hesitou mais um segundo, depois não conseguiu se conter. Virou-se para Lisa. – Uma coisa com a boca. No meu pescoço.

Meu coração não apenas parou. Foi como se uma mão gigantesca tivesse apertado meu coração, tentando arrancá-lo. Não, Quinn. Não faça isso. Não nos traia mais do que já fez. E não se arrisque a mais punições violando o pacto de maneira irreparável. Ainda não. Preciso de tempo para consertar as coisas.

– O quê? – perguntou Lisa. – Tipo, um chupão? Isso é tão ensino fundamental! Quem liga para chupão?

– Não. – Kitty balançou a cabeça, virando-se de volta para o seu reflexo. Ficou um pouco pensativa, observando os próprios olhos. – Não é um chupão. É... ai, não dá pra descrever. Mas é incrível. Tipo, perigoso ou sei lá o quê. Como se a gente estivesse fazendo uma coisa muito sinistra. – Enfiando a mão na bolsa, ela pegou um elástico de cabelo e prendeu a cascata loira num rabo de cavalo alto. – Tipo, eu gosto, mas sei que não deveria.

– Hum, queria que Quinn ensinasse isso ao meu namorado. Allan não faz nada de especial.

– Não sei se é uma coisa que dá pra ensinar. É só uma coisa que a Q faz.

Lisa apontou para o pescoço da amiga, franzindo a testa.

– Bom, seja o que for, deixou uns arranhões. Quer um pouco de maquiagem para cobrir?

Kitty se virou para olhar a lateral do pescoço, perto do ouvido. Passou os dedos pelas marcas vermelhas e finas, sorrindo ao lembrar de algo.

– Ah, Lisa. Se pudesse sentir como é...

– Você tem tanta sorte de ter alguém da Europa... – Lisa fez beicinho.

Quando elas saíram, caí de lado e bati na parede da cabine, ofegante, esperando que as dores e o apetite diminuíssem. Esperando que meu lado vampiro, tão desesperado por emergir completamente, se acalmasse e se escondesse de novo.

Quinn o que você está fazendo?

– Ela vai morder Kitty Wilde – contei para Dorin.

– Não, não, não – discordou ele e polvilhou canela em seu cappuccino. – De jeito nenhum. Não acho que nossa garota vá fazer isso.

– Dorin, eu vi a namorada dela, Kitty, no banheiro da escola. Ela disse que Quinn está fazendo coisas estranhas no pescoço dela. E ela estava com arranhões.

Dorin pousou a xícara, com os olhos enrugados se nublando.

– Arranhões grandes?

– Nãos ei. Não estava perto o suficiente pra ver. Isso importa?

– Na verdade, não, eu acho. Desde que ela não afunde os dentes lá, não é? – Dorin dobrou os dedos como duas presas e os cravou no ar. – Esse tipo de coisa seria má notícia.

– Para Quinn ou para Kitty?

– Para a garota é difícil saber. Bem, se Quinn não sugar essa tal de Kitty até ela ficar seca, se não mata-la no ato, bom, então ela seria uma morta-viva. E isso é algo que algumas garotas realmente lamentam quando fazem por impulso. Não é uma coisa que deva ser apressada. Além disso, as garotas que não têm linhagem de vampiro, são as que ficam malignas depois de uns 100 anos. Não gostam de beber sangue. Não conseguem abraçar o estilo de vida. Preferiam ter se casado com humanos e formado uma família normal. Vivem reclamando, arrumando encrenca. A gente passa só uns minutos perto delas e dá vontade de cravar uma estaca no coração. Quinn poderia se arrepender muito, depois de alguns milênios, caso cedesse a um momento de paixão.

– Está dizendo que elas se casariam se ela a mordesse?

Odiei a inveja, o pecado de proporções bíblicas que me consumia. Senti uma pontada nas gengivas e cocei o queixo.

– Dói, não é? – perguntou Dorin.

Esfreguei com mais força.

– É tão óbvio assim?

– Só pra quem conhece os sinais. Mas, confie em mim, é uma coisa boa. Se suas presas não doessem. Aí a jovem vampira deveria se preocupar.

– Eu sei. Li o livro.

– Quinn lhe deu um exemplar de Crescendo como morto-vivo? – Dorin riu. – É um clássico!

– É, ajudou muito – concordei. – Mas quanto a Quinn e Kitty...

– Ah, sim. Se Quinn fizesse a coisa honrada, como se espera dela, as duas se casariam. Não se pode simplesmente morder uma virgem que não suspeita de nada e se safar. Isso não se faz.

A dor voltou rugindo e minhas gengivas latejaram.

– Não acredito que Quinn iria se ligar a ela por toda a eternidade.

Dorin balançou a cabeça, evitando meu olhar e jogando mais canela em sua xícara.

– Não, ela não faria isso.

– Mas você acabou de dizer que ela faria a coisa honrada...

– Honra coisa nenhuma. Se Quinn violar o pacto, não importará quem ela morda. Basile não admitirá insubordinação. A razão pela qual os vampiros sobreviveram esse tempo todo é a justiça implacável. Algo como violar o tratado entre clãs seria motivo para destruição imediata.

O ciúme foi banido pelo medo.

– O quê?

– Destruição. Com D maiúsculo.

Eu sabia que eles iriam castiga-la duramente. Até mesmo Quinn tinha medo do que eles fariam. Mas eu nunca havia pensado que fossem destruí-la.

– Mas ela é a princesa herdeira...

– E as princesas são dispensáveis. Ainda não são rainhas.

Minha voz pareceu presa na garganta.

– Quanto tempo Basile vai dar pra ela obedeça?

– Ele já está por um fio – admitiu Dorin. – Basile está decidido a fazer Quinn obedecer, mas não vai esperar para sempre. – Meu tio fez uma mímica de cravar no peito algo que supus que seria uma estaca, em seguida fingiu acender um fósforo. – E depois... Puf!

De repente o ar quente da cafeteria ficou úmido e gelado.

– É assim mesmo que acontece? Com uma estaca?

– É o jeito mais seguro. – Dorin confirmou a afirmativa anterior de Quinn. – Comprovado pelo tempo.

Visualizei Basile enfiando uma estaca no coração de Quinn, de baixo para cima, logo abaixo das costelas tantas vezes quebradas. Foi quase como se sentisse a madeira afiada rasgar minha carne. Cheguei a apertar o peito. Será que ocorrera o mesmo com os meus pais, em seus momentos derradeiros?

– O que vai acontecer com Quinn depois? – perguntei, tentando livrar meu cérebro daquelas imagens horríveis.

– Como assim?

– Tipo... com a alma dela.

– Ah, isso. A alma dela pertence ao clã. Não é a noção típica do céu e inferno a que os humanos estão acostumados. A alma de um vampiro é diferente. O clã dá e o clã tira. Bom, às vezes turbas furiosas é que tiram. – Dorin deu de ombros.

A ideia de um universo sem Quinn era insuportável demais. Mas eu me sentia impotente.

– Ela continua se recusando a honrar o pacto, mesmo eu tendo dito que a amava. Que quero me casar com ela.

Dorin se animou.

– Você a ama de verdade, não é? Pode admitir pra mim.

– Amo – respondi.

– Então não deixe que ela morda Kitty Wilde, nem que isso signifique ficar grudada nela 24 horas por dia – aconselhou Dorin, tomando um gole de sua bebida. – Porque no segundo em que ela morder, o relógio marcará a meia-noite para Quinn Fabray. Isso eu garanto.

Quinn destruída. Um universo sem ela. Eu não conseguia imaginar. E ao mesmo tempo não tinha ideia de como impedir a catástrofe.

Durante toda aquela noite me revirei na cama ao me lembrar de como me senti quando pensei que Quinn tinha morrido. Aquele vento frio rasgando meu peito oco, me abrindo como uma estaca.

Se ela não honrasse o pacto, isso não iria destruir somente a ela. Iria destruir a mim também.

– Ah, droga – murmurei, olhando pela janela enquanto Quinn e Kitty se esgueiravam pelo quintal sob o disfarce da escuridão, indo para o antigo apartamento dela. Eu odiava espioná-la, mas não sabia mais o que fazer. Por isso esperei uns minutos e fui atrás das duas.

– E aí, gente? – falei, entrando sem bater. – O que vocês estão fazendo?

Como se eu não soubesse.

Kitty praticamente pulou para longe de Quinn, alisando o cabelo e puxando a camiseta desalinhada.

– Meu Deus, Jenn. Você não sabe bater? Algumas pessoas têm vida sexual.

Quinn não fez qualquer esforço para se recompor. Apenas ficou sentada na cama, com os braços em volta da cintura de Kitty, acariciando seu quadril.

– O que você quer, Rach?

A voz dela estava baixa, ameaçadora.

– Talvez ela queira as panelas – disse Kitty, com um risinho afetado. – Você sabe, pra cuidar do cabelo.

– Não sinto mais cheiro da lebre – contra-ataquei. – O fedor de água oxigenada está forte demais. É melhor você pegar leve no clareamento Kitty, ou vai acabar careca.

– Poderia ser pior. – Ela fungou, olhando para minha cabeça. – Melhor careca do que cozinhar o cabelo.

– Melhor ter cabelo natural do que ser uma vaca.

Acho que ninguém havia falado assim com Kitty Wilde. Eu mal podia acreditar que fizera isso. Mas ela que se danasse – a sensação era boa.

Kitty ficou sentada num silêncio atordoado, abraçada a Quinn, de olhos arregalados. Depois se afastou, cutucando o peito dela com o dedo.

– Você ouviu o que ela disse, Q? vai deixar que ela me chame de vaca?

Quinn riu, amarga, e a puxou para perto.

– Ah, Kitty. Aceite o elogio.

Ela a empurrou um pouco.

– Presta atenção, Q.

Quinn ignorou o aviso, dirigindo-se a mim.

– Vou repetir: o que você quer Rachel?

– Preciso de ajuda com a Bela no estábulo – menti. – Acho que ela está mancando um pouco, mas quero sua opinião. Você conhece cavalos melhor do que eu.

– Chame um veterinário – disse Quinn. – Não sou tratadora de cavalos.

– Qual é Quinn – insisti. – Só vai levar um minuto. – Qualquer coisa para afastar você da Kitty.

– São quase 10 da noite – observou ela. – A égua vai sobreviver até amanhã. E nós estamos bem ocupadas aqui. – Seu rosto estava obscurecido pela penumbra do quarto, mas pensei ter vislumbrado as presas.

– Quinn, seja razoável – instiguei, abandonando a história sobre Bela.

– Estou de saco cheio desse papo furado – disse Kitty, soltando-se do abraço de Quinn. – Até mais Q.

– Não vá embora – reagiu Quinn, puxando-a de volta.

Mas Kitty soltou o pulso.

– Está ficando tarde mesmo, Quinn. Meus pais vão me matar se eu chegar tarde de novo. – Ela pegou a bolsa vermelha de couro no chão e deu um beijo rápido na boca de Quinn. – Tchau.

Enquanto ela passava por mim batendo o pé, agarrei-a pelo braço.

– E meu nome é Rachel, por sinal. da próxima vez, trate de lembrar.

Ela se soltou da minha mão com um risinho de desprezo.

– Ah, eu vou lembrar. E você vai se arrepender.

Kitty deixou a porta aberta e eu a bati com força enquanto ela descia a escada.

– O que você vê nela? – perguntei a Quinn. Minha voz estava petulante, raivosa demais, mas eu não conseguia me controlar. – Ela é a pessoa mais perversa que já conheci.

– Você conhece coisa pior Rachel. Confie em mim. – Quinn se levantou, cruzando os braços. – Por que está aqui, de verdade?

– Para salvar você, sua idiota. Você vai morder a Kitty! Está totalmente descontrolada.

Quinn gemeu. Um gemido que quase virou um rosnado. Ela fechou os punhos e os esfregou na testa.

– Rachel, não se meta nisso.

– Mesmo que não se importe comigo, consigo mesma ou com o pacto, já pensou no que vai acontecer a Kitty se vocês duas passarem do ponto? Está brincando com a alma dela também. Eu posso odiá-la, mas o que você está fazendo não é certo.

O rosto de Quinn se contorceu numa careta.

– A alma de Kitty... Essa já está bem mais corrompida do que possa imaginar. Não se preocupe com a garota. Ela mente, trai, rouba e provavelmente mataria para ter o que quer. Eu vi a alma da Kitty por dentro e sei que é tão escura quanto a minha. Por isso nos damos tão bem. Somos iguais.

Mas não eram iguais, eu sabia disso.

– Você não pode basear sua vida num romance.

– Que conversa é essa?

– Ela não é Catherine e você não é Heathcliff. As duas não precisam destruir uma a outra.

– Aquilo foi uma mera encenação. Uma diversão de escola.

– Você não acha que é uma diversão. Eu te conheço Quinn.

– Não conhece!

As vigas praticamente tremeram quando Quinn levantou a voz, pela primeira vez. O som era assustador. Mas eu não iria recuar.

– Conheço. Você é uma vampira honrada. É da realeza. E Kitty não é do seu nível. Ela nem é vampira.

– Ah, mas você também não é. – Ela chegou mais perto e segurou um punhado dos meus cabelos. – Você mudou o cabelo e as roupas, leu o guia, mas não sabe nada sobre ser um vampiro. Viu meus dois tios. Está preparada para aquele mundo?

– Eu nasci pra governar aquele mundo, você sabe! Você me ensinou isso!

Mas Quinn riu de mim, soltando meu cabelo.

– É mesmo? Você mal consegue pronunciar as palavras, quanto mais assumir um trono.

– Você só está magoada Quinn – argumentei. – Não jogue fora sua... – vida? Morte-vida? – existência por causa de uma briga com o seu tio.

– Saia.

Ela mostrou os dentes como um animal, ofegando, e vi suas presas.

Mas eu não estava com medo. Meus próprios dentes doíam. E minha garganta estava seca.

– Não.

– Não me teste – rosnou Quinn, agarrando meus ombros. – Você não faz ideia do que sou capaz. Não viu o que fizeram comigo? O sangue deles está em mim.

– Você não vai me machucar.

Eu me soltei, examinando o quarto com os olhos, procurando alguma coisa. Como eu poderia provar que era a pessoa certa não somente para salvá-la, mas pra selar nosso destino? E então eu vi. O copo em sua cabeceira. O copo de Morango Julius que deveria conter um líquido vermelho e morno. Corri para lá, sabendo que ela era mais rápida do que eu. Mas eu tinha o elemento surpresa ao meu lado e peguei o copo arranquei a tampa – meio enojada, meio louca de desejo.

– Rachel, não – gritou Quinn, se lançando sobre mim.

Pulei de lado e virei o copo, derramando na boca o sangue grosso, um pouco coagulado. O líquido deslizou pela língua, desceu pela garganta e eu entornei tão depressa que encharcou meu queixo, meu pescoço e escorreu pela blusa. Era pegajoso, salgado e doce, e tinha gosto de vida à beira da morte. Bebi tudo, dominada pelo gosto, pelo cheiro pungente, agora dentro de mim, me preenchendo, me satisfazendo.

Quinn ficou hipnotizada enquanto eu terminava, passando a mão na boca. Não falou nada quando empurrei o copo contra o peito dela, obrigando-a a aceita-lo.

– Pronto – resmunguei, me sentindo mais poderosa do que nunca. Poderosa, saciada e meio enjoada. – Nunca mais diga que eu não estou pronta para governar.

Mesmo assim Quinn não disse uma palavra. Só ficou imóvel e rígida como um cadáver, segurando o copo contra o peito. Passei por ela, desci a escada e saí antes que começasse a tremer. Parei no pequeno círculo de luz na entrada da garagem, deixando que o vento frio me acalmasse. Minha blusa estava encharcada, mas o sangue, no ar gelado do inverno, já começava a congelar, endurecendo para formar um gelo escarlate. Limpei o queixo outra vez com o braço pegajoso. Queria vomitar – e beber de novo. Por isso simplesmente esperei um pouco. E se meus pais me vissem coberta de sangue?

Olhei pra casa. E foi então que vi Kitty Wilde parada a menos de dois metros de mim, me olhando.

– Eu estava voltando... Eu... eu esqueci o celular – gaguejou ela, apertando a bolsa vermelha contra o peito. Ficamos parecendo imagens espelhadas, só que o tronco dela estava coberto de couro vermelho, e o meu, de sangue. Os olhos dela estavam arregalados. – Que... que diabos aconteceu com você?

Comecei a dizer algumas coisas, mas não consegui pensar em nenhuma mentira. Como se uma mentira pudesse explicar por que meu rosto, meu pescoço e meu peito estavam cobertos de sangue.

Pouco importava. Kitty deu as costas e correu até seu carro. Eu ainda estava ali, parada, tremendo de frio e emoção, quando o som dos pneus cantando desapareceu na noite.

Eu sabia que havia feito algo que jamais poderia desfazer. Tinha alterado não somente a mim mesma, mas também a meu futuro. Algo fora posto em movimento no instante em que virei aquele copo e eu estava ciente de que, de agora em diante, Quinn e eu não precisávamos temer apenas Anciões velhos e furiosos. Eu derramara sangue na rede de boatos de uma escola americana – a única coisa que talvez fosse mais perigosa do que legiões de vampiros em guerra sedentos de poder.

Notas finais
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