Notas iniciais
Boa noite gente. Bom, peço mais uma vez desculpas se não estou agradando a todos os leitores, mas estou tentando ao máximo fazê-lo. Eu quis compartilhar essa fic com vocês porque achei muito parecida com a tensão que as personagens também nos passam em glee. Temos muitos momentos faberry na fic. Tenho consciência de que não são os MOMENTOS que alguns tanto querem. Mas como já falei uma vez aqui, eu vou seguir o "roteiro" da história.

Demorou menos de uma semana para o inferno se abrir, depois que a carta de Quinn chegou à região rural perto de Sighisoara, na Romênia.

Enquanto isso, Quinn sugava tudo o que podia da típica vida de adolescente americana como se ela fosse uma veia farta. Jogava durante horas e horas, matava aula e até deu uma festa em seu apartamento na garagem, que terminou com uma batida da polícia e uma ameaça por parte dos meus pais de deportá-la no próximo voo para Bucareste. Kitty estava o tempo todo ao seu lado, como se elas tivessem sido grudadas com cola.

E então, Quinn, mamãe, papai e eu fomos convocados para um encontro com os Anciões, que aconteceria no condado de Lebanon. Eles se dignaram a marcar uma reunião aqui, tão séria era essa crise. Não havia escolha a não ser comparecer.

- Não acredito que eles vão se reunir numa churrascaria – reclamou mamãe, entrando com relutância na Bife do Oeste, na véspera de ano novo, na hora marcada. – É como um tapa na cara. Eles sabem que somos vegetarianos.

- É um jogo de poder – concordou papai.

-Por favor, apenas cooperem – implorei. Eu sentia que as coisas iam ficar feias o bastante sem que papai e mamãe tivessem de se preocupar com a comida. – Aqui servem saladas.

- Cheias de agrotóxicos – fungou meu pai. – De conservantes.

Às vezes papai assumia uma perspectiva muito limitada.

- Nós viemos para uma reunião – disse mamãe à recepcionista.

- Como um bando de... homens mais velhos – acrescentei. – Eles disseram que reservaram uma sala.

Um medo tão cru quanto a carne que havia nos freezers atravessou o rosto da recepcionista, mas ela conseguiu dar um sorriso enquanto localizava três cardápios.

- Aqui, por favor.

- Ai, merda – não consegui deixar de dizer enquanto entrávamos na sala.

Mamãe apertou minha mão.

- Está tudo bem, Rachel.

Mas não parecia nem um pouco bem.

No meio de uma sala forrada em lambri e enfeitada alegremente com recortes de papelão de Papai Noel com duendes e renas de narizes brilhantes, 13 dos velhos mais tenebrosos que eu já vira estavam encurvados ao redor de uma mesa circular, golpeando uma enorme bandeja cheia de carne sangrenta, muitíssimo malpassada. Eles jogavam pedaços de carne vermelha nos pratos e não comiam. Apenas... chupavam. O sumo. O sangue que escorria. Ainda que o aquecimento estivesse ligado no restaurante, o ar era frio com a presença deles. E o cheiro de sangue fazia minhas narinas pinicarem, penetrava nos poros e me fazia cócegas no estômago.

Meus pais apertaram a barriga e meu pai começou a ter ânsias de vômito.

O vampiro mais velho e mais assustador levantou com relutância o olhar de seu festim. Indicou três cadeiras vazias.

- Por favor, sentem-se. E desculpem-nos por termos começado sem vocês. Estávamos famintos por conta da viagem.

Basile. Tinha que ser o tio de Quinn, Basile. Havia uma semelhança muito vaga nas feições deles e a mesma pose de poder contido. Mas o velho vampiro Fabray não tinha o charme, a graça e o maravilhoso brilho de malícia que havia nos olhos de Quinn. Basile parecia mais uma versão atormentada e deformada da sobrinha. Enquanto o poder de Quinn era bonito de se testemunhar, temperado com humor e até mesmo alegria, o de Basile era amargo e repugnante. Fiquei angustiada ao pensar em Quinn – na maravilhosa e divertida Quinn – sob o jugo daquele homem, sentindo seu punho...

- Sentem-se – ordenou Basile de novo.

Até mesmo a arrogância, que havia se tornado um dos traços mais cativantes de Quinn, se assentava de modo totalmente errado nos ombros encurvados do tio.

Obedecemos e nos sentamos. A recepcionista nos entregou os cardápios, lançando-nos um olhar piedoso, como se fôssemos reféns.

- Vocês vão querer...? – Ela fez um gesto para a pilha de carne, sem certeza do que falar. – Ou devo chamar uma garçonete?

- Só três saladas do bufê – disse mamãe por nós três, devolvendo o cardápio. Dava pra ver que ela estava lutando para manter a compostura diante da carnificina.

Olhei ao redor da mesa.

Havia uma cadeira vazia. Imaginei se Quinn iria aparecer. E então a porta se abriu e ela entrou. Eu até esperava que ela estivesse com as roupas antigas – o sobretudo de veludo e a calça preta -, mas ela usava calça jeans e seu casaco de moletom da Grantley. Senti que estava demarcando seu território logo no inicio. Um desafio. E, apesar disso, circulou ao redor da mesa apertando as mãos de cada um dos parentes.

- Tio Basile, tio Teodor.

Cada vampiro interrompeu o consumo de sangue apenas o suficiente para apertar a mão dela antes de voltar ao festim. Quinn se sentou, piscando para nós. Dava para ver que ela estava nervosa.

- Ela está com medo deles – sussurrou mamãe no meu ouvido.

- Eu também – confessei. – Você reconhece algum, da Romênia?

Mamãe assentiu ligeiramente.

- Acho que me lembro de um ou dois, mas foi há muito tempo.

- Comam – instigou Basile, apontando o garfo para nós. – Depois, falaremos.

Meus pais foram para o bufê de saladas e eu fui atrás, mas não sem olhar por cima do ombro para aqueles pedaços de carne, com desejo. O odor do sangue... era inebriante demais. Apesar de meus temores por Quinn e por todos nós, aquele cheiro me atraía. Fiquei culpada por me sentir assim naquele momento tão pavoroso.

Quando retornamos ficou bastante óbvio que havíamos interrompido uma discussão intensa, ainda que em voz baixa. A bandeja estava cheia de pedaços de carne que foram sugados até ficarem secos e os pratos individuais haviam sido empurrados para frente. Todas as cabeças estavam viradas para Quinn, sentada imóvel. Os olhos deles se voltaram rapidamente para nós.

- Os Barry precisam estar aqui?

Ficamos de pé, segurando os pratos de salada, à espera do veredicto. Eu não sabia o que teríamos feito se Basile dissesse para irmos embora.

- Sim – respondeu ele. – Eles devem ficar.

Pusemos nossos pratos na mesa e o som ecoou na sala subitamente silenciosa. Em seguida puxamos as cadeiras e nos sentamos.

- Comam – ordenou Basile, de novo.

Até o molho da salada parecia grudar na minha garganta, por isso dei algumas mordidas, só pra constar, e empurrei o prato.

O vampiro à minha direita se inclinou para mim. Não mais encurvado sobre o pedaço de carne sangrenta, ele passaria por um empresário qualquer que tivesse saído para jantar. Só que havia algo diferente nele. Algo ameaçador nos olhos. Então esses são os Anciões...

- Não está com fome? – perguntou ele com um sotaque forte.

- Não – respondi, obrigando-me a encarar seus olhos pretos. Não iria me encolher nem demonstrar medo. É esse o meu povo? A minha espécie?

- Eles terminaram – anunciou Basile, levantando-se depois que meus pais também haviam empurrado os pratos. – Farei as apresentações.

O velho rodeou a mesa citando os nomes, mas não gravei nenhum. Estava ocupada demais observando Quinn. Ela parecia uma condenada que esperava a cadeira elétrica na companhia dos carrascos e não quis me encarar.

Basile se sentou, dobrando o corpo comprido na cadeira como se fosse uma espécie de acordeão humano. Juntou as mãos à sua frente, unindo os dedos esqueléticos e nodosos.

- O que vamos fazer com essas duas jovens?

- Com as duas jovens, não – interrompeu Quinn. – Só comigo. Isso diz respeito apenas a mim.

- Silencio – sibilou Basile.

- Claro, senhor – cedeu Quinn.

Basile olhou para os meus pais.

- Vocês sabem que Quinn decidiu, com uma espécie de ataque de independência – ele cuspiu a palavra -, que não cumprirá mais o pacto.

Todos assentimos.

- Quinn nos contou – disse papai. – E nós apoiamos sua escolha. Além disso, ela está convidada a ficar conosco pelo tempo que desejar.

- Vocês “apoiam sua escolha”? – trovejou Basile, incrédulo. – Vocês apoiam a insubordinação dela?

- Olha, Basile – começou meu pai. Sua voz falhou e havia um pedaço de espinafre preso em seus dentes, mas mesmo assim denti orgulho dele. – Elas não passam de umas pirralhas.

- Não conheço esse termo – disse Basile.

- Pirralhos. Jovens. Adolescentes. Por que não deixa-los à vontade...

Basile bateu na mesa e alguns pedaços de carne ressecada caíram da pilha.

- Deixa-los à vontade?

Mamãe pôs a mão no meu braço.

- É – acrescentou ela, corajosamente. – Se Quinn decidiu que quer romper o pacto... Bem, aquilo foi feito há muito tempo e ela agora é uma garota. Vocês devem entender que seria ridículo esperar que essas duas adolescentes se apaixonassem e se casassem só por causa de um decreto.

Olhei para Quinn, seus olhos estavam fixos em Basile.

- Se apaixonassem? – rosnou Basile. – Quem disse algo sobre amor? Isso tem a ver com poder.

- Tem a ver com adolescentes – contradisse meu pai. – Quinn está namorando outra moça e Rach está se preparando para a faculdade...

Sem dúvida, meu pai falara o que não devia. Ao ouvir a expressão “namorando outra moça”, Basile saltou da cadeira e girou para quinn feito um chicote estalando. Quinn se encolheu, como se tivesse sido golpeada no rosto.

- Cortejando? – rugiu Basile. – Fora do pacto?

- É a minha escolha – disse Quinn calmamente, usando sua nova palavra predileta. – Rachel estava receptiva ao pacto, mas escolhi outra coisa.

Apesar de saber que ela estava me protegendo, as palavras doeram. E mesmo nesse instante Quinn não olhou pra mim.

Seguindo a deixa silenciosa que ignorei por completo, quatro vampiros idosos se levantaram e de repente Quinn estava de pé, sendo levada para longe. Um dos vampiros mais velhos havia passado o braço pelos ombros dela, mas eu sabia que Quinn não iria receber um sermão gentil de um tio bem-intencionado.

- Aonde vocês vão leva-la? – indagou mamãe.

- Está tudo bem, Dr. Corcoran — garantiu Quinn. Em seguida afastou o braço do parente que a segurava, como se preferisse receber sua punição com dignidade. – Por favor, não se envolvam em um assunto de família.

- Quinn, espera – gritei, me levantando.

Ela se virou pra mim, só por um segundo.

- Não, Rachel.

Um calombo enorme ficou preso na minha garganta enquanto eles a agarravam e a empurravam na direção da porta. Quatro contra uma. Covardes.

Tentei segui-la, mas mamãe me puxou de volta.

- Acho que não, Rachel. Agora, não.

- Sente-se, por favor – acrescentou Basile, com a voz cortês. – Mesmo que você fosse atrás... Bom, não poderia encontra-la. Ela está perfeitamente segura com a família.

- Acho que deveríamos ir embora – disse papai, ficando de pé. Mamãe e eu começamos a acompanha-lo.

- Isso ainda não terminou – alertou Basile, apontando um dedo esquelético para nós três. – Quinn vai voltar com o pensamento diferente. E vocês não vão recuar diante de sua promessa.

Mamãe se eriçou.

- Minha filha não vai fazer nada contra a vontade.

- A vontade dela é se casar com a Quinn. Está destinada a ela. Ela sabe. Para usar sua expressão, ela a ama.

Papai me olhou.

- Do que ele está falando Rachel?

- Não sei – gaguejei.

- Eu vi seu olhar quando Quinn foi levada – Basile gargalhou. – Ser criada entre humanos a deixou transparente demais.

- Estamos indo – concluiu papai agarrando meu braço.

- Boa noite, por enquanto – disse Basile, me fazendo uma ligeira reverência.

Enquanto passávamos, rodeando a mesa, pelo clã de vampiros senti algo sendo posto na palma da minha mão. O movimento foi tão rápido que pareceu um truque de mágica. De algum modo tive o bom senso de não gritar. Olhando para trás, captei o olhar de um vampiro que não havia notado antes. Era um pouco mais gordo do que os outros e um pouco mais baixo, e sua pele era rosada. Os olhos tinham uma leve sugestão de diversão e, quando o encarei, ele pôs um dedo nos lábios, sinalizando que agora compartilhávamos um segredo, e piscou pra mim.

Segurei o pedaço de papel até chegar ao meu quarto e o abri com os dedos desajeitados de impaciência. Era um bilhete:

Não fique tão apavorada por enquanto. Nem tudo está perdido. Você parece uma boa garota. Basile é despótico. Sempre cheio de si. Encontre-se comigo amanhã naquele belo parque que tem um riacho. Que tal por volta das 10? Estarei no coreto. E vamos manter isso entre nó, Hein?

Dorin.

***

Mamãe entrou no meu quarto por volta da meia-noite e falou:

- A luz do quarto dela ainda não se acendeu.

- Você também está vigiando?

Eu estava olhando pela janela em direção à garagem.

- Claro.

Afastei o olhar só por um momento.

- Acha que ela vai ficar bem?

- Sinceramente, não sei.

- Você sabia que eles batem nela?

Mamãe puxou mais ainda a cortina, juntando-se à minha vigília.

- Não tinha certeza, mas suspeitava.

- Quinn disse que batiam nela repetidamente.

Quando pronunciei essas palavras em voz alta, meu medo já intenso beirou o pânico.

- Eu lhe contei que os Fabray tem a reputação de serem implacáveis e que Quinn foi criada para ser a princesa deles – disse mamãe, soltando a cortina. – Não fico surpresa em saber que ela não teve uma infância feliz. – Ela se sentou ao meu lado na cama e beijou a minha testa, como fazia quando eu era criança e tinha medo de trovões. – Mas Quinn é forte – lembrou ela. – Tente não deixar que seu medo a domine.

Mas dava pra ver que ela tirava conclusões precipitadas. Como eu.

- E se ela não voltar?

- Ela vai voltar. – Ela hesitou. – Rach, você a ama, de verdade?

Fui poupada de responder quando uma luz se acendeu no apartamento de cima da garagem. O ar saiu dos meus pulmões num jorro e senti como se tivesse perdendo a respiração havia horas. Não esperei mamãe. Simplesmente sai correndo do quarto, com os pés descalços voando pelo quintal gelado. Não me importei com o frio.

Encontrei Quinn no banheiro apertado da garagem. Estava só de regata, curvada sobre a pia, lavando o rosto. Ela me ouviu entrar, mas não se virou.

- Vá embora.

- Quinn, o que aconteceu?

Ela continuou curvada.

- Deixe-me em paz.

Cheguei mais perto.

- Não. Vira pra mim.

- Não.

Passos soaram na escada e mamãe apareceu atrás de mim. Deu um tapinha no meu braço e depois se aproximou de Quinn do mesmo modo quieto e não ameaçador como eu tinha feito com Fera naquele dia terrível.

- Quinn – disse ela com voz tranquilizadora, pondo a mão nas costas dela. Reconheci aquele gesto de quando eu era criança e passava mal, vomitando. Os músculos de Quinn estremeceram.

Percebi que talvez, apenas talvez, ela estivesse chorando. Ou tentando não chorar. Com muita força.

Mamãe se curvou perto de Quinn, puxando seu cabelo para trás. Em seguida se empertigou e se dirigiu a mim:

- Rach, vá pegar o kit de primeiros socorros, embaixo da pia da cozinha.

- Mamãe, ela está bem?

- Vá, Rach – disse ela com calma.

Eu não queria ir, queria ficar com Quinn.

- Agora – insistiu ela.

- Tô indo.

Parei junto a porta, olhando para trás, e vi que minha mãe havia puxado Quinn para si, envolvendo-a com os braços. Ela tremia. Minha mãe acariciava seu cabelo, falando com ela baixinho. Era por isso que minha mãe tinha me mandado sair. Sabia que Quinn não queria que eu a visse desmoronar, talvez sob a pressão do primeiro toque maternal que sentira na vida. Fechando a porta em silêncio, a obedeci e fui correndo para casa.

Voltei com o kit de primeiros socorros, seguida por meu pai grogue, ainda lutando para amarrar o roupão na cintura.

A essa altura, Quinn já estava deitada na cama, com minha mãe sentada ao seu lado. Ela acendeu o abajur da mas de cabeceira enquanto eu lhe entregava o kit. Quinn virou o rosto para a parede, mas pude ver que ela fora muito machucada. Seu lábio estava cortado e hematomas escuros se formavam sob os olhos e na bochecha.

- Vou pegar uma toalha molhada – ofereceu papai, querendo ser útil.

- Estou bem – insistiu Quinn. Mas se encolheu quando mamãe passou álcool em sua boca.

- Você não está bem – disse mamãe.

- Não é o meu melhor ano, hein? – zombou Quinn, amarga. – Pelo menos a égua não sabia o que estava fazendo.

Papai se sentou também ao pé da cama. Segurava distraidamente a toalha molhada como se não soubesse o que fazer com ela, agora que havia trazido.

- Quinn, o que aconteceu?

Quinn não respondeu.

- Quinn – instigou papai de novo. – Conte pra gente.

- Rachel deveria ir dormir – disse Quinn, o rosto ainda virado para a parede. – Está tarde.

- Quero ficar.

- Você é uma criança – disse Quinn, sua voz estava rouca. Distante. – Não precisa tomar parte em nada disso.

Meus pais se entreolharam e eu percebi que, naquele momento, eles julgariam se eu ainda era mesmo uma criança.

- Rach pode ficar se quiser – disse papai. – Isso a afeta também.

- Eu vou embora pela manhã – prometeu Quinn. – Não vou mais afetar nenhum de vocês.

- Você não vai a lugar nenhum – disse mamãe, pegando a toalha molhada com o papai e limpando um pouco de sangue no rosto de Quinn. Em seguida, virou o rosto dela com delicadeza em sua direção e eu vi o estrago por inteiro pela primeira vez. Ainda que o quarto estivesse na penumbra, pude notar que, comparado com os “tios”, a égua tinha pegado leve. Meu estômago doeu de raiva e tristeza.

- Isso é entre mim e minha família – disse Quinn. Em seguida ergueu o tronco um pouco. Ainda não tinha olhado pra mim. – Vou pra casa enfrentar a situação.

Todos sabíamos o que isso significava. Mais dor. Mais cicatrizes.

- Aqui é a sua casa agora – afirmou papai, com a voz firme. – Você vai ficar.

Enquanto papai fazia o convite e eu observava mamãe cuidar dos ferimentos de Quinn, vi, finalmente, as pessoas que haviam levado uma criança da Romênia, salvando a vida dela. De repente me ocorreu que, sem dúvida, eles arriscaram a vida por mim. Pareceu estranho e egoísta que eu nunca tivesse percebido isso antes. Eles sempre haviam desconsiderado os próprios riscos.

- Casa. – Quinn cuspiu a palavra com desprezo.

- É. Casa – disse mamãe.

- Isso mesmo – acrescentou papai, pondo a mão no braço de Quinn. – Você ficou na garagem por tempo demais. Nunca percebi como aqui é frio. Esta noite vai se mudar para a casa. Permanentemente. Vamos arranjar espaço.

- Não posso me impor mais do que já fiz – respondeu Quinn, falando com papai. – E vocês não precisam temer por minha causa. Os Anciões não planejam ficar. Confiem em mim. Eles têm certeza de que a mensagem foi entendida. Que vou obedecer.

- Mesmo assim, quero que se mude para a casa – disse papai não admitindo a recusa de Quinn. – Consegue se levantar?

Quinn parecia machucada e exausta demais para protestar. Mexeu as pernas devagar e parou na beira da cama.

- Desgraça! – disse ela, apertando as costelas. – Eles memorizaram cada lugar que já foi quebrado em mim para poderem quebrar de novo, com mais eficiência.

Mamãe passou o braço pelos ombros nus de Quinn, reconfortando-a, e eu desejei estar no lugar dela. Quinn se apoiou, de novo se permitindo demonstrar um pouco de fraqueza, e minha mãe a segurou por um momento, olhando para o meu pai por cima da cabeça abaixada de Quinn. Havia uma tristeza profunda nos olhos dela.

- Tente ficar de pé – disse papai, segurando Quinn pelo braço.

- Obrigada – respondeu Quinn. Mesmo espancada ela matinha uma postura nobre ao ficar de pé. – Obrigada por tudo. Desculpem-me por causar tanto aborrecimento.

- Não é aborrecimento, Quinn – garantiu papai, ajudando a firmar Quinn com um braço em volta da cintura.

Quinn se encolheu de novo enquanto mamãe também passava o braço pela cintura dela. Eles começaram a andar, mas Quinn parou depois de alguns passos.

- Dr. Corcoran, Sr. Berry, no passado, eu nem sempre fui gentil. Acho que chamei vocês de... fracos. Vocês sabem que são muito diferentes da minha família.

- Tudo bem Quinn – garantiu mamãe, instigando-a a andar. – Não precisa falar mais nada.

- Não. Preciso sim. Foi errado insultá-los e não só porque são meus anfitriões. Creio que confundi gentileza com fraqueza. Peço desculpas.

- Venha Quinn – papai deu um tapinha nas costas dela. – Desculpas aceitas. Agora vamos leva-la para a cama.

Fizemos um pequeno desfile patético, lento, pelo quintal gelado: mamãe, papai e Quinn seguindo com dificuldade para a neve e eu logo atrás. Minha mãe fez uma cama para Quinn, no escritório dela, um pequeno cubículo entre nossos quartos, e fingiu que ia se deitar. Mas eu sabia que meus pais estariam de vigília a noite toda. Sabia que não confiariam na afirmação de Quinn, de que seus parentes brutais iam embora. E estavam preocupados com a hipótese de ela desaparecer na escuridão. Eu também estava. Mas logo ouvi a respiração profunda e regular de Quinn no cômodo ao lado. Ela tinha que estar dormindo. Devia estar exausta. Enquanto eu puxava as cobertas, de volta à minha cama quente, me lembrei de que o novo ano já havia começado. Logo eu teria 18 anos. Tecnicamente, a idade para me casar.

No cômodo ao lado, a mulher de quem eu tinha sido noiva quase que desde o nascimento até alguns dias atrás se mexeu e soltou um gemido abafado de dor. Quantas vezes ela fora quebrada “com eficiência” e havia gritado assim, sofrendo até mesmo no sono? E será que carregava outros ferimentos por dentro? Uma dor ainda pior do que ossos quebrados, corte e hematomas?

Notas finais
Mais uma vez galera, me desculpe se não estou agradando a todos, mas agradeço de verdade à todos que acompanham, comentam e dão suas opiniões, enfim, Obrigada a todos que gostam e também aqueles que não gostam da fic. Fiquem à vontade.