Notas iniciais
Oi gente, tava sem net. Tá aí o novo capítulo, espero que entendam. Esse é maior que os outros.

CARO TIO BASILE,

É com profundo pesar – e grande temor ao pensa em sua reação – que escrevo informando que sofri um pequeno acidente com uma égua que comprei pela internet.

Ah, o senhor teria apreciado Fera. Uma criatura terrível, espantosa, feroz. Negra da testa aos cascos e, desnecessário dizer, até do âmago ser. Eu não poderia desejar menos que isso.

Voltemos à narrativa, porém. Minha égua deliciosamente maligna, me deu uma surra admirável – pela qual a absolvo. O resultado foi uma perna quebrada, costelas partidas e um enorme buraco em um dos pulmões. Nada a que eu não tenha sobrevivido antes nas mãos da família. Entretanto, temo precisar ficar de cama durante pelo menos uma semana.

Não escrevo com esperança de obter sua simpatia. (Ah, essa seria uma ideia esplêndida. O senhor, Basile, choroso pelo bem-estar de alguém. Eu poderia gargalhar, se isso não me fizesse cuspir mais sangue.) Não, levo a caneta ao papel mais no interesse de dar aos Berry o que lhes é devido, já que nunca fui econômica com eles em termos de críticas. (Lembra-se da minha missiva depois daquele prato de lentilhas? Encolho-me só de pensar.)

Nessa crise, no entanto, para seu crédito, Leroy e Shelby estiveram a altura da ocasião, compreendendo de imediato que levar uma morta-viva ao hospital, seria uma atitude infeliz. (Quantos de nossos irmãos modernos foram inconvenientemente guardados em necrotérios durante dias – e até mesmo em mausoléus durante anos – por conta da falta do que os humanos chamam de “sinais vitais”?)

Ora, como sempre, eu divago. De volta ao ponto: talvez tenhamos sido injustos com os Barry. Eles demonstraram grande presença de espírito e, mais importante, se arriscaram por minha causa. Quase sinto vontade de repor seus horrendos bonecos como gesto de gratidão. Será que o senhor poderia mandar que algumas mulheres daí fizessem algum boneco grosseiro com, digamos, um carretel de madeira e alguns pedaços de lã? Nada bonito. Os padrões estéticos para essa coleção específica não eram elevados, acredite. “Feio” e “malfeito” pareciam ser os critérios fundamentais.

Quanto a Anastácia... Basile, o que posso dizer? Ela reagiu ao meu acidente com o valor, a vontade e a coragem de uma verdadeira princesa vampira. E, todavia, uma princesa possuidora de um coração gentil. Devemos nos perguntar o que isso significaria para ela em nosso mundo.

Basile, poucas vezes eu afirmaria ter mais experiência do que o senhor em relação a qualquer assunto. Sabe que sou humilde diante de sua capacidade. Mas eu arriscaria a me dirigir ao senhor com alguma autoridade aqui, como alguém que já passou um tempo considerável em contato íntimo com os humanos. (Sem dúvida o senhor já deve estar furioso com minha impertinência. – acredite, posso sentir a ardência de sua mão no meu rosto, mesmo a vários milhares de quilômetros de distância -, mas devo continuar.)

Vivendo em nosso castelo, isolado no alto dos Cárpatos, o senhor teve pouco contato com os que não pertencem a nossa raça. Só conhece o modo de vida dos vampiros – o modo de vida dos Fabray. O modo de vida feito de sangue e violência e a luta árdua pela sobrevivência. A batalha interminável pelo domínio.

Nunca viu Leroy Berry agachado sobre a caixa repleta de gatinhos, alimentando-os com um conta-gotas – quando nosso povo teria jogado os bichos trêmulos ao relento, vendo-os serem carregados pelas aves de rapina sem lamentar. Pelo contrário: com um sentimento de satisfação pelo falcão que não sentiria fome naquela noite.

O senhor nunca sentiu a mão trêmula de Shelby Corcoran procurando sua pulsação enquanto se está caída, prostrada – vulnerável — , seminua, ferida, numa mesa de madeira.

O que alguém da nossa espécie teria feito, Basile? Se Shelby fosse uma Dragomir, e não uma Corcoran/Berry, não ficaria tentada a exterminar a princesa rival naquele momento oportuno? No entanto, ela temeu por minha vida.

Essa foi a criação que Anastácia recebeu. Ela não é simplesmente uma americana, ela é uma Berry. Não uma Dragomir. Foi mimada com gatinhos, gentilezas e carinho. Alimentada com tofu em vez de despojos encharcados de sangue de uma carnificina.

E o senhor não a ouviu chorar, Basile. Não sentiu seu sofrimento, como eu senti, quando pensou que eu tivesse destruída. Isso foi palpável para mim, Basile. Rasgou-a por dentro.

Anastácia – não, Rachel – é suave. Seu coração é tão terno que ela não poderia deixar de sofrer até mesmo por mim: uma mulher que ela mal consegue suportar.

Seus inimigos – e nós sabemos que, como princesa, ela iria tê-los, até mesmo em tempos de paz – sentirão o cheiro dessa fraqueza, assim como senti seu sofrimento. Em determinado instante, alguma outra fêmea ascenderia, sedenta de poder, faminta para tomar o lugar de Rachel. Não é assim que o nosso mundo funciona? E, quando confrontada, no momento de verdade, Rachel hesitaria, só por uma fração de segundo, sem saber se suportaria o desperdício de uma vida – e estaria perdida. Nem mesmo eu poderia protegê-la o tempo todo.

No passado, temo ter pensado em Rachel de modo artificial. Fui culpada (nós fomos culpados?) de acreditar que aulas de etiqueta, uma mudança de roupas e uma cravada funda e satisfatória de dentes no pescoço pudessem transformá-la em uma vampira da realeza.

Mas o senhor não a ouviu chorar, Basile. Não sentiu as lágrimas dela caírem no seu rosto, na sua mão.

Pode ser que o império dos vampiros sobreviva a Anastácia. Mas Anastácia, sobreviveria ao império? Ela se mostra promissora, Basile, mas necessitaria de anos para atingir a maturidade. Nesse meio tempo, seria aniquilada.

Talvez a medicação esteja me afetando. Para ser sincera, Basile, os Berry têm um curandeiro húngaro maravilhoso, muito indulgente com relação às prescrições, se é que o senhor me entende. É, talvez seja a infinidade de poções que percorrem minhas veias e saturam meu cérebro, mas reflito sobre essas coisas aqui, deitada – perdendo, devo acrescentar, o primeiro jogo de vôlei da temporada.

Voltemos a Rachel. Nós, vampiros, não temos alma. Mas não traímos os nossos, não é? Não destruímos arbitrariamente, correto? E temo que virar vampira acabaria por destruir Rachel.

Será que não deveríamos considerar a hipótese de liberá-la para ser uma adolescente humana e normal? E deixar os problemas do nosso mundo no lugar deles: em nosso mundo e não nos ombros de uma garota americana inocente que só anseia por montar sua égua, rir com a melhor amiga e trocar beijos “legais” com um camponês simplório?

Estou ansiosa por suas ideias, ao mesmo tempo em que prevejo sua reação negativa. No entanto, o senhor me criou não somente para ser implacável, mas também digna, Basile, e sinto o dever de trazer essas questões à luz.

Sua sobrinha, em recuperação,

Quinn

P.S: sobre o boneco: peça olhos de botão, se possível. Isso parecia ser um traço comum.

- Mamãe, quero que me conte o que aconteceu naquela noite.

Mamãe estava no escritório de casa, óculos na ponta do nariz, examinando à luz pálida da luminária de mesa as últimas publicações acadêmicas que havia recebido. Ao som da minha voz, ergueu os olhos.

- Eu já esperava que viesse falar comigo sobre isso, Rach.

Ela indicou a espreguiçadeira de segunda mão e cheia de calombos, que servia como poltrona de visita. Eu me afundei nela, puxando o cobertor de lã peruano por cima das pernas.

Mamãe girou sua cadeira na minha direção e empurrou os óculos para o alto da cabeça, me dando total atenção.

- Por onde deveríamos começar? Com o que aconteceu entre você e Quinn no terraço?

Fiquei vermelha e desviei o olhar.

- Não, não quero falar sobre isso. Quero falar sobre o que aconteceu há duas noites. Quando trouxeram Quinn pra cá. Por que não foram para um hospital?

- Eu lhe disse Rachel. Quinn é especial. É diferente.

- Diferente como?

- Quinn é uma vampira, Rachel. Um médico que estudou numa faculdade americana não saberia como tratá-la.

- Ela é só uma garota mãe – insisti.

- É mesmo? É nisso que você ainda acredita? Mesmo depois do que viu, agachada perto da porta?

Olhando para minhas mãos, torci em volta do dedo um fio solto e o arranquei do cobertor.

- É confuso demais, mamãe.

- Rachel?

- Hein?

- Você tocou Quinn.

- Mamãe, por favor...

Não íamos falar disso de novo, íamos?

Mamãe me encarou.

- Seu pai e eu não somos cegos. Seu pai pegou o finzinho do seu... momento com Quinn na noite do Halloween.

Fiquei feliz com o fato de que a luminária mal lançava luz sobre a mesa, porque minhas bochechas estavam pegando fogo.

- Foi só um beijo. Na verdade nem foi isso.

- E quando tocou Quinn, você não notou nada incomum?

A frieza. Eu soube na hora o que ela queria dizer, mas, por algum motivo, fui evasiva.

- Não sei. Talvez.

Mamãe percebeu que eu não estava sendo completamente honesta. Ela não tinha paciência com pessoas que ficavam com preguiça de pensar quando encaravam um conceito difícil. Pôs os óculos de novo no nariz.

- Quero que pense no que viu na sala de jantar. No que sentiu. No que você acredita.

- Eu quero acreditar no que é real – choramingando. – Quero entender a verdade. Você se lembra do iluminismo? A ordem geométrica substituindo a superstição? De Isaac Newton, que desvendou o “mistério” da gravidade? E que disse um dia: “Minha maior amiga é a verdade”. Como um vampiro pode ser real?

Mamãe me encarou por um longo momento. Pude ouvir o tique-taque do relógio sobre a mesa enquanto ela organizava seu estoque de conhecimento.

- Isaac Newton – disse, finalmente – manteve a fé na astrologia durante toda a vida. Você sabia desse aspecto de seu suposto cientista nacional?

- Não – admiti. – Não sabia.

- E lembra-se de Albert Einstein? – observou mamãe, presunçosa – aquele que desvendou o átomo, algo que mal poderíamos conceber há apenas um século? Uma vez Einstein disse: “A coisa mais linda que podemos experimentar é o mistério”. – Ela fez uma pausa. – Se os átomos podem existir, escondidos e ao mesmo tempo em todo lugar, há milênios, por que não um vampiro?

Droga. Ela era boa nisso.

- Mamãe...

- O que é, Rachel?

-Eu vi Quinn beber sangue. E vi os dentes dela. De novo.

Mamãe segurou minha mão e a apertou.

- Bem-vinda ao mundo do mistério, Rachel. – Uma sombra atravessou seu rosto. – Por favor, tenha cuidado. É um território muito, muito traiçoeiro. Totalmente indomado. O mistério pode ser lindo. E perigoso.

Eu sabia o que ela queria dizer. Quinn.

- Vou ter cuidado mãe.

- A família Fabray tem a reputação de ser implacável – acrescentou de forma mais direta. – Você sabe que seu pai e eu gostamos muito de Quinn e que ela é encantadora, mas também devemos ter em mente que a criação dela foi bem diferente da sua. E não só em termos de posses materiais.

- Eu sei mãe. Ela me contou um pouquinho. Além disso, como vivo dizendo a vocês, não estou afim dela.

Mentirosa.

- Bom, saiba que estou sempre aqui, disposta a conversar. Seu pai também.

- Obrigada mãe. – Empurrei o cobertor de lado e me virei para ir embora, beijando o rosto dela. – Por enquanto, só preciso pensar.

- Claro. – Mamãe voltou para suas publicações. – Eu te amo Rachel – acrescentou por cima do ombro enquanto eu fechava a porta.

Apesar dos avisos, apesar de suas preocupações óbvias comigo, jurei ter percebido uma levíssima sugestão de sorriso em seu rosto.

CARO TIO BASILE,

Continuo aguardando a sua resposta às minhas preocupações relativas ao destino quase certo de Rachel, caso ela assuma o trono. Não tem nada a me dizer?

Como devo entender seu silêncio?

Sinceramente, Basile, é exaustivo navegar por essa situação com pouca orientação, a milhares de quilômetros de casa. Estou cansada de competir, sem sucesso, com um camponês. Estou exaurida pelos ferimentos físicos. Fico impaciente por... Por quê? Algo que nem sei qualificar. Entedio-me de minha própria natureza, meus pensamentos, meu passado e meu futuro, aqui, deitada.

Na ausência de um comentário construtivo, prosseguirei como meu instinto determina, em relação a Anastácia. Duvido que concordará com meu modo de agir, mas me sinto frustrada, irrequieta e imprudentemente voluntariosa. Luto contra o freio que o senhor pôs na minha boca por tanto tempo.

Sua sobrinha,

Quinn

- Bom, até que enfim você saiu da garagem, como queria – provoquei.

- Não acredito que viva desse jeito. – Quinn deu um risinho, apoiada em meus travesseiros de cetim cor-de-rosa. No meu quarto. Mamãe tinha insistido para que ela se mudasse para dentro de casa até que sua perna ficasse boa. O gesso estava apoiado no cachorro-quente de pelúcia. – É como viver num casulo fofo, feito de algodão doce. – Ela fez uma careta. – É rosa demais.

Gosto de rosa.

Quinn fungou.

- O rosa é somente o primo patético e débil do vermelho.

- Bom, não é para sempre. Você vai voltar logo para o seu calabouço escuro com as armas enferrujadas. – Olhei o quarto em volta. – Viu meu ipod?

- Refere-se a isso?

Quinn localizou o aparelho entre camadas de lençóis e o ergueu.

- É. – Estendi a mão. – Me dá.

- Ah, não posso ficar com ele? É tão chato ficar confinada aqui. Eu estou gostando de explorar suas preferências musicais.

Lá vamos nós.

- Por que não compra um?

- Mas o seu já tem Black Eyed Peas – zombou ela.

- Não seja idiota.

- Gosto deles. Estou falando sério. – Um sorriso diabólico atravessou seu rosto. – “My humps, my humps, my humps!” Minha bunda, minha bunda, minha bunda! — Quem não iria gostar disso?

Arranquei o ipod de sua mão e ela riu. Eu ri também.

- Se você não tivesse toda arrebentada...

- Faria o quê? – Ela agarrou meu pulso com uma velocidade espantosa pra quem estava com as costelas partidas. – Iria me bater até eu pedir clemência? Só nos seus sonhos.

É. Às vezes. Nos sonhos. Quero dizer, eu não sonhava que batia nela. Mas ultimamente Quinn vinha tendo participações especiais no meu sono. Em casamentos. Cavernas escuras. À luz trêmula de velas.

Ela me soltou, ficando séria.

- Eu nunca agradeci a você apropriadamente. – Ela se levantou um pouquinho, ajeitando-se, e se contraiu de dor com o movimento. – Por ter cuidado de Fera, por ter ficado comigo. Você foi muito corajosa.

Mudei de posição também, tentando não esbarrar na perna dela.

- Sinto muito por ela ter sido sacrificada.

Quinn olhou pela janela, com a boca encurvada para baixo.

- Você fez o que pôde. Mas acho que algumas coisas são perigosas demais para viver.

- Você tentou domá-la – acrescentei, sem jeito. – Funcionou durante um tempo.

- Não era da natureza dela ser domada. No fim, todos somos fiéis à nossa natureza. À nossa criação.

Ficamos sentadas em silêncio durante algum tempo e me perguntei no que Quinn estaria pensando. Na égua ou nela mesma?

- Parabéns pelo segundo lugar – disse ele.

Acompanhei seu olhar até o quadro de cortiça na parede, onde eu havia pendurado a fita vermelha de vice-campeã ao lado de um punhado de outras azuis das competições de matemática que eu vencera. Claro, Kitty Wilde tinha ficado com a fita azul. Meu desempenho havia sido bom, mas não o suficiente.

- Você merecia a azul – confessei a Quinn, séria.

- Que estranho eu ter sido “banida por toda a vida” da competição – observou ela, com ironia. – Eles criaram uma regra nova, ficou sabendo? Só pra mim. “É proibido levar animais ferozes para eventos públicos”. Fui a primeira transgressora. Uma pioneira em violar a lei, por assim dizer. – Ela riu, tossiu forte e colocou as mãos nas costelas. – Desgraça.

Fiquei mexendo o ipod.

- Quinn?

- O que foi, Rachel?

Encarei seus olhos verdes.

- Eu estava lá. Naquela noite.

- Eu sei.

- Sabe?

- Você chegou perto de mim tarde da noite. Segurou minha mão.

Voltei a mexer meu ipod, sem graça.

- Ah... Achei que você tivesse dormindo

- Não fique mexendo nisso enquanto conversa. – Quinn tomou o aparelho dos meus dedos. – Claro que eu sabia que você estava lá. Tenho sono leve. Principalmente quando cada centímetro do meu corpo está destroçado de dor.

- Desculpa – dei um sorriso débil. – Não queria incomodar você.

- Não... Pelo contrário. Fiquei comovida. – Seus olhos se suavizaram e todo o jeito imperioso sumiu. – Você chorou por causa da minha dor. Ninguém nunca chorou ao me ver sofrer. Não esquecerei essa gentileza, Rachel.

- Foi como eu me senti na hora. Não pude deixar de chorar.

- Não, claro que não. – O reconhecimento pareceu lhe causar dor, de algum modo. – Quando eu voltar a minha vida na Romênia, ninguém vai chorar ao ver Quinn Fabray machucada. E, quando eu sofrer, como é inevitável, vou me lembrar do seu gesto com carinho e apreço.

- Também não vou me esquecer daquela noite – prometi. Enxuguei as palmas das mãos nas pernas. Tinham ficado suadas. – Quinn eu vi você beber sangue.

- Ah, o sangue. – Ela não pareceu surpresa com minha confissão. – Espero que não tenha ficado muito perturbada. Nem enojada. Eu não julgava que você estivesse preparada para isso. Pode ser bem repulsivo para quem não está acostumado.

- Eu meio que desmaiei.

Quinn deu um sorriso triste e olhou pela janela.

- Mesmo inconsciente numa mesa, consegui deixar você nauseada. Que belo talento eu tenho.

- Não. Não foi só por ter visto o sangue. Eu... também senti o cheiro.

Quinn virou a cabeça lentamente para me olhar, como se não acreditasse no que ouvia. Vi uma pequena fagulha em seu rosto.

- Sentiu?

- Senti.

- E como era esse cheiro?

- Forte. Quase arrebatador.

- É. É assim mesmo.

- É isso que você põe no copo de Morango Julius, não é?

Quinn sorriu um tanto debochada.

- Eu pareço mesmo alguém que tomaria milk-shake de morango de um quiosque de shopping? Já não expressei o que sinto a respeito de coisas cor-de-rosa?

- É. Acho que eu deveria ter imaginado. – Uma pergunta tivera queimando minha cabeça. Uma pergunta para qual eu não tinha certeza se queria uma resposta. Mas precisava fazer. – Quinn, onde você o consegue? – Visões de filmes antigos, de mulheres aterrorizadas, usando camisolas vaporosas, encolhidas diante de agressores com presas, surgiram na minha cabeça. – É... Violento?

- Ah, Rachel, os vampiros têm meios. Não é uma coisa tão predatória como no passado. Boa parte fica armazenada, como vocês fazem com o vinho. Ninguém precisa pisotear as uvas quando quer tomar vinho.

Movendo-se com cuidado para proteger as costelas, Quinn cruzou os dedos na nuca, afundou no travesseiro e olhou para o teto. Sua voz profunda ficou pensativa.

- Dizem que nossa adega na Romênia é a melhor do mundo. Safras que datam do século XVIII. Podemos chamar um serviçal estalando os dedos, dar um nome de um veneno, para usar uma das minhas expressões prediletas, e nos deliciar.

Um tanto enojada e mais do que um pouco incomodamente empolgada, deixei que ela continuasse a falar, observando-a cair mais fundo num devaneio.

- E também, é claro, quando dois vampiros se casam, quando se unem por toda a eternidade, eles têm um ao outro. Dizem que é a melhor bebida. A fonte mais pura. – Quinn ficou mais introspectiva ainda, mais distante. De um para o outro. Sangue compartilhado. Poderia haver um elo mais forte entre dois seres?

Um sorriso passou pelos seus lábios.

- O sexo é um prazer fugaz. Sem dúvida, um ato íntimo, que não deve ser descartado. É fundamental, além de ter outros benefícios óbvios.

O sorriso sumiu.

- Mas compartilhar o sangue com outra pessoa... expor nosso ponto mais vulnerável, onde a pulsação bate logo abaixo da pele, e confiar que seu parceiro(a) irá se satisfazer sem dominá-la... Isso torna o sexo quase insignificante, em comparação. O sexo é um ato “desigual” de um para outro. Mas o sangue... O sangue pode ser compartilhado de modo verdadeiramente igual.

Ela parecia ter me esquecido sentada ali do lado. Fiquei escutando, hipnotizada e... mais alguma coisa.

Ou talvez Quinn não tivesse esquecido minha presença. Seu olhar se virou de repente para mim.

- Mas você acha que eu estou delirando, que falo sobre impossibilidades, sobre atos irracionais. E está certa: a existência de um vampiro é irracional. Nós somos um estudo sobre impossibilidades.

Safra de sangue. Dentes furando pontos de pulsação. Continuava a parecer maluquice. Mas não era mais impossível. Ou mesmo indesejável, pelo modo como Quinn descrevia. Não, nem um pouco.

- Quinn, eu vi você beber sangue. Não é impossível.

- Ah, Rachel. – Ela descruzou as mãos de trás da cabeça. – Por que agora? Por que nessa altura do campeonato, como diria o técnico Ferron na quadra de volêi?

- Como assim “nessa altura do campeonato”?

Para mim parecia o inicio do jogo. Eu estava começando a entender. Começando a acreditar. Por mais difícil que fosse aceitar aquilo, eu não podia mais negar. Acreditava que Quinn Fabray era uma vampira. E que eu podia, no mínimo, sentir o cheiro do sangue. Reagir a ele. Havia muito mais para entender... para deduzir.

- Está dizendo que é tarde? – insisti.

Quinn apoiou a cabeça nas mãos, esfregando os olhos, aparentando cansaço.

- Por que fui contar toda essa baboseira romântica? Eu me deixei ser levada. Droga, às vezes sou irresponsável. Eu queria tanto que você entendesse e agora é o momento errado. Desejei partilhar tudo isso com você antes. E então, quando demonstrou interesse, não consegui me calar.

- Não pareceu “baboseira” – garanti. Ao contrário, tudo o que ela dissera era intrigante, ainda que de um modo perturbador, admito. – E por que não agora?

Mas antes que Quinn pudesse responder, meu pai bateu a porta entreaberta.

- Quinn, visita para você.

Quinn se empertigou de novo e arqueou a sobrancelha.

- Para mim? Visita?

Também fiquei surpresa. Que eu soubesse, Quinn não havia cultivado muitas amizades nos EUA.

Antes que eu pudesse pensar em alguém, papai ficou de lado, a porta se abriu mais e um narizinho petulante, preso a um rosto enfeitado por cabelos claros, entrou hesitante no quarto.

- Oi Quinn.

Quinn olhou em direção à porta. Olhou com muita intensidade, quase como se nunca tivesse visto, Kitty Wilde.

Presumi que Quinn tivesse furiosa com ela por tê-la quase matado. Mas de repente seu rosto se abriu num sorriso. Um sorriso estranho. Como se houvesse acabado de ter uma revelação.

- Bem-vinda Kitty – disse ela. – Entre. Essa é mesmo uma surpresa agradável. Desculpe-me se não posso me levantar para cumprimenta-la.

- Não, sou eu quem precisa pedir desculpas – respondeu Kitty, entrando no meu quarto com um beicinho exagerado. – Acho que está presa aqui por minha culpa. – Ela examinou o quarto. – Tipo, é horrível.

Estreitei os olhos pra ela. Está falando dos ferimentos da Quinn? Ou da minha decoração?

- Minha égua e eu estávamos em rota de colisão desde o inicio – tranquilizou-a Quinn. – Eu flertei com a inevitabilidade. Você só fez a cerimônia de casamento.

Kitty inclinou a cabeça, como se não soubesse se ela a culpava ou não.

- Bem, espero que esteja se sentindo melhor. – Ela remexeu na bolsa e pegou um ipod. – Trouxe um presente de melhoras.

Entregou o aparelho a Quinn, que sorriu para ela.

- Obrigada, Kitty. Foi muita gentileza. – Ela me lançou um olhar. – Acho que não vou mais precisar do seu Rachel.

- Imaginei que fosse ficar entediada, presa na cama – acrescentou Kitty, que ainda não havia admitido minha existência. – É o modelo mais novo, e você pode carregar a música que quiser.

- Ela gosta de música croata – observei. Não que alguém tivesse pedido minha participação.

Quinn levantou um dedo.

- E do Black Eyed Peas. E não se esqueça de Hoobastank. Será que alguém pode se esquecer de Hoobastank?

- Verdade? – Guinchou Kitty, batendo palmas. – Eu também adoro o Hoosbastank.

Quinn fez um gesto para a cama.

- Por favor, sente-se, Kitty.

Três seria definitivamente demais no meu colchão estreito de solteiro, por isso levantei. De qualquer modo, eu não estava muito a fim de passar o meu tempo com a líder de torcida grosseira e egoísta.

- Acho que já vou.

- Tchau, Jenn.

Kitty me dispensou e ocupou o meu lugar perto de Quinn. Deixou-se cair com força na cama e Quinn se encolheu, quase imperceptivelmente.

- Cuidado com a perna dela – avisei, pensando em como ela era uma bruxa que só pensava em si mesma.

- Rachel – chamou Quinn quando cheguei perto da porta. – Espere.

- O que é? Precisa de alguma coisa?

- Não. Tenho algo para você.

Ela tateou debaixo do travesseiro e pegou um livro. Prendi a respiração, reconhecendo o exemplar de Crescendo como morto-vivoUm guia para o vampiro adolescente sobre namoro, saúde e emoções.

- Você largou isso embaixo da cama. – Quinn estendeu pra mim, mantendo a mão estrategicamente posicionada sobre o título. – Estava esquecido no meio da poeira. Depois de toda a consideração que coloquei na dedicatória...

Peguei o livro com ela, apertando-o contra o peito e o escondendo-o de Kitty.

- Ah, obrigada.

- Acho que você vai achar o capítulo sete muito útil. Lamento não poder dar mais orientação do que isso. Mas o livro deve responder à maior parte das suas perguntas.

- Achei que essa fosse sua especialidade – brinquei, pensando na dedicatória.

- Para ser sincera, sugiro que satisfaça qualquer curiosidade que possa ter e depois jogue o guia fora. De uma vez por todas. Na verdade é muito barulho por nada.

Meus olhos se arregalaram.

- O quê?

Desde quando Quinn Fabray achava que qualquer coisa relacionada aos vampiros era “muito barulho por nada”? Eu tinha acabado de ouvir a garota fazer poesia sobre laços de sangue.

- Estou sendo grosseira ao falar de coisas particulares quando tenho uma visita. Por favor, desculpe-me Kitty.

- Sem problemas Quinn. Tenho muito tempo. – Kitty sorriu para mim e repetiu: — tchau.

Mas elas nem me notaram. Kitty já havia chegado mais perto de Quinn, demonstrando todas as funções do seu novo ipod. As cabeças estavam inclinadas sobre a telinha e elas riam.

Olhei mais uma vez para a minha fita idiota de segundo lugar, desejando não ter pendurado nada no quadro de cortiça. Kitty estava sentada praticamente embaixo dela. A fita no quadro dela era azul. E maior. Fita de vencedora. Minha fita vermelha era de cor mais forte, mais ousada, brilhando no quarto ensolarado, atraindo o olhar como um pássaro exótico. Mas aquela faixa de seda carmim era na verdade somente a prima patética e débil do azul.

- Tchau – falei.

Elas não responderam, já imersas na conversa, por isso saí, levando o livro.

Parei ao pé da escada e abri no capítulo sete. O título era: “Então você sentiu cheiro de sangue? Parabéns!”

Li o parágrafo de abertura, não uma, mas quatro ou cinco vezes: “O aumento da percepção olfativa – às vezes se aproximando do estímulo sexual – quando você está na presença de sangue é sinal de que sua natureza vampírica está florescendo!”

Minha natureza vampírica.

Alguns parágrafos adiante, o guia orientava: “Logo você sentirá sede de sangue, em especial quando enfrentar emoções fortes”.

Acima de mim, ouvi Quinn rir com Kitty. Elas riam alto e intensamente, como se já compartilhassem histórias muito antigas.

Notas finais
Surpresa!! rsrs. E então... Se expressem galera. O que será que vai acontecer agora hein?