Como Se Livrar De Uma Vampira Apaixonada
10 Capítulo 10
Notas iniciais
- Obrigada pelo cachorro-quente de pelúcia – agradeci, apertando a grande salsicha estufada que Brody ganhara ao acertar duas bolas na boca do palhaço. – Eu me diverti pra caramba na festa.
- Foi mal não ter conseguido o urso.
- Ah, um cachorro-quente é legal. É diferente.
Estávamos sentados na grande picape 4x4 de Brody, estacionada diante da fazenda, tentando descobrir como nos despedirmos. Eu deveria simplesmente saltar do carro? Será que ele sairia também?
- Eu já disse que você ficou muito linda nesse vestido? – perguntou Brody.
Ainda não dissera, mas eu vi a expressão no rosto dele quando foi me buscar. A mesma admiração demonstrada por Quinn, na butique. Durante toda a noite vários caras e algumas garotas me olharam. A princípio me senti meio sem jeito. Mas foi fácil me acostumar com esse tipo de atenção.
- Gostei do seu cabelo assim também – acrescentou Brody.
Enrolei um cacho que pendia do coque. Tinha feito o máximo para imitar o efeito que Quinn havia conseguido torcendo meus cabelos com os dedos.
- Obrigada.
- Estou feliz por ter me convidado, curti muito.
Houve uma pausa longa.
- Acho que vou nessa – declarei finalmente, pondo a mão na maçaneta.
- Ah... Hum... Eu abro a porta.
Brody desligou o motor e desceu, vindo para o meu lado. Abriu a porta e eu tentei descer, quase caindo do salto.
- Merda!
Muito classuda, Rach.
Mas Brody me impediu de cair e de repente estávamos muito perto um do outro. Cara a cara.
Foi aí que ele me beijou. Beijou de verdade. Seus lábios eram mais macios do que eu esperava e um pouco úmidos. Meus lábios se abriram um pouco, como eu tinha visto na TV e nos filmes durante anos e anos. Pareceu muito natural enquanto acontecia. Brody empurrou ligeiramente a língua contra a minha. Então é assim... A sensação não foi elétrica, mas senti um arrepio de felicidade. Brody me envolveu com os braços. Um abraço de urso. Um abraço de lutador. Nossas línguas roçaram e roçaram, e Brody acariciou minha cintura, legal. E sem dúvida ficaria melhor com a prática. Talvez eu pegasse emprestado o artigo de Mindy sobre “75 truques sexuais para enlouquecer seu parceiro (a)”.
Foi ele quem se afastou primeiro.
- Preciso ir, ou vou acabar passando da hora. Eu te ligo, beleza?
Percebi que ainda estava apertando o brinquedo de pelúcia.
- Beleza.
Ele se inclinou pra me beijar de novo. Um toque leve, doce, nos lábios.
- Até mais – despediu-se Brody.
- Tchau.
Fiquei parada, olhando a picape se afastar.
Quando as luzes traseiras haviam quase desaparecido na escuridão, caminhei para a entrada de casa, ouvindo o farfalhar da bainha do vestido contra os joelhos. Meu primeiro beijo de verdade.
- E então, como foi?
A voz profunda que vinha da escuridão me assustou, fazendo com que eu parasse na mesma hora. Olhei para as sombras.
- Quinn?
- Estou bem aqui.
Acompanhei sua voz até os degraus do terraço, onde ela estava sentada em meio às sombras, perto de uma abóbora de Halloween que tremeluzia.
Cheguei mais perto.
- Você estava me espionando?
Quinn estendeu uma tigela.
- Estou de serviço na distribuição de doces. Quer? As crianças não ficaram felizes com a oferenda, mas acho que só restam saquinhos de soja caramelada.
Aceitei um saquinho e me sentei perto dela, num degrau.
- Não costumam aparecer muitas crianças pedindo doces. Ninguém mora a menos de um quilômetro daqui.
- Ah. – Quinn deu de ombros. – Então fui eu que odiei o doce. – Ela tomou o cachorro-quente de pelúcia dos meus braços. – Seus pais não vão gostar disso em casa. Brinquedo imitando carne. O Atarracado ganhou isso com algum feito de proeza física? – Em seguida jogou o brinquedo por cima do ombro, numa cadeira no terraço.
Ignorei a provocação.
- Você estava me esperando?
Quinn olhou para a escuridão distante.
- Como foi?
- Como foi o quê?
- Ele a beijou. Como foi?
Sorri lembrando.
- Legal.
- Legal? – Quinn deu uma fungada curta, de desprezo. – Digo e repito: o “legal” é superestimado.
- Por favor, não comece. – pedi. Não estrague isso.
- Quando você beijar a pessoa certa, vai ser muitíssimo melhor do que legal – resmungou Quinn.
- Você não tem o direito de dizer isso.
Eu me levantei para entrar, alisando o vestido. Ela não estragaria esse momento. Isso não iria acontecer.
Para minha surpresa, Quinn cedeu.
- Você tem razão. Fui grosseira. Eu não tinha o direito. – Ela deu um tapinha no degrau. – Por favor, faça-me companhia. Acho que estou melancólica essa noite.
- Você devia ter ido à festa – falei sentando-me de novo.
Quinn inspirou fundo e soltou o ar.
- Não havia nada lá pra mim.
- Até que foi divertido. Havia jogos e a gente...
- Alguma vez, ao menos por um minuto, você analisou minha vida pela minha perspectiva? – interrompeu Quinn, um tanto ríspida. – Já pensou em como eu me sinto? – Ela se virou para me encarar, os olhos reluzindo fracamente, como os da abóbora. – Alguma vez você olha para além de si mesma?
- Qual é o problema? Você está com saudade de casa ou algo assim?
- Algo assim. É. – O brilho ficou mais forte. – Por deus, eu moro numa garagem. Longe de tudo o que conhecia. Fui mandada aqui para cortejar uma mulher que me despreza em favor de um camponês...
- Brody é um cara perfeitamente legal, Quinn.
Quinn bufou.
- É isso que você quer da vida? Algo legal? Tudo precisa ser legal?
- Legal é... Legal – protestei.
Quinn balançou a cabeça.
- Ah, Anastácia. Eu poderia lhe mostrar coisas tão além de legal que faria sua linda cabecinha girar.
Sua voz tinha mudado subitamente, ficando mais baixa ainda e mais gutural. Havia nela, uma qualidade que eu nunca escutara, mas que reconheci por instinto. Ímpeto sexual. Luxúria. Desejo. Um desejo tenso, exasperado, frustrado.
- Quinn, acho que seria bom a gente entrar
Mas ela apenas chegou mais perto e falou com mais suavidade, porém ainda com a sugestão de uma frustração mal contida.
- Eu poderia lhe mostrar coisas que fariam você se esquecer de tudo que conhece aqui, em sua vidinha segura...
Engoli em seco. O que ela pode me mostrar? Que tipo de coisas? Estou interessada?
Sim. Não. Talvez.
- Quinn...
- Anastácia...
Ela se aproximou ainda mais e notei que ela ofegava. Eu também. Inalando a força que ela sempre exalava, eu compartilhava seu ar rarefeito.
- Você nunca pensa nessa sua parte? Na parte que é Anastácia?
- Anastácia é só um nome.
- Não. Anastácia é uma pessoa. Uma parte de você.
Então Quinn acariciou o meu rosto, tocando-o com o polegar, e eu me peguei fechando os olhos, oscilando de leve, como se fosse uma serpente sob o feitiço do seu encantador. Sabia que deveria parar o que quer que estivesse acontecendo, mas não fiz nada.
- A outra parte de você, não se contentaria com o “legal” – disse Quinn, baixinho. Ela envolveu meu queixo com uma das mãos e pude sentir sua respiração na minha boca. Fria e próxima. – Eu finalmente vi parte do seu ser, do seu espírito, quando você experimentou essa roupa. Você fica tão linda nesse vestido! Ele a transforma...
Meu vestido. Tive uma sensação de poder enquanto aquelas pessoas todas olhavam para mim durante a festa e gostei disso. Mas, ao lado de Quinn, sentia esse poder fugir ao meu controle e passar para suas mãos. Ela segurava as rédeas com tanta segurança quanto fizera com sua égua selvagem. E isso era aterrorizante. Lambi os lábios. Minha barriga estava retesada com aquela mistura de fome, ódio e medo que senti na primeira vez em que ela me mostrou aqueles dentes.
Será que vai fazer isso de novo? Será? Será que deveria?
- Anastácia.
Seus lábios mal tocaram os meus e uma ânsia me rasgou ao meio, como o desejo por aquele chocolate luxuriante, irresistível, proibido do sonho.
Não... Eu acabei de beijar o Brody... Não quero desejar a Quinn. Ela era tudo o que eu não queria. A garota achava que era uma vampira. Mesmo assim, eu pressionava meu corpo contra o dela, sentia minha mão subindo por vontade própria para acariciar seu queixo, onde estava a cicatriz, um caminho serrilhado, mas a pele muito lisa e suave. A violência em sua infância... Isso a mudou. Teria se tornado perigosa?
O braço de Quinn deslizou pelas minhas costas e ela roçou meus lábios de novo, dessa vez com mais força. Até sua boca era suave. E eu queria provar mais.
- Assim, Anastácia – murmurou ela. – É assim que deve ser... e não legal...
Ela estava me tentando a querer mais. A imagem dela fechando o zíper do meu vestido, segura, entendida das coisas, atravessou meu cérebro num relâmpago. Experiente... Mamãe havia me alertado. Não deixe isso lhe subir a cabeça, Rach...
Quinn levou a mão até o meu pescoço, envolvendo minha nuca com os dedos, o polegar acariciando minha pele.
- Deixe-me beijá-la, Rachel... Beijar de verdade... Como você deve ser beijada.
- Por favor, Quinn...
Eu estava implorando ou protestando?
- Seu lugar é ao meu lado – disse ela baixinho. – Com a nossa espécie. Você sabe... Pare de lutar contra isso. Pare de lutar contra mim...
Não!
Devo ter gritado, porque Quinn recuou abruptamente.
- Não? – perguntou incrédula, os olhos cheios de choque e incerteza.
Minha boca estava se mexendo, mas nenhum som saía. Sim? Não?
- Eu... Eu acabei de beijar o Brody – gaguejei. – Há alguns minutos. – Não era errado ficar com duas pessoas numa noite só? Não era coisa de... Vagabunda? O que aquele vestido estava fazendo comigo? E o lance que ela tinha dito sobre “nossa espécie”...
Não.
Quinn tirou a mão do meu pescoço e se inclinou para frente, quase abraçando os joelhos. Enfiando as mãos nos cabelos loiros com um som que era parte gemido, parte rosnado.
- Quinn desculpe...
- Não diga isso.
- Mas eu quero me desculpar...
Só que eu não sabia por que. Por ter beijado Brody? Por ter quase beijado Quinn? Por ter feito com que parássemos?
- Entre Rachel. – Quinn ainda estava curvada sobre os joelhos, os dedos cruzados no cabelo. – Agora, por favor.
E então a porta da frente se abriu.
- Achei ter escutado vozes aqui fora – disse papai, fingindo não perceber a tensão óbvia.
- Papai – falei esganiçada, ficando de pé. – Acabei de chegar em casa. Quinn e eu estávamos conversando.
- Está ficando tarde – avisou papai, puxando-me para o seu lado. – E, Quinn. Acho que podemos dizer que a distribuição de doces acabou. Você deveria ir pra cama.
- Claro, senhor. – respondeu Quinn, educada. Ela se aprumou lentamente e ficou de pé também. Parecia cansada, enquanto entregava a tigela ao meu pai. – Feliz dia das Bruxas.
Então, entrei correndo, subi para o quarto e arranquei o vestido, jogando-o no fundo do armário. Puxei o cabelo que caiu sobre os ombros. Tudo de volta ao normal. Após vestir uma camiseta e uma calça de moletom para dormir, fui de mansinho até a janela e olhei para a garagem. Mas a luz do quarto de Quinn estava apagada. Ela tinha ido dormir. Ou talvez tivesse saído.
Mamãe bateu à minha porta.
- Rachel, você está bem?
- Estou ótima, mamãe – menti.
- Quer conversar?
- Não. – Fiquei observando a janela de Quinn sem saber o que estava procurando. – Só quero dormir.
- Bem, então, boa noite minha filha.
Os passos de mamãe recuaram pelo corredor e me deitei na cama, fechando os olhos com força. Não queria – não iria – pensar no que atrairia Quinn para a escuridão. A julgar pelo humor em que eu a havia deixado, temia que não fosse algo “legal”.
***
CARO TIO BASILE,
Que confusão por aqui. Que confusão! Seria bem mais fácil de explicar se o senhor usasse um e-mail. Está disponível em toda parte hoje em dia. Pense nisso, por favor, pelo menos enquanto eu estiver aqui.
Até lá, tenho a difícil tarefa de lhe informar via correio, que todo o pacto, parece cambalear, interminável e irrevogavelmente na direção do esquecimento.
Esta noite... Por onde começar? O que dizer?
Se aquele não era o momento, não sei mais o que fazer. Se Anastácia não sentiu o que eu senti naquele instante, se ela teve a presença de espírito de recuar, na verdade de gritar “Não!” para mim, quando eu iria admitir que já estava totalmente perdida por ela, não sei mais o que fazer.
Tenho certeza de que o senhor pode deduzir pelas linhas acima, o que se passou entre nós, num sentido geral. Não vou me rebaixar – nem desonrar Anastácia – entrando em detalhes. Fazer isso seria não só humilhante, mas também pouco cavalheiresco. E certamente o senhor me entende.
Será que fui mesmo superada por um camponês? Um camponês Atarracado, tapado, parasita?
Talvez de manhã, a situação pareça menos desagradável. Só podemos esperar.
Enquanto isso, será que o senhor poderia me fornecer alguma informação sobre o castigo que enfrentarei caso venha a fracassar? Gostaria de começar a me preparar mentalmente, sobretudo se for enfrentar o pior. Sempre preferi enfrentar o destino de cabeça erguida, como me ensinou. E poderei fazer isso melhor se tiver a oportunidade de me preparar.
Sua sobrinha, com dúvidas, incertezas e preocupações que não são de pouca importância,
Quinn.
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