Como Se Houvesse Ninguém Ao Redor
2 A caminhada
Notas iniciais
O Sol batia forte no meu rosto, tinha adormecido no sofá e as cortinas haviam permanecido abertas. Levantei com um pouco de dificuldade e estendi minhas costas, fazendo-a estralar como uma senhora de oitenta anos; numa tentativa frustrada de alisar o cabelo meus dedos ficaram presos logo no inicio dos fios curtos e ruivos.
“Hoje a previsão é de sol o dia inteiro” falou a jornalista que anunciava a previsão do tempo com o sorriso enorme, como se a fome de todo o mundo estivesse extinta.
–Que ótimo, hoje vai ser a estreia do meu biquine californiano – um sorriso falso se formou nos meus lábios.
Com um humor péssimo, revirei os olhos com minha piadinha a respeito do meu corpo. Sabe aquelas pessoas que você se contorce apenas pela coragem de tomar um banho de mar em público, essa sou eu! Pois é, zero para minha autoestima.
Subi para meu quarto, sentindo as bolsas abaixo dos olhos bem evidentes, e graças a um ser paterno abençoado, ele permanecia o mesmo. A cama com luzes na cabaceira, a mesinha ao lado com o abajur em forma de sorvete, o espelho que eu mal podia olhar depois de um filme de terror quando mais nova e as fotos de momentos especiais por toda a parede lateral juntas com os recadinhos das pessoas que passavam pelo meu canto único. Aproximei da fotografia mais próxima, e lá estava a primeira foto que tirei com minha câmera profissional, um dos últimos momentos românticos dos meus pais, eles se olhavam com um sorriso leve e era como se nada nem ninguém fosse separa-los, o tipo de olhar que as solteironas desesperadas de plantão ficariam se remoendo para conquistar; mas para a surpresa de alguns, meses depois eles estavam se separando. Mamãe estava indecisa, tinha recebido uma proposta de trabalho e não conseguia decidir se aceitava ou não, pois nós teríamos que se mudar; ela comentava todas as noites durante o jantar a respeito de como isso iria modificar nossas vidas e papai sempre discorda alegando que o clima da Califórnia era o melhor do mundo, até que um dia eu não estava conseguindo dormir devido a uma dor de cabeça horrível quando escutei algo, não direi inédito, pois seria hipocrisia mas inesperado, o choro da minha mãe (e esse é um dos sons mais desagradáveis do mundo) acompanhado da súplica de perdão do meu pai. Foi naquela noite que ela descobriu que seu marido estava saindo á dias com sua melhor amiga e foi assim que mudamos sozinhas para o outro lado do país.
Depois de um banho rápido, escolhi roupas leves para fazer uma caminhada matinal; com o celular já no bolso, de forma também acelerada peguei meu ipod e sai de casa, escondendo as chaves em um dos canteiros de flores. O sol realmente estava forte, não havia ninguém na rua, ainda tive a coragem de olhar para casa vizinha, porém todas as janelas estavam devidamente fechadas. Depois de um play começou a tocar Super Bass, de forma lenta inicialmente comecei a caminhar, “This one is for the boys with the boomin' system.Top down, AC with the coolin' system” era quase impossível não cantar a letra ou melhor era impossível não tentar uma frustrada versão do rap do começo. Depois de alguns quilômetros já era possível visualizar algumas pessoas, correndo ou fazendo caminhada. “See I need you in my life for me to stay. No, no, no, no, no I know you'll stay” até o momento a certeza era máxima que minha boca não estava emitindo nenhum barulho, porém tudo mudou com um ruído seguido de uma mão enorme tentando me parar. Automaticamente senti meu punho tentando acertar o rosto do suposto pedófilo, e acertou, mas para melhorar ainda mais a situação não era um pedófilo.
– Ai meu Deus, realmente me desculpa! – falei constrangida enquanto desligava o ipod e me abaixava para ajudar Kendall – desculpa, desculpa! Eu tenho esse sentido que todo mundo que chega me toca de repente é... Desculpa, desculpa. Ainda não estou acreditando que fiz isso!
Com meu auxílio, meu recente vizinho conseguiu levantar-se e ainda com uma de suas mãos no rosto falou:
– Tudo bem, é uma honra ser a sua primeira esbofeteada no rosto de uma pessoa que apenas queria comentar o quão incrível era a música que você estava cantando.
– Por favor, não me diga que saía alguma melodia da minha boca.
– Em alto e bom som. Na verdade os mendigos ali já estavam empolgados em dançar um “Boom,boom,badoom,boom” – Brincou ele.
Revirei os olhos, porém meus lábios desobedeceram e não puderam conter um sorriso.
– Sério, me diz que não aconteceu nada com seu olho – tive a liberdade de tirar a mão dele que estava pressionando o lado esquerdo do rosto e para a minha felicidade estava intacto – Graças a minha capacidade inigualável de ser extremamente forte, seu rosto permanece intacto.
– Como assim, e as provas para quando eu te denunciar?
– Engraçadinho – falei, temendo que ele não estivesse brincando. Eu poderia até imaginar me vendo nas manchetes das revistas por ter agredido alguém – Você está caminhando?
– Na verdade eu acabei chegar em casa, e saí para tomar um ar. O show de ontem foi longo!
– Você tem uma banda? – perguntei descaradamente – porque ontem eu te vi na TV.
– Na verdade eu faço parte de uma boyband — esclareceu ele, pondo um fim na minha dúvida – bom, agora eu realmente tenho que ir para casa.
– Será que posso acompanhar? Sai pra caminhar, mas o sol está insuportável.
Caminhamos pelos os próximos minutos lado a lado, sem nenhum de nos dois falar uma palavra, deixando a situação ainda mais constrangedora. Ao chegar a frente da casa dele compartilhamos um abraço embaraçoso, típico de vizinhos novos e continuei a andar até chegar na frente da minha casa. Procurei as chaves, mas fui interrompida pelo celular que tocava no meu bolso.
– Oi pai – falei, logo que atendi.
Fale com o autor