Como Poderia Ser?
3 O Fenômeno da Teia Social
Ah, Paris! Uma cidade enorme com milhares de habitantes, cada um deles com suas vidas todas, de alguma maneira, inter-ligadas. Muitos chamam isso de Teia Social, é incrível. Um animal social cheio de rabiscos, frustações em suas cabeças.
Coitados.
Pessoas. Elas são um mal. Elas fazem algo perverso que é provocar o mal uma para as outras porque estão se sentindo mal. E cada vez mais, descontam seus sentimentos podres uns nos outros, a Teia Social atua bem aí.
Uma risada maligna voa pelo ar. Mas do que estava reclamando? Era isso que lhe permitia fazer o que fazia, era através de sentimentos tóxicos, pessoas sobrecarregadas emocinalmente que o permitia fazer o que faz. Eles apenas facilitavam.
Mas mesmo assim teve de jogar fora aquele último garoto. Que pena! Criativo do jeito que era, renderia um bom soldado... porém sentimental demais.
O homem alto e esguio olha seu kwami comendo depois de mais uma tentativa fracassada de convencer-lo a não usar seus poderes para tal objetivo.
— Você matou aquele garoto! — espantou-se o cabeçudo roxo que não parava de voar de um lado para o outro. Isso o estava irritando. Não estava ali, em sua torre para ser obrigado a assistir um surto de seu kwami.
Olhou o relógio, tinha de cumprir com suas obrigações. Desabotoa seu miraculous de sua roupa e o guarda no bolso interno de seu paletó, fazendo com que o kwami suma instaneamente.
Bem melhor agora.
Caminha calmamente até a porta e desce as escadas.
...
Chloé era alguém conhecida por seu caráter um tanto diferente. Causadora, seria uma boa palavra para descrevê-la. Incorporava uma cor linda e alegre, o amarelo. Em seus cabelos super bem cuidados, nas suas roupas de marcas famosas, e em seus óculos escuros com armação amarelo. Até sua pele brozeada artificialmente, lembrava a cor.
A primeira coisa que Chloé gosta que as pessoas saibam sobre ela é sobre quem é seu progenitor masculino, que no caso, seria o prefeito da cidade. Não era lá muito honesto, como todo político que se preze, mas era o que a cidade tinha.
Ou ainda: era o que sua filha tinha.
Dá uma última olhada no uniforme oficial feito sobre medida da Ladybug em um compartimento especial. Era uma fã nata daquela joaninha, diga-se de passagem. Não. Era A Fã de Ladybug.
Isso. Com letras maiúsculas para dar o mínimo de destaque que merecia. Ou era assim que pensava.
Ainda estava de noite, naquele dia em particular havia sido estressante, sua amiga tinha se virado contra ela, não querendo fazer o trabalho sem ela, como o de costume, mesmo dessa vez Sabrina tendo a Marichata para ajudá-la. Trouxa.
Chloé duvidava se Marinette sabia que Sabrina poderia cuidar daquilo sozinha, e se soubesse, provavelmente não faria diferença pois, ao que parece, ela tem alguns neurônios a menos. Ela já brigara com Chloé por causa de um mísero chiclete! Além de ser supercafona tinha um péssimo gosto para se vestir, isso vinha naturalmente incluso no pacote junto com aquelas marias-chiquinhas que Marinette perambulava no cabelo. Sério, quem em plena consciência com mais de sete anos ainda usa marias-chiquinhas?
Isso não importa, não iria ficar gastando energia pensando nela. Tinha uma limpeza de pele marcada dali a algumas horas e teria também de tratar seus cabelos que foram drasticamente bagunçados por aquele akumatizado na lá biblioteca da escola mais cedo. Como antes do Sol se por, Chat noir tinha dito que ela não estava mais em perigo, voltara a ficar sozinha em seu quarto.
Ela vai até a suíte para que hidratem o cabelo dela, depois que coloca a touca para esperar que o creme faça efeito, Chloé entra na banheira já cheia, liga a televisão da suíte com acesso a internet e entra no Ladyblog, a essa altura Ayla já deveria ter feito alguma matéria sobre Ladybug e Chat noir derrotando o akumatizado. E estava certa: tinha um vídeo postado recentemente; ela seleciona o vídeo para abrir.
"Oi, a todos que acampanham o Ladyblog! Nesse exato momento, tou indo pro lugar que interditaram por causa da luta da Ladybug contra o Ilustrador do Mal, não é demais?" falava ela enquanto se filmava, ao fundo dava para ver Sabrina passando para o lado oposto de Ayla "Chegamos!", agora para de mostra-la para mostrar uma confusão de policiais e repórteres em cima da fita da qual está escrito "Não ultrapasse". A câmera começa a tremer enquanto ela vai tentando chegar o mais perto possível da faixa, é possível ver Chat noir conversando com o pai de Sabrina sobre algo. Ayla tenta chegar perto, mas não tem muito sucesso. Uma barulheira no áudio com uma alavanche de gente furiosa.
Do outro lado da câmera dava para ouvir ruídos do que seria Ayla tentando fazer perguntas ao herói de preto. A imagem é editada para quando um garoto ruivo enrolado em uma espécie de manta que lembrava alguém de sua sala indo em direção dos policiais. A essa altura, Chat noir já havia ido.
Os minutos se passam e a filmagem acaba, Ayla não tinha conseguido muita coisa dessa vez. Desliga a televisão, se levanta e vai enxaguar seus cabelos.
Já de banho tomado e cabelo arrumado, Chloé vai até seu quarto e decide conversar com seu amigo Adrien, mas como ele não estava online, ela acaba desistindo.
Solta um suspiro sem saber o que fazer. Quem sabe tirar umas fotos não a ajudaria?
Sempre pensara que quem teve a ideia de colocar uma câmera na parte da frente dos celulares era um verdadeiro gênio. Porque além de conseguir se enquadrar melhor nas fotos por conseguir se ver, também dava um bom espelho na falta de um e não ter de ficar dependendo do mal julgamento dos outros para saber de si própria em questão de aparência.
E lá estava sua belíssima imagem.
Quem estava tentando enganar? Sabrina provavelmente ainda estava ocupada fazendo aquele trabalho inútil. Já tentara convencer seu pai de era boa demais para frequentar a escola, mas o resultado foi que em vez de sair de vez do ensino, foi apenas trocada de escola. Em uma escola cara para os padrões de Paris, e por isso tinha alguns parentes de pessoas famosas.
Mas, inconscientemente, a garota foi se rendendo à noite em sua cama enorme agarrada ao seu ursinho de pelúcia.
E seus sonhos foram um monte de fumaça amarela com listras pretas, assim como ela.
...
Preto.
A noite estava preta, observou ele, não completamente preta, é óbvio. Nada era completamente preto, talvez um azul tão escuro que parecesse que o céu estava preto. Um negro tão quieto, as luzes da cidade ofuscavam as estrelas ali contidas em uma erradiação que demorava anos para chegar até os seus céus para ser ofuscada pela luz da vida moderna.
Pensara que teria estrelas, algo quase tão profundo quanto Noite Estrelada. Sabia que era pedir muito, mas o que custava acontecer pelo menos hoje, no dia de seu aniversário em que passara o dia inteiro em um enorme apagão de memória. Disseram-lhe que fora akumatizado. Ainda não tinha dado tempo para digerir a informação toda. Ou pensar qualquer coisa sobre o assunto.
Será que sua avó tinha sentido sua falta? Há alguns minutos atrás tinha vomitado bem na frente do borrão da Ladybug, ainda não se sentia bem.
Mas que aniversário!
Nathaniel sabia como era um akumatizado e como eles agiam, era o que passava na TV, era sobre o que as pessoas da escola falavam. Inevitavelmente Ladybug e Chat noir acabavam virando assunto.
Depois de ser cuidado pelos policiais, segue o caminho para casa. Será que já era muito tarde para aproveitar o restinho do aniversário de 14 anos em casa com a família? Não estava com sua bolsa da escola, percebeu, provavelmente deixara todo o seu material lá no colégio. Mas que bela porcaria...
Atravessa a rua e percebe Sabrina, também indo para algum lugar. Cada um continua sua caminhada se separando.
Chega em casa, e encontra sua avó Amélie sentada no sofá enquanto falava alto com uma de suas mães, que pelo visto, estava na cozinha.
— Mas eles não têm mais programa fixo pro horário mais não? — ela desembrulha uma bala e joga na boca — Já é a quinta vez nesse mês que mudam o programa do horário. Isso já tá ficando irritante... — Nathaniel entra na sala — Oiii, Nathie, querido, feliz aniversário de novo! Como se sente estando um ano mais próximo de ter peles flácidas, rugas e ser subestimado por adultos que acham que só porque você vai estar velho, quer dizer que está cheio de dor que nem o...
— MÃE! — censura Laurence chegando da cozinha — Assim você vai traumatizar o meu filho e olha que ele mal virou adolescente.
— ... e isso se ele viver o suficiente para ficar velho e flácido. A menos que ele tenha puxado o meu lado da família — ela entona com orgulho a voz — e envelheça lindamente que nem eu. Essa avó aqui tá inteirona!
— M-Ã-E! — chama atenção novamente da avó de Nathaniel, que por sua vez se senta do outro lado do sofá.
— Ah, querida, eu não posso discordar totalmente da minha nora preferida — Ametrine aparece na porta, enxugando um tabuleiro. Ela fazia um contraste visual perfeito com Laurence, a mãe biológica de Nathaniel: negra, exibia uma linda cabeleira cacheada e usava óculos de aparência frágeis. Enquanto Laurence era branca, tinha cabelos loiros e era considerada baixa. — Não deixe a Sophie saber disso. — ela dá uma piscadela brincalhona.
— Ametrine, você não precisa ainda ficar puxando o meu saco só pelo motivo de eu morar aqui, sabia? — responde Amélie, puxando o garoto para o seu lado e bagunçando os cabelos lisos dele afetuosamente.
— O que eu não posso saber, senhora Ametrine? — Sophie aparece atrás dela com um par de luvas térmicas.
— Nada não.
— Ah, pensei — ela dá uma olhada na sala e dá um selinho em Ametrine, em seguida pega o tabuleiro mais do que seco e volta pra cozinha.
Nathaniel consegue depois de muito esforço de desvencilhar da avó e ajeita o cabelo.
— Então, como foi o seu aniversário hoje? — questiona Laurence — Achei que fosse voltar mais cedo para casa.
— Mãe, eu... — antes dele completar a frase, a abertura do noticiário toca. E como todo noticiário, esse também começou pelo o que eles pensam que é mais importante: os heróis da cidade combatendo mais um akumatizado. Não tinha realmente imagens dele e de como ele estva:
"Hoje mais cedo houve um confronto entre os super-heróis Chat noir e Ladybug, não temos imagens do akumatizado e nem testemunhas para contar sobre o caos que deve ter causado. A única informação que temos sobre é que se iniciou em um colégio cujo nome não podemos revelar. Não há registro de feridos, o que mostra que a aliança entre a polícia da cidade e os heróis está dando resultados positivos. A área do parque com a ponte foi isolada durante a luta para que niguém fosse ferido."
— Já perceberam que foi só começar a ter esses vilões mais exóticos que eles apareceram? — comentou a avó de Nathaniel com um ar conspirador — É quase como isso tivesse sido planejado.
Laurence fica com um olhar vago, como se seus pensamentos estivessem distantes, às vezes, quando o ambiente permitia ela ficava desse jeito. Já perguntara a ela o que era mas nunca quis responder, e Nathaniel sabia que não era simplesmente um olhar como todo o resto das pessoas faziam, observara que a expressão de sua mãe era diferente quando entrava em um de seus transes. Tinha alguns desenhos a retratando assim.
Repentinamente percebe que as palavras que iria conta-la ficaram entaladas em sua garganta, pela atenção deles ao telejornal, conseguiu escapar da pergunta. Talvez ela voltasse mais tarde para ele ter que reponde-la, mas enquanto isso não acontece...
Sophie sai da cozinha com uma forma circular um cheiro delicioso, adentra a sala, põe a forma de metal tampada em cima da mesa e logo depois, Ametrine entra na sala com ambos os braços para trás. Ele se levanta do sofá para ver o que é. As três mães dele tiram a tampa ao mesmo tempo revelando um lindo bolo de choclate. Nathaniel sorri.
— Feliz aniversário, filho! — elas falam, e em seguida o abraçando ao mesmo tempo.
Amélie, se vira para ver a cena e sorri.
...
Sabrina passou todo o tempo desde que saíra da casa da Marinette na rua, pensando sobre o seu dia. Tinha gostado de passar um tempo com ela, na verdade, achava que nunca tinha trocado alguma palavra diretamente com ela até aquele momento. Por mais que fosse difícil de admitir, Marinette parecia ser alguém legal, quer dizer, ela se sentiu um pouco mais a vontade fazendo o trabalho com ela. Foi bom ter alguma ajuda para variar, não podia negar.
Mas Chloé não iria gostar muito dessa coisa toda dela tê-la achado legal, por causa de todo esse tempo em que Sabrina e Chloé enchiam a vida da garota.
Passa por Alya e põe as mãos nos bolsinhos do short. Ainda estava bastante barulho na rua, seu pai tinha lhe avisado para ficar longe da Ponte, para não correr perigo por causa do akuma e coisas do tipo. Não que isso não tivesse acontecido antes, mas achava que era justamente por isso que ele estava tomando algumas medidas a mais de segurança. Se senta em uma cadeirona na calçada.
A área ao redor da fita de segurança começa a ficar cheia, estava a alguns bons metros de distância da pequena multidão que estava se formando, e Alya também já estava chegando. Se filmando com o braço esticado enquanto ainda andava de costas. Quando Alya chega nas pessoas, que magicamente triplicaram de tamanho, some conforme vai adentrando.
Sabrina continua passando os olhos pelo amontoado e chega nas familiares orelhas de gato em cima de cabelos louros bagunçados. Nunca tinha o visto pessoalmente, por mais que estivesse longe. Reparou nos olhos verdes anormalmente destacados no céu escuro e em suas roupas coladas pretas. Que estava conversando com seu pai, a polícia depois de um tempo acabou ficando sem escolhas e acabou se rendendo a ajudar aos heróis.
Chat noir vai embora e logo depois ela viu um movimento por cima dos óculos e, ao olhar, viu que era Ladybug se pendurando pelo iô-iô habilmente pelos prédios como um bom homem-aranha com suas teias.
Agora que Chat noir havia saído, os repórteres já estavam saindo, guardando os equipamentos de filmagens e conversando entre si; assim, fazendo a multidão se dispersar quase tão rápido como se juntou, e junto com os repórteres, Alya com uma cara desapontada guardando o celular.
Sabrina se levanta e traça o caminho para casa, já na metade do caminho passa pelo garoto que a Chloé humilhou de manhã. Ela solta um suspiro, deveria fazer alguma coisa?
E continuou andando.
...
— Plagg, esconder as garras. — diz assim que chega em casa.
O processo de se separar de Adrien é como se individualizasse suas consciências, em uma desfusão. Plagg chegara a conclusão de que as palavras "fusão" e "desfusão" eram as melhores palavras que tinha encontrado nessas várias centenas de anos de transformações. Era mais do que a soma de duas partes, era a junção e melhoria de suas partes. É o tipo de coisa que os humanos nunca passariam, ou quase todos. Os portadores dos miraculous talvez, mas nunca entenderiam.
Uma parte do que criara junto com cada um deles eram desfeitas, e por que com Adrien seria diferente? A parte conjunta se desfez em alguns segundos, e quando vê, já está flutuando em círculos.
— Caramba! Aquilo que eu chamo de surpreendente. — ele para de voar em círculos, e vai rapidamente em direção ao queijo magnífico do qual se alimenta. Mas o tamanho de seu corpinho minúsculo, e o tamanho muito maior do queijo em relação ao seu corpo, fazia Adrien perguntar se o corpo era maior por dentro. Já tivera uma portadora que queria dissecar-lo para ver como funciona por dentro. Mas para o azar dela, kwamis conseguem atravessar objetos sólidos, por causa disso ela tirara o anel por um mês até ser forçada a colocar de volta pelo portador do miraculous de pavão da época.
Bons tempos...
Engole o queijo de uma vez e se permite cair no imenso sofá do quarto de Adrien.
— Nem me fale, — responde o garoto apreensivo — eu não sabia que Hawk Morth podia fazer uma coisas dessas! Quer dizer, ele nunca fez esse tipo de coisa. Por que fazer isso agora? O que mudou? — ele passa a mão pelos cabelos e se joga no sofá ao lado de Plagg. — Você viu a cara da Marine..., digo, Ladybug quando ele ficou tão fraco?
— É, eu tava lá. — diz enquanto o observa. Era engraçado essas expressões que os humanos faziam perguntando ou afirmando o óbvio.
— Caramba! — Adrien deixa sua mão pesada cair ao lado de sua perna fazendo o kwami quicar no sofá.
— Cuidado aí, cara.
— Ah, foi mal... É que isso pode mudar tudo!
— Relaxa um pouco. — ele volta a flutuar. Sabia que agora não era uma boa hora para pedir que Adrien relaxasse só que não iria adiantar se ele ficasse agitado daquele jeito.
— Como você pode me pedir pra ficar calmo numa hora dessas, Plagg?
Plagg escuta passos ao longe, alguém estava se aproximando, provavelmente Nathalie para lembrar a Adrien alguma coisa. Ele vai até a TV, pega o controle remoto e a liga...
— Agora ele não só akumatiza pessoas mas também pode as enfraquecer ou coisa pior... — continua o garoto.
Começa a trocar de canal despretensiosamente...
E os passos mais próximos.
— O que mais ele pode fazer?
Estava chegando em frente a porta.
— Cala a boca que ela chegou. — e se esconde do casaco de Adrien, que por sua vez tudo o que precisou fazer foi olhar para a TV quando escutou o barulho da porta abrindo.
"Esse é o meu garoto!", pensou.
— Adrien? — diz Nathalie enquanto entra no quarto dele — O jantar está quase pronto.
— Tá bem, vou tomar banho pra comer.
Ela o olha e torna a sair do quarto, fechando a porta.
O celular dele toca logo em seguida. Ele pega e olha.
— É a Marinette — e atende enquanto caminha para o banheiro. — Marinette? Você tá bem? — e Plagg para de prestar atenção.
A música da abertura do jornal soa pelo quarto. Plagg volta a afundar no sofá com outro pedação de queijo e escuta a repórter falar algumas mentiras.
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