Como Lidar Com Pesadelos
1 Como Lidar Com Pesadelos.
Notas iniciais
1. Tomar leite quente.
Ela segurava as cobertas com força, a respiração estava descompassada e o coração acelerado, seus cabelos longos e verdes cobriam o seus rosto, os olhos estavam molhados e ameaçavam soltar sua lágrimas.
–Pesadelo maldito! – Praguejou baixinho.
“Eu não quero desaparecer!”
Balançou a cabeça ao ouvir a voz chorosa da garotinha do seu sonho e, por impulso, levantou da cama. Estava convencida de que não conseguiria dormir tão cedo, por isso resolveu sair de lá. Continuar na cama sem fazer nada só a lembraria daquele pesadelo.
Kido andou ainda meio sonolenta para fora do quarto, se dirigindo até a cozinha. Bocejou algumas vezes e correu a mão pela parede até achar o interruptor.
Ficou apenas sentada na cadeira, aproveitando o silêncio e tentando se concentrar em qualquer outra coisa para não se lembrar do que havia sonhado.
Pena que, para Kido, aquele silêncio não durou muito tempo.
–Eeei, Kido. – Falou uma voz familiar atrás dela, tão familiar que ela nem precisou se virar para saber quem era.
–Oi, Kano. – Respondeu sem se virar.
–Como sabia que era eu? – Perguntou ao sentar do lado oposto da mesa.
–Com esse jeito idiota de falar, só podia ser você.
–Que maldade, Kido. – Fingiu estar chateado. Ela bufou.
–O que você tá fazendo aqui?
Kano sorriu.
–Eu que devia perguntar isso, sabia?
Ela virou o rosto.
–Acordei com um barulho e vim ver o que era. – Respondeu ele. – O que aconteceu?
–... Nada.
Ele sorriu mais.
–Teve algum pesadelo, Tsubomiii~? – Perguntou, dando ênfase em “Tsubomi”.
O que fez ela o fuzilar com o olhar.
–Vou tomar isso com um sim! – Falou o moreno ao se levantar da mesa e se dirigir para a geladeira.
–Cala a boca. – Ela resmungou, virando o rosto para não ter que encará-lo, mas isso não a impediu de ouvir a risadinha que Kano soltou.
Alguns minutos se passaram e Kido continuou naquela posição apenas ouvindo os barulhos de só-Deus-sabe-o-que que Kano estava fazendo atrás dela. Até que ela sentiu algo quente repousar na sua bochecha e virou a cabeça. Lá estava o seu amigo de infância, segurando um copo com um liquido branco e quente.
Leite quente.
–Toma. – Estendeu o copo. – É bom para pesadelos.
Ela franziu o cenho.
–Eu nã...
–Certo, certo. Só beba, sim? – Ele a cortou e continuou com o copo estendido na frente dela.
Uns minutos se passaram e Kido continuou parada no lugar, graças a sua teimosia. O moreno olhou para ela e depois deu um sorriso.
–Se é assim que você quer então... – Falou, tomando um gole do leite.
–Mas o qu...
Antes que ela pudesse terminar, Kano já a havia cortado pela segunda vez, só que dessa vez com os seus lábios pressionados contra os dela. A jovem teria se afastado, mas ele usara seu braço livre para segurá-la pela cintura.
Foi então que Kido sentiu um liquido quente entrando na sua boca e sem ter muita escolha, acabou o engolindo.
Leite.
O moreno continuou com seus lábios pressionados contra os dela, forçando ela a tomar todo o leite que pegara e mesmo depois de ter acabado, se deu a liberdade de prolongar o beijo mais um pouco.
E então a soltou. A jovem tentava recuperar o fôlego, as bochechas vermelhas como um tomate. Ela o fuzilou com o olhar, Kano sorriu.
–Prontinho. – Falou ao limpar um filete de leite que escorrera da boca dela.
–... I- Idiota!
2. Ganhar um beijo na testa.
A pequena se enrolou nas cobertas que segurava e se encolheu quando uma brisa gelada a atingiu. A noite estava clara e fria, a lua iluminava o jardim da frente do laboratório do professor Carvalho tão bem que ela podia ver os pokémons que dormiam lá por perto.
Coisa que ela também devia estar fazendo, se não tivesse sido por aquele pesadelo estúpido.
A loira suspirou ajeitando o cobertor ao seu redor, seu cabelo estava solto e as mechas balançavam com o vento. Ela se lembrou de como sua mãe costumava abraçá-la toda vez que isso acontecia, era reconfortante. Depois que a sua mãe se fora, ela encontrava conforto na sua amada Floresta de Viridian.
Mas como não estava lá, a vista agradável e o aroma natural que tinha aquele lugar já era suficiente. Não que Yellow não gostasse de lá, longe disso.
É só que, nenhum lugar no mundo poderia substituir sua amada floresta, mas pensar nela foi um erro já que trouxera de volta as lembranças daquele pesadelo.
–Não! – Ela exclamou, batendo as duas mãos nas bochechas. – Não pense nisso!
Pesadelos nunca têm sentido, mas isso não importa porque eles sempre serão ruins e sempre vão conseguir te arrancar da cama e deixar seu coração aos pulos.
Como acontecera com a loira, ela ainda não tinha certeza do que sonhara, mas pode-se dizer que foi uma série de imagens das piores coisas que ela poderia imaginar.
Em que uma delas, sua querida floresta era incendiada.
Um arrepio percorreu as costas da pequena e ela agarrou com mais força o cobertor.
–Não é para pensar nisso! – Exclamou.
–Yellow?
A loira congelou. Não era muito sensato ficar gritando agora, já que todos os outros estavam dormindo. Xingando-se em pensamento, ela se virou lentamente...
Para dar de cara com olhos vermelhos.
–Red? – Perguntou. – A- Ah! Desculpa, eu te acordei?
O jovem que estava na porta balançou a cabeça e sorriu.
–Não, acordei sozinho mesmo. – Respondeu ao fechar a porta e foi sentar do lado da loira. – O que houve?
–Nada demais. – Ela murmurou. – Só não consegui dormir.
–Ah... – Foi tudo o que ele disse e desviou sua atenção para o campo a frente dele.
A jovem o encarou por alguns minutos.
–Não tá com frio? – Perguntou.
...
–Eu me esqueci de trazer um cobertor. – Riu sem graça, esfregando atrás da cabeça. A pequena quase caiu para trás.
–Ai ai... Vai acabar ficando resfriado desse jeito. – Falou com uma gota.
–Desculpa...
–Toma. – Falou, levantando o cobertor. – É grande, dá para nós dois.
–Ah, posso mesmo?
–Uhum. – Respondeu, um tanto corada.
–Obrigado, Yellow. – Sorriu ele, colocando o cobertor em volta de si mesmo. Ela assentiu, ainda corada. Com isso a loira não conseguiu evitar pensar em uma das cenas do seu pesadelo.
Uma em que Red ainda continuava congelado.
A pequena encolheu com o pensamento.
–Yellow? Tudo bem? – O moreno ao seu lado perguntou, preocupado.
–Estou sim, foi só um...
–Pesadelo?
Ela olhou para ele.
–Como sabia?
–Ah, é porque você é fácil de ler.
...HAH?!
A pequena tombou a cabeça para frente.
–Desculpa por ser “fácil de ler”. – Falou em um tom deprimido. – Você diz isso, mas foi o último a perceber que eu era uma menina!
–Ei, ei! Não precisa ficar deprimida. – Falou com uma gota. – Então foi mesmo?
Ela assentiu.
–Muito ruim?
Ela assentiu de novo.
–Então, eu tenho o remédio perfeito para isso!
Antes que ela pudesse perguntar, Yellow sentiu algo quente tocar-lhe a testa e quase teve uma parada cardíaca quando percebeu que eram os lábios do moreno. Não durou muito tempo e assim que se afastou, Red sorriu.
–Minha mãe costumava dizer que o melhor jeito de se livrar de um pesadelo é com um beijo da testa.
Ele podia jurar que viu fumaça branca sair das orelhas dela, junto com o som de uma panela de pressão liberando vapor.
3. Dormir do lado de alguém com quem você se sente seguro
O jovem moreno estava estático.
Na frente dele, estava uma garota pequenina de longos cabelos negros com grandes e brilhantes olhos azuis. Em cima de uma cama cercada de bichinhos de pelúcia, rodeada por inúmeras telas de computador.
–... Alice... Você me chamou por que mesmo? – Perguntou mais uma vez.
A garota abraçou com ainda mais força o grande urso de pelúcia em seus braços.
–... T- Tive um pesadelo.
–E você me chamou as 3 da madrugada só por causa disso?
–A- Ah! Já entendi o que você está fazendo! — Ela exclamou ficando vermelha. – N- Não venha me dar lição de moral, Narumi!
–Mas você me acordou no meio da madrugada por causa de uma coisa boba! – Ele retrucou.
–Não foi uma coisa boba! – Ela gritou e depois se encolheu. – Eles passaram como um flash... Todas as tragédias que eu não pude prever, todas zombando de mim...
–Ou seja, uma coisa boba... – Ele murmurou e recebeu um encara mortal da garota. – E- Ela me ouviu?
–Eu não tenho que ficar discutindo a toa. Você é meu assistente! É sua obrigação!
–Sou seu assistente para resolver casos. – Falou.
–Não importa! Você me pertence, esqueceu?! – Ela retrucou e o garoto sentiu as bochechas esquentarem um pouco ao se lembrar daquele “pacto”.
“Seus braços, suas pernas, seus olhos e ouvidos, sua garganta, suas unhas e dentes e língua até a última gota do seu sangue, todos eles pertencem a mim agora.”
Ele suspirou.
–O Moccadito já não é o bastante? – Perguntou apontando para o urso nos braços dela.
Ela balançou a cabeça.
Ele suspirou outra vez.
–O que você quer que eu faça, então?
–Fique aqui até eu dormir.
Ele assentiu e sentou no chão de frente para a cama dela.
Alice começou a se ajeitar na cama com Moccadito ainda em seus braços, mas antes que pudesse deitar, ela parou.
E ficou lá parada.
–... Alice? – Narumi perguntou e um segundo depois a morena de olhos azuis se virou para ele, completamente vermelha.
–Não no chão... – Murmurou.
–... Perdão?
–E- Eu não quero você se queixando depois que está com dor nas costas e a culpa é minha! – Exclamou, olhando para o lado. – Por isso, pode dormir na cama.
Bom, menos mal.
–Mas não cheire os meus lençóis!
–E por que eu faria isso!? – Ele retrucou, xingando Hiro em pensamento por ter dado aquela falsa ideia a Alice.
–Pode subir... – Ela falou e ele assim o fez hesitante. Não era a primeira vez que eles dormiam juntos, mas ainda assim.
Estavam os dois deitados, um de frente para o outro com o grande urso de pelúcia no meio deles. O moreno olhou para a garota a sua frente, ela estava de olhos fechados e os fios de seu cabelo caiam sobre a sua pele pálida.
Narumi não pode deixar de pensar que ela ficava bem bonita assim, mas logo depois sacudiu a cabeça.
–Para de se mexer, Narumi. – Ela reclamou ainda de olhos fechados.
–... Desculpa.
Alice era teimosa, desajeitada para qualquer coisa que não fossem os seus casos, tinha uma língua afiada, orgulhosa e não se importa com sua aparência ou sua saúde. Mas apesar de todos esses defeitos, Alice era determinada, inteligente, confiável e dedicada.
E uma detetive simplesmente incrível.
–Ei, Narumi...
–Hm?
–... Obrigada.
E depois de alguns minutos, ele ouviu um suspiro baixo. Alice caíra no sono.
Porém isso não impediu a pequena garota de chegar mais perto e segurar a mão do jovem que estava por cima do Moccadito.
O moreno não conseguiu evitar de dar um pequeno sorriso.
–De nada, Alice. – Murmurou Narumi, segurando a mão dela de volta.
4. Receber um abraço caloroso
Uma bela moça de cabelos avermelhados jazia deitada com as mãos sobre o peito, ela sequer se mexia...
E nem respirava.
Um homem de aparência imponente e olhar afiado se virou dando as costas a um garotinho que estava de joelhos no chão frio sob a chuva forte.
E nem mesmo olhou para trás.
O ruivo levantou em um pulo, seu coração batia rápido e suas mãos suavam. Seus olhos prateados assustados esquadrinharam o local e levou alguns minutos para perceber que estava na cama de um dos aconchegantes quartos do Centro Pokémon.
Apenas isso.
Nenhum leito de morte ou uma chuva forte caindo sobre a sua cabeça.
Nada.
Ele levou as mãos ao seu rosto e soltou um rosnado baixo.
–Que droga...
–Silver...? – Murmurou baixinho uma voz do lado dele, fazendo o jovem se virar.
A morena que dormia ao seu lado se sentou também e levou uma das mãos até a boca para cobrir um bocejo, seu cabelo estava solto e bagunçado.
Ela o olhou com seus olhos castanhos e sonolentos.
–Tudo bem?
Ele assentiu.
–Verdade? Você estava se remexendo muito.
–... Eu estou bem. – Resmungou, amaldiçoando em pensamento a ideia dela de juntar as duas camas. Ele protestou sobre isso, mas a jovem o ignorou completamente. – Foi só um sonho ruim.
–Pesadelo, você quer dizer. – Ela falou ao coçar o olho esquerdo.
–... Que seja.
Silêncio.
–Foram os seus pais de novo? – Perguntou ela e no minuto que dissera aquilo, viu o corpo do ruivo tremer por um segundo. – Acho que vou encarar isso como um sim.
Ele virou o rosto e a jovem suspirou. Foi então que uma ideia apareceu na mente de Kotone.
–Se é assim, então já sei como resolver! – Ela estendeu os braços com um sorriso de orelha a orelha. – Vou te dar um abraço!
...
–Não, obrigado. – Foi a resposta que ele deu, mas com as bochechas levemente rosadas.
–Aaah! Deixa de ser chato, Silver! – Ela falou, agarrando os ombros do garoto.
–Ei, não! Para com isso, Mulher! – Ele exclamou, tentando se soltar.
–Vem aquiii!!
Depois de alguns minutos de discussão, puxões e até um pouquinho de chantagem emocional, os dois estavam deitados de novo, com a morena com um sorriso no rosto enquanto abraçava o ruivo teimoso contra o seu peito e este podia ouvir com clareza os batimentos dela.
–Droga... – Resmungou vermelho como um tomate. – Mulher irritante...
–Como eu disse antes, deixa de ser chato. – Falou enquanto afagava a cabeça de Silver, desarrumando seu cabelo. – Agora, você não precisa se preocupar com pesadelos.
Nunca em sã consciência Silver admitiria, mas não era tão ruim ter Kotone o abraçando assim com as batidas do coração dela o acalmando ao poucos.
–... Q- Que seja. – Resmungou pela segunda vez, retribuindo o abraço.
5. Falar dele com alguém que confia
Sniff... Sniff...
Era um som muito baixo.
Sniff... Sniff...
Tão baixo que passaria despercebido por qualquer um.
Sniff... Sniff...
Entretanto, ele conseguiu ouvir.
Olhos verdes se abriram preguiçosamente, o dono dos tais olhos bocejou e se virou para encarar o teto. Ele estava deitado em uma cama no canto de um quarto escuro.
Era de noite e tudo estava quase silencioso, se não fosse pelo pequeno som que acordara o jovem, ele se levantou devagar para se sentar. Os olhos verdes correram pelo quarto tentando encontrar a origem do som.
Até parar em longos cabelos lilases do outro lado da cama.
A dona dos tais cabelos estava de costas para ele e parecia vir dela o pequeno som, ele notou que a jovem tremia levemente.
–Kirigiri-san...? – Ele chamou, um tanto preocupado.
O que viu em seguida não fez nada além de estourar essa preocupação como uma bomba.
Depois de ouvir o tom baixo dele falando o seu nome, a garota se virou hesitante. E apesar da falta de iluminação do quarto, ele pode ver com muita clareza as finas linhas de lágrimas descendo pelas bochechas dela.
–Desculpe, Naegi-kun, por te acordar... – Murmurou baixinho.
Naegi não pensou duas vezes para se aproximar da jovem e limpar suas lágrimas com a manga da blusa que usava.
–Kirigiri-san, o que aconteceu? – Ele perguntou com uma das mãos sobre a bochecha direita dela, Kirigiri deu um sorriso pequeno, aproveitando o calor que a mão dele emanava.
–Foi só um... Sonho bobo...
O jovem a olhou por um par de minutos e depois suspirou. “Sonhos bobos” era como a garota de cabelos lilases costumava chamar seus pesadelos.
Aqueles pesadelos.
Não era surpresa que isso acabasse acontecendo, devido a tudo que passaram naquela maldita escola. Ele próprio já acordara diversas vezes por causa dos seus “sonhos bobos” e até mesmo alguém forte como Kirigiri não estava livre deles.
–Tudo bem, já passou. – Ele falou em um tom calmo para assim acalmá-la, mas não foi o suficiente já que ele reparou mais finas lágrimas descendo pelas bochechas dela.
Geralmente, era ele que acabaria chorando por causa desses pesadelos e ela que o confortaria como ela sempre faz. Só que agora era o contrario e por mais que ele soubesse que não era muito bom nisso, ele tinha que fazer isso por ela.
–Então... Por que você não me conta como foi? – Naegi perguntou e ela olhou para ele, incerta. – Você se sentirá mais leve se fizer isso, não é?
Silêncio se seguiu depois dessas palavras e por isso ele começou a se arrepender de tê-las dito.
–B- Bem se você não qu...
–Execução...
–Eh?
–Eu sonhei com aquela execução... Com aquele julgamento de novo... Mas dessa vez... Não tinha como escapar... – Ela não precisou terminar, Naegi já havia entendido.
O quinto Julgamento Escolar, o julgamento falso forjado para incriminar a Kirigiri propositalmente.
–T- Tudo bem... Ele não conseguiu o que queria, você não foi ex...
–Eu não disse que a pessoa executada era eu.
Naegi congelou. Sua mente começou a ligar os pontos devagar.
–Mas então por que você... Ah. – Ele sentiu as bochechas esquentarem. Kirigiri levou sua mão aos olhos e limpou ela mesma as ultimas de suas lágrimas e olhou para o moreno a sua frente, com um sorriso pequeno no rosto.
–Você tinha razão, Naegi-kun. De alguma forma, me sinto mais leve agora.
O garoto deu um sorriso e esfregou atrás da cabeça, sem-graça.
–D- De nada...
Kirigiri continuou com seu sorriso no rosto e depois deitou a cabeça de novo no travesseiro, seguida do jovem que desta vez deitou de frente para ela.
–Mas sabe... Você não precisa ser tão formal, pode me chamar pelo meu primeiro nome.
Isso pegou o jovem de surpresa. Bom, de certo, já estavam há um bom tempo juntos e ainda se referiam um ao outro pelos seus nomes de família.
–Então, o mesmo vale para você. – Ele falou ao segurar as mãos dela. – Kyouko-san.
Ela sorriu.
–Tudo bem, Makoto-kun... – Respondeu, fazendo Naegi sorrir mais e dar um leve beijo em sua mão que ele segurava.
6. Conversar sobre alguma coisa para se acalmar
A jovem chutou uma lata vazia enquanto andava pela rua deserta. Era de madrugada e ela ainda estava de pijama, apenas com o casaco por cima, ela ajeitou os cabelos loiro-acinzentados e suspirou.
“Não somos amigas, não é Ichiko-chan?!”
E parou de repente ao se lembrar do rosto da garotinha que dissera aquilo.
No minuto seguinte, ela deu um chute tão potente na lata que o projétil fez um buraco no muro mais próximo.
–Urgh! – Ela rosnou, se lembrando da “amiga” que tinha quando era mais nova. – Droga de pesadelo!
Ela continuou andando pela rua se perguntando por que raios ela tinha que se lembrar daquilo logo agora? Por culpa daquela Kurumi, bem antes dela conhecer a Ranmaru, Ichiko passou por um bom tempo sem conseguir confiar em ninguém além de si mesma ou no seu mordomo Suwano.
Sem nenhum amigo além do Suwano.
–Ah. – Debochou. – Que me importa is...
Mas foi interrompida quando a sua atenção se voltou para uma loja luminosa a sua frente.
–Eh? Sakura?
E um rapaz alto de cabelos loiro-escuros que ajeitava uma placa na vitrine.
–Ah, Tsuwabuki.
–O que tá fazendo aqui a essa hora da noite? – Perguntou, caminhando até ela depois de terminar de arrumar a placa.
–Eu é que devia perguntar isso.
Ele apontou para a loja.
–Tô trabalhando.
–Ah, é. Você trabalha toda noite. – Ela lembrou, cruzando os braços.
–Então, vai responder a minha pergunta?
–Hunf... Só estou passeando.
–Ás três e meia da madrugada?
–É! Ás três e meia da madrugada, problema? – Exclamou com uma veia saltando em sua testa.
...
–Foi um pesadelo?
–HAH?! Como você descobriu?!
–... Foi chute.
Ela o encarou por alguns minutos e depois suspirou.
–Tá bom, foi um pesadelo sim. E daí? – Ela perguntou ao se sentar no banco que tinha de frente a loja, ainda de braços cruzados.
–Nada, ué. – Ele respondeu, dando de ombros. – Ah.
E logo depois se afastou indo em direção ao outro lado da loja.
Ichiko olhou para cima e deu outro suspirou longo, dessa vez, um pouco irritado. O céu estava pontilhado com diversas estrelas, as ruas estavam quietas e só vez ou outra passava um carro.
–Pelo menos aquela binbougami não veio me...
Mas parou quando algo gelado tocou a sua bochecha.
–IAU! – Exclamou e virou a cabeça para o lado, prestes a gritar com aquele que assustar.
Até que percebeu que era só uma caixa de achocolatado.
–Eh?
–Aqui pode tomar. – Falou Tsuwabuki, entregando a caixa para ela.
–Mas por quê...?
Ele deu de ombros.
–O Ryuu sempre toma quando tem pesadelos, então acho que pode te ajudar.
Ela o olhou por um tempo, mas depois deu um sorriso debochado.
–Há! Não é como se eu precisasse de...
–Toma logo.
–Tá. – E furou o buraco com o canudo.
–Sinceramente, esse seu jeito não vai mudar nunca.
–HURNF! – Bufou com o canudo na boca.
–Bom, acho que tudo bem... – Ela olhou para ele. – Senão não seria a Sakura.
–Vou tomar isso como um elogio.
Ele deu de ombros e assentiu, depois voltou a terminar de arrumar as placas na vitrine da loja. Ambos ficaram quietos com o ar sendo preenchido somente pelos sons dos carros que passavam e o barulho do chocolate sendo sugado pelo canudo.
–Ei... Tsuwabuki.
–Hm?
–Como estão os outros? – Ele olhou para ela. – Sabe? Seus irmãos.
–Ah. Estão bem. Apesar de tudo que aconteceu, mas com a Rika cuidando tudo vai ficar tudo bem.
–E o Sorata?
–Ah, ela tá ótimo. – Sorriu, ela sorriu de volta.
–Entendo, que bom... – Ela tomou o ultimo gole de chocolate. – Deve ser bom ter todo mundo junto de novo...
–Hã?
–Nada! – Exclamou, tentando esconder o que acabara de falar.
Ele piscou um par de vezes e voltou a arrumar as placas, embora tivesse ouvido muito bem o que ela dissera. O rapaz deu um sorriso pequeno.
–Ela mudou mesmo, eeh. – E se levantou. – Mas sabe, Sakura, isso não vale só para mim, não é?
–Hm? – Ichiko se virou para olhá-lo, confusa.
–Isto é, estar junto de pessoas de quem gosta. – Explicou. – Isso também vale para você, certo?
Ela ficou quieta, sua mente se lembrando aos pouco de todos os amigos que tinha agora. Ranmaru, Nadeshiko, Tsubabuki e seus irmãos... Até mesmo aqueles pervertidos do Bobby e Momou. E talvez, até aquela loira maldita da Momiji que vive virando a vida dela de pernas para o ar. Ao se lembra de tudo isso, não conseguiu conter o sorriso.
–É, acho que sim...
Outro espaço de silêncio se seguiu, um silêncio confortável. Tsuwabuki terminou de ajeitar a ultima placa e Ichiko afundou o canudo dentro da caixa.
–Hm... Por acaso, uma das suas “pessoas de quem se gosta” sou eu? – Perguntou com um sorrisinho no rosto.
–... Quem sabe.
–Ah, claro que é. – Falou em um tom presunçoso, mas divertido.
–Convencida.
–Hunf~ — Continuou no mesmo tom de antes e levantou do banco, jogando a caixa na lixeira mais próxima. – Bom, você é uma das minhas.
–Eh? – Ele olhou para ela.
–Hah! Sinta-se grato por isso então. – Falou para ele, com o seu mesmo sorriso presunçoso de sempre, mas com uma pequena dose de brincadeira.
–Certo, certo. – Respondeu Tsuwabuki com uma gota. – Como quiser...
Ela deu uma risada.
–Boa noite, Tsuwabuki. – E se virou, caminhando para a direção que viera.
–Boa noite. – Respondeu, vendo a garota partir e logo depois entrou na loja assim que foi chamado pelo seu chefe. Ichiko voltava tranquila pelo seu caminho, sentindo-se bem mais leve e despreocupada que antes.
Heh, quem diria que conversar um pouco e chocolate poderiam mesmo ajudar?
7. Tente transformar em alguma coisa engraçada
A jovem de cabelos azuis escuros levou a xícara de chá aos lábios e tomou um gole. O liquido quente desceu pela sua garganta, aquecendo-a e lhe dando uma sensação relaxante.
Ela colocou a xícara de volta no pires em cima da mesa e suspirou. Levou seus olhos azuis a olhar pela janela, estava escuro como piche, mas apesar disso dava para saber que todos os pokémons estavam dormindo calmamente, pelo murmúrio que vinha do lado de fora.
Queria Crystal também estar dormindo tranquilamente assim.
Mas graças aquele sonho ruim e sem sentido que tivera, ela estava bem longe de estar sonolenta. Na verdade, até mesmo o seu coração ainda batia mais rápido que o normal por causa daquilo.
E chegou a aumentar um pouquinho mais a velocidade quando duas mãos apareceram por trás dela e cobriram seus olhos.
–Advinha quem...
–Eu sei que é você, Gold. – Respondeu seca, de uma vez só. Lentamente, as mãos descobriram seus olhos e duas orbes douradas apareceram para as suas cristalinas.
–Assim não tem graça, Crys.
–Então, você que arrume um jeito novo de me surpreender.
O garoto suspirou e levantou a cabeça, depois sentou na cadeira ao lado da jovem.
–Não, não. O “Advinha quem é” é um clássico. Não dá para abandonar.
–Sei, sei... – Murmurou ela.
Gold deu um longo bocejo e olhou para ela.
–Então, por que a garota séria não está na cama, hm? – Perguntou, fixando seus olhos dourados nela.
–Por nada, só um pesadelo bobo. – Falou ao pegar a xícara mais uma vez. – Por que você não está na cama?
–Aah, é que eu não consigo dormir sem o meu travesseiro de corpo pessoal.~
–Vou te dar um soco.
–Calma, calma. – O moreno falou com uma gota, levantando as mãos em sinal de derrota. – Um pesadelo, hein? O que aconteceu?
Ela colocou a xícara vazia em cima do pires e deu de ombros.
–Eu não sei direito. Fui ruim, mas sem sentido nenhum. – Ele piscou um par de vezes. – Sabe, aconteceu algo assim: Eu estava no laboratório, fazendo as tarefas como sempre e então do nada ficou tudo escuro e ouviu gritos. Então um buraco se abriu sobre os meus pés, eu cai e dei de cara com o orfanato em chamas. Eu fiquei desesperada, mas as crianças não estavam lá dentro e sim, sendo levadas em uma carroça por alguns Tauros, só que eles estavam vendados e corriam muito rápido. Então, eu acordei.
Crystal se virou para encarar o jovem ao seu lado e ficou surpresa com o olhar confuso que este lhe dava.
–Eita, Crys... – Ele segurou o riso. – Que imaginação você tem.
–N- Não é culpa minha, ok? – Respondeu franzindo o cenho, mas corada.
–Certo, certo. – Ele levou a mão ao queixo e ficou parado por um tempo. Antes que ela pudesse perguntar o que ele estava fazendo, Gold levantou o dedo indicador. – Já sei, pense assim ó: Os Tauros vendados foram interceptados por um bando de Spearows que arrancarram a venda dos olhos deles, mas mesmo assim eles não pararam de correr. Foi aí que um Smoochum gigante apareceu e pegou todos os Tauros, aí ele fez carinho neles e eles se acalmaram. Daí ele tirou as crianças da carroça e todos resolveram tomar chá e te chamaram. Pronto. Que tal?
A jovem de cabelos azuis escuros piscou e levou uma mão a boca.
–Pffft... – Mas não demorou muito para ela não conseguir conter o riso. O moreno sorriu também, satisfeito e adorando ouvir aquela risada. – Smoochum gigantes? Ahaha, de onde você tira essas ideias?
–Eu sei lá. – Ele deu de ombros. – Mas funcionou, ué. Você tá rindo, se sente melhor?
Ela parou de rir um pouco e ficou quieta. A sensação desagradável que a incomodava tinha ido embora e tudo que sobrava foi aquela falta de ar que se sente quando se dá uma boa risada.
–Na verdade, sim. Obrigada. – Ela sorriu. Ele colocou os braços atrás da cabeça e se encostou no assento da cadeira, relaxado.
–Pesadelos podem ser muito estressantes, por isso, nada melhor que transformá-los em uma coisa engraçada. Assim, você não precisa se preocupar.
–Entendi... – Ela falou. – Até que ser palhaço serviu para alguma coisa.
–Ah, mas cla... Eeei! – Reclamou com as bochechas vermelhas, fazendo-a rir mais. – Engraçadinha.
–Hunf. — Ela sorriu, um pouco corada. Ele acabou sorrindo também e bocejou.
–Tudo bem, eu vou dormir. – Falou ao se levantar. – Você vem?
Crystal não estava com sono, mas não tinha mais o que fazer ali, ficar deitada até amanhecer não parecia uma ideia tão ruim, por isso deu de ombros e se levantou. Depois que colocou a xícara na pia, foi junto do moreno de volta para o quarto.
–Agora vou dormir sem problema com o meu travesseiro pessoal comigo~
–Gold!!
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