Notas iniciais
Boa leitura.

Como eu poderia descrever o indescritível, onde cada palavra que eu disser não irá nem sequer chegar perto dos pés? Palavras não são suficientes para expressar a admiração ocorrida com ela. É clichê, eu sei. Mas nada que eu fale irá trazer a você o sentimento que eu tive ao conhece-la. Poderia lhe dizer a roupa que ela estava vestindo. A cor do batom. Como estava o cabelo e a maquiagem. Posso te dizer o dia e a hora exata, o local também. Mas não vai ser o suficiente. Posso dizer que ao avistá-la, eu não vi as amigas que estavam a sua volta. Eu apenas a via, e mais ninguém.

Meu coração disparou. Minhas pupilas dilataram, segundo o meu futuro amigo. O copo que eu estava segurando quase caiu, porque a força se esvaiu do meu corpo e voltou em menos de um segundo. O ar pareceu ficar mais pesado. O tempo, parado. Depois de tanto tempo sofrendo por um amor acabado, uma nova fagulha começou a incendiar algo dentro de mim. Quem dera eu soubesse o sofrimento que viria. Os gritos que eu escutaria. A felicidade que apareceria. Mas na hora, nada disso importado. Eu havia conhecido a garota que seria a próxima a acabar comigo.

Não que eu tenha pensado nisso na hora, é claro. Eu só pensava em como falar com ela. Em como eu poderia pegar o seu telefone. Beijá-la. Levá-la para minha cama. Eu não queria mais nada senão ela. Até a mulher mais bela não seria comparável a sua beleza. Nem as Nove Musas chegariam a tamanha graciosidade e realeza. Você deve estar se perguntando quem é ela. Ou até mesmo quem sou eu, não é? Eu ainda vou contar, não se preocupe. Quero apenas que você fique com a mesma imagem que eu tive.

Devagar, ela entrou naquela festa. Uma festa pequena, mas era uma festa. O som estava alto, as bebidas eram baratas, mas ainda assim, era álcool, e era de graça. A cada passo que ela dava, meu coração batia junto. Parecia que estava no meio de uma dança, daquelas que você não consegue nem olhar de tão fora do ritmo que é. Eu sabia que nada daria certo entre nós. Não tem como acontecer. Você acha que sou o nerd que no fim fica com a moça popular da escola, não é? Nem de perto você acertou, se é isso que pensou. Também não sou o aluno fodão, que pega todas as que quiser. Por favor, não me denigra assim. Se essa história fosse sobre mim, eu diria que eu sou eu. Só me conhecendo para saber como sou. Talvez você capte um pouco da minha essência. Talvez você me veja como eu me vejo. Ou então, você nem perceba. Eu sou apenas o narrador, não tenho importância.

Tudo isso ocorreu no meu primeiro dia na faculdade. Alguns alunos se juntaram e fizeram uma festa em casa, em comemoração à nossa entrada. Não era muito longe e, saindo do trote um pouco tonto e sem ter nenhum compromisso no dia seguinte, que mal me faria ir beber mais um pouco, não é? Como conheci alguns alunos do meu curso que também iriam, assim fui, aos pequenos tropeções. A casa era de uma das veteranas do curso de veterinária, a alguns quarteirões do bar onde ficamos por algum tempo. Eu não a conhecia, porém ela era amiga de uma das garotas que estudaria comigo. Não era muito grande, cerca de quatro ou cinco cômodos, não sei dizer ao certo. Minha percepção não estava muito boa, já que eu só queria focar a cozinha, que era onde se encontrava o que mais me interessava no momento: álcool.

Bebi como nunca havia bebido antes. Misturei tudo o que tinha, desde vodka até a boa e velha cerveja, que estava quente, infelizmente. O que vale destaque é a música. Tocava eletrônica, o que me fez tentar dançar feito um idiota. Não sei como não derrubei nada, pois a música me contagiava de uma forma que eu não conseguia ficar parado um minuto sequer. Conheci várias pessoas no local. Fiquei com algumas garotas, mas nada muito fora do normal. Eu tinha 19 anos na época. Desde o ocorrido não se passou muito tempo, mas vale ressaltar que hoje eu tenho 21. Não lembro o nome de nenhuma, infelizmente, mas durante esse tempo que se passou, eu as vi algumas vezes pelos corredores e festas seguintes. Acho que devo ter ficado com duas algumas outras vezes na mesma noite. Mas tudo parou quando ela chegou.

Creio estar devendo uma explicação de como ela estava. Como já disse, palavras não serão suficiente, mas tentarei.

Ela não passava de uns 19 ou 20 anos. Seus cabelos não eram muito grandes, chegava até o começo dos ombros. Tinham uma cor que misturava o preto com o castanho e o loiro. Não sei definir ao certo, me desculpem. Seus olhos eram de um castanho não muito escuro, não chegando a ser claro também, mas tinham algo neles, uma certa malandragem, um certo querer. As maçãs do rosto foi o que mais me atraiu, misturado com seu sorriso alegre. Eram acentuados do resto do rosto. Somente quem já viu pode descrever. Os lábios estavam com um batom claro, quase parecendo natural. Seu rosto era lindo de se ver. Estava com uma camisa xadrez verde e branca entreaberta. Por baixo usava um top preto, junto de um colar com o símbolo da psicologia, o tridente. Usava um short jeans até metade das coxas, rasgado em forma de detalhes e um Converse preto. Seu corpo não era dos mais chamativos, mas ainda assim, belo a sua maneira. Não é a hora de descrevê-lo, posso adiantar.

Durante toda a festa, nossos olhos não se encontraram. Não por minha causa, posso adiantar. Em nenhum momento eu havia me encantado tanto com alguém, nem com nenhuma das minhas exs. Ela ficou em um canto da sala, rodeada pelas amigas, que não paravam de dançar. Eu não sabia como poderia quebrar aquela barreira que me separava dela, mas ainda havia uma esperança. Ela fazia o mesmo curso que eu.