Eu estava na calçada de casa, a noite, olhando as ofertas de emprego do jornal, quando ela apareceu. Eu já a tinha visto antes. Era uma vizinha nova, passou a morar na vizinhança há dois ou três dias. Um carro militar a levava ao trabalho, devia ser oficial. Veio em minha direção e parou ao meu lado, me observando.

— Olá – cumprimentei.

— Olá. Eu sou a vizinha nova, Emily.

— Prazer, Emily, eu sou Fred. De onde você veio?

— Da terceira casa, antes de virar a esquina.

— Não, não. Eu digo, antes de se mudar para cá?

— Ah, O Jogador me criou, como a todos nós.

— oh, claro.

— Qual o problema?

— Eu não acredito n’O Jogador, apenas isso. Nada contra quem acredita, cada um com sua crença.

— Não acredita n’O Jogador!? Mas as evidencias da existência d’Ele estão em toda parte!

— Quando nós nos focamos na existência dele é fácil deixar de buscar outras explicações para os fenômenos naturais.

— Claro, como as casas surgem, então?

— Elas ficam escondidas no subsolo, quando nos mudamos o governo manda elas para cima. Se existisse mesmo um Jogador nós não precisaríamos pagar por nossas casas.

— Sei, e as escadas das piscinas que desaparecem enquanto pessoas nadam?

— A água corrói o material delas.

— Chuveiros desaparecendo subitamente?

— Aliens.

Aquela mulher era mesmo persistente. Não havia Jogador nenhum, mas ela não parecia acreditar. Entrei em casa, peguei um prato de comida da geladeira e sentei para comer. Ela entrou também e subiu as escadas. Decerto ia ao banheiro. Pouco depois desceu e foi assistir televisão na sala. Terminei de comer e fui sentar no sofá da sala também.

— Muito bonita a sua casa.

— Obrigado.

— Adoro esse filme.

— Eu também, assisto quase todas as noites.

Levantamos, saímos da sala e fomos até a cozinha para conversar.

— Não vi livros, na sua casa.

— É porque eu não gosto de culinária.

— Cuidado para não morrer em um incêndio.

— Oh, não se preocupe, eu tenho sempre um extintor de incêndio dentro das calças.

— Menos mal, mas prevenção nunca é demais, né. A propósito, meu telefone é 555-9628, caso queira me ligar a qualquer momento, meu amigo.

— Obrigado, amiga.

Nesse momento Johnny, o outro vizinho e amigo meu, entrou na minha casa e foi assistir televisão. Convidei Emily para nadar um pouco. Ela aceitou, contente. Saímos de casa e fomos até os fundos, na piscina. Giramos no ar para colocar nossos trajes de banho e entramos na água pela escadinha. Eu fazia questão de trocar a escada a cada três dias para que a água não a corroesse.

Nadamos um pouco e saímos.

— Muito bom ter uma piscina em casa, sabe?

— Imagino, eu não tenho, mas tenho uma mesa de sinuca.

— Muito bom, também.

— Pois é.

— Sabe o que um peixe faz quando sente fome?

— O que?

— Nada.

Ela riu da minha piada. Quando parou, nos olhamos por um momento e então eu a abracei. Ainda estávamos com roupas de banho e sua pele era muito macia.

— Não sei como você pode ser tão legal e não acreditar n’O Jogador, Fred.

— Eu vivo a minha vida normalmente, trabalho, ganho dinheiro. Um dia após o outro.

— Você trabalha no que, Fred?

Droga! Se meu palpite estivesse certo, ela era das forças armadas. Eu não poderia simplesmente contar que sou Motorista de Fuga da quadrilha. Não depois de ter crescido tanto na carreira. Demorei bastante para ser conhecido como bom batedor de carteira. Precisava pensar em uma mentira convincente.

— Eu sou um Representante de Vendas. E você?

— Eu sigo carreira militar, mas ainda sou apenas das tropas de elite.

— Entendo.

Aproveitando a deixa para mudar de assunto, conjurei magicamente algumas bolas coloridas e fiz malabarismos. Ela aplaudiu, empolgada, gostando do meu pequeno show.

— Você é incrível, Fred.

— Ah, isso não é nada. Quer dançar?

Mesmo sem música alguma, começamos a dançar, empolgados e felizes. Estávamos realmente nos divertindo lá fora. Johnny fingia não ligar, mas eu podia ver, pela janela, que ele sentia inveja. Paramos de dançar e eu a abracei novamente.

— Sabe, Emily, você é muito bonita.

— Ah, pare com isso.

— Não, é verdade. Bonita, divertida, inteligente.

— Exagero seu.

Nos abraçamos novamente e dançamos mais um pouco. Não conseguia mais ver Johnny na sala. Devia ter ido embora.

— Você é demais, Emily.

Eu continuava elogiando e ela apenas agradecia. Nos abraçamos novamente. E depois mais uma vez. Samantha passava na calçada, mas provavelmente não pararia. Samantha e Emily possuíam o rosto extremamente parecido, assim como eu e Johnny.

Emily parecia ter reparado que eu não parava de olhar para os seus olhos e perguntou, corando:

— O que foi?

Alisei o seu braço, de leve, me aproximando. Ela não demonstrou resistência e nos beijamos. Ali mesmo, na beira da piscina, que o nosso namoro começou. Então eu a abracei novamente e beijei.

Eu amava aquela mulher. Ela era linda, divertida. Mesmo que acreditasse n’O Jogador e trabalhasse para a polícia, eu sabia o que fazer. Nos beijamos mais uma vez e me afastei alguns passos. Girei no ar, colocando o meu melhor terno e me ajoelhei, já com uma aliança na mão que sempre esteve ali. Eu a pedi em casamento. Ela girou no ar e colocou um vestido de noiva. Estava magnífica. Nos casamos ali mesmo, na beira da piscina. Ainda tenho uma foto guardada, embora não saiba quem a tirou.

Naquela noite eu conheci uma nova vizinha, ficamos amigos, namoramos e casamos. E três dias depois você nasceu, meu filho.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!