Como Em Um Sonho
23 Por uma vez
Notas iniciais
Abri os olhos lentamente. Estava abraçada com Leon, em algum lugar. No chão. Não estamos mais na cidade, porque há grama sob meus pés e joelhos. Mas na verdade não tenho certeza de que isso realmente é grama. A tonalidade furta-cor da planta me faz ficar totalmente em branco sobre o que é isso.
A grama brilhante cobre toda a extensão do local onde estamos até onde posso ver. Estamos em um tipo de meio-termo. Á nossa frente, há uma cadeia de montanhas, e atrás, uma floresta densa, as folhas das árvores do mesmo mesclado brilhante da grama. Ao nosso lado, corre um rio. Tentei chegar mais perto para examinar, tem algo estranho nele.
Assim que me movi, senti uma dor ardente atingir minha perna. Leon, que me observava em silêncio, se moveu mais pra perto de mim, e disse:
– Eu posso te ajudar com isso.
Com calma, ele me ajudou a chegar perto do rio. Examinando de perto, a água parece ter uma tonalidade arroxeada. Nunca vi algo assim. Movida pela curiosidade (e pela sede) coloquei as mãos em concha e bebi um pouco da água púrpura. O gosto... É indefinível. Só sei que a minha sede passou no primeiro gole, como se soubesse exatamente o que eu precisava. Bizarro.
– Onde estamos? – olho assustada para meu namorado, mesmo sabendo que ele está tão confuso quanto eu.
Ele balançou a cabeça, e disse devagar:
– Não sei, mas só sei que precisamos sair daqui. Essas coisasparecem fantásticas, mas não sabemos o que são. Devemos ir. – ele acaricia meu cabelo de leve, o que me tranquiliza um pouco. – consegue andar?
Balanço a cabeça negativamente, e no mesmo instante ele me toma em seus braços e se levanta. Então, assim será.
– Floresta ou montanhas?
– Floresta. – eu respondo, olhando fixamente para a cordilheira á frente. Algo parecia me dizer que a floresta era mais segura.
– Então, vamos. – disse, e pôs-se a caminhar em direção á floresta furta-cor. Á medida que ele anda, posso reparar que as cores de tudo são estranhas e psicodélicas. O sol parece ser... Rosa, e o céu alaranjado. Os troncos das árvores variam do verde-água ao azul anil. Tudo do jeito que não deveria ser. Depois de umas duas horas de caminhada ao lado do rio, que continuava seguindo pela floresta, escutamos um ruído de uma queda d'água.
Chegamos em uma cachoeira, e Leon se sentou em uma pedra, e eu ao lado dele. Ele está cansado. A única pessoa que eu tenho agora é ele, ninguém mais. Eu o observo lentamente, olhando fixamente nos olhos. Duas piscinas verdes cheias de magia, fantasia, segredo, e principalmente, amor. Subitamente, me sinto completamente atraída, quero beijá-lo, aqui, agora.
– No que está pensando? – diz ele, ainda me olhando fixamente.
– Apenas perdida nos seus olhos.
Então, ele se aproxima lentamente e sela seus lábios aos meus. Meu desejo que ele fizesse isso, em vez de diminuir, apenas aumentou. O beijo era doce, e suave, mas com uma certa urgência. Eu quero ele mais perto, quero beijá-lo mais profundamente, mas ele parece querer me conduzir com mais calma. Provavelmente por causa da minha perna ferida.
Quando finalmente nós ficamos sem fôlego, nos separamos bruscamente. Leon se deita na superfície da pedra lisa em que nos encontramos, e eu fico sentada, ambos respirando com dificuldade e rindo.
– Caramba, Violetta – diz ele, erguendo o olhar para mim – de onde saiu tudo isso?
Sorrio.
– Eu apenas queria.
Ele me olhou, se sentou, e me puxou para si, sem perder a cautela.
– Agora quem quer sou eu.
Então me beijou novamente. Agora estávamos sincronizados. Um deseja isso tanto quanto o outro. Sua mão desliza pela minha cintura me puxando mais pra perto, enquanto as minhas se concentram em bagunçar os cabelos macios dele.
Se eu pudesse, paralisaria esse momento, nunca mais sairia daqui. É tudo perfeito.
Quando nos separamos novamente, ficamos olhando um para o outro, com a respiração curta.
– Te amo – diz ele, ainda me olhando bem nos olhos.
– Te amo mais.
Ele ia me beijar novamente, quando escutamos um barulho entre as árvores. Da floresta sai um garoto vestido inteiramente de branco, seus cabelos negros ma bagunça total.
– Leon, certo? – pergunta ele, indicando Leon.
– Sim.
O garoto da floresta sorri.
– Você deve ter milhares de dúvidas, mas eu tenho todas as respostas. Se vier comigo, então. – o garoto desviou o olhar para mim, e seu sorriso sumiu. – quem é essa?
– Minha namorada, Violetta Castillo.
O cara empalideceu.
– Sobrenome... A única espécie racional que usa sobrenomes é...
Ele deu um pulo, assustado, começou a caminhar para trás, tropeçou e caiu no chão, mas continuou tentando avançar para longe.
– Humana! Fique longe de mim, por favor, não me machuca.
Leon e eu o olhamos confusos.
– Qual o problema? Eu fiquei pouco mais de um mês na casa dessa humana, e ela não me fez nada. Espera, você não é humano? – questionou Leon.
– Não, não sou. E no mundo humano ela pode ser normal, mas aqui onde estamos, ela pode se tornar muito perigosa. Eu tenho uma teoria de como vieram parar aqui... Posso explicar tudo desde que a mantenham longe.
– Onde estamos? – perguntei, entrando pela primeira vez na conversa.
O olhar do garoto se elevou.
– Para onde os sonhos esquecidos vêm, e onde são criados. Milhares de pessoas já sonharam pessoas e as abandonaram no subconsciente. É para cá que viemos. Por isso você é perigosa. É você que sonha por aqui. Tudo se tornará real. E se não for capaz de controlar a mente, pode causar uma catástrofe.
Por uma vez, Leon é normal. E a aberração, sou eu.
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