Notas iniciais
E aí, gente? Depois de um longo sumiço, trago a vocês outro capítulo de MP (também betado pela maravilhosa HinaHyuuga09) e também uns agradecimentos pela ótima recepção que tive com o prólogo. Obrigada a todo mundo! Um beijo especial para a Carina, Jadesmaiada, Yasmim Maria, Lady Romanoff e Deirdre pelos reviews ♥ Aqui vocês vão conhecer um pouco mais sobre os garotos, espero que gostem. O capítulo é um pouco mais longo, mas é um caso especial. Boa leitura ♥

1.1 Introdução

Simon Adams, a caixinha de palavrões e o plano (in)falível

30 horas antes da invasão...

O garoto de cabelos claros e óculos quadrados ajeitou-se ao redor da mesa, buscando a melhor posição. Estava com um charuto novo em sua boca e não tinha o menor interesse em acendê-lo, gostava apenas da aparência. Com o taco posicionado, mirou na bola branca e procurou o ângulo que levaria a mais um ponto. Fixou o olhar na bola amarela quase alinhada e fez sua tacada.

Mais uma para Simon.

— Sabe, Woods – comentou, virando-se para mim enquanto tirava o charuto da boca. O homem com quem jogava fez uma careta quando o loiro lhe deu as costas, claramente descontente por estar perdendo para um pivete como ele. – Se você não fosse uma merda na sinuca, eu te traria aqui mais vezes.

Com aqui ele estava se referindo ao bar do seu primo de terceiro grau, um lugar que eu não fazia questão de visitar, mas não era louco de dizer isso em voz alta. Era um ambiente quadrado com mesas próximas ao balcão do bar e com uma ala subterrânea com duas mesas de sinuca, poltronas cheirando a cigarro e cerveja, papel de parede descascado e três máquinas de fliperama ao fundo.

— Não precisa se incomodar, não – respondi, ajeitando-me na poltrona com menos cheiro impregnado.

Simon riu e balançou a cabeça, colocando o charuto novamente na boca enquanto se virava para ver o homem colocar outra bola dentro do buraco. Torceu o nariz e se inclinou sobre a mesa para tentar mais uma jogada enquanto o careca jogando com ele parecia torcer mentalmente para que ele errasse.

— Sei que o ângulo está bom, Woods – comentou meu amigo, brincando com a minha cara. – Mas por que não vai jogar alguma coisa ali? Tenho quase certeza que o pinball tem tema de Star Wars.

— Não estou muito interessado – batuquei os dedos ao som de uma música do Pink Floyd que começava a tocar assim que comentei com sinceridade. Para falar a verdade, eu não estava interessado em fazer nada e só ficar quieto enquanto repassava meu dia mentalmente parecia suficiente. Simon não concordava e, por isso mesmo, bufou, claramente entediado e mostrando que esperava uma resposta assim.

— Já falei que às vezes tenho vontade de trocar de melhor amigo?

— Acho que comenta algo parecido todo dia – disse com um sorriso de canto. Simon riu e ajeitou o taco, mirando agora na vermelha. A bola branca pegou na lateral da outra e meu amigo soltou um resmungo enquanto o homem sorria.

— Que merda, Connor. Olha o que você fez!

— O que eu fiz? – indaguei, incrédulo. – E são mais dois reais para a caixinha de palavrões, Simon.

— Dois? Só falei um agora.

— Tenho certeza que falou outro um pouco antes.

O loiro fez uma careta enquanto tentava lembrar. Quando se entediou, soltou:

— Que sejam três então: foda-se.

Revirei os olhos para meu melhor amigo, agora com o queixo apoiado no taco de sinuca enquanto assistia à jogada do careca de forma séria. Claro, seu dinheiro do almoço de amanhã estava em jogo, então perder era sinônimo de me pedir uns trocados para o hambúrguer que comia todo dia. Com nulo interesse em ter que gastar mais dinheiro com ele, torcia para que o homem errasse também.

Simon tem cabelos loiros rentes na lateral e um pouco mais volumosos em cima. Possui algumas sardas no nariz e seus olhos verdes sempre se mostram desproporcionalmente grandes quando está de óculos. O rosto redondo combina com o corpo um tanto magrelo e esguio, geralmente coberto por pontos em roxo e com algumas cicatrizes aparentes, tudo fruto da irresponsabilidade que corre em suas veias.

— Woods, para – Simon pediu e eu franzi o cenho.

— Parar o que, Adams?

— De pensar – ergueu os braços ao explicar. – Essa sua aura de melancolia está me desconcentrando. Esqueça a McCarter por um tempo, ok?

Revirei os olhos e bufei audivelmente. Meu amigo riu.

— Maldito dia na primeira série que fui te contar.

— Maldito é palavrão, não é? – perguntou e eu dei de ombros. – Vou considerar como um.

— Faça o que quiser contanto que pare de me encher.

Simon riu alto.

— Feri os sentimentos da princesa?

Encarei-o, cético.

— Só não te xingo porque não quero ter que te dar dinheiro, Adams.

— Qual é, Woods! – Simon exclamou. – Só estou dizendo que você pode viver, sabe? Deixar seu amor platônico em segundo plano por um tempo não vai matar. Hoje foi o primeiro dia de aula do último ano, vamos celebrar!

— Celebrar o quê?

— O cada vez mais forte cheiro da liberdade! – comentou e inspirou pesadamente. – Aproveite esse ano como se fosse o último da sua vida porque, em parte, ele é.

— Está querendo dizer que eu vou morrer ano que vem? – questionei-o.

— Socialmente? Tenho quase certeza.

Ri sem humor.

— Já falei que te odeio às vezes?

Ele sorriu, travesso.

— Acho que comenta algo parecido todo dia – ironizou minha fala, mirando novamente em outra bola e se posicionando para a tacada.

Revirei os olhos.

— Vá a merda, Simon.

O taco deslizou por entre seus dedos e acertou o alvo em cheio, fazendo outro resmungo sair da boca do careca assim que percebeu que mais uma bola estava fora do jogo. Simon, com um sorriso vitorioso, virou para mim e soltou uma risadinha.

— Mais um real para mim.

∴

8 horas antes da invasão...

— Encarar Hazel sem piscar não vai fazê-la saber que você existe, sabe.

Virei-me lentamente para Simon, que comia as batatas fritas murchas da cantina enquanto me encarava com um sorriso provocativo no rosto, já com a certeza de que aquela seria minha reação para seu comentário. Cerrei os olhos em sua direção, tentando demonstrar com um só olhar o quanto o odiava naquele momento. E em todos os outros.

— Por que não vai falar com ela?

Era hora do almoço e todos estavam na cantina ocupando as cadeiras de plástico do refeitório descuidado do colégio. Simon estava à minha frente e, como sempre, sua bandeja estava cheia. Dessa vez, metade dos pratinhos de torta estavam vazios depois de devorados pelo meu melhor amigo, que ganhara ontem do careca na sinuca e decidira gastar tudo hoje.

Sem responder sua pergunta, voltei a encarar o Paraíso em forma de gente. À três mesas na minha diagonal, com os cabelos escuros em um rabo de cavalo quase solto, mas ainda bonito, estava a garota que mais se assemelhava à perfeição e que ainda tinha permissão de habitar a Terra: Hazel McCarter. Ela comia com o rosto apoiado nas mãos enquanto os olhos azuis eletrizantes demonstravam genuína atenção no que uma garota a sua frente falava, a maquiagem destacando os cílios longos e os lábios rosados.

Realmente, linda.

A única coisa que estragava essa imagem era o namorado dela ao seu lado.

Escutei meu amigo chamar meu nome. Quando viu que não adiantaria, tacou-me uma de suas batatas.

— Não me deixe falando sozinho, Connor — ameaçou-me de forma nada assustadora. — Por que não vai falar com ela?

— Não estou muito afim de ser saco de pancada do Elliot – comentei com um sorriso sarcástico para meu amigo. Simon soltou uma risada e um pff! em seguida, acompanhado por resquícios de batata frita e saliva.

— Você realmente tem medo do Thompson? Aquele cara parece temer qualquer coisa que possa estragar o topete melado de gel dele.

— Não diria que tenho medo— comentei, a voz saindo um pouco esganiçada. – Apenas prezo por uma distância segura dos punhos daquele cara.

— Woods, se você não desse mais atenção para Princesa Leia de biquíni e prestasse atenção no que veste e usa, conseguiria competir com Elliot.

Ergui uma sobrancelha.

— Do que está falando? – ele suspirou.

— Eu sei que isso vai soar gay, mas... Você é... Bonitinho, Woods.

— Bonitinho?

— Você entendeu o que eu quis dizer – respondeu com uma careta que dizia que aquele assunto deveria morrer.

— Acho que sim – comentei, confuso. – Mas não sei onde quer chegar.

— Eu não quero chegar a lugar nenhum – disse e me apontou seu indicador. – Quero que você chegue na McCarter.

— Eu quero isso também – confessei o óbvio para Simon.

— Quer e não faz nada, Grilo – o loiro me encarou, irritado. – Tome providências.

Foi então que o rosto de Simon se iluminou e aquela música de terror que toca em Psicose começou em minha cabeça. O brilho nos olhos verdes do loiro parecia perverso e se igualava ao sorriso maléfico que brotava em sua face enquanto ele pensava em algo com uma vontade e dedicação jamais direcionadas a nenhuma disciplina escolar.

— Woods...

— Nem tente completar essa frase, Simon – cortei-o e ele abriu a boca para continuar, mas se calou por um momento ao olhar para algo na sua diagonal.

— Opa, stalker alert.

Virei-me para trás lentamente, encarando a direção que Simon observava e pude ver quem eu menos queria se aproximando. Lila Martinez, a garota que me persegue há uns três anos e que parece não aceitar meu desinteresse, se aproximava com um sorriso bobo e uma bandeja cheia de bolo de carne. Ela tem cabelos curtos em um tom escuro parecido com o meu, mas com uma cor ainda semelhante ao castanho escuro. Os olhos são em um tom mel e costumam emanar um brilho maníaco na minha direção, da mesma forma que naquele momento.

— Oi, gente – ela cumprimentou mostrando o sorriso agora sem o aparelho, que tirara há duas semanas. Simon acenou e eu sorri fraco. – Posso sentar aqui?

— Claro, Lila – Simon respondeu antes que eu pudesse usar a velha desculpa sobre ter coisas a resolver com ele. A garota sorriu e colocou sua bandeja ao meu lado, sentando-se um pouco mais perto que o necessário. Fiz uma careta de repreensão ao meu amigo, que me encarou de forma divertida.

— Como acham que foram em álgebra? – Lila perguntou e eu pude ver Simon revirando os olhos mentalmente. Aparentemente, o único assunto consistente que a garota tinha com nós dois era essa matéria, algo que nem eu nem Simon gostávamos.

— Minha querida Lila – o loiro à minha frente se inclinou para frente, os cotovelos sobre a mesa. – Vou virar guitarrista de uma banda, enriquecer antes dos vinte e cinco e morrer solteiro e cercado de coelhinhas da Playboy. Não preciso de contas na minha vida para me dar bem.

Eu ri. Simon sequer sabia segurar uma guitarra direito.

— Até parece – comentei. – Sem contas você não vai para frente.

Entramos então em outra discussão sem sentido, tudo relacionado a números e ao futuro utópico que Simon queria para sua vida, enquanto Lila ria. Sou obrigado a admitir que ela até era tolerável em alguns momentos, o problema surgia quando eu queria andar só com o loiro na escola e Lila teimava em continuar por perto. Assim que deixamos o refeitório e vimos que ela ainda estava na nossa cola, percebi que aquele era mais um desses momentos.

Sem escapatória, apenas continuei a andar com ambos ao meu encalço. Ao entrar na sala, ocupei meu habitual lugar bem no fundo, com Simon atrás de mim e Lila procurando a mesa vazia mais próximo. Dessa vez, foi do meu lado mesmo, o que apenas dificultava todos os nossos planos. Porém, não sei se estava realmente animado para conversar com Simon, até porque dava para ver nos olhos do meu amigo como ele estava louco para contar alguma coisa somente pelo brilho maníaco que o verde refletia.

Estremeci.

Segundos depois, salvando-nos de responder mais comentários sobre álgebra, o professor de literatura entrou e todos se calaram. O velho próximo a lousa mal teve tempo de se virar e começar a escrever algo que atraísse minha atenção, porque logo senti meu celular vibrar.

SimonSays:

Sua namorada não larga do seu pé.

Woodpecker:

Vá se ferrar, Simon.

SimonSays:

Vou ter que contar meu plano por aqui mesmo.

Woodpecker:

Nem precisa.

Estou fora.

SimonSays:

Você vai amar esse.

Woodpecker:

Já usou esse argumento nos últimos três.

E a última coisa que senti foi amor.

Estava mais para uma vontade

louca de te matar.

SimonSays:

É sério, Connor.

Com esse, você ganha a McCarter.

Woodpecker:

As únicas coisas que ganhei com seus planos

foram: Duas advertências, mais de dez castigos,

dor de cabeça e um braço quebrado.

SimonSays:

Mas você se divertiu demais, admita.

Woodpecker:

Se com diversão você quis dizer

‘enfrentar o inferno’, então sim, eu me

diverti para caramba.

SimonSays:

Connor, se jogar de acordo com

as minhas regras, terá Hazel McCarter

antes do baile de formatura.

Woodpecker:

Por que eu ainda estou te respondendo?

SimonSays:

Porque você tem a mesma

coisa que todos os apaixonados têm.

Woodpecker:

Esperança?

SimonSays:

Eu ia dizer “falta de amor próprio”,

mas pode ser isso também.

Está dentro ou não?

Woodpecker:

Muito engraçado.

Não vou te responder.

SimonSays:

Fala logo ou eu acho outro.

McCarter tem uma fila de pretendentes

que chega até a minha casa.

E olha que eu moro no quinto dos infernos.

Woodpecker:

Posso sair quando quiser?

SimonSays:

Pode, mas vai sofrer as consequências.

Woodpecker:

‘Tá, tanto faz.

Só não me faça passar vergonha.

SimonSays:

Vou tentar.

Woodpecker:

E qual é o plano?

SimonSays:

Apenas esteja pronto às 20h.

Tudo preto, de preferência.

E com um boné ou capuz.

Se usar aquela jaqueta laranja,

te faço engoli-la.

∴

30 minutos antes da invasão...

Pontualmente às oito horas da noite, eu já estava sentado na minha calçada aguardando a chegada de Simon, mais animado que Katniss Everdeen quando foi “sorteada” para o Terceiro Massacre Quaternário. Minha pontualidade, porém, era dispensável, já que Simon se achava capaz de moldar seu próprio horário e pensava que todos podiam segui-lo. Depois de uns bons minutos, vi então um Chevrolet Opala virar a esquina, chamando atenção pelo arranhado na lateral esquerda que destoava do tom vermelho, pela lâmpada quebrada e pela alta música que saía de suas caixas de som.

Meu melhor amigo chegara.

Ele parou o carro à minha frente, abaixando o vidro e inclinando o corpo para o lado, como se tentasse me ver melhor e dar uma de modelo de Hollywood ao mesmo tempo. Simon usava sua blusa surrada do Nirvana com uma jaqueta preta por cima e uma calça jeans em um tom semelhante. Uma touca escura escondia seus fios dourados e, para completar o visual, ele ainda estava de malditos óculos escuros.

— Simon, o que é isso? – perguntei, já entrando e apontando para o objeto em seu rosto.

— Essa é a minha cara – respondeu, entediado, sem entender do que eu falava.

— Eu sei, estou falando da outra coisa estranha – ele me mostrou o dedo do meio ao escutar a brincadeira, já arrancando com o carro. – Por que diabos está usando óculos de sol à noite?

— Ficou maneiro, Woods, cale a boca.

— Só aqueles investigadores de séries policiais concordariam – avisei-o. – Tira isso porque está ridículo.

Bufando e claramente contrariado, Simon jogou os óculos escuros no banco de trás e me espiou pelo canto do olho. Enviei-lhe um sorriso vitorioso e ele revirou os olhos claros, voltando a batucar no volante ao som de Lithium enquanto cortava alguns carros. Fiquei cantarolando junto enquanto aumentava um dos rasgos no banco de couro do carro, que cheirava a hortelã misturado com whisky que derramou da última vez que saímos.

— Para onde vamos? – indaguei depois de um tempo.

Simon deu uma risada quase maléfica. Só faltou o trovão para completar a cena.

— Estamos indo ver a McCarter.

Em um primeiro momento, a frase que saiu de sua boca não fez sentido na minha cabeça. Quando então entendi, virei-me bruscamente para Simon, que agora esboçava um sorriso vitorioso mil vezes melhor que o meu dado anterior. Cerrei os olhos para ele, tentando ver se estava mentindo, mas, infelizmente, parecia que não.

— Pare o carro – mandei e meu amigo riu.

— Relaxa, Woods – Simon pediu, dando tapinhas em meu ombro enquanto o carro pendia para a direita. – Você está em boas mãos.

— Adams, você não pode me pedir para relaxar ou dizer que estou em boas mãos!

— Por quê?

— Porque eu estou com você! – falei alto. – Pare essa lata-velha agora e me deixe sair.

Simon então arregalou os olhos para mim, enfurecido, e freou bruscamente o carro, bem no meio da rua. Meu corpo foi para frente e eu agradeci por estar de cinto (andar sem ele com Simon no volante era pedir para morrer). Virei-me para o loiro e o encarei, surpreso, vendo Simon me torcer o nariz e apontar o indicador para a minha cara.

— Chame meu Opala de lata-velha de novo e eu te atropelo com ele.

Nós dois ficamos sérios por um momento, o que só durou até eu começar a rir da cara ameaçadora que Simon tentou fazer. O loiro logo não aguentou e me imitou. Ficamos assim por um tempo e só aceleramos quando um motorista começou a buzinar porque paramos no meio da rua.

— Fique tranquilo, Woods – comentou depois de um tempo. – Não terá que falar com ela. Não agora, pelo menos.

— Como assim? – indaguei, sem saber se isso era bom ou não.

— Só tome uma das cervejas ali no banco de trás – falou, definitivo. – E confie em mim.

O verbo “confiar”, seguido da preposição “em” e com a adição do substantivo próprio “Simon” não formava uma sentença lógica, era sem coesão e sem sentido. Porém, como bom ser humano que preza pela sua vida, mantive-me quieto, já que não era louco de encarar mais uma freada brusca de meu amigo – ou pior. Ele havia dito que eu poderia sair quando quisesse, então, assim que parasse o carro, eu seguiria para o ponto de ônibus mais perto e me afastaria daquela máquina de morte – também conhecida como Simon Adams.

Infelizmente, esse momento de estacionar demorou para chegar e eu segui conversando com o loiro, que evitava ruas movimentadas, para que pudesse dirigir enquanto bebia e ziguezaguear com o carro. Quando já estava prestes a terminar a segunda lata, senti o Opala parar e, ainda rindo de uma piada nada engraçada sobre um canadense no bar, olhei ao redor, encarando o bosque em frente ao qual Simon havia estacionado e percorrendo todo o caminho com o olhar até o condomínio a uma quadra dali.

— Onde estamos?

— Perto da casa dos seus futuros sogros – respondeu Simon, apontando para o grande portão branco que separava o não tão bem iluminado condomínio da rua quase deserta, tirando aquele Opala um pouco afastado no qual estávamos.

Eu me virei para ele, rindo.

— E é isso que eu vou falar quando tiver que interfonar? – perguntei, imitando um celular com a mão. – Alô, Sr. McCarter? Quem fala é seu futuro genro. Estou aqui para ver sua filha. Você sabe, aquela que nem sabe que eu existo.

Simon revirou os olhos.

— Você não vai ligar para ninguém, Woods – cortou-me, sem achar graça da minha imitação. – Só vai entrar.

Ri de novo.

— Ah, e aquele segurança vai só assistir e bater palmas pela ousadia enquanto passamos pela entrada com o Opala? – indaguei, apontando para a cabine, na qual uma silhueta estava sentada. Simon, de cenho franzido, olhou naquela direção e bufou.

— Merda!— exclamou, chutando o ar. – Achei que a McCarter morasse em um desses condomínios que só fingem ser seguros – observou, pensando enquanto batia o indicador no queixo. – Que seja, você vai mesmo assim.

— Eu? Por que eu?

— Porque ela é sua garota dos sonhos.

Eu ri alto.

— Simon, não sei o que você ingeriu hoje – comecei, erguendo as mãos. – Mas não vou invadir lugar nenhum por causa disso. Lembra o que aconteceu quando me convenceu a jogar paintball no terreno baldio que descobrirmos ser do velho Curtis?

Simon abriu um sorriso, claramente revivendo aquele terror na sua mente, mas que de alguma forma ainda lhe parecia divertido. Viajei com a família Adams nas férias de verão e, quando eu e Simon saímos à noite, o loiro teve a brilhante ideia de pular o muro baixo da esquina e usar as armas de paintball no terreno aparentemente vazio. Só aparentemente mesmo, porque o velho de espingarda que apareceu não era imaginação minha e as balas na sua arma não eram de tinta.

— Woods, aquele cara ali não tem arma – o loiro riu, como se eu fosse burro, apontando para o segurança na cabine ao longe.

— É só isso que te preocupa? E a polícia? – indaguei, incrédulo.

— Até parece que ele vai chamar a polícia para pegar um garoto que pulou o portão.

— Primeiro: Essa é uma das funções da polícia – contei no dedo. – Segundo: olha só o jeito que estou vestido. Ele vai achar que quero fazer um arrastão lá dentro.

Simon revirou os olhos e ignorou meu comentário sobre as vestimentas que se assemelhavam a do assassino de How To Get Away With Murder. Sem falar nada, o loiro abriu a porta do carro, saindo em seguida, o que imitei. Assim que deixei o veículo, Simon estava com uma sacola de papelão cheia de comida e algumas latas de cerveja.

— Não sei nem porque ainda pergunto, mas... – falei em um suspiro. – Que merda é essa Simon?

— Esse é o seu ticket de entrada – disse, chacoalhando a sacola. – Só tem que esperar alguém chegar e aproveitar que o portão está aberto para fingir que é um morador.

Se a cena fosse diferente, eu teria rido alto. Naquele momento, porém, eu apenas cerrei meus punhos.

— Simon, você é idiota?

— De acordo com a Sra. Martinez, o meu vizinho do 108, o cara da loja de bebidas e o coordenador do colégio, sim. Por quê?

— Você realmente acredita que essa desculpa esfarrapada funciona?

— E por que não funcionaria? – rebateu ele.

— Primeiro porque nós estamos vestidos como bandidos — comentei. – Se planejava me fazer entrar pelo portão da frente, por que tive que usar essas roupas?

Simon vacilou.

— Porque todo mundo sabe que missões noturnas requerem roupas escuras.

Revirei os olhos.

— Simon, nossa vida não é um maldito seriado! – expliquei, exasperado. – Nem tudo dá certo como lá.

— Woods, analisa o que a gente já fez – Simon gesticulou. – Quase 100% de eficiência.

Eu gargalhei.

— De onde você tirou isso?

— Eu sei disso, Connor.

Inspirei fundo, acalmando-me.

— Quer outro motivo? Ótimo – eu disse. – Que tal “porque já são quase nove horas da noite em uma maldita terça-feira”, Simon? Sério, que tipo de pessoa solitária sai esse horário para ir no mercadinho da esquina comprar sabe-se lá o quê?

— Aquele tipo de pessoa solitária – apontou para algo atrás de mim e quando me virei, pude ver perto da entrada do condomínio uma senhora caminhando com três sacolas de compra. Quando me voltei para Simon, ele me entregou o pacote cheio de coisas que comprara, mostrando seu melhor sorriso vitorioso. – Agora vai mostrar para ela que você pode ajudar e entra.

— Não vou entrar, Simon.

— Por que não?

— O que eu vou fazer lá? – indaguei.

— Não posso te contar, vai estragar tudo – respondeu e começou a me empurrar. – Agora vai.

Cansado de ser forçado por Simon, joguei a sacola no chão. Algumas coisas quebraram e outras latas saíram rolando. Eu sorri, vendo o plano ridículo de meu melhor amigo ir por água abaixo, e Simon me fuzilou com o olhar.

— Gastei benditos sete dólares nessa bosta. Meu almoço amanhã é por sua conta, Woods – afirmou, apontando o dedo para mim. – Recolhe tudo e corre para lá.

— Não!

O loiro logo começou a tentar me empurrar enquanto eu fincava o pé no chão e ficava no lugar. Meu amigo não era dos mais fortes, então ficava fácil. Apenas fiquei torcendo para que o segurança não visse essas tentativas ridículas de empurrões que aconteciam bem no seu turno.

Simon então rosnou e me soltou.

— A velha já entrou! Olha o que fez, Woods!

— Olha o que eu fiz? Eu te salvei de mais um boletim de ocorrência – lembrei-o.

— Qual é o problema de entrar? Não é como se não tivéssemos invadido outros lugares antes.

— Sim, nós invadimos terrenos e armazéns às moscas, nunca um condomínio mais bem guardado que… Que o nome do Doutor!

Simon franziu o cenho.

— É outra dessas séries que você assiste? – eu assenti como resposta à sua pergunta. – Já disse que a única coisa que você precisa ver é Game of Thrones. O resto é dispensável.

— Você também assiste Star Wars— lembrei-o.

— Eu estava falando de séries, Woods, não de sagas— ele explicou e, antes que pudesse dizer que ele podia ter sido mais claro, seu rosto se iluminou e ele continuou: – Cala a sua boca. Presta atenção na minha explicação.

Lá vinha o motivo de tédio dos próximos minutos.

— ‘Tá vendo esse condomínio? – perguntou, apontando para a construção e eu assenti, apesar de ser óbvio. – Essa é a Estrela da Morte. McCarter é a Princesa Léia e você precisa salvá-la.

— E quem é o Vader? – indaguei, entrando na sua comparação.

— O Vader é incomparável, Woods, que blasfêmia.

Revirei os olhos.

— Agora, você tem que escolher – continuou, gesticulando como um louco. — Quer ser o Luke ou o Han Solo?

— Eu tenho que escolher se quero ser o irmão dela ou o Harrison Ford? – indaguei com as sobrancelhas erguidas.

— Não brinca comigo, Woods – pediu entredentes, já irritado. – Quer ficar para trás ou ser o par romântico dela?

— E quem disse que é o Luke que fica para trás?— perguntei, incrédulo.

Simon cerrou os punhos e respirou pesadamente, massageando as têmporas.

— Quantas vezes já disse para você parar que querer que os dois fiquem juntos?

— Qual o problema com isso? – rebati, recomeçando uma clássica discussão nossa.

— Eles são irmãos, Woods! – Simon já gritava.

— E daí? A Cersei também é irmã do Jaime e você a ama – argumentei e Simon pareceu querer voar em meu pescoço.

— Eu não amo a Cersei. Eu a odeio e, por causa disso, acabo amando! É assim que funciona em Game of Thrones!

Não ia continuar discutindo com Simon, especialmente se tratando dessa série. Seu amor por ela era quase comparável a adoração dele por Nirvana e tentar discutir sobre isso com Simon era pedir para morrer. Por isso, fiquei quieto.

— Já se acalmou? – perguntei e ele assentiu, cabisbaixo.

— Eu preciso da nova temporada – murmurou, lamentando.

Eu sorri, compadecendo de seu drama.

— Mas você não me respondeu – ele continuou depois de recuperado. – Han Solo ou Luke Skywalker?

Suspirei, já cansado desse assunto e sem ânimo para continuar discutindo. Simon aguardava minha resposta, claramente ansioso e, apesar de receoso, não posso dizer que não tinha uma parte minha que queria sentir aquela adrenalina e o frio na barriga que sempre acontecia quando eu e Simon fazíamos algo assim.

— Eu quero ser o par romântico – respondi.

— É assim que se fala, Woods. Agora, vamos – chamou-me com seu sorriso vitorioso. – Nós temos uma Estrela da Morte para invadir.

— E como vamos fazer isso? Seus sete dólares estão no chão.

— Achei que me conhecesse, Woods – comentou Simon, enquanto pegava uma lata de cerveja amassada do chão. – Eu sempre tenho um plano.

Notas finais
Algumas explicações: — Simon Says é o nome de uma brincadeira, equivalente ao nosso "O mestre mandou"; — Woodpecker foi o primeiro apelido dado por Simon a Connor, devido à Woody Woodpecker, o nosso tão conhecido Pica-Pau; E então, o que acharam? Já conseguiram ver que dupla dinâmica maluca esses dois formam? Me deixem saber nos comentários ;) Até logo ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.