Como A Luz No Mar
12 Se você estiver ao meu lado
Notas iniciais
Sentindo os toques incessantes em seu ombro mais uma vez, Sasuke suspirou numa tentativa quase inútil de se acalmar. Já estava difícil manter a concentração quando toda a atmosfera da sala contribuía para o sono que ainda pesava suas pálpebras; e as cutucadas, apesar de deixá-lo um pouco mais acordado, o fazia desviar a atenção do documentário o qual a turma assistia e que o professor especificamente dissera para que tomassem notas das partes mais importantes.
A sala de aula estava escura, a única luz sendo proporcionada pela pequena TV na frente do quadro. Alguns alunos pareciam realmente interessados na aula enquanto outros simplesmente olhavam para frente e lutavam para que seus olhos não se fechassem. Dormir não era uma opção, já que o professor parecia sentir toda vez que alguém pensava em abaixar a cabeça na mesa e tirar um merecido cochilo.
Sasuke fazia parte do grupo que esperava aprender algo com aquele filme, o que acabou se mostrando uma tarefa difícil quando se tem uma pessoa inconveniente sentada bem atrás de você. Ele tentou mesmo não se irritar, mas depois de algum tempo tentando ignorá-la sua paciência simplesmente se esgotou. Virando-se num movimento rápido e suave, ele agarrou a mão que insistia em lhe importunar.
— Que é?! – sussurrou, impaciente.
— Sasuke, — Naruto começou a dizer com a voz arrastada, desatando seu braço que estava sendo segurado e levando sua mão até a do moreno, lentamente entrelaçando seus dedos – isso é um tédio, eu não agüento mais!
Sasuke sentiu seu peito se aquecer ao sentir o toque gentil em sua mão. Mesmo já conhecendo Naruto a um bom tempo, ainda se pegava sem reação em momentos como esse. Não era novidade para ninguém que, para o Uzumaki, contato físico era praticamente uma necessidade fisiológica; para Sasuke esse não era bem o caso. É claro, ele teve lá a sua cota de carícias em relacionamentos anteriores, mas a sensação de que todo o contato parecia não ser suficiente não era uma com a qual ele podia se dizer familiarizado. E esse era um pensamento que de vez em quando o pegava de surpresa.
— Por que não tenta prestar atenção pra variar?
— Impossível... – Naruto sussurrou enquanto aproximava seus rostos. – Vamos sair da sala.
Sentindo um repentino calor subindo por seu pescoço, Sasuke o observou. A pouca luz do ambiente lhe dava um ar aconchegante; seus olhos, embora apresentassem uma coloração acinzentada, brilhavam na penumbra e o sorriso escondido no canto de seus lábios se mostrava perigosamente convidativo. Mas antes que Sasuke pudesse sequer pensar na possibilidade de aceitar a oferta ouviu-se o som de uma cadeira se arrastando, fazendo-o se virar para frente.
A luz se acendeu de súbito e todos levaram as mãos aos olhos, protegendo-os da claridade incômoda.
— Bom, turma, — o professor se encontrava de pé ao lado do televisor agora desligado. Seus olhos castanhos percorriam por toda a sala enquanto uma de suas mãos se mexia inquieta, sem dúvida ansiando pelo cigarro que parecia sempre acompanhar o homem quando não estava em aula – espero que tenham absorvido alguma coisa do que viram aqui, porque vou pedir que façam uma atividade sobre o documentário.
Ouviu-se um murmúrio de reclamação entre os alunos, ao que o professor simplesmente respondeu com um sorriso divertido:
— Quero que escrevam no mínimo duas páginas relacionando o que mostrei hoje e os efeitos que uma guerra pode ter sobre um país.
— Pode ser em dupla? – Ino tinha a mão levantada. Alguns alunos pareceram se animar com a proposta.
— Tudo bem, pode ser em dupla.
— E em trio? – Kiba perguntou, esperançoso.
— Contanto que seu trio seja de apenas duas pessoas você pode chamá-lo do que quiser – Asuma respondeu descontraído enquanto pegava uma pilha de folhas na mesa e distribuía a tarefa para a turma, que dava risadas da cara emburrada de Kiba.
Assim que o sinal tocou, indicando o fim da aula, a maioria dos alunos começou a se levantar para aproveitar o intervalo. Naruto, parecendo ter suas energias renovadas ao ver que sua tortura havia acabado por hora, logo se viu de pé e saindo para o corredor em direção ao refeitório junto com os amigos.
— Finalmente! – ele exclamou e Sasuke sentiu braços envolvendo seu pescoço enquanto o loiro se debruçava sobre suas costas, querendo ser carregado.
— Naruto, você vai acabar machucando alguém – Sakura praticamente rosnou quando os dois quase a derrubaram durante a tentativa de Sasuke de se livrar do outro, que o soltou subitamente.
— Ai! – o loiro exclamou e, ao se virar, Sasuke viu Naruto reclamando com a amiga por ter batido nele sem motivo.
— Vocês não são nem um pouco discretos – ao ouvir alguém murmurando, Sasuke se virou de novo, vendo Shikamaru andando ao seu lado.
— Como assim?
— Lá na sala. Se a luz não estivesse apagada tenho certeza de que a essa hora já teria um bando de meninas loucas enchendo vocês dois de perguntas. Imagino que ninguém saiba ainda, não é?
— Acho melhor não apressarmos nada — Sasuke deu de ombros. — Tudo isso deve ser novo pra ele.
— Vocês ainda não conversaram sobre isso – Shikamaru compreendeu, recebendo de Sasuke apenas um aceno de cabeça para confirmar. – Bom, eu to aqui se precisarem – as palavras foram seguidas por um tapinha no ombro do amigo, que retribuiu com um sorriso.
Assim que se sentaram ao redor de uma das mesas todos engajaram em uma conversa da qual Sasuke havia se desligado completamente. Pensamentos sobre Naruto e qual seria sua opinião quanto a oficializar a relação e contar aos outros invadiram sua mente mais uma vez. Apesar de só trocarem carícias quando estavam sozinhos, Naruto não dissera nada com relação à situação; curtir o momento parecia mais importante. Sasuke também se sentia assim, mas sabia que a conversa não poderia demorar a acontecer.
Suspirando, ele tentou voltar sua atenção para os amigos. Ao ouvir risadinhas ele passou o olhar sobre todos ao redor, vendo que olhavam para o garoto debruçado sobre a mesa. Lee tinha um olhar de súplica no rosto enquanto encarava Gaara, à sua frente.
— Por favor, Gaara, a sua nota foi a maior da sala no último teste!
— O que está acontecendo? – Sasuke murmurou para ninguém em particular.
— Lee precisa de nota para passar em matemática e quer que Gaara o ajude a estudar – Sakura, que se encontrava a seu lado, se aproximou, murmurando em seu ouvido.
Sasuke sentiu a mão da rosada pousando sobre seu braço mas apenas a ignorou ao ver a expressão de surpresa no rosto de Gaara que, meio sem jeito, assentiu ao pedido de Lee. O moreno abriu um largo sorriso e agradeceu, todo energético, arrancando mais risadas dos outros.
— Gaara vai ter trabalho para ensinar esse aí – Sakura tornou a falar, num tom brincalhão. Sasuke teve a leve impressão de que ela se encontrava ainda mais perto agora, suas pernas se tocando de leve.
Antes que pudesse pensar em se afastar, no entanto, Sasuke sentiu uma mão firme sobre sua outra coxa. Olhando rapidamente para a pessoa ao seu lado percebeu que Naruto observava a amiga com um certo desconforto em seu rosto. Ele está com ciúmes, Sasuke pensou, tentando conter um sorriso e discretamente colocando uma de suas mãos sobre a do loiro, acariciando-a.
Pelo canto do olho viu-o se mexer inquieto e suas bochechas tomarem um tom rosado.
...
No caminho de volta, assim que Hinata se despediu e seguiu o resto do caminho até a residência dos Hyuuga, deixando os dois sozinhos em frente a casa dos Uzumaki, Naruto começou a tocar no assunto que parecia estar importunando-o o dia inteiro. Sasuke apenas o ignorou enquanto andava até a porta.
— É óbvio que ela está caidinha por você, Sasuke, e você nem sequer consegue perceber.
— E quem disse que não percebi?
— Então você só está alimentando as esperanças dela se não... – Naruto foi interrompido assim que passou pela porta, com Sasuke a fechando rapidamente e pressionando-o contra a parede.
— Eu vou falar com ela, — disse, seus rostos agora a centímetros de distância – só não tive a oportunidade ainda.
Os dois se encararam por alguns segundos, suas respirações se mesclando, e Sasuke não pôde deixar a oportunidade de provocá-lo passar.
— Você faz um biquinho bem fofo quando está com ciúmes.
— O quê? Não estou com ciúmes – Naruto tentou negar, mas seu rosto corado não o deixava mentir.
— Uhum – Sasuke murmurou com um sorriso desafiador, levando uma de suas mãos até a coxa de Naruto, assim como o loiro havia feito algumas horas antes.
Soltando uma risadinha sem fôlego, Naruto aproximou ainda mais seus lábios, mergulhando no momento e deixando o ar em volta carregado com uma boa dose de expectativa.
— Naruto, é você? – eles ouviram a voz de Kushina chamando-os e, mesmo sabendo que o momento entre eles havia acabado, Sasuke se pegou sorrindo ao ver a irritação no rosto do loiro.
— Por que ela sempre faz isso?
— Porque ela é sua mãe – Sasuke respondeu, selando os lábios de Naruto rapidamente e entrelaçando suas mãos.
— E ela não vai sossegar até a gente ir falar com ela. Vem – suspirou e seguiu com Sasuke até a varanda, onde Kushina se encontrava regando o pequeno jardim de flores que, segundo ela, havia plantado alguns meses antes. A brisa que vinha do mar os recebeu agradavelmente.
— Ah, são vocês mesmo – ela os reconheceu e logo voltou à sua tarefa. – Como foi a escola hoje?
— Normal – Naruto deu de ombros, aproximando-se da mãe enquanto observava as flores à sua frente.
Sentido-se ser puxado, Sasuke percebeu que os dois ainda estavam com as mãos entrelaçadas e seu peito se aqueceu. Sabia que Naruto apenas havia se esquecido de soltar, mas ainda assim uma pontinha de felicidade tomou conta de sua mente. Como eu sou idiota, pensou, tentando afastar aquela sensação que insistia em permanecer ali, fazendo Sasuke se sentir constrangido por ficar daquela maneira simplesmente por estar de mãos dadas com alguém.
— ... Sasuke?
— O quê? – ao ouvir seu nome, ele voltou sua atenção para a conversa que se passava a frente.
— Você vai ficar para o jantar, não vai? – perguntou Kushina, agora cortando algumas folhas secas com uma pequena tesoura.
— Ah, sim.
— Ótimo – ela sorriu, deixando a tesoura ao lado de um dos vasos e seguindo para dentro da casa. – Vou começar a preparar o jantar. Enquanto isso, eu aposto que vocês tem dever de casa para fazerem – ao dizer isso ela lançou um olhar por cima do ombro e encarou o filho.
— Isso era pra ser uma indireta? Eu nunca vi uma... – exasperado, Naruto começou a refutar, sendo logo interrompido por Sasuke que, segurando a risada, puxou-o pela mão e começou a arrastá-lo escada acima.
Assim que chegaram no quarto de Naruto, Sasuke foi logo tirando seu tênis, se acomodando no chão ao pé da cama, e pegando os livros e caderno de dentro de sua mochila enquanto o outro andava pelo quarto, murmurando sobre o quanto Kushina era péssima quando se tratava de ser sutil e como ele não precisava que o mandassem fazer as coisas; eu não tenho mais cinco anos, ele dizia.
Deixando-o desabafar em paz, Sasuke apenas se concentrou nas palavras que lia e começou a escrever.
— O que está fazendo? – Naruto agora estava sentado de frente para Sasuke, olhando-o com uma leve curiosidade.
— A atividade de história.
— Ah – ele suspirou, apoiando-se em suas mãos e deixando a cabeça tombar para trás, olhando pensativo para o teto. – Não achei que fossemos realmente estudar.
— Quanto antes começarmos isso mais cedo vamos terminar – Sasuke respondeu sem levantar os olhos do que estava escrevendo e empurrando com o pé um dos livros na direção de Naruto, que suspirou pela segunda vez em menos de um minuto.
Contra sua vontade, o loiro pegou o livro e abriu em uma página qualquer, começando a ler. Sasuke sabia que ele não seria de muita ajuda, já o conhecia o bastante para saber que nenhuma leitura decente estava sendo feita ali, e que se quisesse realmente fazer esse dever agora ele não poderia contar muito com ajuda. O que na verdade não seria um problema já que era uma tarefa simples; seria rápida de terminar.
Passados alguns minutos, no entanto, a inquietude de Naruto o fazia perder a concentração. O loiro deitara agora, rindo e fazendo piadas sobre as roupas de época que apareciam nas imagens do livro enquanto balançava os pés incessantemente. Sasuke tentou continuar o que estava fazendo quando o quarto ficou em silêncio de novo, pensando que Naruto estivesse finalmente se concentrando; mas parou abruptamente assim que sentiu um toque em sua cintura, por baixo de sua camisa.
Levantando seu olhar ele percebeu que Naruto o observava com um sorrisinho escondido no canto dos lábios, suas mãos posicionadas confortavelmente em baixo de sua cabeça enquanto seu pé explorava a lateral do abdômen de Sasuke. Era óbvio que ele não conseguiria mais se concentrar.
— Quando foi a última vez que lavou esse pé?
Naruto deu de ombros, contendo o riso.
— Ai! – Sasuke exclamou ao receber um beliscão. – Qual é o seu problema?
O loiro, então, caiu na gargalhada enquanto Sasuke o encarava e se movia de pressa, sentando em cima das pernas de Naruto, com os joelhos ao lado de suas costelas, para que ele parasse de se mexer. Levando uma das mãos em baixo de sua camisa, Sasuke devolveu o beliscão, fazendo Naruto parar de rir imediatamente.
— Ei, isso dói! – o loiro reclamou, parecendo indignado e sem fôlego.
— Sério? Me desculpa, eu não sabia – Sasuke refutou, sua voz cheia de ironia.
Por um momento ambos ficaram parados, apenas se encarando, mas logo as risadas tomaram conta do quarto. Assim que ficou sem fôlego, então, Sasuke parou para observar o garoto em baixo de si e o modo como ele parecia emitir uma luz própria só por sorrir daquela maneira, todo descontraído e bagunçado.
Levando suas mãos ao rosto de Naruto, ele inclinou seu corpo e levou seus lábios de encontro aos dele, selando-os. De primeira o loiro retribuiu o beijo com ternura, mas logo ir devagar já não bastava mais e Naruto subiu suas mãos até a base das costas de Sasuke, segurando-o com firmeza enquanto trabalhava com a língua numa tentativa de aprofundar o beijo. Sem hesitar, o moreno se viu acompanhando o entusiasmo do outro, o calor tomando conta de seus corpos na medida em que mãos sedentas por contato se empenhavam em desfazer os botões das camisas e exploravam cada pedaço de pele já exposta.
Ofegante, Sasuke se desvencilhou por um segundo, parando para olhar brevemente aqueles olhos azuis a procura de alguma objeção quando, de repente, ele ouviu um ronco abafado.
— Desculpa, faz horas que não como nada – Naruto confessou sem jeito, com o rosto corado e sem fôlego, levando uma mão até a própria barriga, que agora reclamava por estar vazia.
— O que eu vou fazer com você? – Sasuke suspirou.
— Acho que me alimentar seria um bom começo – Naruto respondeu, se apoiando em seus cotovelos e sorrindo divertido.
Sasuke revirou os olhos e mentalmente amaldiçoou o estômago de Naruto.
...
Após ajeitarem suas roupas entre beijos e carícias, os dois desceram até a cozinha e encontraram Kushina sentada ao balcão, lendo uma revista enquanto algo parecia cozinhar no fogão. Ela levantou a cabeça para olhá-los assim que Naruto abriu a porta da geladeira.
— Já está com fome, Naruto? – ela perguntou, voltando sua atenção para sua leitura. – Eu ainda acho que você tem uma lombriga que se tornou residente fixo nesse estômago. É capaz do Sasuke ficar falido se tiver sustentar essa sua barriga um dia – completou distraidamente.
Sasuke a olhou, surpreso, mas tanto Kushina quanto o filho pareciam não ter percebido o que ela acabara de comentar, ambos concentrados em suas respectivas tarefas. O moreno sorriu; olhando por esse lado a ideia de ficar pobre nem parecia ruim.
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