Commedia

10 Capítulo 9: Encontre seu rumo


Commedia

por Jodivise e Olg'Austen

Inverno de 1737

Se ele partisse, o que seria de si? Se ele partisse, deixando-o sozinho naquelas terras desconhecidas, o que seria do pobre Robert que na altura contava com apenas dezessete anos? Um rapaz inocente, puro no mais literal sentido de tal palavra que há anos deixara Dublin para trás com a promessa de se tornar um homem tão santo quanto seu mentor era. Haviam, os dois, passado meses em alto mar após serem deixados na Ilha da Madeira pela tripulação pirata que os haviam interceptado. Agora acabavam ali, numa hospedaria mal cheirosa em Port Royal enquanto que Padre Duane perecia sobre um colchão de palha.

Não queria perdê-lo. Aquele clérigo, que há dias caíra de cama, ardendo em febre e com uma tosse que não parecia mais acabar, era tudo que Robert tinha. Era seu pai e sua mãe, seus irmãos e seus avós. Era tão sábio e tão amigo quanto qualquer um destes haveriam de ser, mas o rapaz jamais conhecera seus familiares para se dar a comparações. Desde muito menino fora colocado num orfanato, sem nada além de um nome. Roibeard, era como haveria de se chamar, mas Maria McCann, a senhora que o acolhera, chamou-o de Robert, apenas. Saíra da casa desta aos nove anos, um menino, para largar-se a caminhar Irlanda e Inglaterra afora na companhia do bondoso homem da igreja. Agora estava ali, no Novo Mundo, primeiro lugar que o velho padre lhe prometera levar, quase dez anos depois, vendo-se, aos poucos, sem aquela figura tão querida.

Tudo que possuía de seus ancestrais era uma medalha de St. Patrick que desde recém-nascido carregava em volta ao pescoço. Em momentos difíceis como aquele, Robert apertava tal artefato com uma mão, deitando os joelhos ossudos ao chão, sob o hábito negro que envergava, orando contra uma parede a pedir piedade a Deus. Ora o pedia para que não levasse a vida do Padre Duane, ora por, se este fosse um caso irremediável, que o levasse logo pois um homem tão bom não merecia sofrer daquela forma.

Nos últimos dias do ano, o quadro da saúde do clérigo piorou, não chegando a ver o Ano Novo, perecendo no ultimo dia de 1737. — Padre... — Robert não largava a mão magra do homem, já fria por se tratar de um cadáver, velha e sarapintada, mãos bondosas que tanto acalentaram o jovem órfão e que tanto já haviam alimentado miseráveis. — Não... Queria que tivesse ido... — as lágrimas vertiam de seus orbes verdes, escorrendo pelas maçãs de seu rosto, lavando-lhe o semblante triste, arrasado — Deus, o receberá de braços abertos, padre... É um anjo, tinha que voltar aos Céus! — ele lamentava, sendo mirado por um outro homem da igreja que atrás de si seguia acompanhado de dois tipos prontos para levarem o corpo de Duane. Ao menos por ser um padre católico tinha direito a um jazigo na igreja local, mesmo que rasa fosse a cova e mesmo que fino fosse o lençol em que haveria de ser enrolado.

Quando o corpo se fora, sob a chuva grossa que caía em Port Royal, Robert regressara à hospedaria, perdido como nunca havia se sentido. Agora, realmente, estava órfão. Quando achara que não havia mais lágrimas por cair, elas tornaram a pingar de seus olhos, inflamando-os e deixando o que era verde, irritado, penetrante se mirado de perto. Aonde iria? Como seguiria a fazer o bem, da forma como o dono do seu sobrenome lhe ensinara? Como alimentaria os pobres se logo era sua barriga que haveria de roncar? Como confortaria os enfermos se vira a doença levar o único ser humano que de verdade amava? Pela primeira vez, Robert sentiu sinceras saudades de Dublin. Naquela época do ano, nas proximidades de seu aniversário, caía uma neve fina sobre sua cidade natal. Apesar do frio, era feliz e o jardim feioso coberto pelo branco da nevasca sempre melhor do que a umidade e o calor de Port Royal, tão tristes como o incessante choro que lhe tomava.

— Padre! — a voz do dono da hospedaria lhe chamara, ríspido, gritando-lhe por trás da mesa da cozinha, por trás de umas garrafas foscas de bebida — ...Quando pretende começar a pagar a estadia, hein? Me devem três semanas... Tenho um trio de marujos querendo um quarto para ficar... Ou me paga ou terá de sair.

Estático, Robert tremia de frio, sentindo as sandálias de couro escorregarem de seus pés úmidos e as barras do hábito ensopadas roçarem contra o seu corpo. Tentara soar sereno, da mesma forma como Padre Duane referia-se a todos, mas o desespero estava ali, em sua voz — Eu não... Não tenho como lhe pagar, senhor. O senhor padre, ele acaba de ser sepultado.

— A vida é dura. De reza não se vive. Mas se tem alergia a trabalho devia ir para Tortuga. — o dono do lugar soara ríspido —... Ou então... Volta para o lugar de onde saiu.

— Eu não sou vagabundo senhor... Não sou um seminarista, não ainda, mas... Vivia em missões com o sr. Padre...

Pondo-se de pé, o gorducho caminhara ao seu encontro, chegando muito próximo, sendo muito mais baixo que o jovem Duane — Como se chama, filho?

— Robert.

— Pois, Robert... Não vou perder três clientes que pagam bem por um padreco que não me paga nada. Aqui, meu filho, de rezas não se vive. É o dinheiro que paga tudo!

As noites seguintes ele passara de favor, dormindo na mesma cama, mas graças à bondade dos três homens do mar que aceitaram-no como convidado no quarto. Mas as madrugadas eram longas e muito mais enquanto ficava à espera de uma carta da Sra. McCann. A mandara dias depois da morte do padre, selando-a com o pouco dinheiro que lhe restara. Os marujos dividiram a comida consigo; Johnny, Bill e Marvin, respectivamente dois ianques e um galês doido de pedra. Aquelas três peças, tão diferentes de si, pareciam não respeitar o jovem clérigo, não propositalmente, já que eram agora seus únicos amigos, mas traziam mulheres para o quarto, bebiam e praticavam metade dos pecados que Duane tanto lhe ensinara a não cometer.

O que lhe incomodava mais não era o som do tintilar das moedas de ouro, ou a linguagem baixa destes, mas o modo como lhe acordavam a meio da noite, trazendo companhia para debaixo das cobertas. Em um mês, Robert Duane havia amadurecido um ano em sua mente e corpo. Já não olhava mais uma mulher com os mesmos olhos de antes. Já não fingia não ver o valor do ouro ou o sabor de uma boa comida. Havia mudado, não para mal, mas para o homem vivido que já deveria ser há tempos.

— Arranjamos trabalho. — Marvin, de intensos olhos cor de mel lhe falara certo dia no auge do seu sotaque galês. —... Tomaremos um navio ao fim da tarde, amanhã mesmo chegamos a Tortuga.

Tortuga... Bob não sabia bem o porquê, mas o nome de tal localidade conseguia por os pelos do seu corpo de pé. Aceitara, sem muito pestanejar, desistindo de ficar ali, à espera de uma resposta da irlandesa que lhe criara, juntando o pouco que tinha, tomando vestes comuns de presente dos amigos e saindo com destino ao ponto de encontro dos velhos ladrões do mar.

Foi por acaso que conhecera Otávia Doormat, moça que herdara o bar-hospedaria Faithful Bride de sua mãe. Entrara silencioso naquele estabelecimento, prostrando-se ao balcão, pedindo por uma dose de qualquer bebida que viesse a lhe preencher o estomago. — Só vai beber? — a moça, com olhos negros de menina ainda, de pouca altura, mas com porte de uma verdadeira gerente, lhe perguntara tirando os cabelos cacheados da frente dos olhos — Não me leve à mal... Todos aqui bebem, mas a sua cara... É de fome.

— Eu... — ele engolira em seco, apertando a caneca de rum que lhe fora passada, bebericando desta a sentir o queimar do álcool lhe bater no estômago —... Argh.. Eu estou bem! — de cabeça baixa, Duane quedara-se apenas pensativo, recordando-se de quando ele e o senhor Padre estiveram na presença de verdadeiros piratas. Talvez se ali tivesse morrido, Bob hoje não estivesse passando por uma situação como aquela.

— ... Vai como os outros? ...No navio que chegou? — mal humorada, a garota perguntou. — ... Não devia ir... Não tem cara de marujo e muito menos de pirata. — e logo apontara para a medalha que ele trazia ao pescoço. — Oh, vejo que é católico.

Impaciente, Robert pouco tentava lhe falar, querendo muito mais manter-se na sua, já irritado com a insistência da jovem. — De certeza que não tanto quanto um dia fui.

— Olhe isto. — apontando para uma placa posta acima das garrafas de bebida, ela mencionara o que nesta estava escrito. — Estou precisando de um ajudante. Alguém para servir as mesas... Não paga muito, mas é de alguém como você que preciso e não desses doentes bêbados. Um católico é disso que o Faithful Bride precisa.

Rindo de banda, Robert enfim a encarara. — Está me oferecendo um emprego, senhorita?

— Porque não? É rico ou retardado?

— Bom, deve ser menos errado do que empilhar mercadoria roubada, hum? ... É um emprego digno — ele concluiu, acenando freneticamente coma cabeça. — ... Eu... Eu aceito. — disse por fim, estendendo uma mão para si. — Duane, Robert Duane, é como me chamo.

— Otávia Doormat, sua empregadora. — a garota respondera, trazendo uma cesta de pães do interior do balcão, pousando-a sobre este, oferecendo-a ao rapaz — Come, depois começa por aquela mesa ali, acho que alguém vomitou nela...

Robert prontamente enfiara o pãozinho na boca, saciando a fome que lhe atacava antes de se por de pé, pronto para ajudar. Não queria ir com os marujos, não queria mesmo e Otavia Doormat, ao lhe aparecer, parecera ser sua última chance de continuar em terra firme ainda que por vezes aquele bar parecesse estar mais de pernas para o ar. Até quando...? Até quando evitaria subir novamente num navio e ganhar a vida mar afora? Apenas um toque do destino, um sinal sincero que lhe dissesse certamente que, ao se aventurar, seria feliz, encontrando seus antepassados, alcançando uma vida digna ou, ainda, revelando a si mesmo um verdadeiro amor.

*

Victória acordara cerca de duas horas depois, sentindo o rosto de Robert ainda sobre si, repousando em seu colo, adormecido. Suas respirações seguiam leves, nada se comparando com as inspirações e expirações aceleradas que antes mantiveram enquanto faziam amor. Ela levara uma mão pelos caracóis dos cabelos do seu doce taberneiro, afagando-os enquanto percebia-o despertar aos poucos.

— Hum... — lentamente os orbes cor de oliva deste se abriram, colocando-se a piscar antes dele enfim acordar, encontrando os castanhos dela, já bem abertos a encará-lo. —... Já é dia?

Ele soerguera-se, subindo mais à cama, posicionando-se ao lado dela, ainda a envolve-la com um braço sobre a cintura da pirata. —...’Tá doido, Bob? Se fosse dia já teriam nos incomodado. — Victória disse, levando os dedos ao peito calmo deste, tocando-lhe a medalha de St. Patrick. —... Ahn... Eu não queria sair dessa cama... Mas... é preciso, você sabe... — suas falanges enrolavam-se à correntinha enquanto ela observava esta como se evitasse mirar o rosto dele tão próximo, sabendo que tornaria a cair em tentação se o fizesse.

— Capitã...? — Robert lhe erguera o queixo, deixando-a com um sorriso seu antes de se impulsionar ao seu encontro, tocando-lhe os quadris sob o lençol, descendo-lhe a mão por seu corpo, apertando-a contra si a lhe tomar os lábios. Duane lhe tirara o fôlego, fazendo-a beber do seu próprio ao inclinar o rosto, repartindo da própria saliva ao movimentar os lábios contra os dela, capturando sempre um mais que o outro, deixando-se sugá-lo enquanto tornava a observá-la —... Hmmm... — à boca da amada, ele gemera. — Qual seu interesse nessa medalha, Srta. Pirata?

— Ora! — Victória rira, respirando contra si, quente e estafada face ao calor da boca alheia e frente ao encaixar de seus corpos nus embaixo da manta. —... Quero somente saber mais sobre o seu passado, meu leprechaun.

— Eu já fui encontrado com ela, a medalha e a corrente. — ele disse, partilhando da curiosidade dela por tal jóia aparentemente de família. —... A Sra. McCann me dizia que devia pertencer ao meu pai. Mas ela nunca me disse quem era. Tinha nove anos quando saí de Dublin, Vic... Eu não tinha muita curiosidade... E, hoje, confesso que encontrar meus pais seria a última coisa que faria conscientemente.

Os olhos escuros da moça ficaram por qualquer detalhe dos dizeres em gaélico, tentando não remeter aos seus próprios progenitores. Há tempos não recordava-se tão bem deles. Algo em Robert, algo perdido nos olhos do rapaz, lhe trazia boas recordações de sua vida de mocinha em Portugal. — Er... De certeza que sua família é de Dublin?

— Bom... Eu não sei mesmo, mas eu tinha um amiguinho que me dizia... bom, Percy era mais velho, devia ouvir as conversas da mãe, tinha uns três anos a mais que eu, mas era meio anão. Bom, ele dizia que eu tinha sangue de Galway... Vai saber, hum? Fica na costa oeste da Irlanda. Eu lá nunca fui.

— Eu sei onde fica Galway, Robert. — Victória rira. —... Sinceramente, seu sobrenome deve ser algo bem... Gaélico.

— Meu sobrenome é Duane, Vic. — Bob rira, entrelaçando os dedos aos seus. —... Foi este que o Padre me deu. É este que carrego. Até os nove anos era chamado de Robert, só Robert... Mas o Padre Duane me disse que eu era como um filho para ele.

Mordendo um dos lábios Slaughter pôs-se pensativa. — Será que ele era o seu pai?.. Arrependido voltou para te pegar.

— Duvido. — vendo-a se endireitar, apoiando o tronco num cotovelo, ele respondeu. — Tinha uns sessenta anos quando saímos da Irlanda... Eu só não sei porque me escolheu. Mas se não fosse por ele eu jamais estaria aqui. É ao Padre Duane que devo toda a felicidade que estou sentindo agora, Victória.

— Faz muito tempo que ele morreu?

— Não muito... — Bob pensou, deixando os olhos verdes decaírem pelo pescoço de Victória, antes de tornar a olhá-la frente à frente. — Ainda sinto saudades.

Piscando os olhos, Victória descera-os pelos lábios cheios de Robert, sorrindo. — Engraçado… sempre achei que homens de fé fossem uns fingidos. — percebendo a indignação alheia, ela lhe calara de pronto. — Foi um padre que indicou a meu pai o noivo que me arrranjaram, hum? Ele não deve ter gostado de me ouvir em confissão. Falando que queria ser livre e tal.

— Eu lembro da primeira vez que a vi, entrando no Faithful. — o irlandês a via avançar sobre si, fazendo-o deitar-se de costas, com Victória por cima. — Tão decidida, impondo respeito e com cara de poucos amigos… e no entanto, tão triste.

— Tinha acabado de ficar sem meu navio, leprechaun. E você sabe… o pior que podem fazer a um capitão… é roubarem-lhe seu navio.

Victória chegara a tocar os lábios de Duane com os seus próprios, mas antes que um último beijo se fizesse, antes de contrariar suas vontades e se levantar da cama, uma batida forte e um berro a lhe chamar foram ouvidos, fazendo a jovem pirata se assustar de pronto, erguendo o tronco, fazendo Robert imitá-la.

“ABRE ESSA PORTA, SLAUGHTER!” — a voz autoritária de Benjamin ecoara, batendo incessantemente na porta que tremia em sua superfície.

— Que merda! — trincando os dentes, Victória saltara da cama, deixando Robert baralhado entre mirar o corpo desnudo, percebendo-lhe as traseiras tão graciosas e erguer o sobrolho àquele que do outro lado parecia possesso. — JÁ VAI!

— Acha que ele está assim porque descobriu? — Robert vira a jovem vestir a camisola branca e larga.

— Só se um pássaro lhe disse, Robert. — Victória ficara por momentos sem saber o que fazer, olhando Robert. — Não… fica aí, Duane.

Robert não tinha de fato onde se esconder, cobrindo-se com os lençóis que por cima foram bem arrumados pela inquietação de Victória. A moça correra em seguida para a porta, entreabrindo-a a fim de deixar apenas o rosto ser visto pelo capitão imprestável do navio. —“VICTÓRIA SLAUGHTER!” — a voz grave e irritadiça do chiliquento não parara de berrar até que a moça lhe aparecera, mirando-o por uma brecha. — Oh... Até que enfim, pois? — Sparrow estava acompanhado de Pintel que parecia mais nervoso que o próprio Benjamin. — Será possível que... — o jovem barbado ensaiou falar mais alto, mas logo denotou as vestes mínimas de Victória. — Estava dormindo? — seus olhos negros desceram pelo corpo feminino desta, desde o decote da camisa folgada, até as pernas que tinha de fora do comprimento desta. —... Slaughter, me desculpe, eu...

Dobrando os braços a frente do corpo ela lhe apressou: — Fale logo, Sparrow!

—... Viu o Duane?

— O... Robert? — aquela que nunca gaguejava, de repente, via-se mais gaga que o filho de Jack. —... Nah... Nem vi.

Lamentando, Benjamin tirara o tricórnio do topo da cabeça, segurando-o, enquanto evitava mirar as coxas alheias. — O Brand... Arre! Victória aconteceu algo, e eu não faço idéia de como lhe devo contar isso... E muito menos à Srta. Otávia. Eu acho que o Duane fugiu com Brand. O miserável não está na cela. E não os encontro em canto algum do navio.

— Como é que é? — o sangue de Slaughter fugira. Estava pálida a ouvir a notícia dada por Benjamin. Indignara-se por este fazer tal acusação a Robert, mas muito mais estava chocada por saber da fuga de Brand. — De certeza que não foi o Robert...

— Por favor, não me venha a defender seu amiguinho. — Sparrow girara os calcanhares, andando em sentindo contrário à porta. —... Fugiram juntos os dois... Como Duane pode apoiar um mal feitor como o Mestre Brand?.. Sinceramente, Victória... Não acredito que acolhi esses dois criminosos em meu navio.

Apertando um punho, Victória já sentia-se explodir, evitando mirar a silhueta de Robert sob os lençóis. — Sparrow, vai ao inferno! — mas enfim gritara às costas do capitão. — Não foi o Robert Duane, porque o Robert Duane está aqui, comigo... Há horas.

Ao mesmo tempo em que Benjamin girara de volta com destino ao seu quarto, Robert emergira das cobertas, confuso pela confissão desta, mas mais ainda pela intromissão do projeto de pirata louisiano que rompera ao quarto da moça, apontando-lhe um dedo. — VOCÊS DOIS! — Ben estava vermelho, vermelho não, roxo, roxo de raiva, mordendo um punho enquanto via Robert sentado à cama de Victória, tentando se pôr minimamente vestido para só então colocar os pés no chão. —... Estão... Estão pensando que meu navio é bordel?

— Poupe-nos, Sparrow! — Robert atacara o fecho das calças, indo ao encontro do capitão de mesma altura que si que vagava pelo quarto. — Se o Brand fugiu...

Num gesto brusco, este fechara a porta rispidamente, colocando-se dentro do quarto na presença do então casal. — Se o Brand fugiu a culpa foi totalmente sua, Duane... Uma cobra é isso que é. Achei que não fossem originarias da Irlanda, mas vejo que me enganei. Você... Argh! Você me enganou direitinho, seu... — e mirando de uma raivosa Victória para o rapaz, continuou: — Taberneiro safado! Irresponsável! Primeiro com as histórias das pêras e safiras... Agora deitando-se com essa pirata... Deixando escapar o prisioneiro do porte daquele homem...

— Cala a boca, Sparrow! — Victória se colocara entre os dois homens, não se sentindo minimamente diminuída, ainda que estes fossem mais altos que si e que a cabine já os sufocasse. — Primeiro! Robert não é nenhuma cobra. É meu amigo, meu homem de confiança. Você tem os seus, hum?.. — semicerrando os olhos, Slaughter sorrira. — Oh… apenas um. Pintel é seu único homem de confiança.

— Não muda de assunto, Victória! — Benjamin quase lhe cuspiu à cara, com os olhos esbugalhados ao máximo. — E eu… não durmo com o Pintel!

— Você não dorme nem com mulher o que dizer de homem. — Victória levara a mão à cara. — Em segundo… eu deito-me com quem quiser… Robert se deita com quem quiser. E como tal… deitámo-nos juntos quando quisermos, entendeu?

Robert engolira em seco. Sabia o quanto Victória era firme nas palavras e astuta a esconder sentimentos, mas ouvi-la tratar como amigo, como um simples amigo de confiança que se “deitaria” consigo quando desse vontade, o acabara magoando. No entanto, não o demonstraria ali, na frente de Sparrow. — E como o Brand fugiu? Ele estava na cela, o deixei lá… e que eu saiba havia mais três piratas a bordo.

Benjamin coçara o queixo, sorrindo ao mirar as coxas alheias. De repente, percebendo que Victória havia-se deitado com Robert, não sentia a mínima vergonha e respeito de a mirar assim. — Um diz que não sabe de nada… outro foi encontrado desacordado e o outro… está morto.

— Morto… — Victória mordera o próprio punho em raiva.

— E vocês… enrosquem-se onde quiserem… mas longe do meu navio! — Benjamin os olhara com desdém.

— É meu navio também! — Victória exclamara ao vê-lo sair, fechando a porta atrás de si. — Raios! Raios, raios, raios!

— Não… não fica assim, Vic. — Robert a vira desmoronar na cama, apoiando os cotovelos nos joelhos, a afundar o rosto nas próprias mãos.

— Você não entende! — Victória o sentira agachar-se até si, tocando-lhe os braços. — Brand era a minha única esperança para encontrar o Sea Lion, Robert. Agora… eu não tenho uma única referência de como achá-lo e…

— Calma. — pondo-se de joelhos, Robert elevara as mãos até aos ombros dela, confortando-a. — A culpa é minha… eu… o que tivemos foi tão lindo, mas fui irresponsável. Nunca devia ter deixado o Brand. Jesus, ele matou um dos nossos!

Victória tirara o rosto corado das próprias mãos, olhando o rosto de frente para si. — Talvez ele esteja pelas Bahamas…

— Duvido que Sparrow fique esperando, Vic. Ele não gostava do Brand.

— Então só há uma única solução! — Victória se levantara, deixando o irlandês ao chão, apressando-se a vestir-se. — Eu tenho de conseguir aquela bússola do Sparrow.

— Qual bússola? — Robert se perdera.

— Uma bússola muito estranha. — apertando o corpete, Slaughter se via nervosa como nunca pensaria estar. — Robert… me… perdoa sair assim mas…

— Claro. — Robert apenas sorrira, pegando suas roupas ao chão. A vira sair apressada, quebrando com o momento pelo qual tanto esperava. Na verdade, sozinho ali, Duane dera graças a St. Patrick por tudo. Não podia esperar mais de um espírito indomável chamado Victória Slaughter. Independentemente do que esta sentisse, do que fizesse, ela seria sempre a mulher que o deixaria louco com seu jeito tão independente e agora, ele sabia, tão cúmplice e carinhoso na intimidade.

*

Quando chegara ao tombadilho, a primeira impressão que tivera, depois do sol queimando em sua pele, foi do burburinho da tripulação que parara o que fazia e a olhara. — Que foi, bando de baratas tontas? — ela falara alto, para todos. — Nunca me viram? Trabalhem suas pestes! — exclamara possessa, percebendo Benjamin ao leme, consultando a bússola, enquanto via os homens içarem âncora. — Sparrow! Temos de voltar a terra. O Brand deve ter…

— Ao contrário de você, Slaughter… — Benjamin lhe sorrira estupidamente, ajeitando o chapéu à cabeça. — Eu tenho uma rota e pouco tempo a perder. Vamos à Flórida. E não voltaremos atrás.

— EU PRECISO DO BRAND, CRIATURA! — Victória lhe gritou à cara, agarrando-se à camisa alheia.

Agarrando-lhe os pulsos, Sparrow a afastara. — Tira essa mão melada de mim. Sabe-se lá no que tocou.

— Com certeza em algo mais interessante que você. — Slaughter se afastara, mas não se fora embora. — Eu preciso da sua bússola.

Uma gargalhada mais do que sinistra atacara Benjamin. — Nem pense, Slaughter. Essa bússola é tudo o que me garante a certeza que irei encontrar meu pai. Mais do que aquele mapa, é ela que me guia nos caminhos mais escuros da vida e…

— Cala a boca que você é tudo menos poeta. — Victória torcera o nariz. — Ouça, Benjamin. Você quer esse tesouro… eu quero meu navio… ambos parecem estar na mesma rota… mas você tem um mapa… tem essa bússola. Eu só tinha o Brand.

— Agora tem o irlandês. — Ben encolhera os ombros. — Ele não ia para padre? Pois bem, ele que faça uma oração para iluminar o caminho para o Sea Lion. Pode ser que chegue mais depressa se for no meio de um…

O som que surgira, cortara não só a fala de Benjamin como o fizera perceber o ambiente rodar em trezentos e sessenta graus, tendo como pano de fundo as vozes risonhas da tripulação. Quando finalmente assentara, percebera o dedo alheio em riste, fazendo-o trocar os olhos. — Você me paga, Benjamin Lane!

— É… Sparrow! — Ben ainda lhe gritara, vendo-a descer as escadas até ao convés inferior. — Cabra…!

— Seu pai não faria tal. — a voz de Pintel lhe surgira para o assombrar ainda mais.

— Jura? O que o meu pai faria, então? — tresloucado, Benjamin o olhara, rodando o leme na direção que a bússola lhe ditara.

— Em primeiro… não haveria nenhum homem levando a melhor. Sabia que até a Senhorita Elizabeth Turner teve um fraco por ele?

Apoiando um braço no leme, Benjamin mordera o lábio numa pose. — Ele…

— Não. Seu pai era louco… mas não era suicida. — Pintel arregalou os olhos amarelados. — Mas seria mais esperto e daria a bússola a Victória.

— Porque eu daria, Pintel? Ela quer remar para um lado que não o meu.

— Ela quer tanto esse tesouro como o capitão. E repare… sem o imediato dela… quase que passa a ser uma hóspede aqui. Mas no final… quem ficará a ganhar é o capitão. — percebendo a cara parva do outro, o baixinho rolara os olhos. — A deixe na sua mão. Faça tudo para conseguir que Victória tenha uma dívida para consigo. E no final… se for esperto, até o Sea Lion tomará dela.

Coçando os cabelos oleosos, Ben franzira o nariz. — O que eu faria com dois navios, Pintel?

— Formaria uma esquadra… repare, meu capitão. Provavelmente, Jack perdeu o Pearl. Ele ficaria contente se visse o filho que ele tanto ama, lhe dar de presente um navio, não?

— Na minha mão… é isso que propões? — Sparrow rira. — É uma boa ideia, mas Victória já me deu demasiada patada, homem. E acasalou com aquele irlandês.

— Já tentou fazer-lhe ciúmes, hum?.. Talvez isso resulte. — Pintel encolhera os ombros. — Ela matou o marido… provavelmente mata o irlandês… gosta de atenções, sabe? Se faça de difícil, vire-lhe a cara até. Faça ela implorar pela bússola e acabará implorando por si, capitão.

Benjamin se vira pela segunda vez sozinho ao leme, respirando a maresia. Não sorrira com qualquer plano que lhe passava na mente. Pensara fazer Victória lhe dar algo em troca da bússola. Pensara chantagear a morena, colocar Robert na prancha. Mas tudo não passavam de planos apenas e só para lhe atenuar a raiva que lhe ia na alma. Não ficara com ciúmes de Victória ou ferido de amor. Nada disso. Sentia-se talvez, um completo idiota.

Idiota porque cada vez mais se sentia longe de seu pai. A qualquer porto que chegava, o nome Sparrow fazia as mulheres rirem com lembranças e os homens comentarem as loucas aventuras de Jack. Mas sobre si, o que diziam mesmo? Benjamin Sparrow? Quem era Benjamin Sparrow? O que havia feito de extraordinário para que temessem seu nome? Para que o admirassem? Encontrara tesouros? Não. Saqueara grandes navios? Não. Tivera encontros com o sobrenatural? Não.

E no mundo feminino? Aquelas com quem dormia pareciam mais ansiosas pelas moedas de ouro do que pelo seu chamego. Com Victória, com uma igual a si, ele pensava, poderia deixar uma marca, conquistando-a. Errara completamente. Tinha beleza, ele sabia. Tinha porte e coragem. Porque então não conseguia ser bem-sucedido? Porque um simples taberneiro magricela, conseguira a admiração e a paixão de Victória Slaughter? Porque até um estranho como Lucciano Pimpinelli se deitara com uma deusa? Qual era realmente o seu problema que o distanciava da fama de seu pai?

— Clara… — ele suspirara entre dentes, fechando os olhos ao vento. — O que você viu de especial em mim?

*

Decerto que havia se envergonhado a sério. Robert Duane não pretendia sair do porão nem tão cedo, ficando por ali em sua mínima cabine, deixando por vezes a porta entreaberta, mas pouco falando com os marujos brincalhões que por ali passavam. Se tivesse sido talvez um pouco mais inteligente não teria exposto Victória à tal situação, mas quem diria que a paixão de ambos haveria de leva-los à intimidade daquela forma relâmpago, urgente como se viesse sendo cozinhada há tempos?

Próximo à porta ele ficara, pensativo, às vezes rindo atabalhoadamente, noutras franzindo o cenho ao lembrar-se das palavras de Benjamin dirigidas a ela e a si. Nojento, era como queria chamar o capitão, mas prezava pela estadia de Slaughter ali, em busca do Sea Lion. Piratas eram piratas, ele sabia bem, mas após aquele momento íntimo, descobrira a garota sensível dentro da mulher impassível que era a sua Victória. — Roberto...? — uma voz próxima surgira, acompanhada de uns olhos cor de amêndoas a lhe procurar pelo espaço existente entre a porta e a parede —... Roberto? Irlandese?

— Que há, Pimpinelli? — ele respondera ao italiano. — Pode entrar.

— Eh... — o narigudo meteu-se na cabine por fim, entrando. — Ciao, Bob! Io trouxe... Algumas frutti... Bananas... Laranjas... Sei que está aqui dentro há um bom tempo, hum?

Tentando não negar tal gentileza, Duane ficara sem ação, recebendo uma cesta de frutas em mãos e vendo aquele homem mais baixo que si passar rente ao seu corpo, encaminhando-se à cama, por ali sentando. —...O.... Obrigado.

— Un Letto...! — o italiano esparramou-se no colchão alheio, acomodando-se como se jamais tivesse visto uma cama. — Quanto tempo, eh?! Aquelas redes são uma merda!

Descascando uma banana Robert apoiou-se à parede, em seguida falando ao narigudo enquanto mastigava. —... A que veio, Pimpinelli?

— Affamato...Não é por menos, pois? Sesso... Sempre me deu fame.

— Ahn... Você também veio soltar piadas? —o mais moço perguntou, mostrando o caminho da porta. — Faz favor.

— Está me pondo pra fora? — Lucciano olhara os cantos. — Roberto.... Io sono su amico. Está me pondo pra fora? Grazie, mà io necessito de falar com você!

Robert andara para fora, mencionando a Lucciano para que o seguisse enquanto via o outro vir atrás de si, porta afora enquanto o ex-taberneiro comia, saboreando a fruta que lhe fora trazida. —... Fala.

— Il capitano — Pimpinelli pressionou um dedo contra o peito de Bob, mantendo uma mão por ali em seguida. —... Hm... Firme, eh? Bom, il capitano, ele... Como digo isso... È pazzo! Capisce? Em tutta Itália, no mai visto un uomo cosi pazzo como lui! ... — entre gesticuladas e esbarradas nos ombros do irlandês, ele seguiu a falar. — Estávamos na feira... Ele pegou aquela bussola pequenina dele e começou... a andar de um lado all'altro. Coisa de doido, eh! Eu disse "capitano, che succede?" E o idiota continuou calado, fingindo ‘tar atrás de algo. Io penso que ele me odeia, hum!

— Lucci... — Duane estreitara os olhos inteiramente verdes para o par apenas mesclado do outro. —... Ele odeia a todos. Deve odiar até o pai. O que eu tenho a ver com isso?

— Mà... Temos que fazer algo, ragazzo! ... Vendetta!

— Vingança? Não me leva a mal, mas eu quero sair desse navio vivo; eu, a Victória e a Otávia.

— Florida, ele disse que é pra lá que noi vamo’. — Lucciano ficara a devanear enquanto que Duane afastava-se de si. — EI, ROBERTO! — parecia muito mais que o italiano queria somente um pouco de atenção, estando quase sozinho naquele navio, analisando os mínimos detalhes de Robert, por demais interessado na sua pessoa enquanto disparava uma conversa sem muito nexo. —... Florida. Mia vendetta... Questo capitano... Questo piccolo bambino... Vai saber o que é buon, hum?

— Eu não sei, Lucciano. Eu só quero voltar pra cabine e dormir.

— Dormire? De novo? Já não dormiu o suficiente?... Ah, vá... Me conta como foi, Roberto. A capitã e voi...

Robert rira sonoramente antes de se colocar tão sério como nunca mostrara-se para o narigudo. — ‘Tá muito doido, napolitano?

— Io só... Ah, basta! — com a mesma mão que gesticulava, Lucciano fizera um gesto, encerrando a conversa. — Mangiare le banane... Che bela visione, eh?.. Ciao, Bob... Ancora Florida!

Lucciano Pimpinelli poderia falar e falar e Robert jamais o entenderia por completo. O homem era esquisito, mas bom, nada neste levava a pensar mal de si, mas as vezes os olhares que colocava encima de Duane chegavam a intimidar o rapaz. Era Benjamin Sparrow, porem, que merecia uma maior atenção, o capitão não lhe cheirava, tinha um feitio duvidoso como Lucci bem dissera, mas às vezes prostrava-se mais como uma criança contrariada do que de verdade como um homem tirano. Infantilidade, Bob fazia uma certa idéia, era dos piores comportamentos para se ter no impasse da vida pirata.

Duane cogitara regressar à cabine, mas à soleira da porta desta, fora interrompido pelo chamar não tão adorável da sua doce pirata. — O que ele queria? — a recém-chegada Victória lhe perguntou. — Pimpinelli... O que queria?

— Conversar sobre o Ben, me dar frutas... — os olhos antes foscos dele iluminaram-se de pronto voltando-se àquela que passara à sua frente, adentrando ali. —... Conversar sobre eu e você.

— Que carcamano curioso! — ela socou a parede, tendo a resposta na dor de seus dedos — Argh...

— Vic! — Bob fora ao seu encontro, tomando-lhe a mão, colocando-a por entre as suas a massageá-la. — Tenha mais cuidado.

Lentamente, ela se soltara do rapaz, apertando os próprios dedos e depois colocando-os sobre um braço. — Eu não sou de louça, Duane!

— Desculpe, Capitã. — ele respondera com desdém, dando-lhe as costas antes de sentar-se à cama — Como foi com o nosso outro capitão?... Ele agiu conforme vossa música?... Aposto que não, sabe o Lucci estava me falando...

— Ele não me emprestou a bússola. — Victória mirou o nada, movendo os dedos da mão livre, como se esmagasse os ossos de Benjamin com esta. —... Mas eu preciso pensar em algo, em qualquer coisa... Qualquer coisa que o atraía e o faça me dar o que eu preciso.

Aquele sentado mirara-a firmemente, como se daquela forma pudesse repreendê-la. — Victória... Não está na hora de deixar dessas missões loucas? Benjamin já não vai cair na sua... Ele sabe de nós dois.

O coração de Victória ardia, ardia por está tratando-o daquela forma, mas ela jamais poderia assumir seus sentimentos, não depois de se ter tornado uma pirata. O amava, mas será que amava tanto ao ponto de abrir mão de quem era? Bastou cair em seus braços para que virasse piada da tripulação. O mundo para as mulheres era tão... Triste. Ou amavam ou tinham sucesso. —... Está com ciúmes? — ela investiu num riso, levando uma mão aos cabelos dele, atiçando-lhe o couro cabeludo numa carícia. —... Ora, meu leprechaun... Sou uma pirata. Tenho que usar de todos os meios para ter o que preciso.

— Pirata?.. — o irlandês rolara os olhos, deixando-se tombar para trás, apoiando uma mão sobre o próprio peito, desgostoso. — Eu sei o que é, Victória... Mas o que somos nós, então?.. Nós dois? Dois amigos que de vez em quando vão cair numa cama?

— Claro que não! — ela pôs-se ao seu lado, mas sentada, ainda com os pés no chão, sentindo a fala embargar face à tais mentiras. — Somos dois amantes... Dois grandes amigos que fazem um par e tanto. Isso.

Ele erguera o pescoço, mirando a cara lavada dela. — “Isso” ou... “Só isso”?

— Isso, aquilo... E mais outras coisas.

— Victória... — impaciente era como se podia chamar Duane que dera um soco ao colchão num gesto enraivecido. — Eu só não parti a cara dele hoje por respeito a você, porque sei que tem seus objetivos aqui... Mas eu juro que vontade não me faltou!.. Agora vem você contar essas mentiras pra mim. Você... Me ofende desse jeito!

— Eu sinto muito... Eu também fiquei ofendida pelo Sparrow, mas temos algo a fazer nessa tripulação, Robert Duane! — ela bradou, inflando o peito, tentando não mirá-lo com o canto dos olhos, mas falhando dessa forma. —... Seja... Mais esperto que eu e entenda isso como uma... Uma forma que eu tenho de dizer coisas que não deveriam ser ditas... Coisas sérias, mas coisas... In...nomináveis.

Com uma careta ele não haveria de se ficar. — QUÊ? — e sem querer gritara. — Victória Slaughter...! Que diabos está falando?

— Robert... — Victória lhe estapeara um dos joelhos numa troça, tentando disfarçar as frases que soltava sem o mínimo sentido, metendo verdades por entre tais mentiras. —... Eu amo esse seu jeito e você, mas eu não posso assumir isso. ‘Está doido? Eu sou uma pirata e estou uma pirata apaixonada. Fim.

Vendo-a saltar da cama, Robert a imitara, apontando-lhe um dedo ao ir ao encontro desta. — Fizemos amor, você já parou pra pensar nisso? Amor, Victória. — ele repetiu, tirando uma das mechas do cabelo desta de frente de seus olhos, liberando o castanho destes para si. — Eu nunca o havia feito antes. Eu, sim estou apaixonado, mas você... prefere ser uma pirata que divide uma cama comigo do que uma mulher que divide a vida comigo... Sabe falar uma frase de amor inteira sem entrecortá-la com coisas inúteis, ao menos?

— Está me ofendendo. Claro que sei… — ela franzira o cenho. —“Romeu, risca teu nome e, em troca dele, que não é em parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.”... Viu?

Sem querer, Bob rira silenciosamente. — Isso... Não é seu.

— Shakespeare, meu Bob. — um dos olhos de formato amendoado dela lhe piscara. — Palavras de amor nada inúteis.

— Victoria! — numa repreensão ele lhe apontara um dedo, sendo logo imitado pela pirata.

Slaughter mirou profundamente nos orbes verdes deste, segurando-se por não abraça-lo ou dizer uma mínima verdade limpa boca afora, mas resistira duramente. — Robert, eu sinto muito!

— Sente mesmo? — Duane estava arrasado, apertando o meio dos olhos, tentando compreender de fato aquela atitude dela. —... Não sei se sente.

— Eu sinto tudo... Tive o melhor momento da minha vida horas antes, mas infelizmente, é isso que eu sou, Bob. Uma pirata...

Afastando-se por fim, ela tornara a abrir a porta saindo daquela cabine com todo o peso do mundo em suas costas. Havia quebrado o coração de Robert e por mais que repetisse para si mesma que não o havia feito, o rosto de expressão arrasada dele estaria ali sempre para lhe provar do contrário. Precisava desabafar, falar do que acontecera, contar os próprios anseios e receios a alguém e somente o nome de sua amiga vinha a sua mente.

Não a encontrara na cabine como seria de esperar, descendo mais um lanço do porão até a encontrar contabilizando as mercadorias que haviam buscado nas Bahamas. — Deu para mestre agora, Octávia?

Mirando-a por cima dos ombros, a jovem fizera pouco caso, ordenando a um dos marujos que a ajudava que levasse um saco de farinha de mandioca para cima. — Tendo em conta que você ficou sem o seu… vai ter mesmo de arranjar outro se quer continuar a liderar este navio, Victória.

— Me desculpe. — sentando-se num barril de rum, a pirata coçara os cabelos negros, desalinhados por natureza, mas muito mais bagunçados depois do ocorrido. — Eu devia ter acatado a primeira ideia e mandar essa besta borda fora. Ao menos, saberia que estava morto.

— Não teve culpa, Victória. Nem você… nem o Duane. — arregalando os olhos, a taberneira viajante analisara uma galinha que segurava pelas patas.

— Até você…?

— Convenhamos que a primeira coisa que Benjamin disparou depois de dizer que Brand havia fugido foi: vossa capitã, a Slaughter… é uma rameira.

— Filho da…

Vendo a outra morder o punho violentamente, Octávia colocara a ave dentro da jaula. — Ainda tem o apoio da maioria da tripulação, Vic. A maioria dos homens prefere um bom saque ou a tomada de um bom navio do que ir atrás de um tesouro que nem se sabe ser verdadeiro. Eu escutei conversas… o mais certo foi Jack Sparrow ter morrido e só o banana do Benjamin não aceita isso. Eu compreendo até… — pensativa, Octávia levara uma mão à testa alta. — É pai…

— Eu preciso da bússola dele. — Victória erguera-se, andando de um lado ao outro daquele compartimento abafado. — Eu te contei… ela mostra o que mais desejamos. Se realmente for verdade, é a única hipótese que tenho de chegar no Sea Lion.

— Quem te garante que é isso mesmo que teu coração quer, Slaughter? — Octávia a interrompera. — Quem garante que não é apenas um desejo da sua cabeça, enquanto seu coração quer outra coisa?

Erguendo a sobrancelha negra, bem marcada, Victória se fizera de parva. — Como assim?

— Eu te conheço, mulher… há dois anos, quando chegou em Tortuga, vinha ferida. Por mais que diga que Joe te ensinou tudo… eu sinto o asco em sua voz sempre que fala dele. Nunca se deu para nenhum homem. Eu vi como ficou quando teve de “seduzir” o Sparrow. E com o Robert sempre foi diferente.

— Ele é um bom garoto… o Robert. Meu amigo… — encolhendo os ombros, a capitã tentara dizer, mas a outra lhe interrompera.

— Sempre se enganou, isso que é! Ele é um palerma que sempre a amou em segredo. A idolatrava demais. Tanto que tinha até medo de abrir a boca para o que sentia. Eu avisei para não dar esperanças se não gostava dele do mesmo jeito.

— Octávia Doormat! — Victória exclamara, apontando um dedo à outra como se assim a calasse, mas Doormat havia nascido com o coração na garganta.

— Mas supresa! Você também o ama. E escondeu isso durante tanto tempo quanto ele.

— Eu não… não gostava dele desse jeito… eu… — Victória chegara a arrepiar os próprios cabelos.

Como lhe lendo os pensamentos, Octávia lhe tocou sobre o coração, abanando a cabeça. — Você já tinha esse sentimento plantado aí dentro. Mas ele só desabrochou no momento que você percebeu que Robert tinha alma de pirata.

— Se ele me ama… — os olhos castanhos de Victória brilharam com tal, mareados a acompanhar a garganta sufocada que lhe deixara a voz rouca. — Então não é pirata. Piratas… eles… não amam.

Octávia rolara os olhos afastando-se da mercadoria e subindo as escadas até ao nível superior do porão. — Ele é um pirata sim. Abandonou o sacerdócio para servir num bar em Tortuga. Abandonou tal ofício para se juntar a você num piscar de olhos. — parando no último degrau, a taberneira mirara Victória atrás de si. — Ama uma pirata… logo não me venha dizer que ele não o é. Talvez você, que ame mais um navio do que todo o resto. Vai-se lá saber… você é tão igual ao Jack Sparrow que nem se dá conta.

— Porque está falando comigo assim? — Victória engolira em seco. — Pensei que fosse minha amiga.

— Justamente por ser sua amiga e de Robert, que eu falo assim. — a taberneira chegara finalmente ou piso de cima, cruzando os braços ao mirar aquela da mesma altura. — Aposto a minha cabeça em como você veio ter comigo porque já fez merda com ele.

Slaughter olhara os cantos, certificando-se que não haveria por ali ninguém, encostando-se posteriormente a uma das traves do navio. — Eu falei pra ele que… ia tudo continuar sendo a mesma coisa a não ser que sempre que quiséssemos poderíamos…

— Porque fez isso?

Levando as mãos à cara, Victória trincara os dentes. — Eu não sei! Eu… eu me sinto tão diferente com ele. Eu me sinto… — fechando os olhos, ela suspirara. — Fraca. Com Robert, tudo desaparece. As tristezas, as preocupações, os objetivos. É como se de repente, ele fosse meu horizonte, meu destino… mas as coisas não são assim! Eu quero meu navio. E quero parte desse tesouro. Quero aquilo que o maldito Peter Walls me tirou quando se amotinou contra mim.

Aproximando-se, Octávia lhe sorrira. — Você não matou o Slaughter, pois?

— Fala baixo! — tapando a boca da outra, Victória arregalara os olhos. — É claro que matei.

— Sei… que você pudesse ter raiva dele, ainda acredito, agora matar?... — Doormat se afastara, deixando-a sozinha. — Eu não digo mais nada. Faz o que quiser, Victória Slaughter. Se um navio ou um grande tesouro te dá o conforto que o calor do Duane dá… então força.

***Continua***

Notas finais
Olá leitores! Aqui vai novo capítulo da Commedia. Um agradecimento especial à Vic Mikaelson pelo seu comentário. Não fica triste, Vic! A história ainda mal começou, mas ninguém manda no coração. Além do mais, com o tempo você vai perceber que talvez, Victoria e Benjamin não foram feitos um pro outro. Saudações Piratas!!! : D Jodivise & Olg'Austen