Commedia
12 Capítulo 11 Surpresas a bordo
Commedia
por Jodivise e Olg'Austen
Capítulo 11: Surpresas a bordo
Quando o sol raiara, Benjamin acordara com um som que não ouvia há meses: o cantar de um galo. Seu nariz coçara ao perceber a poeira do feno que o rodeava, sentindo a pele arrepiar com o frio. — Bom dia…
— Clara… — sobressaltando os olhos, Ben notara aquela que o olhava ao seu lado. Jazia com um braço a rodear o corpo mulato dela, enquanto sua namorada de infância lhe abraçava o tronco nu. — Não foi um sonho.
A crioula lhe sorrira, rasgando os lábios carnudos, enquanto lhe acariciava o rosto, atritando as falanges aos pelos da barba. — Não… não foi um sonho.
Descendo os olhos, Sparrow lhe captara o busto nu, memorizando o detalhe dos seios fartos desta, culminando na anca larga com na coxa passada por cima de seu sexo. — Eu sonhei com a nossa primeira vez… lá no meio do índigo. Foi bom ter-te encontrado de novo, Claire.
— Eu sonhei muito com isso. — Clara aproximara os lábios dos seus, beijando-os. — Eu gostei do pai do Sammy. Gosto do pai dos meus outros filhos. Mas amar… Amar eu só amei você.
— Quer dizer que aceita? — pondo-se sentado, Benjamin a vira imitá-lo. — Vem comigo a bordo do Commedia?
Um sorriso fraco se apoderara do rosto da mulher, baixando-o. — Foi bom, Bennie. Mas você está diferente.
— Eu sou o mesmo Bennie, Clara.
— Não, não é. — lágrimas se fizeram nos olhos grandes dela em meio ao sorriso. — O meu Bennie… aquele com o qual sonhava ficou naquela plantação de índigo. Ficou em New Orleans assim como a Claire que você conhecia, meu bem.
— O que diz? — notando-a se levantar, Benjamin abanara a cabeça, parvo com a distância dela. — Você não gostou? Sou inferior aos seus homens, é isso?
— Deixa de ser besta, Benjamin Lane! — ela lhe exclamara, nua na sua frente a apanhar as roupas. — Não vou dizer que esta noite foi um erro, porque não o foi. Eu precisava… você precisava. Mas só deu para confirmar aquilo que suspeitava. Não somos mais os mesmos, Bennie. Você é um pirata… eu uma mulher do campo, mãe de família.
Sparrow se sentia estranho, com os olhos arregalados a mirarem o feno à sua volta. Enviesando o olhar, ele trincara os dentes. — Eu não vou voltar, Clara. Se você não vier…
— Eu não vou. — a crioula ajeitara a saia, vestindo a blusa cujas mangas caiam pelos ombros. — E você não quer que eu vá, Ben. Não pensa que seria um homem ruim se chegasse aqui e se deitasse comigo e fosse embora. Não… eu gostei.
Buscando as calças, descidas até meio da sua perna e impedidas pelas suas botas, Benjamin bufara. — Eu vim aqui apenas e só para vê-la.
— Mente de novo. Ai, Bennie… sempre foi assim. Eu gosto, sabe? Mas é apenas uma miragem. — sacudindo o feno das roupas, Clara o vira andar às voltas atrás da camisa. — Vem tomar o café…
Mas ele não fora. Benjamin apenas assentira, vendo-a regressar ao lar, enquanto ele próprio se aprontava. Mal enfiara o chapéu nos cabelos, ele tratara de sair do celeiro e enveredar pela estrada de terra batida, saindo apressado, sem nem olhar para trás. Sentia-se humilhado, mas sentia-se também estranho. Ele pensava amar Clara e, no entanto, o que se passara naquela noite fora tudo menos amor.
Fora desejo sim. Um desejo que demorara a ser aceso. Um choque o Sparrow mais novo acabara tomando quando vira a triste realidade em que Clara vivia. Três filhos e condições nenhuma. Quis tirá-la dali e fora bem sincero. Mas não conseguira sentir o desejo de antes. Clara estava diferente. Mas mais diferente estava ele. Quando se vira suficientemente longe da fazenda alheia, Benjamin se apoiara numa árvore, levando a mão aos olhos, acabando-se a chorar.
— É estranho, non? — a voz nasalada de Lucciano se fizera mais à frente. — Se promete tutti el amore à bambina… mas no final… se siente com ela o mesmo que com una putana.
— PIMPINELLI! — com os orbes inflamados, Benjamin urrara, indo na direção do outro, agarrando-o pelos colarinhos a prensá-lo contra o tronco seguinte. — Seu animal dos infernos. Me seguiu!
— Scusa capitano. — Pimpinelli levara as mãos aos pulsos alheios, pedindo moderação. — Io me perdi na strada.
— Cala a boca. — jogando-o ao chão, Sparrow esfregara a própria cara, deixando o italiano ali caído. — Escusa de me seguir. Por mim não volta ao Commedia. É uma sorte eu deixá-lo aqui, com vida.
— Ma che violência! — correndo atrás de Benjamin, Lucciano amaldiçoara a própria lama que se acumulara nas calças. — Quella donna… era Clara, non?
— Não lhe interessa. — Sparrow caminhava apressadamente, chutando as pedras do caminho, enquanto sentia a cabeça doer face às perguntas do italiano.
— Bella donna… Com un belo culo. — Lucciano sorrira. — Mà o seu… era una delizia, eh!.
— Quê? — Ben percebera aliviado o começo da vila, não percebendo a fala cantada do outro.
— Io digo… Que posso ficar aqui… E parlare con il marito de Clara… Sobre vostra notte, hum? — Lucciano fingira analisar as próprias unhas, percebendo o capitão girar lentamente nos próprios calcanhares.
— Você não faria isso, seu nojento. — tresloucado era o que Benjamin Sparrow lhe parecia, mas em vez de medo, Pimpinelli sorria. — Te mato antes.
— Scusa capitano… Mas faltam pomodori en tu. — o italiano vira Benjamin se aproximar, fazendo-o subir os olhos hazel até seu semblante enraivecido. — Mà, claro… Tutto se resolverá se io subir de novo a bordo, hum?.. E claro… Com alguns regali.
Ben lhe mostrara os dentes ao sorrir, trincando-os em seguida. — Fala… é dinheiro que você quer? Jóias? Rum? Não é por mim, sabe? Mas eu não vou deixar você estragar a vida da Clara, Pimpinelli.
— Soldi? Jóias? RUM? — Lucciano se ofendera. — Por quem me toma, capitano? Io só quero calore.
— Calor? — Sparrow piscara os olhos algumas vezes, antes de descê-los, acompanhando o indicador de Lucciano que parara em seu peito, descendo-o por seu abdômen até seu umbigo numa provocação.
— Si, calore… — Lucci lhe sorrira, mostrando-lhe os dentes avantajados. — Io sono muito male, sabia? Fiquei com invidia de Clara… — o italiano descera os olhos pelo tronco alheio, percebendo Ben paralisado. — La bambina… gemendo… arranhando tuas costas… oh… — mordendo o lábio inferior, Lucci esboçara a cara mais cínica e lasciva antes já vista por Ben em um homem. Depois, o italiano surpreendera a Benjamin, colando-se a si, tronco com tronco, deixando seus dedos descerem mais, pulando os cós das calças de Sparrow e sobressaltando-o ao rumar a mão até o meio de suas pernas, apertando a masculinidade deste sobre o tecido. — Dio mio! E non é che tem pomodori?
Calor fora talvez o que apossara o corpo de Benjamin ao sentir seu ponto sensível apertado daquela forma, chegando a abrir a boca para gemer. — Aiiii… seu demónio! — mas tudo que lhe saíra fora um berro esganiçado, saltando de pronto. — FICA LONGE DE MIM… SEU… SEU… SEU INVERTIDO!
— Invertido? — Lucciano vira Benjamin Sparrow correr que nem desvairado, ficando ali, no meio do caminho a apanhar a brisa. — Non! Invertido non! Só carente! Por Dío, bambino!
Quando enfim chegara à praia, Benjamin ainda se sentia a ponto de explodir, percebendo um último bote seu na praia. — Pintel! Joga o bote na água.
— Mas e os Turner? — o velho imediato guardara uma garrafa de rum debaixo de uma das traves do bote, vendo a barata tonta de nome Benjamin empurrar o pequeno barquinho.
— Esquece os Turner. — Sparrow o empurrara para dentro do bote, quando um terror sem fim o assolara ao ouvir a voz de Lucciano ao longe. — Céus!
Remara tanto que, quando enfim alcançara o casco do Commedia, Ben sentia o coração na boca. Ao longe, ele ainda via o escandaloso esbravejar na praia. — O que está fazendo aqui, Sparrow? — Victória o recebera sem nenhum cumprimento a não ser aquela pergunta brava.
— Vamos partir.
— Encontrou os Turner?
— Não. Encontrei o diabo. — Benjamin pusera as mãos no ar num chilique. — LEVANTEM ÂNCORA!
— Que… — Victória mirara um apalermado Pintel, buscando depois os olhares dos seus homens. — Levantem âncora um cara--…
— Ah! — Benjamin lhe tapara a boca, fazendo Robert se despregar do parapeito num instante. — Não fala essa palavra… — os olhos tresloucados do capitão era tudo o que ela vira. — Nunca!
— Tudo… bem… — Victória olhara os cantos, tirando a mão alheia de sua boca. —... O Pimpinelli?
— NÃO FALA ESSE NOME!
— Tira a mão dela, porra! — Robert o empurrara, mantendo-o longe de Victória. — Seja a última vez que toca nela assim.
— Capitão… capitã… — Pintel se acercara dos três. — Tem um bote vindo na direção do navio.
Victória correra à amurada, percebendo um bote rumar em direção ao Commedia. — Um homem, uma mulher… e o Pimpinelli. — sobre os ombros, ela olhara Sparrow. — Você deixou o italiano abandonado na ilha?
— Nem o vi. Pensei que já estava cá. — Benjamin engolira em seco.
— Aquele homem… não é o ferreiro? — Robert apontara, colocando-se ao lado de Victória.
— Abordem o bote. Vejam o que eles querem. — Victória suspirara, vendo Robert ao seu lado.
— Se ele continuar assim, tresloucado… — o irlandês chamara a atenção dela. — Consegue a legitimidade do comando desse navio num instante, Slaughter.
— É tudo o que mais quero. — ela olhara o semblante dele. Robert não lhe mirava diretamente, preferindo focar-se nos visitantes. — Me chama de Victória. — ela lhe pedira num sussurro. Não o vira, mas Duane fechara os olhos com tal pedido, só os abrindo quando percebera a mão da jovem alcançar a sua. — Obrigada por me ter defendido… quer dizer eu sei me cuidar muito bem, mas… obrigada…
Robert sobrepusera um dedo sobre o seu, olhando aquele gesto. — Eu preciso ajudá-los a subir. — dissera sem a mirar.
Victória o vira afastar-se para apenas e só suspirar, trocando um olhar cúmplice com Otávia antes de prestar atenção nos três que subiam. Pimpinelli chegara esbravejando, mas estranhamente, mirando Benjamin, dissera apenas que se atrasara e ninguém esperara por si. O casal, pelo contrário, deixara todos apreensivos menos Pintel que só faltara ter um ataque.
— São eles! São eles! — Pintel apontara para o homem alto que aparentava uns quarenta e tal anos e para a mulher cujos cabelos loiros escuros lhe davam pela cintura, soltos ao vento. — A rainha pirata e o capitão amaldiçoado.
— Eu conheço você. — Victória apontara o dedo ao homem. — Era o ferreiro que falou o preço da espada do Robert.
— Meu nome é Will Turner, Capitã Slaughter. Mas poucos sabem. Ainda hoje, tanto meu nome como o da minha Elizabeth constam dos róis de bandidos fugidos à Marinha Inglesa e outras. — Will passara um braço pelos ombros de Elizabeth, trocando ambos um olhar cúmplice.
— Com licença. — Benjamin afastara Victória do caminho. — Eu sou o capitão do Commedia. Com certeza ouviram falar de mim… Capitão Benjamin Sparrow.
— Se não fosse seu sobrenome… — Elizabeth sorrira. — Eu nunca saberia quem era. É tão diferente do Jack. Diferente dos próprios Sparrows que conheci.
— Existem mais? — Ben esquecera-se até de beijar a mão alheia com tal.
— Refiro-me ao seu avô, Teague. — a loira explicara. Aos olhos de Pintel, o único que os conhecia, ela continuava bela como antes. Magra, com os cabelos ainda sem presença de fios brancos, mas com algumas rugas de expressão junto dos olhos, denunciando a passagem dos anos. — É diferente pois não me parece tão excêntrico. Mesmo tendo os mesmos olhos.
— Convenhamos que é muito difícil existir um outro Jack… ele era único. — Will falara. — Quando partem?
— O mais rápido possível tendo em conta que meu pai está desaparecido há quatro anos. — Ben ficara sério. — Por favor… me acompanhem até minha cabine. O assunto que me trouxe aqui é deveras sério e…
— Jack Sparrow foi atrás de um tesouro cujo mapa está divido em três partes. Uma delas sabemos não a encontrar, pois era meu falecido marido que a tinha. — Victória explicara. — A outra está com Ben e a segunda… Jack lhe disse que a deixou com alguém de bastante confiança.
— Obrigado… — Benjamin a fulminara com o olhar, tirando o pedaço do mapa do bolso do casaco e entregando-o a Will. — Fomos atrás de Calypso, ou Tia Dalma… como quiserem. Ela não o tinha. Aí, meu mestre, o Sr. Pintel, falou que ela só podia estar com vocês.
— Jack confiava em vocês. — Pintel falara. — Com Gibbs morto e Calypso falando que não o tinha, só me ocorreram vocês.
— Jack não confiava na própria sombra, Pintel. — Elizabeth visualizara o mapa. — E nós não o vemos há mais de dez anos. Eu sinto muito, Benjamin. Mas seu pai não nos procurou. Nem antes, nem depois da maldição de Will se quebrar.
Victória ficara por momentos ausente da conversa sobre o tesouro, admirando apenas a forma como Will e Elizabeth se davam. Eram ambos piratas, haviam, segundo lhe contara Pintel, passado as maiores adversidades e agora, pareciam felizes juntos, vivendo em família. Mesmo percebendo os olhos de ambos brilharem, principalmente os de Elizabeth ao ouvir Benjamin contar sobre os planos que tinha, era notório os olhares cúmplices do casal.
— Eles se dão tão bem… nem parece que foram piratas. — num sussurro, ela falara à amiga que se prostrara ao seu lado.
— Victória… histórias de amor não precisam de ser contadas com príncipes e princesas. Cada um faz a sua história de amor. — Otávia lhe dissera. — Você tem uma. E só não a desenvolve porque não quer.
— Eles não são mais piratas… é isso que o amor implica. — Victória apertara o punho num nervosismo. — Eu fugi de casa para ser livre… me tornei pirata para ser livre e mandei o Joe desta pra melhor para ser livre. Eu não posso…
— Robert é a sua liberdade, amiga. Não adiantará de nada você ser livre sabendo que seu coração grita por ele. — Otávia lhe provocara, vendo-a ficar rubra de raiva.
Respirando fundo, Victória se afastara do passarinho falante de nome Otávia. — Me desculpem… mas, não existe mesmo mais ninguém a quem o Jack pudesse recorrer? — olhando Benjamin, Victória encolhera os ombros. — Porque sendo assim, ou seu pai o deixou com sua mãe ou o levou com ele.
— Ele não iria fazer isso… — tirando o chapéu, Ben alisara os cabelos. — Eu não posso desistir de o encontrar.
— Existe alguém… — Elizabeth falara. — Que talvez possa saber de algo.
— Liz… nós nem sabemos se ele é vivo. — William a censurara.
— Soubemos de notícias há dois anos atrás. Talvez ainda o seja. — a loira se achegara a Benjamin. — Um homem que talvez seja tão improvável que teu pai pensou nele em primeiro.
— Que homem, Sra. Turner? — Sparrow piscara os olhos.
— Ele já deve ter muita idade. A última vez que ouvimos falar dele, havia desistido da pirataria para passar seus dias de velhice numa casa situada nos Açores. Não acredito que algo seja possível, mas Jack seria louco o suficiente… — trocando um olhar com Elizabeth e depois com Pintel, Will sorrira. — Falo do outro capitão do Black Pearl.
— Deus do Céu… se ele o tiver, é bem capaz de ter ido atrás do tesouro também. — Pintel esmurrou o ar sorrindo.
— ALGUÉM…! — Benjamin berrara. — É capaz de me explicar de quem falam?
Voltando a abraçar Elizabeth, William sorrira. — Ainda tem a bússola, pois? Ela, juntamente com as indicações de seu imediato, o levarão ao sítio certo.
*
Nem quando os candeeiros foram acesos em sua totalidade o Capitão quis sair de sua cabine. Benjamin quedou-se lá durante toda a noite em que o Commedia ficara ancorado na Biscayne Bay, tentando por um fim à loucura de sua mente enquanto entornava uma garrafa de rum deixando-se pensar na vida que poderia ter tido se tivesse continuado na Inglaterra ou se da Louisiana sequer tivesse saído.
Do lado de fora o som irritante de um acordeão munido de uma gaita animada lhe tirava o sossego. Quando abria uma fresta da porta, curioso por saber a fonte dos risos de alguns marujos sempre irritava-se com a visão de Pimpinelli e Victória a sorrirem, conversando sobre qualquer canto do qual o italiano havia passado. Sonoramente, ele tornava a fechar a porta, repassando em mente as palavras do casal Turner, mas sempre tornava a cair em tentação, melhor prestando atenção nas gargalhadas da outra capitã. — Raios! — Victória Slaughter, talvez fosse ela o motivo de seu amor por Clara ter perecido. Victória Slaughter, o tipo de pirata que, talvez, qualquer homem do amor gostaria de ter ao seu lado.
Mirando a bússola quebrada e pousada em sua mão, ainda conseguia perceber a agulha vacilar indo em direção da porta afora antes de girar, mudando o sentido para o mar aberto. Pouco ou nada sabia sobre a história de Slaughter, na verdade, sabia do marido que matara e das origens ibéricas, mas nada mais. Às vezes se pegava sinceramente pensando nesta e no quanto poderia ter poder caso ela aceitasse dividir os sucessos consigo, mas logo tornava a lembrar-se do dia em que a moça lhe passara a perna, roubando-lhe o navio. Maldito o dia em que entrara no Faithful Bride!
Do lado de fora o clima era outro, regado também a rum, mas animado onde pequenos grupos se divertiam contando histórias, outros dançando ao som de uma música folclórica e outros apenas deitados contemplando o céu estrelado da Flórida. Envolta de uma pequena mesa carcomida, Victória apostava moedas de ouro com o então amigo italiano, virando doses de aguardente que eram despejadas em suas canecas. Sempre que um demorava a entornar, uma moeda era paga e uma boa história contada.
— Desse modo, ti direi tutta la minha vita, capitã. — Pimpinelli ria, mostrando os dentes que possuía enquanto virava a caneca cheia pela metade. —... Esta signorina a Firenze, nos conhecemos há uns anni... Era a esposa do governatore... Passei dois meses na prigione por causa dela, eh!
A morena batera-lhe num ombro, fazendo o napolitano ir ao lado, risonho — Pimpinelli, é uma verdadeira raposa!
— Io? Mà io sono só um romântico.
Ao de longe Robert que seguia entretido a mirar o céu, com um braço dobrado à cabeça, olhara de soslaio para a capitã e aquele homem tão falante, vendo-a sorrir por tudo e por nada, um tanto lenta ao perceber as investidas do tipo narigudo. — Signore, Pimpinelli — ela falou mais uma vez, batendo a caneca sobre a mesa enquanto este deixava metade do conteúdo ir ao chão. — De novo?
— Vino sempre me cai melhor, capitã.
Lucciano tirara os cabelos da frente do rosto, aproximando-se do seu, muito matreiro a deixar o nariz avantajado sentir a fragrância do mar das madeixas negras dela, tomando uma mecha em mãos enquanto Victória parecia alheia a qualquer coisa, abanando a cabeça somente a gargalhar. — Outra história e outra moeda, signore!
— Um segreto... Uma verità... — disse o de cabelos ruços, cravando os olhos esverdeados nela e só então sendo encarado. — ... Faz tempo desde que estive com Zia Dalma, hum...?
Apertando o nariz deste com uma mão, provocando certa dor ao machucar-lhe o septo, Victória riu-se — O signore... — e imitou-lhe o sotaque, afastando o tronco deste —... Cheira engraçado, eh!
— PIMPINELLI! — a voz de Duane soara e quando Slaughter e Lucci puderam ver, o irlandês já estava à beira destes, segurando Victória por um braço. —... é doido?
— Roberto... Che succede? Estávamos só bebendo, e...
A moça fora colocada de pé, deixando Lucciano sentado no vácuo. — É... “Roberto” — e passara uma mão pela cintura do ex-taberneiro. — Che sui... Suicida? He... He...
— Olha pra mim... — Duane apontara para o napolitano. —... Você fingiu não saber beber. E ela acabou bêbada.
— Roberto... Duane. — Lucciano pôs-se de pé num salto, não se intimidando —... Lei non è uma bambina, eh? — desembainhando o florete comprado no dia passado, o italiano erguera tal arma até a altura dos olhos do outro —... È libera!
Robert trocara os olhos a mirar a ponta de tal sabre, levando uma mão à lâmina fina antes de baixa-la. — Quando tiver uma espada de verdade... Me procure.
— CHE?
— Pimpinelli... — Victória tomara a frente, se colocando entre Bob e o outro. —... Vai tomar um banho.
Lucci estreitara os olhos claros para si, fingindo um imenso desagrado. Em seguida, antes de Robert conduzi-la para longe, ele vira a moça piscar-lhe um olho, retribuindo-a em igual riso. Guardando o florete espanhol, ele simplesmente tornou a se sentar, servindo-se de mais bebida, fingindo não ver os olhares dos outros piratas músicos sobre si. — Io sono um bravo attore, eh?
— Você foi tão macho, meu leprechaun... — a pirata mirara Robert debaixo, erguendo os olhos castanhos para o rosto irritado deste. Pararam à contenção do convés, escorando-se por ali a mirar as águas. — Me salvou das mãos daquele Leonardo safado!
— Victória... — Duane tentara não rir. —... Não devia beber na companhia de gente estranha... Aquele italiano... Ele pode ser legal, mas é meio...
— Dias no mar colocam as pessoas doidas, pois? — tonta, Slaughter tocou-lhe um braço, fingindo tentar não cair. —... Deixe-o! É um coitado... Veja só a quem ele veio se achegar... A mim. É um sem gosto.
Os orbes verdes do rapaz decaíram sobre os seus. — Sem gosto? Victória, tem muita sorte do Pinpinelli ser o primeiro a afrontá-la. — quando dera por si, ele já lhe tocava o rosto, fazendo-a suspirar. — Os outros homens seguram-se por não olhá-la quando passa... Hum! Podemos sempre manda-lo prancha afora.
— Naa...ah! — ela riu. — É um bom homem, só estava bêbado.
— Não, Victória! É isso que vou fazer! Vou leva-lo a um duelo, você verá! ... E no final, vai à prancha se ainda sair vivo!
— Robert, baixa o facho! — ela falou, decaindo a voz a roer uma unha, falando consigo mesmo. — Eu bem disse pra aquele idiota não puxar o florete!
Duane espichara os ouvidos, dando um passo em falso. — Vocês estavam arranjados?
— Quê? — fingindo não ser consigo, ela mirara os cantos. —... E você ficou com ciúmes!
—... Você... É... Uma pirata mesmo! — Bob pôs o dedo em riste. — Me enganou! ... Nem bêbada deve estar.
Ficando de ponta de pés, Slaughter erguera o queixo, tentando mirá-lo de frente. — Na verdade, estou um pouco bêbada, Duane!
— Bêbada?
— Alta! — disse antes de rir, tornando a por os pés no chão. — Você caiu como ninguém. Acho que devíamos esquecer qualquer conversa que tivemos hoje, você não acha, Bob?
Os olhos verdes deste observaram Victória lhe tocar um braço, dando-lhe a volta a abraçá-lo a unir seus troncos. —... Está dando encima de mim!
— Eu? — ela lhe perguntou. — Eu...? ... Mas... Não faço nada que não já tenhamos feito.
— Victória... pode não estar bêbada, mas está... Muito alegre.
— Não gosta de me ver alegre? — a pirata descera um dedo pelo nariz retilíneo do rapaz, pousando-o sobre seus lábios antes de ensaiar aproximar-se muito mais. —... Eu quero-te ver alegre também, Bob.
Duane não percebera bem quando, mas em meio à extremidade mais escura do convés, ele se viu em seus braços. Victória ainda investira numa maior aproximação de suas bocas, mas antes seus lábios se encontrassem, o irlandês virara o rosto em direção ao mar, fazendo-a lhe beijar o canto da boca somente. — Eu... Não sou idiota, capitã.
— Eu só queria lhe beijar. — a voz baixa dela fora ao seu ouvido antes de largar seu pescoço, afastando-se.
— Eu... Vou... Dormir. — ele sibilou, dando a volta com os calcanhares e saindo em direção ao sumidouro do porão.
Slaughter não se daria por vencida. Conseguia ver o desejo de ser beijado nos olhos claros de seu amado, por isso jamais contaria com tamanho fora. No encalço deste ela foi, decidida em lhe extrair uma confissão e não somente aquela carranca irritada que tomara conta do belo rosto que tanto amava admirar. Rompendo à porta da mínima cabine que acabara de ser fechada ela bradou. — Duane! Que... Que está pensando?
— Está gaga, capitã? — sentando-se ao próprio colchão, Robert lhe falara a esfregar um pé no outro a fim de tirar as botas. — Acaba ainda pegando os tiques do outro, hum?
— Eu não estou gaga... Eu... Estou consigo entalado na garganta! Me deixou pendurada, eu só queria um beijinho inocente.
— Victória! Pode ser uma mulher inexperiente no amor, mas tem um apetite de leoa. — ele disse ao vê-la cerrar a porta. —... Eu não quero que nos magoemos de novo. Não vou ceder aos meus desejos até que você assuma o que temos, não como uma amizade multicolorida, mas como... Como o amor que temos. É isso. Quero ouvir dizer que me ama! Quero que seja a Vic, não a Capitã Slaughter.
Com as mãos à cintura, Victória mirara todo o cômodo à volta, desde a quartinha com água fresca até a simplicidade do colchão quase rente ao chão dele. — Você... Está querendo...
— Demais? Me desculpe, capitã, eu não discuto isso consigo, só com a Victória.
— Me chamou de leoa, Bob!
Limpando uma unha ele riu: — Chamei! É uma mulher decidida e eu sei que gosta de mim... Mas eu quero que me ame... Oficialmente.
— Oficialmente... Oficialmente nem Slaughter me chamo. — disse antes de lhe dar as costas, mas logo desistindo a girar as botas de volta. — Tive uma idéia. Vou fazê-lo não só me beijar, mas... Me amar. — Victória abrira a primeira casa da camisa branca e larga que usava deixando parte do já grande decote transparecer para depois ir mais abaixo, desfazendo o laço principal do corpete de couro. —... Bob Duane, olhe pra mim!
Robert coçara uma sobrancelha, se deitando à cama e voltando-se à parede a praguejar. — A...ahn! Vai embora, Victória.
— Bob eu o quero... — ela sentara-se ao colchão, ao lado do corpo deitado dele, tocando-lhe as omoplatas sob a roupa, arranhando o tecido ao de leve com uma unha. — Eu quero você. — Victória concluíra jogando os próprios calçados juntos aos dele, colocando ambas as pernas ao colchão a abraçar sua espalda. —... Bob... — e então soara aos ouvidos dele, provocante. —... Eu o quero.
— Eu a amo, Victória. — com o canto dos olhos ele tentara enxerga-la não conseguindo, porem sentindo bem suas mãos delicadas desbravarem a barra de sua camisa roçando na pele livre de suas costas. —... Ahn... — seus dentes frontais encontraram o mais carnudo de seus lábios, tentando se conter por não girar o corpo ao encontro dela. — ... Eu a desejo também, mas...
Os dedos atrevidos que tocavam epiderme quente dele desceram pelo cós das calças escuras do ex-taberneiro e a maior surpresa fora a da pirata. Robert não tinha uma única roupa sob àquela — Não tem “mas” Robert Duane. — atrevida, Victória investira naquela invasão, perpassando aquela peça a tocar a maciez de uma das nádegas dele, acarinhando-a em pequenos movimentos circulares. —... Ou é ou é.
— Victória... — ele riu baixo quando sentiu-se apertado naquele musculo. — ... Não é.
Estapeando-o com gosto, Victória ficara por ali mesmo, deitando o rosto na separação de suas omoplatas. — Arre, Robert!
— Vic... Por favor não faz isso. — ele pediu quando a capitã descera tal mão por sua coxa, parando na parte frontal de suas calças, abraçando seus quadris. Slaughter sentira-o livre naquele momento, tocando aquilo em que primeiro esbarrara. Urgencial, Robert retraíra-se, curvando o corpo para a frente, não lhe deixando continuar. — V... Arh!
Slaughter não esperara muito mais, passando uma perna sobre suas ancas e montando em si ao se pôr por cima. — Bob... — ela apoiara ambas as mãos ao peito deste, enchendo os olhos de lágrimas ao notar-se friamente rejeitada. — Caramba, Robert!
Encarando-a, Duane subira os olhos até os seus. —... Não era pra ser assim! — ele disse, se esforçando por se sentar. —... Victória. Eu não sou um brinquedo, e você ‘tá se comportando como uma menina mimada. Não tem o que quer e esperneia até conseguir. — apoiando uma das mãos mais atrás, ao colchão, Robert tomara aquela que fora ao seu corpo segundos antes, entrelaçando os dedos aos da amada. —... Isso não é típico de você, minha capitã...
— Robert eu tenho vinte e dois anos. Eu não sou uma mulher cheia de experiências. Eu sou uma pirata, claro, mas eu, consigo, me sinto uma boba. Eu quero de si... Quero o que puder me dar, mas não me deixa sem você.
Duane buscara forças por não chorar junto a si, desfazendo uma lágrima que já ia a meio caminho de uma das faces dela, beijando-lhe os dedos em seguida. — Não precisa disso, Vic... Você me tem sempre, mas eu também quero tê-la. Quero que me ame.
— Eu... — num esganiçar ela soara. —.... Eu te amo, Bob. Nunca conheci o amor na minha vida, sempre vi o desejo primeiro, desejo que nem sequer sentia... O Slaughter... Ela não era mau, mas não me amava. Eu o odiava por isso. Eu não quero soar como ele. Eu amo você, Duane!
Com um indicador o rapaz lhe calara, afastando-lhe os cabelos da cara em seguida. — O que é isso, Vic? ... Você jamais vai ser como o Joe Slaughter. O homem não tinha coração, nunca deve ter amado. Nós dois nos amamos, mas eu não aguento mais essa pose sua.
— Eu nunca vou perdê-la. Eu juro, já nasci com ela. Mas eu nunca disse que não te amava.
Sem muito pensar, Robert lhe abraçara, tomando equilíbrio o suficiente por levar a mão antes ocupada à sua coxa sob a calça, encaixando seus corpos naquela posição tão íntima e tomando o rosto de Vic com os dedos livres. Em seguida, ele aproximara seus rostos, sentindo o molhar do choro dela de encontro à sua pele e a respiração descompassada da pirata tão próxima, logo ele a beijou, enveredando a boca até a sua a lhe sugar um lábio. Lenta era como se chamaria tal atitude dele. Duane cobrira-lhe a boca no instante seguinte, sentindo a umidade da boca alheia vir à sua em toques demorados quando sincronizados à sua língua.
Soavam estranhos, talvez. Dentro de Robert um coração pirata também batia, mesmo que disso ele não desse muita conta. Eram perfeitos ainda que Duane sempre se percebesse, mesmo que fosse um ano mais velho, menos maduro que ela. Victória vivera muito, não conhecia a Inglaterra ou a Irlanda tanto quanto ele, mas à bordo do Sea Lion ela havia-se tornado uma mulher. Só então ele percebera o porque da sede desta em reencontrar o navio perdido. Sua vida tinha ficado ali, honra e história. Consigo, com aquela adorável mulher que tinha nos braços, ele iria até o inferno se possível, até onde fosse que o mapa de Sparrow os levassem. Com ela atravessaria todos os mares e oceanos ainda que em meio àquele tipo de discussões. Tudo bem, se todas acabassem daquela forma tão doce e prazerosa, sempre seria ele a iniciá-las.
XXXContinuaXXX
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