Commedia

11 Capítulo 10: Antigos Amores


Commedia

por Jodivise e Olg'Austen

Capítulo 10: Antigos Amores

Dois dias e meio se passaram desde que Victória e Robert haviam se desentendido. Aonde ela estava, ele evitava estar, aonde ele ia, ela nem sequer fazia questão de ir atrás. Como podiam se amar ardentemente num momento e no outro ficarem a se arder sozinhos, doidos para que um desse o braço a torcer e tornasse a falar com o outro. — Me admira vê-lo no convés. — tirando proveito do mal-estar que se fizera entre a capitã Slaughter e Duane, Benjamin rira de banda, falando com Pintel. — Não precisamos aportar, desceremos em botes.

— Biscayne Bay... — o gorducho baixinho falou — Está repleta de ingleses. Os espanhóis já não vigoram por aí como faziam antes, Capitão.

Aquele que endireitara o tricórnio à cabeça, mirara de soslaio para o homem de olhos amarelados — E eu sou o quê, Pintel?

— Um pirata?

Estapeando a nuca do mais velho, Benjamin apontara novamente para terra. — Sim, mas tenho sangue inglês!

— Piratas não têm sangue disso ou sangue daquilo, capitano... — para a desgraça do filho de Sparrow, um italiano muito maldoso soara à sua espalda, espantando Pintel o ocupar o lugar do imediato. —... Piratas têm il mare nas veias, eh? Somente. — Lucciano cerrara os olhos em seguida, sorrindo discretamente enquanto curtia o vento morno lhe assanhar os cabelos claros como ocre. —... É aqui que vai saber dos tais piratas aposentados? ... De certeza que são piratas também, capitano? ... Os verdadeiros não se aposentam.

— Sr. Pimpinelli... — Benjamin tentou lhe falar, sendo interrompido em seguida

— Lucci. Per favore! — este pediu. — Soube que vai encontrar una bambina. È vero?

— Pimpinelli... Quem lhe disse isso? — o moreno encarara o narigudo de perto, afastando-se de si.

O napolitano mordera um lábio, pensativo. —.... Signorina Doormat, que ouviu do irlandese que ouviu da capitã.

— Não é da conta de nenhum desses. — enfiando uma mão sob o casaco negro tão pesado, Sparrow tocara a carta de Clara com a ponta dos dedos, certificando-se de que esta ali estava. — Mestre Pintel, lançar âncora! Prepare o meu bote.

Provinda do outro extremo do convés, Slaughter gritara em sua direção — Você não vai descer sozinho. Vou eu, vai o Pimpinelli, o... o Robert. — ao ouvir seu nome ser mencionado por ela, Duane, meio distante aproximou-se —... Alguns dos meus homens, e...

— E eu? — rindo sozinho, Pintel erguera um dedo. — Eu... Eu sinto saudades. Queria rever o grande Turner e a eterna Swann.

— Claro, eh! — Lucciano passou um braço por aquele mais baixo que si, trazendo-o para perto. — Vamo’ nos divertir pelo porto, pelas hospedarias... Rever tuoi amici... He he... O dia é nostro, signore Pintel.

Duane falara de canto, evitando trocar olhares com Victória. — Dois botes, então... Num vou eu, Pintel e Luccian...

— Você, Pintel e eu. — a pirata falara primeiro, limpando uma unha antes de ver os primeiros marujos lançarem o barquinho ao mar. — No outro vai quem sobrar... Sejamos rápidos.

Chegando-se à ela, Benjamin falara-lhe quase num sussurro — Gostei de ver... Colocando os subordinados no devido lugar.

— Não. — os olhos cor de carvalho dela foram de cima abaixo sob o corpo do Capitão, falando-se cheia de nojo: — Apenas ‘tou evitando dividir um bote com você.

Um total de oito pessoas desceram do Commedia, Pintel por ser o único a saber a localização do casal Turner, os capitães porque tudo parecia muito mais uma corrida atrás de milhões, Robert porque Victória assim quis, Lucciano porque assim deu na telha, e mais três homens de confiança, pronto para trazer mais rum ao porão, visto que este nunca era demais. Otávia ficara porque quisera e porque nada tinha a sério para fazer fora do navio, acenando a distância quando a amiga e Robert partiram de encontro à baía.

As ruelas pequeninas do local tinham muito das pequenas localidades espanholas por onde Benjamin já havia estado. Biscayne Bay crescia aos poucos, ganhando nomes das bocas de seus moradores e visitantes. Não que gostasse de tais características um tanto bucólicas, de casas com amplos quintais e de mulheres a carregarem cestos de frutas e de roupas no topo da cabeça, pescadores também chegavam em botes iguais àqueles nos quais chegaram aproveitando o clima praieiro que tomava as areias brancas da baía.

— Não sei o que você achou que estava fazendo... — ao passar por Robert, tomando a frente do grupo, Victória lhe falou muito baixo: — Mas não precisava encostar-se tanto em mim dentro do barco.

Duane mandara uma boca, fingindo-se ofendido. — Eu encostei em si? Mas era você que caía pro meu lado, Slaughter!

— Me poupe, Bob! Não parou de roçar a perna à minha... Espere algum momento em que estivermos a sós, hum?

— Momento? — ele riu-se. — Não haverão mais momentos, Capitã! Pode ficar sossegada. E para evitar os encontrões das minhas pernas finas pode ir no bote do Sparrow na volta.

Victória ficara olhando os cantos. —... Pois... Pois... Não são tão finas... Eu eu... Gosto delas!

— Gosta? — os passos de Robert cessaram, encarando-a frente à frente. —... Pois eu gosto muito das suas, também.

— Não seja... Safado! — as bochechas da moça arderam e sob o tricórnio de couro sentiu a própria cabeça ferver. —... E vá você no bote dele porque este em que viemos é meu.

Aquele que chegara-se atrás daquela dupla resmungona soara alto. — Vocês dois! — tratava-se do velho pirata Pintel a apontar uma rua acima. — Da última vez que ouvi falar dos Turners viviam naquela casa. — seguiu mencionando uma habitação verticalizada, apertada dos lados, frente à calçada, com dois andares e uma varanda pequenina no primeiro destes. — Quem é pirata o bastante para lhes bater na porta? Desde que o William foi liberto da maldição jamais quis ser incomodado...

— É serio isso? — o então alheio capitão lhe perguntou, esbugalhando os olhos negros para si. —... Ele não...

— É o que dizem.

— Mestre Pintel... Tem toda a minha confiança e incentivo para subir esta ruela e ir ter com seus velhos e adorados amigos. — Sparrow dissera apertando a carta de Clara por entre os dedos. — Eu preciso seguir até um vilarejo mais ao norte. Coisa boba... Preciso... Fazer um favor à minha querida mãe.

Victória ralhou, cuspindo ao chão. — Hei, Édipo! Mais valia contar a verdade sobre a Cara.

— Clara. — ele a corrigiu entre dentes.

— Isso... — a moça sorrira, mostrando os dentes para si. —.... Anda deixa serviço de homens para homens mesmo.

— Mas... Agora eu já não vou! — Ben inflara o peito, ensaiando algumas passadas de encontro a casa de Elizabeth e William Turner, acelerando-se quando Victória ensaiou imitá-lo. Benjamin era cômico inclusive ao correr, sacudindo os braços sem jeito a fim de não ser passado na frente. Slaughter ficara pelo caminho, rindo de si a se escorar no muro de uma casa. — Não tem graça! — e ouvira louisiano chatear-se.

— Tem graça sim... — Victória falara. — Tem muita graça... He... He... Vamos bata à porta. Seja homem ao menos pra importunar a vida destes dois.

Benjamin não precisara esperar muito. Batera apenas duas vezes à porta para que logo fosse atendido. Uma senhora idosa primeiro os encarara pela fresta, focando-se nos cinco rostos que lhe encararam e em especial no de Victória, a garota ao lado do estafermo que lhe chamara. — O que querem? — ela perguntou.

— Boa tarde, cara senhora Turner. — Sparrow tirara o chapéu, fazendo uma vênia. — Poderíamos entrar e ter consigo e com o seu...

Pintel fora rápido no gatilho, chamando Benjamin de lado. — Capitão! Essa não é a senhora Elizabeth! Talvez a avó dela, mas jamais a Rainha Pirata a que servi tão lealmente!

— Ouvi dizer que você era do bando do Barbossa. E não do meu pai ou do Will. — Ben lhe dissera apontando um dedo para o baixote e em seguida estendendo tal gesto para a estranha que os atendera. — Se a senhora não é Elizabeth Swann... Turner. — e corrigiu-se. — ...Quem é para estar na casa dos Turners?

Por baixo das pálpebras caídas a velha senhora repetiu. — Turners? Sr. William e Sra Elizabeth? ... Já não vivem aqui. — respondeu, desconfiada demais por estar falando a verdade. —... Quem são vocês?

— Sou a capitã Victória Slaughter! — a morena passara à frente de Sparrow. —.... Estou aqui com meus homens a fim de falar com os senhores Turners, algo que lhes diz respeito. — e em seguida sua voz decaíra a falar do velho lobo do mar sumido — Sobre o Capitão Jack Sparrow.

Apontando para o próprio peito, Ben disputara os olhares da mulher à porta. — Meu pai!

— Não posso ajudá-los. Há muitos anos não ouço falar dos Turners. Soube que saíram a navegar na companhia do pequeno Willie.

— Willie? — Ben e Victória repetiram em coro, sendo socorridos por Pintel.

— William Turner III... Filho dos dois. Um menininho muito esperto. — e a indireta fora para o herdeiro de Sparrow. — Coisa rara de acontecer com filhos de piratas, pelo visto.

— Sr. Pintel... — mil e uns castigos já se viam claros na mente do capitão antes de todos serem atraídos pelo estrondoso som da porta da casa simplória a fechar. —... Arre! A mulher não nos ajudou em nada.. Não... Argh... Slaughter! — impaciente ele girou os calcanhares, mirando a capitã mais baixa que si. — Que história é esse de “seus homens”? De homem aqui só tem o Duane! ... No sentido mais pirata e puro da palavra, claro!

O irlandês bufara com a indireta de Benjamin, dando um soco à parede, reclamando calado a atrair um olhar daquele mais velho que si, Sparrow sobressaltou os olhos já grandes, recebendo tal gesto como uma ameaça. — Esquece! — mas Bob preferiu fingir não sentir a mínima vontade de esganá-lo, dando a volta e caminhando para o meio da rua. — Diacho de viagem perdida!

— Ninguém disse que seria fácil encontrá-los! — Pintel lhe falara, levando uma mão à careca. —... Estão por aqui, menino irlandês... Não vão ficar expostos, claro, mas estão por aqui.

Ainda à soleira da casa, os dois que ocupavam o cargo de capitão do Commedia seguiam a discutir. — Acabou de dizer que não é homem, Lane!

— Eu, eu... Não disse isso! — o gago replicara. —... Seu... Seu homem! De “seu" homem só tem o Duane porque o criminoso do Brand já se foi. Foi isso que eu disse. Todos os outros são meus homens!

— “Bennie”, eu também sou a capitã daquela porcaria de navio! — a moça cujo rosto seguia vermelho de raiva brado. — Logo, os homens são meus!

Sparrow rira sonoramente. — Eu os recrutei, são meus.

— Se eu bater o pé eles vêm ao meu comando, então são mais meus que seus. Não há um ali que seja mesmo fiel a si. Não são mordomos ingleses, Benjamin. São piratas. Precisam de um pirata a comandá-los.

— De novo está me dizendo que não sou pirata?

— Piratas têm que ter o coração no sítio certo e não num rabo de saia sulista!

—... Ahn... Fala de saia, mas não cita um par de calças em especial, pois?

Victória deixara um dedo em riste. — Sparrow! Vai... Tomar... RUM!

— Mas... Que mente suja para uma mulher tão linda! — Benjamin apoiara-se à porta fazendo uma pose ao vê-la se distanciar, acordando em seguida para o fato de que havia ficado sozinho fazendo charme no meio da rua, enquanto seus “homens” iam-se com ela. — EI!

Mas atrás de si uma voz nasalada, tipicamente napolitana soara, fazendo Benjamin se assustar mais do que já o estava por natureza. — Calmati, Capitano...

— Pimpinelli! Aonde estava?

— Por aí... — este riu mantendo os olhos esverdeados em si. — ...Guarda cosa ho comprato... — e, afastando a barra do longo casaco que envergava, ele tirara uma espada comprida, cuja lâmina fina era pontiaguda como a de uma lança, típica de esgrima — Scherma... Spada di scherma. Guarda che bello fioretto.

— Bla bla bla... — Ben dera as palavras deste por entendidas. — Porque sempre some quando chegamos a terra?

— Mà io sono um prisioneiro? — Lucci mirou-o de baixo, pesando as sobrancelhas espessas ao fazê-lo. —... Tenho que falar a Roberto, eh! Tinham umas spadas belíssimas no mercado, e...

Interceptando-o, Ben lhe trouxera para perto, puxando um dos braços do homem. — Pimpinelli!

— Me deixa andare, capitano! Ou, lasciate toccare do mesmo modo.

— Porque vai falar com o Duane sobre espadas...? — este perguntou, largando-o de pronto. — Ele planeja um motim, por acaso?

— Não que eu saiba. — Lucci olhara os lados, guardando o florete. —... MÀ il babino é bom, eh? Bom na espada, não... Em todas as duas, se me permite falar, capitano... Só vou lhe contar sobre o ferreiro que encontrei. O homem é bom, preços bons... Nem em Firenze encontro preços tão bons... Aprendi scherma quando era um bambino... Sempre é bom tornar a treinar, hum?

—... Então o motim é a dois? — Sparrow o encarara, desmanchando qualquer expressão valente pouco depois que este se chegara mais próximo, esbarrando uma mão em seu peito a provoca-lo. — Que há?

— È pazzo, capitano. Mangiare merda?

— Sr. Pimpinelli...!

O italiano empurrara-o de encontro à parede, cativando sua atenção — Nessuno de noi quer se amotinar contra o signore, Benjamin Noi siamo tudo seus homens, eh? A começar por me, capitano. Io sono tu uomo, capisce? Allora, scusami, preciso ir ter com o Roberto. Arriverdela, Capitano Sparrow!

*

A bordo do Commedia, Otávia ficara, apoiando-se à amurada, de costas para terra, enquanto seus olhos negros prescrutavam o horizonte que se fazia naquela tarde. Todo seu corpo coçava, irritando-a com os ácaros que com certeza o colchão de palha de sua cabine abrigava. Sentia falta da sua cama, da sua banheira, da água quente relaxando-a depois de horas inteiras servindo aqueles piratas bêbados. Sentia saudades da monotonia de sua vida, mas não conseguiria voltar para trás.

Incrivelmente, Robert e Victória eram o que mais se assemelhavam a família para si. Estava sozinha no mundo. Sua mãe partira, seu pai nunca conhecera. Não tinha irmãos, uma tia chata ou uma avó caquética que lhe desse alguma raíz na terra. Otávia não tinha nada, a não ser aqueles dois amigos e a ametista que pesava em seu bolso.

A retirara com uma preguiça de dar dó, rolando-a depois à frente de seus olhos, enquanto via o horizonte através da transparência violeta desta. — Tirando confiança… auto-estima… não há mais nada que me possas dar. — ela suspirara. Batendo com esta no parapeito, numa brincadeira sem graça, Otávia percebera aos poucos, as vozes dos piratas que haviam ficado a bordo se ausentarem, assim como o som das ondas ou das gaivotas que planavam no ar.

De repente, ela não se vira mais ali, percebendo o mar se desfazer sob seus olhos. Otávia tivera noção exata quando ficara mais próxima do chão, olhando o assoalho carcomido da hospedaria onde fora criada, enquanto apoiava a mão na soleira da porta de seu quarto, espreitando para a porta que jazia entreaberta.

A luz trémula do candeeiro onde uma vela solitária jazia era tudo que permitia iluminar a cabeceira da cama. Otávia percebera quando vira uma mulher cair nesta e um homem se sobrepôr a ela, fazendo seus olhos umedecerem de pronto, fazendo lágrimas correrem pelo seu rostinho de apenas sete anos. Não gostava de ver sua mãe com outros homens. Não gostava dos barulhos e muito menos daqueles que deixavam marcas no corpo de Eva. Por mais que escondesse, Otávia sempre as notaria.

— Eram cem xelins! — a voz de Eva soara do outro lado, depois da cama deixar de ranger, fazendo aquela encolhida ao chão, abraçando os joelhos, se por novamente à escuta.

— Ficam setenta. Só tenho isso.

— Seu estafermo! Comprou o pacote de cem. Tem de pagar o todo. — Eva se exaltara, fazendo a filha perceber sombras se moverem depressa.

— Você se acha uma grande coisa, Eva? — uma risada nojenta fora ouvida e Otávia percebera pela frincha, a bizarma agarrar o rosto de sua mãe, mantendo-a muito próxima. — Tem mulher nesse porto que por trinta faz mais do que abrir as pernas e cair de boca.

Otávia o vira jogar Eva ao chão, escondendo-se quando a porta se abrira. Por si aquele homem passara, nem a notando encolhida à soleira, ignorando o praguejar de Eva que ao chão ficara. Olhando de novo, Otávia tinha agora a visão de todo o quarto, vendo a progenitora se arrastar a apoiar-se na cómoda, ajoelhando-se e unindo as mãos perante a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

— Porque não me foste buscar, Afonso? Porque me deixaste às garras de meu pai… — Eva apoiava os punhos unidos à testa, chorando copiosamente, seguindo com os cabelos lisos, marrons, completamente desgrenhados. — Você prometeu… prometeu que fugiríamos e olha… olha o que eu faço pra conseguir dar de comer à nossa menina! Estou tão cansada…

De repente, já sua mãe não jazia ali, nem era um quarto que Otávia via na frente. O mar se abrira e com eles seus olhos, esbugalhados face à descoberta. — Afonso… — olhando a ametista, Otávia sentira o peito acelerar. — Meu pai chamava-se Afonso…

Quantos Afonsos existiriam pelo mundo? Não sabia nada de nada sobre o próprio pai. Aquela lembrança, nem dela Otávia tinha memória. Era seu feitio esquecer o que não lhe agradava. A profissão de sua mãe. Lembrava-se muito pouco dos seus primeiros anos. Apenas dos momentos que passava com Eva. Lembrava-se que, até aos cinco anos, sua mãe a deixava na casa de uma vizinha, enquanto ganhava a vida nas ruas. Depois, fora procurar abrigo no Faithful e sua beleza lhe dera um abrigo naquele bordel.

Eram apenas aparências. Até aos seus dez anos, Otávia vira a mãe ser maltratada, prostituindo-se, sujeitando-se a toda a violência masculina para conseguir sobreviver. Até ao dia em que o falecido dono do bar, encantado pela latina, decidira propor-lhe a exclusividade de seus serviços. Não tinha muito que dizer do homem. Ele fora o mais aproximado a um pai e quando morrera, fora generoso o suficiente para deixar o seu património, aquele bar/hospedaria, a Eva.

Mas nos catorze anos que vivera com sua mãe, em nenhum deles ela ouvira uma referência a seu pai. Em nenhum deles, Eva lhe dissera como ele era ou como se chamava. Apenas e só aquela lembrança que agora surgira, lhe dera um dado concreto sobre o homem que sua mãe amava. Sobre o homem do qual seu sangue corria nas veias.

*

O barulho dos feirantes se indo ao fim do dia era irritante e igualmente aos gritos dos ambulantes que já partiam, despedindo-se dos colegas das barracas. Robert apertara bem os olhos para o estabelecimento que Pimpinelli lhe indicara, aguçando sua vontade de ter uma arma só sua, personalizada, pronta para um duelo e não qualquer outra emprestada por Victória ou por qualquer outro membro da tripulação. O que fazia um pirata além de papagaios e tapa-olhos? Sua espada, suas habilidades com esta e sua coragem. E foi munido desta última que o jovem irlandês rompera à porta do ferreiro, nem se notando observado ao de longe por Slaughter que logo atrás de si entrara.

O ferreiro velho o cumprimentara brevemente, vindo com as vestes sujas de carvão ao seu encontro, deixando seu provável ajudante que sentado numa cadeira batia com um martelo em brasa no interior do lugar. — Pois não, filho?

— Gostaria de ver o trabalho do senhor... Com armas.

— Porque haveria de querer saber das nossas espadas? — o velho apertara-lhe um olho, voltando-se para dentro da loja, regressando em seguida — Não é pirata, é? — e antes que o funcionário sentado se levantasse, espiando Robert por trás de uma cortina, a garota que rompera à porta, deixando soar uma sineta, desfizera qualquer má impressão que Duane pudesse ter causado.

— É o que ele quer ver, Sr. Gonzalez. — atrás de Duane ela soara, atraindo o olhar deste sobre um ombro —... Seus melhores sabres se faz o favor. Esse rapaz aqui pode não ser pirata, mas luta como um cavaleiro.

Por entre os dentes, o irlandês lhe perguntara do alto de sua altura muito maior que a dela, irritadiço — O que faz aqui, Vic?

— Vim ver as espadas do homem, posso?

— À vontade. — emburrado, Robert se afastara de si, pondo-se a caminhar pela loja enquanto ela, ao balcão, batia os dedos sobre a superfície à espera do que o espanhol fora buscar.

—... ‘Tá com medo que eu o desafie a um duelo, Duane?

— Quê? — ele rebatera, encostando-se ao perfil dela de pronto. — .... Precisa crescer um dois metros pra que eu comece a temer algo de si, Victória.

Com o dedo em riste, Victória lhe falara: — Eu ainda sou sua capitã!

— Me mostre seu navio, Slaughter. — ele franzira o cenho, deformando o rosto tão belo que possuía.

— Duane!

— Aqui está. — Gonzalez mostrara dois exemplares, atraindo a atenção da dupla para as belezas que trouxera — Essa... é boa para o rapaz — este dissera, segurando a longa lâmina de uma delas cujas extremidades da guarda se pronunciavam em dois espirais e o punho e o corpo deste tratavam-se de uma única peça trabalhada no próprio metal ainda que aquela parte da espada fosse mais fosca que o resto da peça — Meu ajudante a acabou ontem... Não é bela?

— É demasiado grande — ela tomara as dores, intervindo. — Que tal aquela?

— Victória, deixa comigo, pois? — ele segurara outra espada que o espanhol trouxera, erguendo esta à altura dos olhos, sendo simples em seu todo — Gostei desta. — Bob se afastou, travando uma luta com o ar a erguê-la à frente. — Bem... Maneira. Vou ficar com esta. Quanto custa?

— Setecentos pesos — em seu sotaque espanhol o esperto falara .—... Ou setenta xelins se preferirem.

“Não vale tanto.” — uma voz no interior do estabelecimento soara, irritando Gonzalez.

— Será possível que não se fazem funcionários como outrora, hum? Setecentos pesos, senhores, ou podem ir andando porta afora.

Victória já se preparava para brigar com o dono da loja quando aquele até então escondido viera ao exterior. — Eu disse que não valia tanto. — um tipo mais jovem que o espanhol, mas anos mais velho que ela e Robert lhe falara. Tinha algumas parecenças com Benjamin, mas seu rosto era mais leve, acompanhado dos olhos escuros um tanto apertados, de um cavanhaque liso emoldurando seus lábios finos e de longos cabelos castanhos que já rareavam por fios brancos. —... Setenta pesos... Ou algumas moedas de ouro que tenham.

— Volta lá pra dentro, estupido e torna a cuidar das ferraduras!

— Eu fiz essa espada e eu digo quanto ela vale, Raul! — seu funcionário disse, mirando intensamente Victória e em seguida Robert, decaindo os olhos na corrente que o menino trazia ao pescoço. — Esse é o preço.

Robert apertou a medalha de St.Patrick, guardando-a sob a roupa. De dentro do bolso das calças, em seguida, ele tirara um saco de moedas, depositando-o sobre a superfície — Isso vale?

— É claro que vale. — Gonzalez fora rápido, tomando o pagamento.

— Piratas... — seu funcionário falou muito baixo apenas para que Victória o ouvisse. — Façam uma boa viagem.

Victória ficara com a estranha sensação de que os olhos do ajudante seguiram encima de si com um estranho interesse que ultrapassava qualquer outro que antes já percebera. — Você... Notou? — ela virou-se para Robert quando este parara no passeio ao seu lado.

— Notei... Notei que me foram as economias de uma vida toda. — o irlandês reclamou, mirando o punho da arma que seguia de fora da bainha. — Aonde vamos agora?

— Devíamos voltar ao navio, esperar, um pouco mais, não acha? — pousando uma mão num dos ombros dele, ela tentara lhe dar algum apoio .— É uma boa espada, Robert. Não perdeu dinheiro. Ganhou muito mais, de certeza.

Pelo canto dos olhos verdes, Duane lhe encarara. —... Acha, que eu... Serei um bom pirata, Vic?

— Bob, você já é um excelente pirata.

O irlandês sorrira sinceramente, mas logo viu-se passado por Victória que seguira em direção à praia onde os botes os esperavam. A garota fora a passos de si, evitando ficar muito mais tempo na sua companhia. Bob seguia divertido, gostara dela ter ido ao ferreiro consigo, gostara do elogio ouvido há pouco e de sua companhia. Ao menos não estavam mau um com o outro, ainda eram amigos cujos corpos queimavam quando, sem querer, se tocavam, ou quando uma voz chegava mais intima que a própria palavra. Era difícil, mas era o que tinha por hoje. Benjamin e Pintel sumiram à procura do novo paradeiro dos Turner. Ficariam na Flórida por mais um dia, ao menos enquanto o velho pirata e o jovem Sparrow não encontrassem provas de que o casal amigo de seu pai ali já não estava.

*

O endereço dado por George não deixara-o enganar. Mas já era noite quando Benjamin chegara à pequena fazenda onde Clara morava com a família. O capitão do Commedia pensou duas vezes antes de bater à porta desta, mas o candeeiro provindo do interior dizia que à habitação alguém ainda seguia acordado. Fora direto, batendo à madeira da porta, louco de saudades e ansioso por revê-la. Demorara um tanto até que viessem lhe atender e maior surpresa Sparrow não poderia ter tido. Deixara de admirar a noite e os grilos e que ecoavam no pântano próximo para girar os calcanhares à passagem que se abrira.

— Pois não, monsieur? — uma jovem mulher que em sua melhor forma não encontrava-se lhe perguntara, arregalando os olhos tão escuros como sua pele negra, tentando se esconder num robe de dormir que lhe acentuava as largas curvas que possuía. — Procura alguém?

Como se percebesse de quem tratava-se ele, aquela, cujos cabelos assanhados eram impossíveis de se colocarem alguma ordem com as mãos, dera um passo em falso, sendo logo impedida de fechar a porta por uma mão de Benjamin — Clara...? — ainda era a mesma mulher apesar de qualquer tristeza em seu semblante, ainda possuía os mesmos lábios carnudos que outrora beijara e o mesmo comportamento arredio de sempre. — Sou eu... O Bennie.

— Bennie. — longamente, sua ex-namorada o encarara, tentando não parecer envergonhada por mais que assim estivesse. —... Meus Deus. Há quanto tempo!

— Pois é, Clara... — parado à soleira de sua porta, Benjamin evitara mirar o interior desarrumado da casa, quase implorando por ser convidado à entrar. —... Sabe a que eu vim? Vim... Buscá-la.

Clara, não mais Smith, estreitou seus grandes olhos negros, confusa com a fala alheia antes de mirar sobre os próprios ombros lhe dando espaço por entrar. — Está tão diferente. — a mulher voltara-se a ele, levando uma mão de unhas pálidas ao seu rosto, deixando-o sentir a aspereza de seus dedos de encontro à cútis rosada do jovem capitão. — É tão estranho vê-lo barbado... Achei que tinha se transformado num inglês, Bennie.

Benjamin cerrara os olhos, pousando uma mão sobre a dela antes de toma-la. — Eu deixei a Inglaterra há alguns anos, Clara. Eu... Eu estive com seu irmão há uns meses. George me disse como encontrá-la. E aqui estou eu.

— Está atrasado — ela fizera um gesto qualquer mencionando a fonte de um choro de criança que se iniciava. Em meio a simplória casa, que mais assemelhava-se à uma cabana, Sparrow sentiu-se sufocado, sendo logo levado para seu interior, um cômodo parcamente dividido onde colchões ao chão serviam de leito para três crianças.

Vendo-a ajoelhar-se ao lado do menorzinho dos filhos que chorava, ele perguntou tendo tal curiosidade entalada em sua garganta — São seus?

— Bennie, é claro que são meus. — Clara disse embrulhando o filho e trazendo-o para fora. — Sammy o mais velho. — ela apontou para a criança que dormia junto à janela e em seguida para uma menina mais nova. — Cecilie, minha princesinha e o... Wilbur. — e acabara erguendo o chorão sobre a cabeça, um rapazinho que não contava com mais de dois anos.

Tocando os cabelos do pequeno que tinha o rosto lavado de choro por conta de um pesadelo, Sparrow viu-se sem saber de fato o que fazer. — O pai deles onde está, Clara?

— O do Sammy é morto. — enquanto esta caminhava pela pequena casa, Benjamin observava seu corpo de mãe, deformado por conta das três gravidezes, mas ainda curvilíneo sob aqueles trajes do dormir. Seu coração estava acelerado, queria contar a esta o quanto sentira sua falta, o quanto a queria consigo, mas o choque daquela visão era muito maior. —... O da Cecilie e do Wilbur está trabalhando com os ianques.

— Casou-se mais de uma vez? — o capitão coçara o rosto, sentando-se numa cadeira mencionada por esta. — Clara...

— Não, Bennie, não me casei mais de uma vez. O pai do Sammy foi um bom homem que eu conheci pelo caminho. Quando vim para a companhia do pai da Cecilie e do Wilbur já estava grávida... Com este eu casei, ele me aceitou depois de muito me humilhar, claro... Mas o que é uma vida sem adversidades, pois? Perguntemos à Sra. Lane. Ela sabe bem... — clara recordou-se da mãe de Ben, rindo ao de leve ao lembrar-se daquela que tinha como uma madrinha. — Como anda sua mãe, Benjamin?

— Está bem. Não ficamos em Liverpool... Ela mora em Cornwall. Uma casa próxima à uma falésia, tudo que ela queria... Longe do índigo e dos meus tios.

— Queria vê-la... Mamãe ficaria feliz em saber que a Sra. Penny está feliz agora. — ela riu. — Não me disse a sério o que veio fazer aqui Benjamin... Com esse chapéu, essas botas. Aonde pensa que vai?

Pronunciando o corpo ao seu encontro Benjamin falou-lhe vendo-a cessar os passos para mirá-lo. — Eu não sou mais aquele menino, Clara. Estou atrás do meu pai... Ele sumiu numa... Numa expedição... Bem, não vou esconder, sabe bem o que ele era.

— E o que tenho eu a ver com isso? — Clara mirara o rostinho do filho que enfim adormecera, passando direta para o quarto em seguida. Quando retornara, vira Benjamin deitar o rosto numa mão, apoiando o cotovelo na mesinha de refeições — Porque me bateu à porta, Bennie? Trouxe o passado consigo, sabia?

— Eu vim levá-la comigo. — Vendo sua antiga namorada depositar uma caneca à mesa, despejando um vinho claro dentro deste, Benjamin salivou, necessitado de molhar a garganta. — Você me ouviu, Claire?

— Não diga asneiras, Benjamin Lane! — ela lhe apontara um dedo, parando ao seu lado. — Acha que eu não senti saudades suas, mon chére? Chorei noites seguidas quando partiu para a Inglaterra. Quantas cartas me mandou? Umas quatro?... Se não tem nada para se dizer em escrita, não tem nada para se dizer com a boca. É melhor se ir.

Ben sorvera um tanto da bebida, tornando a pousar a caneca. — Sabe que não sou bom escrevendo e muito menos falando... Eu senti saudades.

— Virou um pirata. Não virou? Já matou pessoas, Bennie? Já... Roubou? Violou moças?

— Clara, eu não sou bandido. — pondo-se de pé, Sparrow tirara o chapéu da cabeça, uma educação que deveria ter tido ao chegar, mas que só agora o assolara. — Eu posso roubar sim, mas iguais a mim. Eu... Sou mais um aventureiro, um...

A mulher alta, mas ainda um tanto mais baixa que si falara: — Depois de nós dois, posso imaginar a quantidade de mulheres que deve ter tido! Eu tive dois homens, Bennie. Mas eu gostei destes. Nunca como gostei de si, mas...

— Vem comigo, Clara. — fora ele agora a lhe tocar o rosto, cada centímetro de uma das maçãs cheias da louisiana, parando-a em seu queixo, roçando a ponta do polegar no maior de seus lábios grossos. —... Nós seremos felizes juntos. Tragas seus filhos. O navio é grande.

Clara abrira os olhos rapidamente — Você é um mentiroso... Do mesmo modo como seu pai deveria ser. — e disse: —... Não faça isso que está pensando em fazer ao menos que realmente queira. Eu o quero mais uma vez... Mas não posso ter o coração partido novamente.

Talvez não fosse o que ele realmente quisesse. Talvez por puro capricho tivesse andado numa charrete algumas milhas até chegar em sua casa, assustando-se com seus filhos e fazendo-lhe propostas loucas. A quem queria enganar? Clara fora a primeira mulher que tivera, mas agora era incapaz de toma-la nos braços e arrancar o beijo que tanto esperava.

Dando para trás, Sparrow soltara-lhe o rosto. — Eu peço desculpas, se... — Mas antes que emendasse qualquer fala, qualquer pesar, sentira Clara avançar ao seu encontro, lhe tomando os lábios. Ela beijara-o como se há tempos esperasse por aquilo de fato, unindo suas respirações ao colar-se a si. Passara um braço ao seu pescoço atraindo-o mais para perto, sentindo-o lhe corresponder.

Benjamin estava carente e cedeu de pronto, pousando uma mão à mesa enquanto Clara deixava-se encostar a esta, curtindo o toque sobre sua roupa e o calor da pele dele em contato com a sua. — Aqui não. — ofegante, a mulher passara uma mão pelo rosto do pirata, percebendo o contraste de suas peles, mas reconhecendo o desejo antigo que pairava nos olhos negros deste. Espichando o pescoço a mirar pela janela, ela sorrira. — As crianças podem acordar... Eu ainda... Sou barulhenta... O celeiro!

Benjamin deixara-se guiar pela mão dela, atravessando a noite, enquanto ambos corriam em direcção ao celeiro que distava uns cem metros da casa. Por momentos, ele chegou a sentir um calor gostoso, uma lembrança distante do tempo em que ambos namoravam. Corriam em meio ao índigo, sem rumo, tentando que tanto Big Sam como Penny não os flagrassem. Foram tantos os momentos que vivera com ela antes de partir para Inglaterra aos dezoito anos.

— O seu marido... — Benjamin vira Clara destravar a porta em madeira, chamando-o para dentro.

— Não vem a casa há uns quatro dias. E só voltará daqui a uma semana. — quando o vira entrar, ela levara as mãos ao rosto de Benjamin, percorrendo com os dedos a textura da pele queimada pelo sol. — Mas não é você... não... Oh Bennie... Há quanto tempo eu esperava isto. Há quanto tempo... — o luar entrava pelas frestas que se evidenciavam no telhado do celeiro, iluminando os orbes de Clara, brilhosos e mareados.

— Eu também... — sôfrego, Benjamin não a deixara falar mais, capturando-lhe os lábios quase numa violência, mas que fora recebida pela mulher saudosa. — Todas as mulheres que tive... eram uma mentira.

— Foram muitas...? — à boca, Clara lhe trincara o lábio inferior, não o deixando responder logo ao enveredar a língua pela boca do capitão do Commedia, enquanto o sentia levar as mãos à sua cintura.

— Ah... — num gemido, Benjamin rolara os olhos face à astúcia de Clara, adentrando pelo celeiro, pisando o feno seco que por ali seguia espalhado.

— Porque não me levou consigo? — ela sentira uma das traves de sustentação às suas costas, perdendo-se nos beijos que Sparrow lhe salpicava pela pele do pescoço, sugando-a como se a crioula fosse água para a sua sede.

Benjamin fora trazido ao chão pouco depois. — Eu era um imbecil. — ele respondeu, mas sabendo bem que ainda era um tipo no mínimo idiota.

Clara tocara seus cabelos enquanto era beijada, puxando os fios castanhos tão lisos a cada maior sucção que este provocava em sua pele. Logo, ela deitara-se com este sobre o feno, montando nas ancas do pirata que ainda se encontrava vestido, aos poucos sendo livrado da própria camisa e sentindo o peso do corpo alheio atiçar o seu.

Suas mãos desceram pelas curvas desta, sentindo a maciez daquele corpo enquanto soerguia-lhe as vestes folgadas, sentindo a pele quente de seu antigo amor arrepiar-se com o ínfimo toque de suas mãos. — O... O que...? Bennie! — Clara rira sonoramente ao perceber o ondular das calças dele, tendo aquele homem de que tanta falta sentia vir ao seu encontro, rolando sobre o chão do celeiro e ficando por cima da lousiana.

— O que foi, Claire? — ele levara um dedo ao rosto dela, contornando-lhe o nariz arredondado, baixando-o por seus lábios , perdendo este por seu pescoço e pelo decote da roupa.

— Sempre por cima... — ela rira. — Tudo bem... Você faz diferente. É amoroso, gentil.

Colocando-se por entre as pernas dela, Benjamin apenas deu-se ao trabalho de abrir o fecho das calças, perdendo-se nos braços da única mulher que ainda caía na sua conversa e encantava-se com seu belo sorriso.

Há alguns metros dali, arrastando o solado das botas pelas folhas secas do terreiro, rodeando o celeiro tal como um abutre observaria a presa, um homem deixava-se rir, diferenciando os gemidos que ecoavam e o barulho de qualquer estrutura a balançar. Aproximando-se da porta entreaberta daquele quase galpão, ele mirara alguns animais; um cavalo e duas vacas que tentavam cochilar na mais alta hora da noite. Ao de longe, a casa simples, apagada em sua totalidade dormia em pesado. Ali, naquele ambiente, duas pessoas amavam-se no chão. Não, mas, incrivelmente, ele achava graça.

O jovem capitão, sobre a antiga namorada, deixando as calças irem abaixo e a bunda empinada fazer-se vista, branca sob o luar. Ele ia e vinha. Quando vinha extraia um enorme gemido dela. Quando ia, idem. Só não era decifrável qualquer sonoridade de sua pessoa. Seguia calado, sem gemer, sem perceber muito — Che succede, capitano? — num sussurro o curioso perguntara à bela cena que assistia, mordendo um lábio enquanto escorava-se à porta, percebendo a mão de uma pele negra da mulher arranhar a brancura das costas de seu parceiro. — Mà che bel culo... — o devaneador riu-se, focado nos movimentos do pirata e de mais ninguém.

**Continua**

Notas finais
Obrigada a quem comentou e esperamos que tenham gostado! Saudações Piratas Josivise & Olg'Austen