Comfy
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Tem certeza que está bem, Izu?
— Sim, é sério.
— Eu estou aqui pra você, sempre. Sabe disso.
— Obrigada. Te ligo depois.
E assim ela desligou a chamada. Ino sabia como lhe animar, mas dessa vez ela queria passar por isso sozinha. Bem, não totalmente sozinha. Uma xícara de café e a companhia involuntária de todos naquela cafeteria era o suficiente.
Izumi não queria conversar mais uma vez e em detalhes sobre como aquilo havia acontecido, nem tentar entender por outra perspectiva o que já estava explicado. Era simples de entender: Shisui não a queria mais, se fosse só isso seria menos doloroso, porém, ele colocou outra em seu lugar antes de lhe dizer isso.
Ela poderia estar feliz com seu noivo, falando sobre tudo o que poderia fazer em sua festa do casamento, quem seriam seus convidados, como seria seu vestido; sonhando com o grande dia que ela nunca sonhou em ter, mas com ele, tinha pensado sobre e gostado da ideia. O mais doloroso disso tudo, além da traição, não era pensar na outra, era ter criado expectativas levianamente.
Se casar nunca foi um sonho. Pensava em outras mil coisas para se preocupar e nenhuma delas era isso, e também, sequer tinha tempo para si mesma. Faculdade, trabalho, oficinas de escrita, faculdade, trabalho... era um ciclo em que nada nem ninguém conseguia se encaixar. Ninguém, até que Shisui apareceu.
Com ele, ela pensou que conseguiria ir mais longe, até o altar, no fim, se sentia abandonada no meio de um lugar inóspito. Parte por escolha própria, pois sua rede de apoio queria estar com ela, mas ela não queria isso agora.
Já fazia um mês, ela precisava passar por isso sozinha, e logo. Claro que estar ali, para muitos, era o mesmo que estar em casa, mas não era. Ali ela podia, além de terminar seus rascunhos em paz, ela não tinha vontade de chorar, nem se lembrava dele em cada canto que transitava dentro de casa.
Pensando sobre isso enquanto tentava escrever. Era como se tivesse perdido tudo e nada ao mesmo tempo, e entre os dois, o nada prevalecia agora e isso incomodava. Numa conversa de uma hora ele jogou quatro anos no lixo. Ele queria uma vida com outra pessoa, e ela, que queria uma vida junto com ele, estava só.
Talvez ele só estivesse cansado dela e de acreditar que ela conseguiria corresponder suas expectativas, sejam elas quais forem. Não lhe confortava ele ter tentado não tornar aquilo mais difícil, mas não tinha muito o que fazer. Ser deixado dói, a razão era só um adicional mais doloroso.
Ela só sabia chorar enquanto ele a olhava e dizia que tudo tinha acabado, a avalanche veio e só o que conseguiu fazer foi cobrir os olhos úmidos, como a medrosa que ela sempre foi.
Não é o fim do mundo, pensava, voltando aos rascunhos. Ainda tinha isso. A cada palavra escrita, ela pensava em quantas vezes ela tinha errado, se tinha errado, quantas vezes ela perdeu a chance de ter feito mais por eles. Quantas vezes poderia ter olhado para si mesma e tentando enxergar onde estava o erro. Mas pensava também em como tudo aquilo era injusto consigo mesma. Pensou em quantas ele poderia ter feito mais por eles. Quantas vezes ele poderia ter dado o braço a torcer, como tantas vezes ela fizera, mesmo estando certa. Pensava que talvez nada adiantasse, pois ele ainda teria feito o que fez e a razão não importava. Estava doendo, mas ela reconhecia que ele nunca fora um príncipe isento de falhas e ela começou a digerir a ideia de que talvez aquele fim tivesse sido o melhor.
Com o coração pesado, ela fechou os olhos e bebeu mais um gole do café, na esperança de fazer aquele turbilhão de pensamentos lhe deixar terminar o que precisava terminar. Shizune lhe mataria dentro de treze horas se não terminasse aquilo. Mas que culpa ela tinha de estar vivendo a pior fossa de sua vida logo na semana de fechamento de edição?
O ponteiro do relógio pareceu parar de funcionar, talvez eu devesse não ter vindo. E ela sinalizou e pediu mais um café. Nada está me inspirando por aqui.
Quando a garçonete passou por ela, ela teve o vislumbre do seu pedido, mas ela passou por si, parando na mesa ao lado. Quando chegou a sua mesa, outra coisa lhe foi entregue. O rapaz ao lado, que só agora havia notado, não percebeu, pois, estava absorto em algo à sua frente.
— Com licença...eu acho que isso é meu. — Ela disse, olhando-o.
O homem virou para ela, encarando confuso por segundos a bandeja à sua frente e depois, constatando o erro.
— E acho que esse é o meu, certo? — Sorriu minimamente, sem graça, enquanto levantava e colocava seu pedido em sua mesa. — Me desculpe por isso, não tinha notado.
— T-tudo bem, não é culpa sua — ela estava meio em transe vendo-o de perto meu deus, ele é alto. E lindo.
Ele voltou para sua mesa e ela o observou. Ele chamou a atenção de Izumi. Só depois de observar bem pela fina cascata de cabelo castanho na lateral do rosto, ela notou ser um livro o centro de sua atenção.
— Um livro... — ela queria não ter pensado em voz alta. De certa forma estava com raiva de ter esquecido o seu, talvez lhe desse alguma inspiração.
Ele ouviu e tirou os olhos da página.
— Sim. — Então ele voltou a olhar a página.
Ela permaneceu o observando, inconscientemente, pensando em que livro seria que ele estava tão focado. E ele percebeu, voltando na mesma linha várias vezes por isso, como se não conseguisse prosseguir com os olhos curiosos da mulher presa em si. Quando ele deixou o livro, pegou a xícara e sorveu a bebida em poucos goles, ela desviou o olhar para suas folhas, constrangida.
— Gosto de ler enquanto bebo. — Ele disse, atraindo sua atenção. — Isso aqui não faz efeito sozinho. — Ele balançou a xícara.
— Realmente, mas qual efeito você precisa agora?
— O esquecimento, talvez.
— Eu também quero esquecer.
— Que você tem um prazo, talvez? — Ela riu com a possível atenção que recebera. Será que ele a tinha visto divagar sozinha igual uma maluca atrás de inspiração?
— Se fosse só esse o meu problema, eu estava feliz.
Ela permaneceu em silêncio por um tempo e ele voltou a ler, agora sem se importar tanto com os olhos castanhos dela olhando timidamente para as folhas e para ele.
Quando fechou o livro, ela se deu conta do quanto estava sendo invasiva, e estava se erguendo para ir para qualquer outra mesa, mas o livro foi colocado na sua frente.
"Razão e Sensibilidade"
— Conhece? É um ótimo livro.
— “Eu ficarei calma. Eu serei dona de mim mesma.”? — Ele sorriu de canto, assentindo. — É o único que li. Mas é um trecho irônico, já que não estou sendo dona de mim agora.
— Quer conversar sobre isso?
— Não quero amargar você.
— Isso é impossível depois desse café. — Ele disse, e ela riu.
— Seu livro parece mais interessante.
— Bom, acho que não vou conseguir ler agora. — Ele a olhou diretamente agora, e ela se sentiu calma. Ele tinha os olhos escuros, expressão neutra, mas ainda assim, gentil. — Acho que você precisa mais do que eu.
— E acho que você precisa disso mais do que eu. — Aponto para o pote de açúcar que tinha em sua mesa. Ele se levantou com calma e sentou-se na sua frente.
— Obrigado. — Colocou o açúcar que precisava antes de beber mais um gole. — E então, o que te aflige além do seu prazo?
— Eu estava noiva, mas...não deu muito certo. — Bebeu mais um gole. — Meu noivo preferiu me trocar por outra pessoa.
— Eu sinto muito por isso...
— Izumi.
— Itachi. Itachi Uchiha. — Ele apertou sua mão, com delicadeza. — Faz muito tempo?
— Um mês. — Ela riu amargamente, tomando mais um gole. — É patético, eu já devia ter saído dessa.
— Não é assim que essas coisas funcionam, infelizmente. — Bebeu e olhou para ela, batendo o lápis no papel. — Não se culpe por ainda pensar nisso, se preocupe em como você pensa nisso.
— Estou tentando...ainda penso se foi algo que fiz, ou...
— Deixou de fazer? Ele fez o que quis fazer, isso não tem a ver com você. Seu noivado ter acabado não foi sua culpa.
Ela sentiu os olhos lacrimejarem, os fechando para cessar isso.
— Mas e você? Realmente só queria ler ou algo trouxe você aqui?
Ele olhou para o seu livro, depois bebeu sua bebida e ficou em silêncio por um tempo. Ela olhou melhor para ele e notou as evidentes bolsas escuras embaixo dos olhos. Isso não tirava sua beleza, ela pensou, mas evidenciava uma ou mais noites mal dormidas.
— Eu sou jornalista investigativo. — Ele parece notar seu olhar escrutinador em seu rosto. — Só precisava de um tempo para mim.
Ela assentiu, bebendo o restante de sua bebida. Quando fez menção de pedir outra, ele o fez, pedindo o que ela havia pedido. Izumi bebeu com os olhos fixos nos dele, focado em cada detalhe seu. Aquilo aqueceu mas seu interior mais do que aquela bebida. Ela sorriu minimamente com isso.
A noite misteriosamente começou a passar rápido, tanto que havia começado para os dois, ele lhe fez companhia o tempo todo. O telefone dele tocou algumas vezes, ele não atendeu, mas ela percebeu que ele ignorou o aparelho todas as vezes. No fundo ela não sabia se gostava da atenção inteiramente voltada para si ou ficava preocupada com o que ou talvez quem ele estaria afastando ao deixar aquilo pra depois. Pensar nisso fez seu coração apertar.
— Não vai... atender?
— Não agora. — Ele já tinha estado daquele lado mais de uma vez para entender exatamente o que estava passando na cabeça dela. — Não sou comprometido. Meu colega consegue dar conta.
— Pode investigar o lixo do meu ex?
— Não tenho interesse nele. Tenho mais interesse em você.
— Não tenho nada a esconder. — Ele sorriu minimamente, mas voltou ao silêncio quando a tela dele acendeu novamente. — Sei que não tenho esse direito, mas... aconteceu alguma coisa?
Os olhos escuros se fecharam e por um momento esperou que ele fosse grosseiro, mostrasse para ela um lado que ela não esperava. Mas ele não fez. Ele pediu mais uma bebida, e disse.
— Durante uma operação, uma pessoa morreu. Conversei com o irmão da vítima, foi bem pesado.
— Eu sinto muito, isso é difícil.
Ele assentiu e olhou para o nada por um momento.
— Preciso escrever sobre os fatos, mas não quero fazer isto agora. Foi difícil conversar com o irmão. Eu me vi nele.
— Isso acontece com frequência?
— Não. Acho que é por isso que estou aqui. Isso mexeu em lugares que eu não queria mexer.
— Você tem um irmão? — Ele encarou e por um momento tomou consciência. — Me desculpe, não precisa dizer se...
— Um mais novo. Ele me vê como rival, mas eu o amo. — Ele a olhou com mais tranquilidade. — Está tudo bem, é só uma pergunta.
— É que normalmente quem faz as perguntas é você, imagino.
— Não me importo em responder suas perguntas. Já somos conhecidos — Ele riu, olhando-a. — “Tempo ou oportunidade não determinam a intimidade, apenas a disposição”. — O sorriso doce permaneceu nos lábios dela. — Sobre o seu caso, ele mostrou o quanto antes que ele não era a melhor escolha da sua vida. — Os olhos escuros possuíam sua atenção agora. — Se não estiver disposta a compreender isso, não vai sair desse rascunho tão cedo.
— “Somos todos tolos no amor” — ela disse após pesquisar uma das frases de Jane. Ela não se lembrava de todas. Ele riu mais abertamente. E ela pensou que não tinha como ele ficar mais bonito.
— Acho que não é o seu caso. Acredito que consegue sair dessa.
— Você parece um psicólogo agora, sabia? — Ele riu mais abertamente.
— Quase segui a profissão. — Ele acariciou as mãos dela. — Estou feliz que esteja melhor.
— E você? Sei que vai conseguir fazer o que precisa ser feito.
— Sim, mas acho que o que realmente querem, não é o que eu quero. — Izumi o olhou confusa. — Sabe, as pessoas querem saber como alguém morreu, a tragédia e tudo sobre isso. O ruim. O que quero escrever, é como ele viveu. Resumir alguém somente a sua morte é apagar toda sua existência.
— Entendo. — Ela tomou seu café, olhando-o com calma em seguida. — Eu gostaria de saber como ele viveu.
Ele tinha uma bela vida, esta que foi tirada com tanta violência. Deixar toda sua existência e seus entes eram dolorosos de se pensar. Era compreensível pensar na dualidade de uma matéria. Ele era um ótimo profissional, pensou ela. No fim, ele conseguiu chegar a meio termo, as diretrizes precisam ser seguidas, mas ele pôde entregar em seu texto uma parte do que gostaria de dizer.
— Me sinto melhor. Gostei do resultado.
— Fico feliz. — Ela disse e ele retirou outro livro da bolsa antes de guardar o que estava a sua frente junto com o tablet com a matéria redigida. — “Dê a ele um livro e ele lerá o dia todo”
— É, eu faria se pudesse. — Bebeu mais um gole, olhando-a — Gostou de “Persuasão”?
— Sim. Gostei desse trecho também... — lhe entregou o celular.
“Não poderiam existir dois corações tão abertos, gostos tão semelhantes, sentimentos tão em sintonia, rostos tão amados.”
Eles se olharam por um tempo, e sorriram levemente. O que era um feito e tanto para os dois. Ele estava interpretando todos os ínfimos detalhes como um sinal.
— Realmente. Esse é ótimo.
Izumi não queria deixar aquele lugar, não queria sair nunca mais, mas sem qualquer vestígio de que tinha passado, os ponteiros foram girando, girando e eles foram obrigados a deixar o local. Izumi tinha finalizado seu rascunho também, mas pouco se importava agora. Conversaram a noite toda e sentiram-se tão bem com isso. Parecia errado encerrar aquela conexão ali.
A luz do dia ainda tinha dez horas de descanso antes de surgir no horizonte quando deixaram o estabelecimento. Ele a acompanhou, lado a lado, sentindo o vento frio e a neve úmida da madrugada de inverno. Em passos calmos eles chegaram ao seu prédio. Na rua vazia, a respiração deixava vestígios gélidos no ar.
― Obrigada, Itachi. Não precisava ter vindo até aqui.
Ele discordou com um aceno, olhando para o alto do prédio.
― É bem alto para quem tem medo de altura.
― Eu finjo que não moro lá e sempre vou de escadas.
― E funciona? ― Ele realmente se interessou pelos mínimos detalhes daquela conversa.
― Gostaria de dizer que sim, mas não estaria dizendo a verdade…
Ele sorriu. Simples e contrito, mas sorriu. O que tinha dito nem teve tanta graça assim, ela pensou, mas ele não parecia precisar de muito. Ele soltou o ar novamente e olhou para ela. Ele não queria deixá-la, então segurou sua mão, esperando que ela também não quisesse.
A mão coberta pela luva apertou a dele da mesma forma. A curta distância estava a favor dela. Ele a olhou e os dedos de uma mão se juntaram ao dela enquanto a outra contornou o rosto belo e frio da mulher mais próxima do que antes.
Ela se sentia quente, tanto que lhe trouxe borboletas no estômago. A gola longa do sobretudo dele foi seu suporte para ficar mais próxima do que conseguia e aos poucos, ela sentiu o nariz dele resvalar em seu rosto. O calafrio em seu pescoço foi inevitável; era impossível conter, ainda mais quando a sensação foi intensificada pelas mãos afagando suas costas. Ela segurou o canudo de chocolate que ele trazia consigo no canto da boca. Ela o retirou, já estava quase no fim de qualquer maneira. O jogou na neve.
― Sei que há mais de onde saiu este. ― O sorriso tímido lhe desmontou. Ele talvez estivesse satisfeito só com isso. ― Você não precisa dele agora, não é? ― O sorriso diminuiu e a pele corada lhe deu a certeza de que ele queria.
― Não.
Ela conseguia ser mais importante e talvez, mais viciante que o chocolate derretido no gelo. Quando a boca macia encostou na sua, a noite estava completa. Ele desejou isso no momento em que a viu melhor e aos poucos a conversa se mostrou mais que uma conversa sem rumo entre estranhos. Aquilo foi além do esperado e secretamente o desejo que havia no seu coração disso acontecer foi sanado, mas ele não deixaria isso morrer ali. A língua quente junto a sua era o melhor jeito de espantar aquele frio soturno. Os dedos finos e delicados fizeram caminhos por seu rosto e repousaram em seu maxilar. O beijo foi profundo, lento e quente, perfeito contra todo o frio ao redor.
O ar que sustentava suas vidas precisou voltar para o corpo, o afastar foi sofrido, aquilo terminar parecia um erro. Os olhos dela agora viam mais de perto os castanhos gentis. Ela precisava capturar ao máximo aquela expressão. Era bom ser desejada, ela via e sentia isso a cada carinho em seu corpo.
Ele retirou de seu casaco um papel, e antes que ela pudesse abrir, ele lhe deu mais um beijo, pediu que entrasse para escapar do frio e que abrisse quando estivesse só.
Depois de tirar o sapato dos pés e aninha-los na coberta, Izumi pegou o bilhete. Um sorriso largo se abriu em seu rosto e o coração latente de uma ansiedade alegre era a melhor coisa que aquela madrugada lhe proporcionou.
"Conhecer você e não ficarmos juntos seria um pesadelo. *"
Espero vê-la em breve.
Itachi – xxxx-xxxx”
No fim ele tinha deixado em suas mãos uma escolha e ela sorriu. Ela então pegou seu celular e foi até a janela. Ele ainda estava lá.
Izumi:
No lugar de sempre? Rs
Itachi:
Se você quiser, mas eu conheço um restaurante incrível.
Izumi:
Eu adoraria...
Itachi:
Fico feliz. Boa noite, Izumi
Ele sorriu para ela e fez seu caminho para casa. Izumi estava disposta a tentar ser feliz novamente e com ele, ela sentia que era a escolha certa.
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