Comfortably Numb
2 Segundo
O primeiro dia de aula aconteceu na primavera, como era sempre estipulado.
Takanori estava agora no colegial e ainda tinha uma altura miserável enquanto todos ao seu redor cresciam numa velocidade alucinada.
Seguiu o caminho entre a multidão, empurrando e sendo empurrado durante percurso , atraindo alguns olhares e ouvindo vozes e mais vozes de adolescentes. O fato é que ele chamava a atenção com os cabelo loiros e as lentes e a maquiagem e tudo. Porém, ironicamente, odiava ser o foco da mesma.
Na realidade, ele era um poço de contradições. O que ninguém percebia, porque simplesmente não se interessavam em ao menos chegar perto do garoto. E mesmo que tentassem, Takanori iria se portar como um verdadeiro misantropo mesmo com sua mente implorando por alguém que consiga enxergar sua verdadeira natureza.
Nessa hora, todos eram cegos. E possuíam a crueldade que já era de praxe nessa idade, como ele constatou semanas após a cerimônia de iniciação do período letivo. Takanori a possuía também, obviamente, a única diferença é que ele não tinha o poder para exercê-la em todos os seus planos imaginários de vingança sempre que alguém trombava em seu ombro ou o empurrava contra a parede, proferindo adjetivos inadequados sobre sua mãe ou uma escrota ameaça de um estupro com objetos inanimados (sendo essa a mais popular, para o desconforto do garoto), porque era isso o que gays gostavam, de acordo com o garoto grande idiota e o resto de sua ganguezinha.
Takanori já estava tão conformado com sua situação atual, que nem sentiu muita emoção quando a única pessoa que parecia se importar com ele mostrou uma talvez genuína preocupação ajudando-o a ficar em pé e o acompanhando até a estação de metrô no final da aula.
Suzuki, ao contrário do outro, por mais que sua aparência diga que ele é o tipo para não se ter como inimigo, estava transbordando com nervosismos, no jeito que mexia as pernas ou deixava a sobrancelha em formato de V.
Todos os ato eram apenas frutos do caráter irritadiço do maior, Takanori imaginou. Então, utilizando toda a sabedoria que um saco de pancadas tem, decidiu demonstrar amor próprio e apenas recuar mais no assento e ficar quieto até a sua estação chegar.
O importante não era não apanhar. Era a pessoa que ia bater. E apanhar de Suzuki doeria muito mais do que qualquer um fazendo a mesma coisa.
Desceu do trem pronunciando um “tchau” tão baixo que nem teve ideia se o loiro maior ouviu.
Ao chegar em casa, constatou com um pouco de satisfação o fato de não ter nenhum hematoma hoje. Era de algum modo deplorável, Takanori sabia.
Mas mesmo assim, tudo estava bem.
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