Come to See the Sundown
1 The Sun Dies For Those Who Do Not Deserve Its Light
Notas iniciais
“Venha ver o pôr do sol”, tinha lhe sussurrado a voz, embargada de uma emoção nova e estranha que Peter não havia reconhecido no momento.
Ele se recostava na parede que, antes branca e sem aparente sujeira, agora estava lotada de marcas de arranhões e batidas, com pedaços da pintura caídos, deixando lacunas grandes no branco.
“Venha ver o pôr do sol”, a voz tinha dito, ao pé de seu ouvido. Chamando-lhe diretamente para uma teia corrupta e dolorosa, que todos idolatravam como um deus. Amor.
_Oh, desculpe! — Disse, quando a garota e a bandeja de café que ela carregava caíram no chão.
_Não foi nada… Eu acho! — Sua roupa branca de garçonete estava suja de café, e seus cabelos castanhos, antes arrumados em um coque, saíam para todo o lado, como se ela tivesse tomado um choque forte.
_Ai meu Deus…! — Exclamou ela ao ver o estrago de vidro estilhaçado e café no chão. Uma outra garçonete chegou com uma vassoura, e um garçom veio com uma pá.
Peter agachou-se para ajudar, mas a voz cortante da garota de roupa branca manchada não deixou.
_Sente-se, senhor. Nós podemos cuidar disso! — A garota passava as mãos nos cabelos castanhos a todo momento, enquanto seus olhos negros vagavam pelo rosto de Peter.
Peter estava deitado no chão, com o rosto entre as mãos. As lágrimas já haviam secado há tempos. Mas a dor permanecia constante em seu coração, ainda o impedindo de se levantar e fazer algo que fosse de útil.
Mesmo que, para o lugar onde ele estava, não houvessem muitas coisas úteis para serem feitas.
_Qual é seu nome, garota? — A pergunta lhe escapou da boca, surpreendendo-a e surpreendendo a Peter.
Ele podia acessar facilmente os momentos. A faca… O sangue espirrando para todos os lugares… E a maldita parede onde todos os acontecimentos estavam marcados.
Ela não respondeu, e Peter soube que tinha falado algo errado. “Céus, eu nem conheço essa menina…”, pensou, com raiva de si mesmo.
O sangue… Disso ele podia lembrar bem… Algo tão vermelho, tão vívido, mas que significava algo tão devastador como a morte…
_Jessica. — Ela disse, sorrindo logo em seguida.
_Peter. Prazer! — Ele estendeu a mão para ela, que Jessica relutantemente apertou.
Peter tentou se distanciar daquelas imagens. Do som de metal cortando carne, do som dos gritos…
_O que você acha, Pete, de irmos a outro lugar agora? — Perguntou Jessica. Peter deu de ombros.
O céu azul estava começando a exibir traços dourados naquele dia, enquanto Peter e Jessica estavam sentados em um banco, em uma praça movimentada. Anos haviam se passado desde o dia do incidente do copo. Peter havia ligado para ela algumas vezes, e ela havia retornado as ligações… Eles já tinham se encontrado algumas vezes, já tinham se conhecido melhor… E lá estavam eles.
_E que lugar seria esse, Jessy? — Ele enxergou divertimento nos olhos da garota, que deu de ombros. Seus cabelos castanhos estavam soltos agora, o que a deixava ainda mais bela.
_Meu pai costumava me levar para esse lugar… É algo estranho, esquece!
A voz em sua mente não se calava. A voz que tinha feito ele se apaixonar, ela ressoava por todos os cantos de sua mente. “Venha ver o pôr do sol comigo…”
_Não, me conte! Eu quero saber. — Ele tocou com cuidado o rosto de Jessica, fazendo-a sorrir. Lágrimas cortavam o rosto da garota, e Peter as enxugou com o dedo.
_Eu estou aqui, Jessy…
Tudo que ele queria era calar aquela voz. “Venha ver o pôr do sol, amor…”.
_Pete… Meu pai costumava me levar para um lugar quando eu era menor. Ele dizia que aquele momento era o mais próximo de magia nesse mundo.
A culpa corroía Peter de todas as maneiras possíveis… Como havia deixado o assassino entrar na sua casa?
_Ele me fez prometer que só mostraria aquele lugar para alguém que eu realmente amasse…
Como havia deixado o Mal se esgueirar pelas portas, apenas espreitando o momento certo para atacar? Como poderia, sendo um pai, sendo um esposo, convidado o assassino para sentar-se junto à mesa e comer com sua família?
_E que lugar é esse, Jessy?
Havia deixado que o assassino pegasse aquela faca de cozinha. Havia deixado que ele avançasse em sua esposa. E ficara lá, parado, sem reação alguma…
_Venha ver o pôr do sol, Pete… Venha ver o pôr do sol comigo… Prometa, Pete, que irá assistir o pôr do sol todos os dias comigo…
_Jessica…
_Há um lugar no topo de uma colina, Pete. E há uma cabana, escondida nos confins dessa montanha.
… assistindo cada ação grotesca e sangrenta do assassino.
_Eu quero assistir o nascer do sol com você, Pete. Quero assistir o pôr do sol com você também. Apenas quero que cada dia simbolize algo para nós. Quero que no meu último instante de vida eu esteja em seus braços. Me prometa… Me prometa que, quando o sol da minha vida se pôr, você estará lá!
O sangue havia se espalhado por todos os cantos enquanto o assassino dilacerava a carne de Jessica. E Peter ficara ali, parado, sem saber o que fazer.
_Eu também quero isso, Jessica. Eu… E-Eu quero isso também! Tudo isso. E eu prometo. Prometo que estarei lá… Sempre.
“Eu quero ver o pôr do sol com você”.
_Senhor Rogers… Seu advogado está aqui para falar com o senhor! — Disse uma voz. Um homem entrou na sala de paredes escuras, que em nada lembravam as belas paredes brancas e limpas de sua casa. Um branco que havia sido sujo de vermelho. Uma pureza não mais existente que havia sido manchada por ódio e loucura.
O homem sentou-se em frente à Peter. Tinha cabelos grisalhos, era magro, usava óculos… Assim que ele abriu a boca para falar, Peter o cortou.
_Fui eu. Eu a matei.
_Senhor Rogers…
_Fui eu! Mas ela pediu por aquilo… Ela pediu! – Os olhos de Peter saltaram. Ele se lembrava. Jessica havia se tornado amiga de outro homem… Jessica, mãe de seus três filhos, estava sempre conversando com esse outro homem… Jessica, sua querida esposa, falava a todo momento sobre esse homem…
“Somos apenas amigos”, “Quando me casei com você, eu não assinei nada que falasse que eu devia me isolar do mundo”, “APENAS AMIGOS, PETER!”, “É você que eu amo, e é você que eu escolhi, mas está cada vez mais difícil de entender o porque disso”...
_Ela estava me traindo, doutor… Ela chegou em casa e começou a falar de coisas estranhas… Falou que eu não era o mesmo, que nossa relação estava por um fio se eu continuasse daquele jeito…
_Peter, mantenha…
_NÃO! Ela pediu por isso… — Suas mãos tremiam, e lágrimas circundavam seu rosto. Ele a amava tanto.
_Como isso aconteceu? Me conte, Peter…
As lembranças eram vívidas na mente dele. Não foi preciso nenhum esforço para ele tocar aquelas imagens, se enroscar nelas e sentir toda aquela tortura novamente.
_Após o término do jantar, eu… Céus, e-eu percebi que deveria fazê-lo.
As crianças não queriam dormir cedo naquela noite, disso ele se lembrava bem. Ficavam pulando todo momento, dizendo ‘mais um pouquinho, mais um pouquinho...’. Mas Peter insistiu. Colocou um a um na cama, e calmamente disse ‘boa-noite!’. As crianças não tinham percebido, mas havia algo de diferente no olhar do pai.
_Eu ficava checando a cada quinze minutos os quartos. Para ter certeza de que nenhum deles presenciaria o momento. Então, eu fui até a cozinha…
Peter avançou sutilmente até a cozinha. O metal pressionava a carne de suas costas, a frieza o lembrando da morte que logo aconteceria… Enquanto caminhava até ela, pensava em cada momento que os dois tinham passado. Juntos. Todos os inesquecíveis fins de dias, todas as noites, todas as dúvidas vencidas por um amor que deveria ser mais forte e resistente do que tudo…
_Eu a esfaqueei. Ela nem tinha percebido que eu estava lá, e… E-eu sussurrei em ouvido ‘eu te amo’, e abracei ela. Abracei meu amor. E ela respondeu que também me amava… E então eu soube que deveria matá-la.
Ele sussurrou calmamente ‘Eu sei disso, sei de seu amor por mim… Mas você não é mais minha. E se você não é mais minha… Não é de mais ninguém!’.
_E então a matei. Foram vinte facadas. Seis no pescoço, duas nas costelas, cinco nas pernas e sete no peito. Bem no coração!
“Eu a matei, mas ela havia me matado muito antes disso!” — Peter fechou os olhos. Havia deixado aquele desejo insano entrar nele. Havia solto o assassino, e deixado o mesmo tomar conta de seu corpo. E enquanto todo o sangue espirrava, e o cheiro de morte se alastrava pelo ar, o sol se escondia no céu.
Não o sol que ilumina a vida de todos, trazendo luz e calor para a Terra. Mas o sol que representava algo muito além disso. Um sol que havia se posto no momento em que o assassino havia sido solto.
_Eu apenas cumpri minha promessa, doutor… Eu apenas fiz o sol da vida dela se pôr.
Peter ainda podia ouvir a voz em sua cabeça chamando-o… Venha ver o pôr do sol… Venha ver o pôr do sol… Venha ver o pôr do sol…
O sol estava se pondo naquele momento. Se pondo para nunca mais nascer novamente.
Fale com o autor