Come Together
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Minha avó parecia ter ficado mais carente depois da visita que eu fiz durante a Páscoa e a que eu fiz pouco depois pra dar entrada e pegar o passaporte irlandês. Ela parecia um pouco triste, até. Quando me despedi dela, prometendo que tentaria convencer meu pai a visita-la sem motivo, e não esperar pelo Natal, ela insistiu que eu levasse um dos braceletes dela.
Quando eu entrei no colégio pelo que seria a última vez no ano letivo, encontrei Becca correndo de um lado pro outro, parecendo uma louca, dando ordens a quem dava o azar de estar por perto. Assim que me aproximei, ela pareceu que ia parar por um pouco mais de um minuto.
— Oi, Pru. – ela falou esbaforida – Me ajuda a organizar as coisas pra entrega do anuário? A gráfica só entregou as caixas agora de manhã e tá uma loucura pra deixar tudo em ordem pra distribuir pro pessoal. Até porque já tem gente pegando e eu não quero atrasar a fila.
— Posso levar uma das caixas. Onde vai ser?
— Na quadra. E muito obrigada.
Peguei uma das caixas que estavam no chão e fui a caminho da quadra. No caminho, vi alguns alunos já com seus anuários em mãos pedindo uns aos outros pra assinarem do lado de fotos. Parei algumas vezes para assinar os anuários de rostos conhecidos. Assim que entrei na quadra, vi a fila que tinha se formado pra receber os benditos livros. Entrei na fila e fiquei observando como as outras pessoas pareciam animadas com o final do ano.
— Prudence! – ouvi alguém me chamar e logo vi Harper praticamente saltitando em minha direção
— Oi.
— Já tem planos pras férias?
— Tenho. Vou visitar meus avós.
— Eles moram no Oregon, não é? Porque eu e o pessoal estamos nos juntando pra ir pra Califórnia. É pertinho.
Neguei com a cabeça.
— São meus outros avós. Em Galway. Na Irlanda. – corrigi
— Não acredito, sua sortuda. Enquanto a gente tem que se contentar com Califórnia, você vai pra Europa.
— Prometo que vou com vocês numa próxima. Mas eu realmente vou ver meus avós.
— Aproveite a Irlanda por mim.
— Pode deixar.
Vi Matt entrar pelos fundos da quadra carregando duas caixas, provavelmente a pedido de Becca. Ele colocou as duas caixas com o pessoal que tava responsável pela entrega e veio nos ver na fila.
— Tem planos pras férias, Matthew? – Harper repetiu a pergunta
— Na verdade, acho que vou ter que ajudar meus pais na loja deles.
— Quer vir pra Califórnia comigo e com o resto do pessoal? Vamos passar por Los Angeles, San Diego e San Francisco.
— Tentador, mas não curto muito da mistura de praia e sol.
Antes que Harper fizesse mais algum comentário, chegou a nossa vez de receber o anuário. Assinei a ata e a professora, que assumi ser a de educação física, me entregou o livro. Depois de pegar o dele, Matt tirou o meu da minha mão.
— Ei! – protestei – Eu posso carregar meu próprio material!
— Eu sei que você pode. – não percebi nenhum sinal de deboche na voz dele – Mas você acha mesmo que pode fazer a minha assinatura?
Antes que eu pudesse rebater, Stella praticamente brota do chão pedindo para que eu assine o anuário dela, justamente na página que “dedicaram” a mim.
— Tu era uma criança tão fofa. – ela suspirou – Eu teria apertado bastante essas bochechas.
Dei um sorriso sem graça antes de devolver a ela.
— Harper já contou do plano de ir pra Califórnia? – Stella continuou puxando assunto
— Contou, mas não vou poder ir. Vou visitar meus avós na Irlanda.
— Mas seus avós não moram no...?
— Oregon? Os do Oregon são pais do meu pai. Vou visitar os pais da minha mãe. Tem tempo que não os vejo. Eu pensava que tinha dito que ia viajar a todos vocês. Até porque eu faltei aula pra resolver as coisas do meu passaporte.
— Acho que deve ter mencionado alguma coisa do tipo, mas não acho que foi um “ei, galera, vou pra Irlanda no verão”.
— Foi mal. Mas vocês não contavam com a minha presença na viagem, contavam?
— Não, não. Até imaginei que você iria ficar aqui. – Stella lançou um olhar significativo para Matt
— Eu não vou com ela. – Matt se defendeu – Vou ficar ajudando meus pais na loja.
— Acho que você deveria se encontrar com ela na Irlanda. É a tua terra, garoto. E a tua namorada.
Fiquei meio constrangida com o comentário de Stella e senti meu rosto queimando. Matt, por outro lado, não parecia ter sido afetado pelo comentário dela.
— Não é uma má ideia, mas acho que a Prudence deveria ter um tempo com a família dela.
— Então vem com a gente. – Stella ofereceu
— Pelo amor de Deus, Stella. – reclamou Harper – Não cometa a mesma gafe que eu. Olha pra pele de menino. Olha bem. Tu acha mesmo que alguém branco desse jeito vai pra praia na Califórnia? Ou pra alguma praia que seja? Claro que não. No máximo, ele vai pra piscina coberta, isso se ele sair com a pele exposta de alguma forma.
Stella pareceu prestar atenção na pele extremamente branca e pálida de Matt.
— Você já viu a luz do sol algum dia da sua vida? Porque não é possível alguém tão branco e ruivo não ter uma sarda que seja. – ela tentou se convencer que ele tem algum problema
— Já vi a luz do sol, mas não curto muito. E eu tenho sardas. Muitas delas, pra falar a verdade. – ele me encarou esperando que eu o ajudasse nessa mentira
Me fiz de desentendida quando tanto Stella quanto Harper me encararam também.
— Só me lembro de ter visto um sinal nas costas dele. – disse.
O que não era exatamente uma mentira. Tinha um único sinal nas costas dele. E só. Mais nenhuma sarda, nenhum outro sinal. Absolutamente mais nada.
— Vocês dois tão de sacanagem comigo. – Stella tentou nos fazer confessar – Como é que pode isso?
— Podendo. Sempre fui branco assim. Não tenho tantas sardas assim para vocês apreciarem, mas eu tenho.
— Ok, que tal, ao invés de discutir a existência ou não de sardas no meu namorado, vocês assinarem o meu anuário, hein? Porque não acho que essas assinaturas vão se fazer sozinhas.
Stella e Harper assinaram o livro e começaram a caminhar pela quadra atrás de mais amigos deles para trocarem assinaturas nos anuários. Sentei com Matt nas arquibancadas.
— Quanto tempo você vai ficar em Galway? – ele perguntou
— Um mês. Meus avós insistiram, já que tem uns três, quatro anos que não os vejo.
— Não, tudo bem.
Ele parecia querer contar alguma coisa.
— O que foi? – perguntei
— Nada. Só quero que você aproveite a viagem. E não fique nessa palhaçada de ficar falando inglês o tempo todo.
Revirei os olhos.
— Como se meus avós fossem deixar. – resmunguei – É só eu chegar no aeroporto que eles vão me bombardear com o irlandês. Desse susto você não morre. Eles são muito rigorosos com isso. Por sinal, acho que vocês iriam se gostar.
— Você acha?
— Acho. Tudo apegado a tradição e a identidade. Vocês iam se dar bem.
Matt deu de ombros e me incentivou a ir atrás de quem assinasse o meu anuário. No fim, cedi e fui com ele atrás do resto do pessoal que ainda não tinha assinado. Perto da hora do almoço, Becca, Harper, Sophie, Zeke, Stella e James nos chamaram para almoçar com eles, mas acabaram nos pedindo por sugestões.
— Olha, eu tava pensando em ir no Alfredo’s. Não vai ser propriamente almoço, mas é o último dia de aula, então não acho que vai fazer mal. – sugeri – E eu tenho vaga no meu carro pra quem quiser carona até lá.
Stella insistiu para que eu e Matt fôssemos no mesmo carro e que ela, Harper, Zeke e Sophie iriam noutro. Ela só pediu para que eu guiasse o caminho, já que ela não lembrava o caminho. Assim que entramos no carro, Matt começou a reclamar do estado do fusca.
— Se continuar reclamando vai ter que ir a pé pro Alfredo’s. – retruquei – O fusquinha é um cidadão idoso e está em perfeito estado.
— Perfeito estado é um exagero.
— Matthew Alexander Cooper.
Vi, pelo canto do olho, ele levantar os braços em sinal de rendição.
— Acho bom que você concordar comigo. – resmunguei – A não ser que você esteja interessado em bancar um novo carro pra mim, ache esse fusca o carro mais incrível do mundo. É nele que eu vou pra todo canto.
— Há controvérsias. Várias vezes você foi pro Alfredo’s no meu carro. Mas eu entendo o seu ponto. O fusquinha não é tão ruim. Já andei em carros piores que esse.
Assim que estacionei no Alfredo’s, vi Stella parando o carro dela do lado do meu. O resto do pessoal saiu e falavam muito sobre o que queriam fazer na Califórnia durante as férias. Escolhemos uma mesa e Emelie veio até nós com os cardápios em punho.
— Bem-vindos ao Alfredo’s. Meu nome é Emelie e vou ser a garçonete de vocês. – ela se apresentou enquanto entregava os cardápios – Querem alguma sugestão?
O pessoal se entreolhou e me encarou.
— Acho que vou no mesmo que ela pedir. – Sophie disse apontando pra mim – Ela que indicou o lugar, então deve saber o que tem de bom.
— Vou querer o cheeseburguer, com batata e refrigerante. – pedi
— O de sempre? – Emelie confirmou – E você, Matthew? O de sempre também?
Ele concordou com a cabeça. Stella, Zeke e Harper foram fazendo os pedidos a Emelie e ela se afastou com os cardápios. Harper me perguntou como eu tinha conhecido o Alfredo’s e quando contei que tinha sido por conta do Matt, ele exigiu saber como Matt tinha descoberto o lugar. Eu fiquei curiosa, porque nunca tinha pensado em perguntar, por mais que sempre fôssemos ali.
— Eu conhecia Emelie de um dos orfanatos que fiquei. – Matt contou – E quando ela conseguiu o emprego aqui, ela ligou super ansiosa pra me contar e prometeu que assim que tivesse dinheiro suficiente, iria me pagar a passagem até aqui pra comer alguma coisa aqui. Só que os Stuart me adotaram antes disso, mas vim de qualquer jeito.
— E ela nunca teve ciúmes de vocês dois? – Harper continuou perguntando, apontando pra mim e Matt
— E porque teria? Emelie é como uma irmã. Seria meio estranho ter algum tipo de ciúmes. – Matt deu de ombros
Nesse momento Emelie volta para a mesa com as bebidas, só deixando de servir Matt. Isso não passou desapercebido por Stella, que disse que ia no banheiro e pediu que eu a acompanhasse. Mal pisei no banheiro, ela começou a metralhar perguntas pra cima de mim.
— Ok, eu sei que seu namorado não gosta de ser o centro das atenções, mas o que está rolando com a garçonete?
— Stella, eles são só amigos, pelo amor de Deus. Eu não posso viver a minha vida procurando cabelo em ovo.
— Mas é muito estranho o jeito que eles se relacionam, Prudence.
Respirei fundo. Stella tá tendo uma crise de ciúmes por mim.
— Matthew e Emelie são amigos de orfanato. E eles conversam porque são próximos pra caramba. Não posso fazer meu namorado escolher entre a melhor amiga dele e eu. É injusto. Como você se sentiria se algum namorado seu dissesse pra você se afastar do Harper?
— Eu ia mandar o namorado se catar.
— Entende o que eu estou dizendo? Não posso fazer ele decidir entre uma amizade forte e eu.
— Ok, ok. Mas porque seu namorado praticamente não come? Eu já to com isso coçando no juízo há um tempo. Ele praticamente não bota nada pra dentro do almoço na escola e agora que Emelie apareceu com as bebidas na mesa, não vi nada pra Matthew.
— Ele não curte comer em público. É trauma, sei lá. E aqui ele sempre tem o mesmo pedido. Um milk-shake vermelho.
— Isso é estranho.
— Stella, quando você chegar em casa, converse com seu pai sobre crianças órfãs e pergunte se isso afeta a alimentação delas. Aposto que ele vai dizer que afeta. Agora pare de alimentar as minhocas na sua cabeça sobre meu namorado.
Saí do banheiro, deixando Stella com cara de bunda. Quando voltei pra mesa, Matt perguntou se tava tudo bem e concordei com a cabeça.
— Tá tudo muito bonito, tudo muito legal, mas quero saber o seguinte: vocês vão passar um mês distantes um do outro. Não é isso? – Harper cutucou, apontando pra mim e pra Matt
— Acho que sim. – Matt respondeu
— Garoto, tira a batata da boca! – reclamou Sophie – Mal dá pra entender o que você fala. E olha que eu estudo com você há dois anos e é difícil esse processo de tradução.
— Peraí, o sotaque dele não é tão difícil de entender. – defendi
— É sim. Você só entende o que ele diz porque sua mãe também era irlandesa.
— Sophie, minha mãe morreu quando eu tinha quatro anos. Os meus avós por parte de mãe se negam a falar inglês comigo. Não é a mesma coisa.
— Então porque é tão difícil?
— Sei lá.
Emelie chegou com uma parte dos pedidos. Assim que ela colocou o milk-shake de Matt na frente dele, Stella voltou pra mesa. Enquanto sentava, o olhar dela parou na taça com o líquido vermelho.
— De que é esse milk-shake, Matthew? – ela perguntou, tentando colocar ele numa saia justa
Todo mundo percebeu a cena que ela queria criar e encarou Stella com os olhos arregalados.
— Frutas vermelhas. – ele respondeu prontamente – Acho que você deveria pedir na próxima vez que vier. Você iria gostar.
Harper puxou Stella pra fora do Alfredo’s sem se importar que Emelie estava chegando com o resto dos pedidos. Ele pareceu dar um sermão nela pelo comportamento ridículo que ela tava apresentando. Sophie e Zeke começaram a contar como estavam ansiosos pela viagem pra Califórnia enquanto eu e Matt apenas ficamos assentindo. Os dois não mudaram o assunto quando Harper voltou pra mesa com Stella com a cara amarrada. Ela pediu desculpas pelo comportamento infantil.
— James vai ficar maluco quando a gente chegar em Los Angeles. – Zeke pontuou – O que ele mais fala é no que ele quer fazer por lá. Está sendo um inferno morar perto dele.
Zeke continuou o discurso de como James tinha ficado insuportável ao falar o tempo todo sobre a viagem que iriam fazer. Depois começaram a falar sobre como tinha sido o ano letivo e como esperavam que seria o próximo. Assim que terminamos de comer e pagar a conta, ofereci uma carona de volta para Matt, para que ele pudesse pegar o carro dele na escola. O caminho foi silencioso e, quando chegamos, ele deu um beijo na minha testa e prometeu que passaria na minha casa mais tarde.
Quando cheguei em casa, vi que meu pai tinha deixado um bilhete pedindo que eu já começasse a separar as roupas para a viagem, pra que eu tivesse tempo de lavar e botar pra secar o que eu iria levar. Acabei não encontrando tanta roupa pra lavar, o que daria facilmente pra usar a máquina de secar. Joguei as duas calças que eu queria levar na máquina e fui terminar de arrumar as roupas limpas pra botar na mala.
Já estava terminando de arrumar a mala quando abri a escrivaninha e encontrei o diário que estava no assoalho no dia que me mudei. Botei na mala. Em algum momento eu não teria o que fazer e seria uma boa ter o que ler. Mas acabei ficando tentada em saber de quem era e dei uma olhada na contracapa pra ver se o dono anterior tinha identificado e fiquei surpresa em ver uma etiqueta com o nome de Matthew impresso com letras de máquina de escrever.
Como ele poderia ter deixado um diário escondido naquela casa quando os Stuart só tinham o adotado um ano antes de eu chegar?
Tentei não focar nisso agora e botei de volta dentro da mala. Mesmo que eu não gostasse muito da ideia de ler o diário do meu namorado, gostava menos da ideia do meu pai fazendo o mesmo. E eu sabia que, se eu deixasse na escrivaninha, meu pai acabaria, em algum momento, encontrando o diário.
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