Começo do Fim
2 Capítulo Dois
O silencio foi interrompido pelo som suave da voz do pequeno Rafael nos braços de Clara. Ele começou a se mexer, os olhos ainda pesados de sono, mas curiosos o suficiente para espiar o ambiente.
“Mamãe, fome” Ele murmurou, a voz doce e arrastada,
Clara tentou sorrir para ele, mas o nervosismo ainda estava estampada em seu rosto.
“Eu sei meu amor, já vamos comer algo” Sua voz saiu um pouco tremula, mas cheia de ternura.
Ela o colocou no chão com cuidado e ele tropeçou ate a mesinha no centro da sala. Ele estava com o cabelo desgrenhado e vestia um pijama com pequenos desenhos de animais.
“Tem comida na cozinha?” Falei tentando oferecer algo útil enquanto minha mente trabalhava sobre o que estava acontecendo.
“Eu trouxe algumas coisas na bolsa” Clara respondeu, apontando para a mochila que ela estava usando antes e eu nem tinha reparado. Ela a abriu e tirou uma pequena embalagem de biscoitos e um suco de caixinha.
Rafa pegou o biscoito com as mãos pequenas e começou a mordiscar, sentado no tapete da sala. Ele olhou para mim e sorriu, um sorriso puro e sem qualquer traço de preocupação.
“Tia Kim” Ele disse com a boca cheia, apontando para o meu celular “Jogo?”
Eu sorri, balançando a cabeça.
“Não é hora de jogo”
Ele fez bico, mas logo voltou sua atenção para os biscoitos, como se todo o resto do mundo não existisse. Clara suspirou e passou a mão pelo cabelo, claramente tentando se recompor.
“Kim, precisamos pensar no que fazer. Não podemos ficar aqui sem saber o que esta acontecendo, e se as coisas piorarem?”
Olhei para Clara, depois para Rafa que parecia alheio a tensão. Ela esta certa, precisamos de um plano e rápido. Olhei novamente para Rafa, que agora empilhava pedaços de biscoito em uma tentativa desajeitada de construir uma torre. A cena era tão inocente que tirou um sorriso verdadeiro do meu rosto.
Não podemos simplesmente esperar o que quer que estivesse acontecendo lá fora nos alcançar.
“Certo, precisamos pensar” Respondi, tentando manter a voz firme “Você trouxe tudo o que podia da sua casa?”
“Só a mochila” Clara disse mordendo o lábio, inquieta “Eu sai rápido depois do que vi pela janela, nem pensei direito”
Fiz um gesto para que ela me seguisse até a cozinha. Rafa, distraído com seus biscoitos, ficou no tapete. Assim que estávamos fora do alcance auditivo dele, falei baixo.
“Não sei o que está acontecendo lá fora, mas se as pessoas estão atacando umas as outras, isso não é algo normal. Pode ser um surto, um vírus... sei lá. Precisamos de suprimentos, água, comida. Não sabemos quanto tempo vamos precisar ficar aqui.”
Clara assentiu, os olhos arregalados, e começou a mexer na mochila, verificando o que tinha trazido.
“Tenho algumas fraldas, leite em pó, umas roupas para ele, mas comida, só esses biscoitos que ele está comendo”
Suspirei, passando as mãos pelo rosto. Meu armário não estava exatamente cheio, mas talvez desse para improvisar.
“Ok, vou pegar o que tenho aqui. Talvez a gente consiga se virar por enquanto.”
Enquanto eu começava a verificar os armários, o som de Rafa rindo alto ecoou da sala. Meu coração deu um salto, as paredes são finas demais, então qualquer som muito alto poderia ser ouvido do corredor. Olhei para ele que segurava um dos biscoitos como se fosse um troféu, enquanto falava alto.
“Olha mamãe”
“Rafa, shhhh” Clara correu ate ele, colocando um dedo nos lábios para que ele ficasse quieto.
“Mas mamãe...” Ele falou baixo, inclinando a cabeça, confuso.
Foi então que ouvimos um ruido. Era fraco, como algo se arrastando no corredor do lado de fora. Não eram passos apressados como antes. Era mais irregular, e barulhento, nos fazendo congelar.
Clara me olhou, pegando Rafa no colo, enquanto eu lentamente me aproximei da porta, tentando ouvir melhor.
“Esta voltando” Sussurrei, sentindo um frio percorrer minha espinha.
O som parou por um momento, e então veio o som de uma batida contra a porta do meu apartamento. Dei um pulo para tras, Clara suspirou, abraçando Rafa com mais força. Ele tentou se virar para olhar, mas ela manteve o rosto dele pressionado contra seu ombro.
“Quem tá ai, mamãe?” Ele perguntou em um tom inocente.
Clara não respondeu, o rosto dela estava pálido e os olhos fixos na porta como se ela esperasse que seja o que estivesse do lado de fora entrasse a qualquer momento. Eu me aproximei deles, colocando um dedo nos meus lábios para sinalizar silencio enquanto eu olhava para Rafa.
“Shhh, pequeno. É só alguém chato, nada para se preocupar, mas não queremos que saibam que estamos aqui para não nos incomodarem” Falei em voz baixa.
Ele me olhou e balançou a cabeça, antes de enfiar o rosto no ombro de Clara novamente.
O som continuou, era uma batida fraca, então parecia que quem fosse não estava tentando quebrar. Me voltei para Clara.
“Não podemos fazer barulho” Sussurrei “Parece que quem quer que seja não sabe que estamos aqui.”
Ela assentiu. Ficamos imóveis, respirando com dificuldade e ouvindo a batida fraca que continuava do lado de fora; Eu mantive meus olhos fixos na porta, como se ela fosse desaparecer a qualquer momento. Cada som parecia amplificado no silencio do apartamento.
Rafa começou a se mexer no colo de Clara, inquieto. Ele murmurou algo baixinho, mas Clara o segurou firme, acariciando suas costas em um gesto para mantê-lo calmo enquanto o som de batidas continuou por mais alguns segundos e depois parou. Um silencio pesado caiu sobre nós, tudo o que ouvia era o som do meu coração batendo acelerado.
Me aproximei da porta novamente, com passos leves, tentando não fazer barulho. Encostei o ouvido nela, mas não ouvi nada.
“Parece que foi embora” Sussurrei, me virando para Clara.
Ela não respondeu, mas seu corpo relaxou um pouco. Rafa estava acordado, mas estava calmo.
“Isso não vai funcionar por muito tempo” Clara finalmente disse em voz baixa “Rafa... ele é só uma criança. Não vai entender que precisamos ficar quietos.”
Assenti, entendendo perfeitamente o que ela queria dizer. Era difícil pedir silencio em uma situação dessas, especialmente de uma criança de apenas dois anos.
“Vamos fazer o possível” Respondi “Não sabemos por quanto tempo isso vai durar, mas precisamos nos manter calmas”
Clara suspirou, balançando a cabeça e beijou o topo da cabeça de Rafa.
“O que você acha que esta acontecendo?” Ela me perguntou.
“Não sei, mas não pode ser só aqui. A mensagem no celular, os vídeos, isso tudo parece maior do que qualquer coisa que já vimos.”
“Vamos esperar mais um pouco” Falei enquanto sentávamos no sofá.
Rafa bocejou e se aninhou no colo de Clara, parecendo pronto para dormir. Eu então peguei o celular e fui checar as noticias novo. Clara me observava, parecendo cansada.
Desbloqueei o celular, minhas mãos um pouco tremulas e abri as redes sociais. Dessa vez, havia mais vídeos circulando, e alertas, um deles chamou minha atenção. “EMERGÊNCIA: POSSÍVEL INFECÇÃO EM MASSA, EVITEM CONTATO FISICO COM OS INFECTADOS, ELES SÃO EXTREMAMENTES AGRESSIVO”.
Baixei o som do celular e cliquei em um dos vídeos, minhas mãos suando enquanto segurava o celular. Havia varias pessoas, e dava para ver uma mulher avançando contra um homem, a boca dela manchada de sangue, ela derrubou o homem e começou a morder ele, havia gritos.
“Não pode ser” Murmurei, meu estomago revirando ao ver todo o sangue antes do video parar.
Clara percebeu minha reação e se aproximou.
“O que foi?”
Sem dizer nada, reiniciei o video e virei a tela para ela. Clara olhou, inicialmente não parecendo entender, então seus olhos arreglaram.
“Isso... isso não pode ser real” Ela sussurrou “Isso é coisa de filme. Não pode estar acontecendo de verdade”
“Clara, eu também quero acreditar que isso é fake, mas tem muito vídeos, alguns daqui, e as mensagens de alerta, os barulhos aqui no prédio. Pode ser que seja verdade.”
Eu desejava que fosse impossível. Pessoas atacando outras, recomendações para ficar em casa, os sons assustadores no correr... e agora esse video.
Isso esta realmente acontecendo? Zumbis?
A ideia parece absurda, mas quanto mais eu penso nisso, mais tudo começa a fazer sentido de uma forma perturbadora. Não eram gritos normais lá fora.
Olhei para Clara que parecia a beira de um colapso, enquanto lagrimas silenciosas escorriam por seu rosto. Eu preciso ser forte, por ela, por Rafael. Se eu entrar em pânico agora, ninguém vai conseguir lidar com isso.
Engoli em seco, tentando controlar meu próprio medo. Meus pensamentos continuavam girando em torno de possibilidades. Quanto tempo temos que ficar aqui? E se a comida acabar? Será que existe uma saída segura? E se eles chegarem mais perto?
Mas a principal pergunta que ecoa em minha cabeça é outra: Será que o mundo inteiro já está perdido?
Respirei fundo, afastando os pensamentos sombrios e olhei para Clara novamente.
“Vamos ficar juntas e vamos descobrir como lidar com isso. Uma coisa de cada vez” falei, mesmo que por dentro eu não soubesse se realmente isso daria certo, mas é a única coisa que podemos fazer no momento.
“Zumbis? Isso é coisa de filme. Eles estão exagerando, é só um surto normal, zumbis não existem” Ela falou.
Antes que eu pudesse responder, houve uma nova postagem na pagina da prefeitura, abri para ver: “ALERTA EMERGENCIAL OFICIAL: FIQUE EM CASA. PESSOAS INFECTADAS APRESENTAM COMPORTAMENTO HOSTIL E ATAQUES FISICOS”
Era apenas isso, sem mais detalhe. Virei a tela para Clara que leu a mensagem. Lagrimas começaram a rolar pelo seu rosto, e ela abraçou Rafa.
“Meu Deus, o que a gente faz?” Ela sussurrou entre soluços.
Me abaixei ao lado dela tentando encontrar palavras que pudessem acalma-la, mas a verdade é que eu também estou apavorada.
“Por enquanto a gente espera, ficamos quietas aqui, temos comida e agua por enquanto, e se precisarmos sair daqui vamos dar um jeito.”
Clara balançou a cabeça. Rafa talvez sentindo o desespero da mãe começou a chorar baixinho também, mas Clara logo o embalou, murmurando palavras tranquilizadoras.
Enquanto isso, o barulho no corredor parecia ter cessado. Clara enxugou as lagrimas rapidamente, ainda balançando Rafa em seus braços.
“Kim, não podemos ficar aqui” Ela disse, a voz ainda tremula, mas ela parecia mais determinada.
“Como assim? Para onde você acha que pode ir?” Perguntei tentando me manter calma, mas sentindo um nó se formar no meu estomago.
“Para a casa dos meus pais” Ela respondeu “Eles moram em um lugar mais afastado, no interior. Se isso for mesmo algo tão grande, lá é mais seguro do que aqui. Não quero que Rafa fique preso nesse prédio.”
“Eu entendo a tua preocupação, mas você viu os alertas. Eles estão dizendo para ficarmos dentro de casa, é perigoso lá fora, e você não tem ideia de como estão as ruas.”
“Eu não posso ficar sentada aqui esperando essas coisas nos encontrar, eu preciso tentar.”
“Você esta falando serio?” Aproximei-me tentando faze-la me olhar nos olhos “E se lá fora for pior do que imaginamos? Você esta querendo arriscar seu filho?”
Ela hesitou, seu rosto uma mistura de medo e culpa.
“E se eles não conseguirem controlar isso? E se ficarmos presas aqui e ninguém vier nos ajudar?” Ela perguntou.
Eu respirei fundo, tentando pensar rapidamente. Minha mente girava com as possibilidades, cada uma mais aterrorizante que a outra. A ideia de sair do prédio é um salto no escuro. Mesmo com o corredor em silencio agora, eu sei que lá fora é um mundo repleto de incertezas. Zumbis. Apenas pensar nisso faz meu coração acelerar de medo, mas Clara parece estar presa entre o desespero e a determinação de proteger Rafa a qualquer custo, mesmo que eu ache que é mais seguro para todos permanecermos ali.
“Clara” Comecei, mantendo minha voz mais calma possível, mesmo que dentro de mim tudo estivesse em caos “Eu sei que voce só esta pensando em rafa, mas a gente precisa pensar direito. Olha, você tem comida aqui para ele, temos agua aqui, por enquanto é seguro. Lá fora não é.”
Ela me olhou, lagrimas escorrendo pelo rosto. Sua expressão era de frustração “E se isso nunca acaba E se essas coisas aparecerem aqui? Como eu vou proteger o meu filho nesse prédio caindo aos pedaços? Pelo menos na casa dos meus pais ele poderá correr, tem espaço e lá tem armas.”
Era um bom lugar para ir, mas pensar em Clara e Rafa tentando atravessar a cidade ate chegar lá é algo que eu não consigo suportar, eles estariam em muito perigo.
“Você tem certeza de que conseguira atravessa a cidade? Que seus pais estão bem lá? Clara, eu entendo, mas a ideia de sair agora é insana, você mesma viu os alertas, eles dizem para ficarmos em casa.” Eu tentei convence-la, mas ela balançou a cabeça impaciente.
“E se ficarmos aqui ate o prédio inteiro estar infestado? Não posso simplesmente ficar parada.” Seus olhos me encontraram com uma intensidade que me fez desviar o olhar. Eu sei que ela esta com medo, desesperada, mas ela n]ao é a única.
Há uma logica no que ela diz, e pode estar certa, se o prédio for invadido, não haveria saída. Por outro lado, sair é um enorme risco. Qualquer movimento lá fora poderia atrair zumbis para nós.
“Clara, e se seus pais não estiverem mais lá?” Perguntei em um sussurro. Era cruel, mas era uma verdade que sei que ela não quer encarar.
“Eu...” O rosto dela empalideceu ainda mais “Eu preciso acreditar que eles estão bem” Ela murmurou.
“Clara, por favor” Eu queria conforta-la, mas a verdade é que eu estou aterrorizada. “Vamos esperar mais um pouco, pelo menos mais algumas horas. Vamos monitorar as noticias, ver se as coisas se acalmam. Se você ainda quiser, eu não vou te impedir, mas não faça isso agora”
Ela hesitou, seus lábios tremendo enquanto seus olhos me fitavam, eu posso ver o conflito dentro dela, ate que por fim ela assentiu, embora com relutância.
“Tá, mais algumas horas. Mas se isso piorar, Kim, eu vou embora, e você vai ter que decidir se fica ou vem comigo.”
Senti um aperto no peito. Eu sei que ela esta falando serie, e a ideia de ser deixada para trás é quase tão aterrorizante quanto de enfrentar o mundo lá fora.
“Ok” Respondi, embora minha mente ainda estivesse cheia de perguntas sem respostas.
Enquanto Clara se sentava no sofá, peguei meu celular novamente, tentando achar qualquer coisa que pudesse nos ajudar a decidir o que fazer, enquanto tudo o que podíamos fazer era esperar.
Família. Essa palavra tem um peso estranho para mim, um misto de conforto e vazio. Olhar para Clara abraçando Rafa me fez sentir um pontada no coração. Ela tem alguém por quem lutar, alguém para dar sentido a tudo, mesmo no meio de um inferno com esse.
Eu não tenho ninguém.
Fechei os olhos por um momento, mas isso só trouxe memorias que eu quero enterrar. Minha mãe sempre dizia que a vida é feita de momentos, e que a gente nunca sabe quando eles irão acabar. Ela não estava errada. Ele e meu pai se foram rápido demais, vitimas de um acidente que ninguém esperava. Eu tinha 19 anos na época, e aquele foi o momento em que tudo na minha vida mudou.
Lembro-me da ultima vez que os vi. Minha mãe, com aquele sorriso que parecia iluminar o mundo, me dizendo para não esquecer de trancar a porta quando saísse. Meu pai, concentrado em vídeos no celular. Era uma manhã comum, nada especial, ate que não foi mais. O vazio que ficou depois era imenso. Não tinha irmãos, tios, ou avós próximos. Eu aprendi a sobreviver sozinha, mas nunca os esqueci.
Agora, nesse momento, com o mundo aparentemente desmoronando, a dor daquele vazio parecia voltar com força total. Sera que, se minha mãe estivesse aqui, ela saberia o que fazer? Sera que meu pai me diria para ser corajosa e seguir em frente?
Um soluço escapou antes que eu pudesse me conter, e rapidamente cobri a boca com a mão, rezando para que Clara não percebesse. Eu não posso desabar agora, não quando eles precisam de mim.
Olhei para ela e Rafa novamente. Clara estava distraída, acariciando os cabelos do filho enquanto parecia estar cantando baixinho para ele. E foi ai que percebi, eles são tudo o que eu tenho agora, não são minha família no sentido tradicional, mas por eles eu preciso ser forte e mesmo que o mundo inteiro estivesse caindo aos pedaços, mesmo que a ideia de continuar fosse assustadora, eu não posso deixar Clara enfrentar isso sozinha.
Respirei fundo, limpando uma lagrima teimosa que descia pelo meu rosto, e voltei minha atenção para o celular. Eu preciso encontrar respostas, ou pelo menos algo que nos ajude a decidir o próximo passo.
“Vamos conseguir” Sussurrei para mim mesma, tentando me convencer disso.
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