As primeiras luzes da manhã já se filtravam pelas cortinas finas, mas eu não estava pronta para acordar. O som estridente do despertador tocou pela terceira vez, insistente, me forçando a lembrar que o mundo lá fora continua girando e eu preciso trabalhar. Com um suspiro pesado estiquei meu braço e desliguei, suspirando ao encarar o teto branco do meu pequeno apartamento, gastei alguns segundos reunindo coragem para encarar mais um dia.

Levantei devagar, meus pés descalços tocando o chão frio. Na cozinha liguei a chaleira elétrica, o café seria de grande ajuda para me acordar completamente. Meu pequeno apartamento estava silencioso, exceto pelo zumbido da chaleira e os sons ocasionais vindos da rua. Minha rotina é previsível, um ciclo confortável entre o trabalho, estudos e algumas poucas horas de sono.

Decidi abrir a janela para entrar um pouco de ar fresco, o céu parecia mais cinza do que o normal, embora não houvesse previsão para chuva. Olhei para baixo, para as pessoas que andavam apressadas na calçada, algumas com os olhos grudados nos celulares, mas o que estranhei foi que muitos olhavam em volta como se procurassem algo.

Me afastando da janela voltei para a cozinha e comecei a preparar o café, tentando ignorar uma sensação estranha que sinto no estomago, espero realmente não estar começando a ficar doente. Enchi minha caneca de café, o liquido escuro e quente aquecendo minhas mãos, enquanto tomava peguei meu celular, assim que a tela acendeu as notificações explodiram na tela. Vídeos, mensagens, alertas de emergência que eu nunca tinha visto antes. Um dele dizia: ‘EVITE AGLOMERAÇÕES. PERMANECER EM CASA É A MELHOR ESCOLHA’ escrito em letras maiúsculas e vermelhas.

Meu coração deu um salto e a caneca quase escorregou da minha mão.

“Que droga é essa?” Murmurei para mim mesma. Algo está errado, muito errado.

Meu estomago revirou. Era um aviso oficial, mas ainda não havia contexto, nenhuma explicação o que me deixou ainda mais inquieta. Preciso de respostas, então abri as redes sociais, onde tudo parecia estar divulgando. Havia dezenas de vídeos sendo compartilhados, mas foi o primeiro da lista que prendeu minha atenção. Apertei o play e me arrepiei imediatamente.

O video mostrava uma rua cheia de gente correndo em pânico. Uma rua muito familiar para mim. Minhas mãos gelaram ao reconhecer as fachadas das lojas. É o mesmo caminho que eu cruzo todos os dias para ir trabalhar, inclusive é onde eu passaria em alguns minutos para ir trabalhar no posto de gasolina.

A caneca de café, ainda quente, ficou esquecido sobre a mesa, meu foco estava completamente naquele video tremido, que parecia gravado por alguém tentando escapar. No fundo do video meio tremulo se via um homem tropeçando e caindo, desaparecendo no meio das pessoas correndo, e quem filmava começou a recuar. Havia gritos. Não, era mais do que gritos, eram sons de pavor enquanto o video terminava. Quem quer que deve ter gravado provavelmente decidiu que era hora de começar a correr também.

Ainda com o celular nas mãos, fui direto para as redes sociais da prefeitura, esperando encontrar alguma explicação, algo que pudesse dar algum sentido para o que estava acontecendo. Mas tudo o que encontrei foi uma única mensagem; ‘Aguardem instruções e permaneçam em casa’

Isso não deve ser grande coisa, certo? As pessoas se desesperam facilmente, e vídeos na internet são sempre sensacionalistas. Tentei me convencer disso enquanto balançava a cabeça, respirando fundo. Por precaução eu ficaria em casa.

Foi quando ouvi o som, era algo diferente, e não havia mais o barulho habitual da cidade de buzinas, motores ou murmúrios distantes das pessoas. Mas o som que ouvi era diferente e foi o suficiente para me deixar alerta. Minha curiosidade venceu o medo e fui novamente ate a janela. O que vi me deixou preocupada. A rua que cerca de meia hora antes estava cheia de movimento, agora estava completamente vazia de pessoas.

Porem, alguns carros haviam sido abandonados no meia da rua, portas abertas, como se os motoristas tivessem fugido às pressas. Esse é um caos que eu ainda não estava entendendo.

Meus olhos varreram o cenário, procurando por qualquer sinal de explicação, mas só encontrei o silencio, o tipo que deixa o peito apertado e o ar pesado. Não havia sirenes, nem vozes, e esse silencio me disse que á algo muito errado.

Meu coração disparou quando a campainha tocou, o som cortando o silencio tenso do apartamento.

“Sou eu, a Clara” Uma voz que reconheci chamou do outro lado da porta.

Clara é minha vizinha de porta, uma jovem mãe solteira que sempre aparece com um sorriso no rosto e algum bolo recém assado para dividir., mas agora mesmo sem ver ela algo parecia diferente, o tom de sua voz era apressado, quase desesperado. Corri para abrir a porta

Assim que abri dei de cara com Clara. Seu rosto estava pálido, ela estava ofegante enquanto segurava o seu filho pequeno, que parecia estar dormindo, alheio a tensão ao redor.

“Kim, você viu?” Ela perguntou antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa “Os avisos.... Eles estão dizendo para não sairmos de casa. Mas...” Ele fez uma pausa curta, respirando fundo e antes que eu pudesse perguntar o que estava acontecendo ela completou “Eu vi algo lá fora.”

“Algo? Como assim?”

Ela hesitou. Seus olhos estavam arregalados, ela parecia estar tentando encontrar as palavras certas, mas ela parecia não encontra-las.

“Pessoas...” Ela começou, a voz quase um sussurro “Talvez doentes, eles não pareciam normais, Kim. Não parecia gripe, nem nada disso.” Eu podia ver o pavor nos olhos dela, o mesmo pavor que começava a se infiltrar em mim “Eles estavam atacando outras pessoas.”

Meu coração acelerou. Atacando? Pessoas doentes? Que tipo de doença faz alguém atacar outra pessoa?

Minha mente parecia uma tempestade, me deixando incapaz de formular uma única resposta logica. Eu deveria dizer algo, confortar Clara, acalma-la, mas minha boca não conseguia formar palavras.

Ela me olhava, esperando que eu dissesse algo que fizesse tudo parecer menos terrível, mas a verdade é que eu também estou perdida. Isso não faz nenhum sentido.

Um som abafado ecoou pelo corredor, algo parecia estar batendo contra uma parede seguido por um gemido baixo e estranho. Clara deu um passo para trás, segurando o filho ainda mais contra o peito, seus olhos se moveram nervosamente para a origem do som.

Eu também olhei na direção do barulho, tentando entender o que poderia ser, mas o corredor a nossa frente estava vazio, poderia ser dobrando a curva, escondido pela parede, por um momento pensei em espiar, mas ideia morreu antes mesmo de eu dar o primeiro passo quando o barulho se repetiu. Meu instinto me dizendo que estávamos em perigo.

Sem pensar duas vezes, estendi a mão e segurei o braço de Clara a puxando para dentro do meu apartamento.

“Entre, rápido” Sussurrei, tentando não mostrar o quanto eu estava com medo.

Assim que ela passou pela porta, fechei com força e girei a chave na fechadura, me certificando de que estava trancada. Encostei a testa na madeira por um segundo, ouvindo o som do meu próprio coração martela nos meus ouvidos.

Clara estava parada atras de mim, respirando fundo.

“O que era aquilo?” Ela perguntou, sua voz falando baixa para não acordar o filho.

“Eu não sei, mas não vamos lá descobrir”

O apartamento estava silencioso, exceto pelas nossas respirações. Clara se sentou no sofá, abraçando o filho com força, como se ele fosse a única coisa que a mantivesse ancorada a realidade. Eu me aproximei da janela, cuidadosamente afastando a cortina, apenas o suficiente para espiar.

Consegui ver duas pessoas se movendo, mas estava longe demais para eu ter uma visão clara deles, mas pareciam estar um pouco desorientado porque tropeçavam. Tentei focar em um deles, mas meus olhos logo se desviaram para duas pessoas saindo do prédio, era um casal que mora no primeiro andar, eles pareciam assustados e quando saíram se abaixavam se mantendo escondidos ate que saíram de vista.

Seja o que estivesse acontecendo, o medo estava tomando conta da cidade.

“Kim?” Clara me chamou.

“Tem algo lá fora” Sussurrei sem me virar, voltando minha atenção para as duas figuras mais distantes.

“O que?” Ela se levantou, ainda segurando o filho.

Clara deu um passo em minha direção., mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o mesmo som estranho que ouvimos ecoou novamente. Desta vez, mais perto. Era um gemido longo, quase animalesco, mas com algo profundamente errado, como se o som não devesse sair de uma garganta humana.

Nós duas congelamos.

O som foi seguindo por um barulho, algo batendo na porta do apartamento ao lado. O apartamento do Sr. Mendonça, o vizinho idoso que raramente saia de casa.

Clara me olhou, seus olhos arregalados, e eu vi o mesmo pensamento passar por nossas mentes: o que quer que fosse, agora estava ainda mais perto.

“Kim, temos que fazer alguma coisa” Ela sussurrou.

Assenti, tentando não entrar em pânico junto com ela. Peguei meu celular da mesa e desbloqueei a tela, indo direto para a chamada de emergência.

“Vou ligar para a policia” Eu disse para tranquiliza-la.

O telefone tocou uma, duas, três vezes antes que uma voz gravada falasse na linha: “No momento nossas linhas estão sobrecarregadas. Se sua situação não for de extrema urgência, recomendamos que permaneça em casa e aguarde novas instruções.”

“O que?” Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e Clara levou um dedo aos lábios, pedindo silencio.

Tentei novamente, mas a mesma mensagem se repetiu. A linha de emergência não estava funcionando.

“Eles estão sobrecarregados” Respondi tentando não deixar minha voz tremula “Deve estar acontecendo algo grande lá fora.”

Clara fechou os olhos, balançando a cabeça devagar, como se estivesse tentando processar tudo aquilo. O barulho no corredor continuou, nos deixando cada vez mais inquieta. Eu torcia para que se o Sr. Mendonça estivesse lá, ele não abrisse a porta. Então, de repente, o barulho começou a diminuir. Era como se quem quer fosse tivesse perdido o interesse ou encontrado outro destino.

O silencio que se seguiu foi quase assustador. Eu prendi a respiração, tentando captar qualquer ruido, mas tudo o que ouvi foi o som distante do que parecia passos.

Clara olhou para mim, a expressão confusa e aliviada ao mesmo tempo.

“Parou...” Sussurrou, quase sem acreditar.

“Por enquanto” Respondi.

O apartamento parecia sufocante. A única coisa que quebrava o silencio agora era o leve barulho do filho dela, que parecia estar começando a acordar;

“Kim” Clara falou de forma hesitante “O que a gente faz agora?”

Eu queria ter uma resposta, mas minha mente estava confusa.

“Acho que precisamos esperar. Ver se alguém consegue nos dar mais informações” Olhei para o celular novamente, abrindo as redes sociais. Tudo parecia dizer a mesma coisa: Permaneça em casa.

Clara voltou a sentar no sofá, tentando manter o filho calmo enquanto ele se mexia nos braços dela. Ele murmurou algo, a voz ainda sonolenta, e se aconchegou mais contra ela.

“Ele nem sabe o que está acontecendo” Ela disse acariciando o cabelo dele “E acho que isso é bom.”

Assenti, sentindo um peso enorme no peito. A ideia de uma criança em meio a algo tão assustado era difícil de suportar. Voltei para a janela, espiando através da cortina novamente. A rua continuava deserta, as figuras que eu tinha visto antes haviam sumido, e o silencio reinava lá fora também.

Por um momento, considerei a possibilidade de que talvez as coisas estivessem se acalmando. Talvez fosse apenas um caos passageiro, algo que logo faria sentido.