Combustão Espontânea

1 Ciúme em público


A rua estava movimentada demais para Lucy gostar. Pessoas passando, risadas altas, passos apressados. Ela caminhava tentando manter o ritmo tranquilo, enquanto Wendy falava animada sobre alguma coisa que ela mal conseguia processar.

Charle, alguns passos à frente, observava tudo com aquele olhar crítico de quem sempre espera o pior.

— Lucy — Wendy puxou levemente a manga dela. — Você tá me ouvindo?

— Tô, tô — Lucy respondeu rápido demais, forçando um sorriso.

— Ei, moça.

Lucy suspirou antes mesmo de virar. Dois rapazes estavam parados perto de uma barraca, sorrisos fáceis, confiança exagerada.

— A gente só queria dizer que você é muito bonita — disse um deles. — Tipo… chama atenção mesmo.

— Obrigada — Lucy respondeu, educada, já dando meio passo para o lado. — Mas estamos indo.

— Calma, não precisa ser grossa — o outro riu. — Seu vestido é incrível. Combina com você.

Antes que Lucy pudesse responder, sentiu o toque. Leve. Delicado. Invasivo. Os dedos alheios roçaram o braço dela, subindo um pouco demais, deixando um rastro incômodo na pele.

— Ei — Lucy puxou o braço de volta, o sorriso sumindo completamente. — Não toca.

No mesmo instante, o ar mudou. Um estalo seco ecoou acima deles, pesado como um trovão antes da tempestade.

— Tira. A. MÃO.

Natsu avançou um passo, o fogo crescendo ao redor de seus punhos com uma fúria cega.

— NATSU!! — Lucy gritou, horrorizada. — VOCÊ ENLOUQUECEU?!

As chamas se espalharam rápido demais. O calor passou por Lucy como uma onda de choque, roubando-lhe o ar. Ela sentiu o tecido do vestido esquentar contra o corpo, depois ceder em alguns pontos sob o efeito do calor extremo.

— A-AI! — Lucy deu um pulo para trás. — MEU VESTIDO!!

Os rapazes nem esperaram. Saíram correndo, tropeçando nos próprios pés pela calçada. O fogo se apagou quase instantaneamente, deixando apenas o cheiro de fumaça no ar.

O silêncio caiu pesado. Lucy olhou para o braço. Uma parte da manga estava chamuscada; pequenos rasgos escurecidos marcavam o tecido fino. Ela virou devagar para Natsu.

— …VOCÊ QUEIMOU MINHA ROUPA.

— Eu… — ele abriu a boca, fechou. O brilho agressivo em seus olhos vacilou diante do olhar dela. — Eles estavam tocando em você.

— ISSO NÃO TE DÁ DIREITO DE ME INCINERAR JUNTO! — Lucy avançou, apontando para ele. — Você sabe o trabalho que deu pra conseguir esse vestido?!

— Eu não fiz de propósito! — Natsu rebateu, já na defensiva. — Eu só… fiquei com raiva!

— Raiva de quê?! — Lucy perguntou, o rosto vermelho. — Eu sei me virar sozinha!

— Eu sei disso! — ele respondeu rápido demais. — Mas ele não podia—

— NÃO PODIA O QUÊ, NATSU? — ela interrompeu.

O silêncio voltou, mais denso. Wendy observava de olhos arregalados, alternando o olhar entre os dois. Charle fechou os olhos, suspirando.

— Isso está ficando constrangedor — murmurou a gata.

Natsu desviou o olhar, coçando a nuca, o fogo completamente apagado agora.

— Eu só não gostei — murmurou. — De ver ele tocando em você.

Lucy congelou por meio segundo. O som da rua pareceu desaparecer por um instante, focado apenas naquela confissão desajeitada. Depois, ela respirou fundo, sentindo a raiva se dissipar e dar lugar a um calor completamente diferente.

— Da próxima vez — ela disse, mais baixa, mas firme — você conversa. Não explode. E definitivamente não queima minhas roupas.

Ele assentiu de leve, subitamente dócil.

— …desculpa.

Lucy cruzou os braços, ainda irritada, mas o coração batendo rápido demais para uma simples bronca.

— Idiota.

Natsu subiu de novo no telhado, como sempre fazia quando não sabia lidar com o que sentia. Mas, dessa vez, o olhar dele seguiu Lucy até ela virar a esquina.

E ela… percebeu.

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