Com você é mais divertido
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Os próximos dias passaram rápidos, porque sempre que estávamos juntos as horas insistiam em correr, mas cada hora foi gasta divertidamente, corremos pela praia feito duas crianças, fizemos castelo de areia, surfamos bastante, fizemos competição de natação e é claro que eu só ganhei porque ele deixou. Sim aquele mês de agosto fui muito diferente dos anteriores, nunca tinha me divertido tanto como estava me divertindo. Contudo a vida não era essa diversão toda, e o mês já estava acabando. Hoje era a ultima noite que passaria ali, na manha seguinte iria voltar para realidade da faculdade e do estagio na empresa de meu pai. E o pior de tudo que eu ainda não havia contado para o peixinho.
Já era noite, eu estava sentada na praia, passei o dia sem vê-lo, porque tive que ficar em casa arrumando as malas, mas no fundo tinha esperança que ele iria aparecer. A felicidade que eu vinha transmitindo nos últimos dias já estava sumindo, dando lugar a solidão e a tristeza. Abracei meus joelhos e suspirei.
– O que houver pequena? Porque a tristeza? – o ouvi perguntar ao sentar do meu lado e passar um braço pelos meus ombros. Um pequeno sorriso nasceu em meu rosto, somente ele conseguia isso.
– Estou indo embora peixinho. – eu disse. Ele não falou nada, mas me apertou mais em seu abraço.
– Por quanto tempo? – ele perguntou depois de um tempo de silencio.
– Um ano. – suspirei.
– Veja pelo lado bom, é só um ano. – ele falou tentando nos animar, porque ele também estava triste.
Mesmo não conhecendo muito da vida dele tínhamos nos tornados grandes amigos, na verdade ele tinha sido o meu primeiro amigo.
– Sabe peixinho você foi meu primeiro amigo.
– Me sinto lisonjeado. – ele disse convencido. Eu sorri e dei uma tapinha em seu braço. Mas ai ele falou – Você também pequena, foi minha primeira amiga verdadeira, nunca tinha me divertido tanto como me diverti com você. Vou sentir muita sua falta. – e suspirou triste.
Eu me afastei um pouco do seu abraço, levei minhas mãos ao meu pescoço e tirei meu colar de conchas branquinhas que sempre usava.
– Eu fiz isso quando tinha uns dez anos... Juntei varias conchinhas brancas, quebrei em pequenos pedacinhos, furei e passei um fio náilon por dentro de cada uma, deu o maior trabalho. – eu sorri com a lembrança. – Mas é o colar mais precioso que eu tenho. – levei minhas mãos até o pescoço dele e fechei o colar. – Eu quero que você fique com ele, e não se esqueça de mim. O sorriso que ele tinha no rosto era imenso, e me deixou muito feliz.
– Jamais irei te esquecer pequena, quando você voltar saberá onde me achar. – eu o abracei e aproveitei cada segundo daquele abraço caloroso, mas estava na hora de se despedir.
– Tchau peixinho se cuida. – disse saindo do abraço.
– Tchau pequena se cuida também. – ele falou beijando minha testa.
E assim foi nossa despedia, voltei para casa e no dia seguinte para minha vida, onde sorrir já não era mais natural e sim um sorriso forçado para manter as aparências.
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Aqui no Olimpo eu nunca tive alguém para conversar algo que não fosse sobre nossas obrigações. Afrodite ate tentava, mas suas conversas eram sempre amorosas demais, isso quando ela não falava só de seus romances com Ares e Hefesto. Apolo nos últimos milênios só falava de seu amor impossível por Ártemis, Dionísio só falava de festa, Hermes viva as carreiras. Hera, Deméter e Zeus esses ai nem se contavam. Com Hades até que dava para conversar um pouco, mas eram raros os momentos que nos encontrávamos. E Atena... Bem esse é um assunto delicado, por muito tempo fui apaixonado pela deusa da sabedoria, Afrodite viva dizendo que éramos o casal perfeito, não sei de onde ela tirou isso, nós dois vivamos discutindo e brigando, às vezes eu fazia isso só para pelo menos ouvir sua voz, mas Atena era muito orgulhosa, era não, ainda é... E esse orgulho sempre me impedia de se aproximar dela, juro que tentei de todas as formas, todos os deuses sabem o quanto eu tentei, mas com o passar dos milênios essa paixão foi acabando aos poucos a cada vez que era destrato e humilhado por ela. Mesmo não demostrando para as pessoas eu me machuquei bastante. Por fora continuava com o mesmo sorriso, no entanto por dentro estava quebrado.
Estava triste, me sentindo solitário e machucado, o que adiantava ser o todo poderoso deus do mar se não tinham ninguém com quem compartilhar experiências, conversar e brincadeiras. Eu estava tão depressivo sozinho no meu palácio que meu primeiro pensamento foi sair um pouco, subir a superfície para esquecer um pouco disso tudo e tentar pensar em outras coisas, mas ao chegar lá me deparo com uma pessoa chorando e naquele momento parece que todos os meus problemas haviam sumido e a única coisa que importava era consolar aquela garota. A pequena garota que logo depois trouxe novamente felicidade para minha vida. Sorrisos verdadeiros que há muito tempo eu não conseguia mais dar, se tornaram naturais de novo. Com ela eu conheci o real valor de uma amizade verdadeira com conversas, brincadeiras e discussões e tudo isso só tornou nossa amizade ainda mais solida. E os poucos dias que passamos juntos, foram os suficiente para curar meus machucados.
Mas ela teve que partir... Era apenas um ano... Quatro meses já havia se passado, e eu nunca achei que um ano demorasse tanto para passar como aquele estava demorando. O que é um ano para quem já viveu milhares... Deveria passar como um mês... Mas não parecia um mês, pareciam décadas... Tá! Sei que estou exagerando, mas eu nunca tinha sentido tanta falta de alguém como estava sentindo daquela garota. Dos seus sorrisos, dos nossos abraços, das nossas conversas. A única coisa que tinha dela era um colar, que ela havia me dado no ultimo dia que nos encontramos. Qualquer um que olhasse diria que era apenas um colar de conchas, mas para mim não era apenas um colar de conchas, para mim era o colar de conchas da minha amiga.
– Ei tio porque o senhor alisa tanto esse colar? – perguntou Apolo ao meu lado.
Estávamos todos reunidos na sala do trono para mais uma das reuniões tediosas de Zeus, eu estavam tão distraído em meus pensamentos que não havia notado que segurava meu colar.
– Porque é mais interessante do que ouvir os monólogos de seu pai. – disse rindo. Ate voltar a brincar nas reuniões coisas que eu já não vinha mais fazendo antes de conhecer a pequena voltei a fazer.
– Ah sim, com certeza deve ser. – ele disse desanimado quase se deitando em seu trono.
Ele não era o único que estava entediado, Dionísio e Ares estavam quase dormindo, Afrodite cerrava as unhas e Hermes se mostrava impaciente batucando os dedos em seu trono. Algumas horas se passaram até que Zeus encerrou o concelho para a alegria de todos.
– Poseidon volte aqui. – chamou Afrodite quando eu ia me retirando. – O que te aconteceu querido? Notei uma súbita alegria em você nos últimos meses e agora essa sua ansiedade... Hemmm? – ela sorriu, e sendo ela a deusa do amor, seus sorrisos sempre eram maliciosos.
– Nada de mais. – rindo respondi evasivo. Ela semicerrou os olhos, e me olhou como se dissesse: “Sei... nada de mais né...”.
– E esse colar que você tanto alisou? Pensa que eu não notei durante a reunião? – falou acusadora.
– Eu perguntei a mesma coisa. – falou Apolo se juntando a conversa e com ela vinha Ártemis e Atena juntos.
– E como eu havia dito, porque era mais interessante do que ouvir os monólogos de Zeus. – sorrir. – Mas porque tanto interesse assim no meu colar? – perguntei e para minha surpresa quem respondeu foi Atena.
– Porque há alguns meses atrás você não usava isso. – seu tom era debochado.
– Deve ser porque há alguns meses atrás eu não o tinha talvez?! – disse irônico. Todos eles me olharam surpresos porque já fazia um tempo que eu não batia de frente com a deusa da sabedoria. – Mas enfim deixem me ir que tenho coisas a tratar em meu reino. — e logo em seguida me dissolvi em água e fui para meu reino.
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