Com o que sonham os pesadelos?
1 Capítulo 1 - Rápido pesadelo
Tirando o céu avermelhado, as casas flutuantes e o urso com chifre de unicórnio no canto do seu campo de visão, tudo parecia normal.
Dois olhos? Confere. Dois braços? Confere. Duas pernas, uma boca, nariz, orelhas, cabelo eternamente bagunçado como se nunca, em todos os seus 20 anos de vida, tivesse encontrado um pente? Confere, confere, confere e meu deus, confere. Mesmo assim, alguma coisa parecia fora de realidade naquele lugar. Além do céu avermelhado, do ursunicórnio, etc.
Estava ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. O que era estranho, já que tinha acabado de chegar ali. O que era esse “ali”, na verdade? Nem sequer conseguia começar a imaginar. Só sabia que estava ali e que as coisas estavam quase normais.
Ouviu um rugido muito longe e olhou para trás rapidamente. Seis patas, grandes mandíbulas, garras enormes, sete olhos todos vermelhos o encarando como se fosse o último pedaço de pizza numa festa com amigos com intimidade o suficiente para ninguém ser educado e todos desejarem o último pedaço.
A besta avançou. “Ah. Era por isso que eu tava ofegante”, disse em voz alta o que achou que tinha pensado, “era disso que eu tava correndo”.
E começou a correr. De novo, aparentemente.
Era difícil correr de pés descalços numa superfície irregular e repleta de pedrinhas, como se pisasse em um milhão de pequeninas facas afiadas. Sem camisa, o sol queimava bastante sua pele e praticamente conseguia ouvir sua mãe dizer, com tom de mãe “cê vai pegar uma insolação, minino”. Corria e corria, mas a fera de seis patas e olhar faminto parecia que estava cada vez mais próxima, não importando o tanto e a velocidade que conseguia fugir.
Não tinha nenhum ponto de referência, por isso parecia correr em uma esteira onde a paisagem mudava apenas um pouco. Não frequentou a academia por muito tempo e não lembrava muito bem como funcionavam as coisas por lá, mas tinha quase certeza que nenhum monstro digno de pesadelos corria atrás de você enquanto se exercitava. Quase. Ainda achava a academia um pouco pior.
Os pés começaram a sangrar e a dor era cada vez mais insuportável. A criatura parecia estar a uma distância de dois ou três saltos, então desistiu. “Acabei de chegar aqui e já vou morrer”, pensou em voz alta de novo, “nem sei porque estou aqui e já vou morrer. Eu só… só queria me despedir da minha…”. Foi interrompido pelo rugido que precedeu o salto do monstro. Um, dois e ele praticamente já conseguia sentir as garras e as presas entrando em sua pele. Fechou os olhos.
Não sentiu nada disso, apenas um movimento muito rápido a sua frente, acompanhado do barulho de algo cortante passando por pele e carne.
A capa preta se confundia com a pele, ou pelos ou penas ou escamas, da criatura. Os cabelos vermelhos como uma maçã combinavam com os olhos vermelhos cor de morte do animal impossível que o caçava. Era quase uma representação humana do monstro. A diferença é que era linda.
“Ei”, ela disse, olhando para ele de cima, “você está bem?”
Gaguejou pelo que parecia semanas até conseguir soltar um “Sim, estou sim”. Quase conseguia sentir a vergonha na sua garganta.
“Ótimo”, ela falou ainda encarando o monstro que ofegava e soltou um rugido que parecia misturar dor, raiva e fome. Ela se virou pra ele.
Ficou encarando os olhos dela pelo que pareceu mais tempo do que tinha gaguejado. Eram como duas luas, cinzas, sem vida, sem emitir luz própria, mas mesmo assim com brilho o suficiente para iluminar a noite.
A mulher acertou sua face com um tapa tão forte que tudo ficou escuro como a noite mesmo. Sentiu seu corpo ser puxado para dentro da escuridão e a última coisa que ouviu foi ela dizendo, o sorriso mais do que claro na sua voz:
“O melhor de tudo é que você não vai lembrar de nada disso”.
Fale com o autor