Revirei na cama de novo, provavelmente sendo a quinta ou sexta vez que eu despertava naquela noite. Algo martelava na minha cabeça, o problema é que eu não sabia exatamente o quê, não tinha consciência do que me tirava o sono daquela forma. Nunca fui desse tipo de pessoa que sofria de insônia ou de quaisquer transtornos relacionados ao sono. Muito pelo contrário; por sempre ter sido muito regrada com tudo o que norteava a minha vida, incluindo a preservação de uma rígida rotina, eu estabelecia horário certo de ir para cama e também de acordar. Entretanto, havia um par de dias que me encontrava assim, cansada, mas sem conseguir dormir o suficiente.

Fitando o teto a alguns palmos acima da minha cabeça, visto que eu dormia na parte superior de um beliche, resolvi que estava na hora de parar de marinar de um lado para outro na cama, e me levantar, ainda que a manhã não tivesse despontado. Precisava arranjar um jeito de incitar o sono ou então ocupar a mente com alguma atividade produtiva, fosse estudando, escrevendo meus poemas ou lendo um bom livro.

Todavia, ao virar-me de lado no intuito de descer pela escadinha, Victor, meu irmão mais velho, remexeu-se na cama de baixo e, mesmo em meio à penumbra do quarto, eu vi suas pernas compridas serem lançadas para fora do colchão. Quando já se encontrava de pé, ele virou a cabeça em direção a mim, mas eu fechei os olhos e fiquei quieta, fingindo que dormia. Não sei por que agi de tal maneira, só segui os meus instintos, os quais me diziam que eu estava prestes a flagrar alguma coisa interessante.

Pela fissura entre as minhas pálpebras semicerradas, acompanhei meu irmão se aproximar, pé ante pé, da cama de papai e sacudir-lhe os ombros. Em resposta, este, que sempre teve o sono pesado, praguejou baixinho ao passo que afastava as mãos do meu irmão. Por isso, eu precisei comprimir os lábios a fim de conter a risada. Victor não desistiu do seu propósito. Não sei o que era, mas pelo pouco que pude enxergar de suas feições no escuro, ele parecia anormalmente ansioso, diria até preocupado.

Enfim, conseguiu convencer papai, parcialmente grogue, a se sentar sobre os lençóis embolados. Victor desembestou a falar depressa e numa voz demasiadamente baixa, impossibilitando a minha aferição. Contudo, a urgência implícita em seu tom foi o bastante para fazer papai levantar-se em um pulo, rápido como um gato recém-escaldado. Já completamente alerta, ele vestiu o roupão por cima do pijama de algodão e calçou os chinelos, pondo-se a andar no sentido de um compartimento do cômodo que era proibido para mim.

A nossa residência não poderia ser descrita de outra forma senão normal, semelhante a qualquer outra do bairro; não havia nada realmente especial nela, ao contrário, era até modesta. Mas, mesmo tendo dois quartos de tamanho mediano, desde que ocorrera o sumiço repentino de mamãe, cinco anos antes, meu pai impôs a regra de que todos nós dormiríamos juntos no mesmo aposento. O motivo eu não entendia, mas ele era do tipo de pessoa que tinha um comportamento peculiar e excessivamente excêntrico, logo era difícil compreender como funcionavam seus pensamentos. E depois que minha mãe desapareceu, suas atitudes tornaram-se ainda mais confusas, além do episódio conferir abatimento à sua personalidade já lôbrega, uma vez que ele nunca se recuperara.

Concomitantemente a essa excentricidade exacerbada, desenvolveu transtornos psiquiátricos graves, somados a uma perturbadora mania de perseguição. Portanto, em um de seus delírios, mandou construir uma espécie de escritório anexo ao nosso dormitório, cuja entrada era autorizada apenas a ele e raramente ao Victor, isso caso ele estivesse em sua companhia.

Por isso, eu chamava aquele lugar de apêndice. Não no sentido comum de cômodo complementar, mas referente aquela estrutura do corpo humano localizada no final do intestino grosso que não possui outra utilidade a não ser inflamar.

E aquele apêndice inflamava a minha curiosidade, tal qual a minha ira.

Quando mais nova, eu tentei achar um meio de entrar, mas obviamente nunca obtive sucesso. Apesar de completamente lunático, papai não era tolo e soube proteger a entrada muito bem. Antes, isso me incomodava. Em diversas oportunidades, cheguei a choramingar, sabendo que esta artimanha amolecia seu coração, porém, neste caso, a estratégia não funcionou, ele permaneceu irredutível. Sendo assim, tive que me conformar e, com o passar do tempo, o tal anexo passou a perder a importância para mim, ou assim eu tentava me convencer no intuito de não perpetuar a minha curiosidade.

Pelo menos até aquela madrugada.

Tão logo a porta se fechou atrás deles, eu me precipitei para fora da cama, produzindo um baque surdo ao cair de pé. Cautelosamente, a fim de não ranger o piso de tábuas corridas, caminhei na ponta dos pés até a entrada oculta pela cortina carmesim de camurça em estilo imperial. Colei a orelha na madeira maciça, atenta ao menor ruído do outro lado. À esquerda, havia uma redoma de vidro – aparentemente inquebrável. Acredite, eu tentei destruí-la das maneiras mais esdrúxulas conhecidas pelos seres humanos, e a maldita permaneceu intacta! –, protegendo o teclado digital, que, pela milionésima vez desde que fora posto ali, eu mirei, desejosa de saber a senha. Junto do teclado, estava exposta uma lanterna pendurada no suporte fixo à parede. Geralmente, ficavam duas dessas ali, o que indicava que papai e Victor levaram uma com eles.

Soltei uma respiração ruidosa e cruzei os braços, chateada por não saber o que se passava lá dentro. Qual era a serventia das lanternas? O que aquele compartimento secreto tinha de tão especial que eu não podia ver? Por que meu irmão tinha permissão para entrar e eu não? Eram tantos questionamentos, e nenhuma resposta plausível.

Perdida em conjecturas, por pouco deixei de escutar o som baixo de passos oriundo do cômodo vizinho. Não havia tempo para tomar precauções, por isso corri, afoita, para cama e me embrulhei nos lençóis. Fechei os olhos e tentei controlar o ritmo respiratório errático. Poucos segundos depois, houve o estalido da fechadura, e então as vozes cochichadas de papai e do meu irmão ocuparam o dormitório.

— Quando contaremos a ela? — Victor perguntou. Eu apurei os ouvidos, ansiosa. Ela? De quem estão falando?

— Não sei, filho, precisamos ter cautela. Este assunto não pode ser tratado com leviandade — respondeu papai, maximizando meu interesse.

— A Eve tem que saber o que está acontecendo. — Opa, meu nome! O que eu tenho a ver com isso? — Talvez ela possa nos ajudar a...

— A quê? — papai interrompeu rispidamente. A sua voz, acrescida de um ou dois tons, embora não fosse mais alta que em uma conversação normal, deixava claro o quanto estava nervoso. — Em que uma adolescente poderia nos auxiliar?

— Você a trata como criança, mas a Eveline é muito mais esperta do que a julga. Se não lhe contar, cedo ou tarde ela descobrirá sozinha e ficará muito chateada conosco.

Aguardei ansiosamente pela resposta de papai, torcendo para que ela fosse mais reveladora, porém, em lugar disso, o silêncio predominou no ambiente. Eu não conseguia mais segurar o nervosismo apenas para mim, portanto abri os olhos o mínimo possível, o bastante para vê-los próximos à parede oposta em poses que denunciavam suas apreensões referentes ao assunto discutido. O assunto no qual eu estava diretamente envolvida, mesmo que não fizesse ideia do que se tratava.

Victor, com uma das mãos encaixada ao lado do quadril enquanto que roía a unha do outro polegar, encarava papai com um semblante repleto de expectativa. Por outro lado, este mirava um ponto acima dos ombros do meu irmão, imerso em pensamentos, uma atitude que era muito natural a ele.

— Não tenho tempo para pensar em manhas juvenis, por ora. Volte a dormir. Daqui a pouco amanhecerá, e vocês precisarão levantar para ir à escola — ordenou papai de um jeito taxativo, que não dava brechas à argumentações.

Meu irmão suspirou e balançou a cabeça em negação. De modo consternado, ele se afastou de papai, traçando o rumo para o nosso beliche. Com isso, tornei a cerrar as pálpebras. Senti quando a cama sofreu um abalo repentino em decorrência da maneira truculenta como Victor se jogou no colchão.

Ele não estava satisfeito. Eu também não.

Seja lá qual fosse esse grande segredo entre eles, em alguma parte eu me encontrava intricada e, dessa vez, não iria descansar até descobrir o que se sucedia.

Em posição de decúbito dorsal, mantive o foco do meu olhar nas ranhuras do teto branco, vagamente cônscia dos primeiros raios solares perpetrando o recinto através das cortinas claras da janela. Não sei precisar quanto tempo depois o alarme do despertador soou. Como era de praxe, Victor se mexeu na cama de baixo e, com sua voz enrouquecida pelo sono, murmurou para que eu me levantasse depressa.

Apesar de estudarmos em lugares distintos, uma vez que meu irmão já estava na faculdade e eu ainda cursava o último ano do colegial, acordávamos no mesmo horário, porque ele costumava me oferecer uma carona antes de seguir para seus próprios afazeres.

Na verdade, esta tarefa de me levar para a escola pertencia ao meu pai, entretanto, por vezes, ele se esquecia de cumprir com suas obrigações devido a estar disperso, como se vivesse em um mundo à parte, só dele. Não foram poucas as ocasiões nas quais duvidei da sua sanidade, não obstante agora tivesse a certeza de que ele não possuía os parafusos no lugar.

Desci da cama e me arrastei rumo ao banheiro, sem ânimo, sentindo o corpo moído pela fatiga. Mesmo sem ver o meu reflexo, sabia que eu comportava um semblante enuviado de incertezas e decepção pelo o que eu tinha ouvido do meu próprio pai a meu respeito.

Manha juvenil? Então, era isso. Eu não passava de uma adolescente mimada, uma rebelde sem causa? Iria provar que não!

No espelho oval acima da pia, visualizei os efeitos da noite mal dormida. Além do vinco persistente cravado na junção entre as minhas sobrancelhas espessas, duas meias-luas profundas e arroxeadas abaixo dos olhos contrastavam nitidamente com o tom perolado da minha pele. Meu cabelo sem corte e desalinhado caía sobre os ombros, escorrido como um filete de petróleo jorrando de um barril.

Infinitamente sem graça.

Nada na minha aparência era interessante. Ainda que meu nariz fosse bem desenhado, o desvio de septo o fazia tortuoso. Meus olhos castanhos pareciam grandes demais em comparação ao tamanho do meu rosto em formato de coração. Fiz um bico exagerado, pensando que meus lábios tinham um bonito delineamento, embora fossem bem delgados. Quanto ao meu corpo, também não poderia mencionar nada relevante: poucas curvas, seios pequenos, pernas finas. Virei de lado, passando a mão na barriga. Talvez eu apreciasse a minha cintura...

Revirei os olhos, internamente punindo a mim mesma por tamanha futilidade. Eu queria provar que não era uma adolescente abestalhada me comportando exatamente como uma mente oca superficial, algo que me remeteu à lembrança das garotas populares da escola.

Tratei de escovar os dentes e, logo em seguida, deixando a minha autoanálise de lado, prendi o cabelo em um coque e entrei no box, que, àquela altura, estava envolto pelo vapor que vertia da ducha.

Depois de estar pronta e devidamente encasacada a fim de enfrentar a temperatura negativa do lado externo da casa, desci ao primeiro piso, tão devagar que chegava a arrastar os pés nos degraus. Ao entrar na cozinha, dei de cara com meu irmão sentado à mesa, com a cabeça apoiada no punho fechado, transparecendo tanto cansaço quanto eu, à medida que mastigava um pedaço de bolo encrustado de frutas cristalizadas. Cumprimentei-o, desejando-lhe um bom dia ao que fui respondida com um murmúrio precariamente audível. Preparei meu Twinnings Tea de pêssego do modo costumeiro, e me servi de algumas torradas doces, ocupando a cadeira de frente para Victor.

Ele se ajeitou em seu lugar, notoriamente desconfortável com a minha companhia, e raspou a garganta com um pigarreio. Um dos pontos cruciais acerca do meu irmão era que ele não conseguia guardar segredos. Isso acontecia desde que me lembrava, nunca foi diferente. Caso eu tivesse lhe pressionado, ele seria inábil em ocultar o que eu quisesse saber. No entanto, se eu revelasse o que sabia, teria de confessar que estive escutando conversas alheias na surdina, uma atitude que certamente desagradaria meu pai. E seu desafeto era tudo o que eu menos almejava naquele momento. Entrementes, nada me impedisse de implicar com meu irmão e, devo admitir, essa era uma das minhas atividades recreativas prediletas.

— O que está acontecendo? Você está bem? — perguntei com o máximo de cinismo do qual pude reunir. Ao contrário de Victor, eu era uma ótima intérprete. — Parece que tem um formigueiro dentro das suas calças.

— Eu estou perfeitamente bem — ele contrapôs, lançando-me um olhar penetrante. — Coma logo as suas torradas, porque hoje eu não posso me atrasar.

— Bom, teoricamente, você não deveria se atrasar em dia nenhum, irmãozinho.

— Pelos céus! — Ele uniu as mãos diante do rosto, como em um gesto de preces. — Cale-se, Eve! Ocupe essa bocona com comida.

— Nossa, que mau humor! Pelo que vejo, a noite foi péssima. E, francamente, sua gramática é pior ainda. O aumentativo foi empregado incorretamente, o certo é bocarra.

— Que seja! Boca, bocona, bocarra... Só fique quieta, por favor!

— Você, por acaso, brigou com a Lend? Esse comportamento é típico de quem levou um majestoso pé na bunda ou então carrega um peso enorme na consciência. — Ele levantou a cabeça imediatamente após essa observação provocadora, analisando-me de forma a julgar se o que eu falava relacionava-se a uma vã suposição ou algo fudamentado. Eu não me deixei abalar, no entanto. — O que foi? Acertei um dos meus palpites? — indaguei com a fisionomia despida de emoções ao passo que lambia a ponta dos dedos sujos de geleia de morango.

Victor se levantou em um instante, arrastando os pés da cadeira no piso de porcelanato, e me fitou com os olhos estreitos. Inegavelmente, ele estava desconfiado, mas eu não titubeei ao ostentar um olhar supostamente inocente.

— Saio em cinco minutos — ele avisou em tom firme. — Se não quiser ir de ônibus, aconselho a se apressar.