Eu fiquei ansioso para receber uma mensagem de Ana. E eu nem deveria ficar, pois precisava estudar. Eu tentei ao máximo fazer isso, no meu quarto, mas ali estava eu, pensando nela, sentando na minha cama. Olhei para meu cachorro, que não parecia ter uma raça definida. Tinha pelagem em tom caramelo. Os pelos eram desgrenhados. Eu precisava cuidar dele, mas não tinha tempo. Então, como eu não rendia no estudo e não conseguia parar de esperar uma mensagem daquela garota, resolvi passear com ele.

Caramelo, esse era seu nome, parecia apressado para cheirar qualquer árvore, poste e o chão, de forma decisiva. Ele me puxava pela guia e eu precisava ter paciência para não puxa-lo com força. O céu já estava escuro aquele horário, mas havia pessoas andando pela calçada, voltando do trabalho ou fazendo exercícios. Meu pai, como sempre, estava em casa, com seu ar melancólico. Depois que voltei do colégio, não consegui conversar com ele, pois ele me ignorou totalmente.

Tirei o celular do bolso, quando esperei o sinal fechar, para atravessar a rua. Ana não tinha enviado uma mensagem sequer. Eu queria dizer que aquilo não me deixou frustrado, mas me deixou. Eu nem conhecia aquela garota. Coloquei o celular no bolso da calça, irritado e atravessei a faixa de pedestre. Foi então, que eu a vi. Ela estava caminhando com uma menina pequena, agarrada a sua mão. Tinha os mesmos cabelos castanhos que os de Ana.

Ana estava indo para o mesmo lado que eu. E me viu, mas baixou a cabeça. Aquela atitude de me ignorar estava me deixando indignado. Por que ela me enviou uma carta e de repente simplesmente ignorava minha existência? E por que, diabos eu não conseguia parar de pensar nela? Era por esse motivo que não me envolvia com ninguém. Atrapalhava minha racionalidade.

— Ana – chamei ela, quando atravessamos a rua, para chegar à outra calçada.

Ela se virou para mim, parecendo desconfortável.

— Oi – ela disse, parando de andar.

A menina que estava segurando a mão dela me olhou curiosa.

— Ana, você mora por aqui? – era a única pergunta que me veio à cabeça.

Ela apenas assentiu. Como sempre, com poucas palavras a dizer. Tão eloquente com a escrita, mas inexpressiva na sua comunicação frente a frente.

— Hum – Tentei encontrar um assunto, pois um clima estava insuportável entre nós. Caramelo, para me ajudar, parecia ter pensado que seria interessante chegar perto dela e as cheirou. Ele era dócil, para minha sorte. A menina acariciou os pelos dele, enquanto Ana olhava para ela, com um ar protetor – Ela é sua irmã? – Eu deveria perguntar primeiro quem era ela, mas falei sem pensar.

— Sim – Ana respondeu – Seu nome é Lorena.

— Legal – eu disse.

— Qual é seu nome? – Lorena me perguntou, ainda acariciando Caramelo, que pulou no seu peito, quase a derrubando. Puxei ele, para não machuca-la, enquanto Ana equilibrava sua irmã.

— Me desculpe – pedi – Sou Rafael. Eu sou colega de aula da sua irmã.

— Ele é seu namorado? – ela perguntou para Ana.

Fiquei constrangido pela pergunta. Ana parecia não saber para onde olhar, mas evitava meu olhar a todo custo.

— Não é, Lena. Pare de perguntar para todo menino que me conhece se ele é meu namorado – ela ralhou com a irmã. Lorena deu uma risadinha infantil.

— Ele é bonito – ela afirmou, me olhando.

Eu não conseguir controlar a risada. E Ana parecia ainda mais envergonhada.

— Escuta, eu já vou indo. Tchau – ela disse, sem me olhar e puxando Lorena, que quase tropeçou pela calçada.

Eu tinha alguma doença para que ela me evitasse tanto?

*

Cheguei à escola com os olhos vermelhos. Estava cansado. Mal dormi direito, ansiando que Ana me enviasse qualquer mensagem. Mas, ela me ignorou. Por que raios ela me enviou uma carta de dias dos namorados? E por que eu não conseguia esquecer aquilo e seguir em frente? Fui até meu armário pegar meus livros de química com ar taciturno. Não cumprimentei ninguém no caminho. Foi então que abri meu armário e algo branco caiu no chão. Era um bilhete. Abaixei-me rapidamente e peguei o papel do chão, antes que alguém visse o seu conteúdo. Desdobrei a folha e li o recado:

Oi Rafael,

Podemos conversar por carta? Aqui parece mais seguro e me sinto melhor assim. Se não houver problema, é claro.

Lorena adorou seu cachorro. Eu também gostei muito dele. Qual é seu nome? E, aliás, me desculpe por ser tão tímida. Não consigo me comunicar bem, sendo sincera. Eu simplesmente fiquei nervosa na sua frente.

Eu fiquei surpresa agora por saber que você leu alguma obra do Machado de Assis. Eu apenas li para o vestibular e nunca gostei de literatura brasileira. Você iria me julgar por isso? Por gostar de literatura estrangeira? Espero que não. Mas, eu tenha certa inveja de você, por ser inteligente. Acho que eu deveria me espelhar mais em você.

Enfim, espero que não esteja bravo comigo por ter enviado a carta. Mas, se você a respondeu é sinal de que não está.

Espero uma resposta sua.

Da sua admiradora secreta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.