Com amor, com afeto.

6 Como conseguir uma exclusiva com Harvey Madley.


Ponto de vista de America White

Saí da redação do jornal alguns minutos depois da conversa com Anne. Precisava estar na cola do Madley agora. Apesar de ter sido destinada a isso, eu não tinha muita experiência com o jornalismo de celebridades, por isso corri pro Google e catei algumas informações sobre o tal Harvey.

" Harvey Madley é um famoso cantor. Nasceu em Holmes Chapel. É encrenqueiro. "

Isso era o bastante. Ou será que não...?

– Como pretende conseguir uma exclusiva com o cara? — Gabe me perguntou.

Estávamos nos falando no celular, enquanto eu dirigia. Não, não sou irresponsável. Deixei o celular em minhas pernas e no viva-voz, assim poderia seguir atenta no trânsito.

– Ainda não sei, mas jornalistas têm de ficar preparados pra tudo, Gabriel. — Disse, ironicamente. Eu sabia que ele odiava quando eu falava seu nome todo.

– Pare de falar meu nome todo. Parece a minha mãe.

Viu?

– Para de reclamar. — Disse, revirando os olhos.

– E você, pare de revirar os olhos.

Comecei a rir, perplexa.

– Como sabe que estou fazendo isso?

– Você é muito previsível, Srta. Meri Stratfort.

– Shiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Onde você está? Tá louco? Nunca mais fale isso. E se descobrem? E...

– Caaaaaaaaalma, rainha do Drama. Estou sozinho em nossa humilde residência.

Suspirei, aliviada e dobrei a esquina da casa do tal Harry.

" Obrigada por existir, GPS!"

– Estou chegando na casa do tal Harvey. Depois te ligo e digo tudo o que aconteceu, ok?

Ele assentiu e eu desliguei, suspirando ao ver todo aquele típico amontoado de jornalistas sedentos por informações. Desci do carro, com meus óculos escuros e já tinha todo um plano montado na mente. Minha conversa com Gabe me ajudou.

" Não sou nada previsível, Gabe..." , pensei.

– Com licença, você é da assessoria de imprensa? — Perguntei à uma garota com um enorme crachá laranja que não passaria despercebido por ninguém.

– Sim, sou da assessoria, sim.

– Preciso de uma exclusiva.

Ela começou a rir, com desdém.

– Todos precisam.

Revirei os olhos. Teria que ser mais radical. Assim que percebi que todos prestavam atenção às janelas da casa do garoto, corri até a porta dos fundos. Tinha que estar aberta. Tinha que estar aberta. Tinha que...

Frustração! Estava bem fechada.

Mas, como desconheço a palavra 'Desistência', resolvi ousar. Liguei imediatamente para Anne.

– Anne?

Ela respondeu com um simples 'Oi' e pediu que eu falasse rapidamente.

– Pode descobrir quais foram as últimas ligações que o Harvey fez pelo telefone da casa? Preciso disso.

Ela assentiu, dizendo alguns minutos depois que ele tinha pedido uma Pizza.

Perfeito!

– Ok, obrigada. Até mais.

Desliguei o celular, rindo e batendo na porta dos fundos. Alguém gritou um 'Quem é?' lá de dentro. A voz era rouca. Devia ser o tal Harvey.

– A garota da pizza.

Esperei alguns segundos e ele disse :

– Como vou saber que é mesmo a garota da pizza?

– Quem mais saberia que você pediu uma pizza além de mim?

A desculpa era ridícula, mas pedi aos céus que ele acreditasse naquela idiotice toda. Acho que alguém lá de cima estava do meu lado, pois alguns segundos depois vi a porta se abrir e relevar um cara. Alto, olhos verdes, moreno. Bonito. Isso eu não podia negar. Corri pra dentro de casa antes mesmo de ele perceber que eu não trazia pizza nenhuma.

Depois de perceber que eu era uma jornalista ele falou todos os palavrões que eu conhecia ( e mais outros que eu nunca tinha ouvido falar. Vocabulário vasto o desse garoto...) e chutou todos os móveis da casa.

– Olha, acho que você vai acabar ficando rouco e se machucando... — Disse, rindo.

– O que você quer?

– Uma exclusiva.

Ele revirou os olhos.

– Todos querem essa porcaria. Não é você que vai conseguir. Posso te processar por invasão de propriedade, sabia?

Ah, ele estava querendo jogar? Pois eu também sabia fazer isso. Estava determinada. Tinha de ganhar a confiança de Anne para sair logo daquela bendita Coluna e partir pra minha área de origem. Comecei a me descabelar e baixei um pouco o decote. Ele olhou pra mim, assustado e franziu a testa. Ia começar a gritar, mas ele tapou minha boca antes que eu o fizesse.

– O que está fazendo?

– Ganhando minha exclusiva. Necessito disso pra viver. Ou você deixa eu fazer a porra dessa entrevista, ou digo pra todo mundo que você tentou me assediar.

Ele arregalou os olhos e começou a rir descontroladamente.

– Você não faria isso...

– Quer pagar pra ver? — Disse, levantando uma sobrancelha.

Ele revirou os olhos e me puxou pelos pulsos fazendo com que ficássemos muito próximos.

– Escuta aqui, jornalista...

– America. America White, direto dos seus piores pesadelos pra vida real. Prazer. — Disse, sorrindo amarelo.

– Você não vai fazer nada. Nem falar nada. Vai ficar caladinha e fazer logo a droga dessa entrevista. Ouviu bem?

Comecei a pular e a tagarelar, mostrando a minha felicidade. Apesar de estar irado com toda aquela história, Harvey riu com meu entusiasmo.

– Tudo bem. Juro que não quero ver você nunca mais depois disso.

Ele franziu a testa.

– Sou tão ruim assim? — Ele disse, olhando pro próprio corpo, como se estivesse se analisando.

Dei de ombros.

– Já vi piores.

– Obrigada por aumentar minha autoestima.

Assenti, sorrindo.

– De nada. Vamos logo com esse entrevista?

– E eu tenho escolha?

– Não.

– Então, sim. Vamos.

Ponto de vista de Harvey Madley

O meu dia foi péssimo. Depois de passar o dia todo ouvindo jornalistas gritarem, aguentar a louca que entrou no meu apartamento e ser obrigado a dar uma exclusiva pra ela, a única coisa que eu queria era sossego. E dos bons.

Peguei meu notebook em cima da cama e liguei-o indo direto para a página de Meri Stratfort, que ainda não tinha nenhuma foto. Corri para o seu e-mail. Eu precisava desabafar com alguém. Ainda que esse alguém não me conhecesse pessoalmente.

De : h.m@hotmail.com

Para : meri_stratfort@hotmail.com

Coluna Correio do Amor

Assunto : Preciso desabafar e você já sabe que não tenho tempo pra um psicólogo. ( Nem saco).

Querida Srta/Sra. Stratfort,

aqui estou eu escrevendo novamente. Eu devia estar pegando mulheres, ou bebendo porque sei que é isso que os homens fazem quando estão de saco cheio, mas te procurar foi a melhor solução. Eu acho...

Depois do nosso primeiro contato ( E, devo admitir que me surpreendi com sua resposta. Não direi o porquê. Se quiser saber, pergunte. ), eu fiquei intrigado com esse lance de que o amor quer nos surpreender.

Na verdade, acho que ele gosta de brincar com a gente. É. isso aí. Conhecemos tantas pessoas nesses anos todos e nada? Nem mesmo um romance de verão mixuruca que durasse mais de 2 meses? Isso mesmo. Nada.

Eu não gosto de pensar que ele pode nos surpreender. Gosto de pensar que nós podemos surpreender o destino. Você não acha que seria uma bela inversão de papéis? Eu penso que sim.

Aliás, ultimamente tenho pensado em você. Gosta de mistério, não é? Devo ( e posso ) imaginá-la? Deve ter olhos castanhos, ou talvez azuis, ou verdes... Mas que mostrem sua pureza, sua sabedoria e sua vontade de ajudar os outros. Seu corpo deve ser perfeito do jeito que ele é. Prefiro não imaginá-lo.

Algum dia, talvez, nos encontremos. Ou já tenhamos nos encontrado, sei lá. O destino gosta de surpreender, e o amor também. Não é isso que você sempre diz?

Espero que um dia, não muito longe, eu possa te ver de perto. E, neste dia te abraçarei e com lágrimas nos olhos direi : " Obrigado pelo dinheiro e pelo tempo que você me ajudou a poupar. "

Com amor, e aquelas outras baboseiras que você deve ver muito em seus e-mails entediantes,

– H.

Notas finais
O que estão achando da história? Gostando? Odiando? Comentem e me digam! :)