Com amor, com afeto.
3 A estreia e a fama de Meri.
Notas iniciais
Cheguei em casa com ares de cansaço. Sentei no sofá e fiquei olhando pra TV desligada, me sentindo a menina mais derrotada do mundo. Talvez eu estivesse fazendo drama. Ok, não era assim tão ruim ser a garota do Correio do Amor. Afinal, eu ganharia grana e estaria trabalhando como jornalista, ainda que não fosse do modo que eu realmente quis a minha vida toda.
Olhei para a cozinha, lembrando instantaneamente que eu não tinha comido nada. Levantei, andando um pouco até encontrar alguns pães na mesa.
Obrigada, Deus por ter enviado Gabe para morar comigo.
Antes que você pergunte quem é Gabe, eu respondo. Gabe Morales é meu colega de apartamento. Não, não estamos juntos. Não somos melhores amigos que, com a convivência vão se apaixonar ( Ops, acho que isso daria um bom filme, ou renderia um bom livro.). Uma explicação para tudo isso? Gabe é gay. Desde que nos conhecemos ele deixou isso bem claro. Ele é lindo. Tem olhos azuis, cabelos castanhos e é a pessoa mais louca que eu conheço, mas eu não conseguiria viver sem essa criatura.
Nos conhecemos na faculdade de Jornalismo. Enquanto eu ralava tentando desvendar assassinatos e transmití-los, Gabe era fera mesmo na parte de Moda. Ele amava criar lindos vestidos e desenhava vários deles pra mim, que sempre prometia usá-los, mas nunca o fazia.
Não que eu não amasse as criações do meu melhor amigo. Muito pelo contrário, eu amava. O problema é que eu nunca tinha tempo para sair pra festas ou algo do tipo. Ainda que tivesse, confesso, não o faria. Não gosto muito de sair. Prefiro ficar em casa lendo romances a ter de vivê-los e depois quebrar a cara. Taí um motivo para fazer com que Anne Hopkins fique preocupada. Eu, America White, era uma eterna amante de livros de romance. Jane Austen estava no topo da minha lista, com Shakespeare ali do ladinho. Cansei de ler 'Orgulho e Preconceito' e já sabia todas as frases de 'Romeu e Julieta' decoradas. E isso era um problema. Meus únicos parâmetros de amor eram esses. Livros e filmes de romance.
Isso seria um problema para Meri...
– Boa taaaaaaaaaaarde, America White.
Gabe.
–Heeeey, guy! Como foi seu dia?
Ele suspirou, sentando numa das cadeiras da mesa da cozinha, super irritado.
– Nem pergunte. Acredita que a vaca da Ashnah Thompson queria tirar as minhas peças do catálogo?
Assenti, sentando.
– Eu sempre te disse que a Ashnah não é uma boa pessoa...
Ele bufou e revirou os olhos.
– Odeio quando você tem razão e eu tenho que admitir.
Comecei a rir e bebi um pouco do café que eu havia preparado. Gabe também pegou um pouco e ficou me observando. Odiava a eterna capacidade dele de me ler. Eu podia fingir milhares de vezes. Ele sempre sabia quando um sorriso meu não passava de uma tentativa de parecer feliz. Ele conhecia todos os meus sorrisos. O de frustração e de fingimento estavam incluídos.
– Você não parece bem... Aconteceu alguma coisa na entrevista? — Ele perguntou, desconfiado.
Odiava outra coisa nele. Eu nunca conseguia mentir pra ele. Sério. Tipo, nunca mesmo. Então, assim que ele perguntou, as palavras saíram de minha boca sem que eu tivesse tempo de medí-las. Ele apenas assentia.
– E por que acha esse emprego tão ruim? Só vai ajudar pessoas com problemas amorosos. Vai ajudá-las a gastar menos dinheiro com sorvete e contas de luz enormes por passar muito tempo assistindo a comédias românticas.
Ri um pouco e suspirei.
– Não sei. Não é o que eu sempre sonhei, sabe? Eu sempre pensei que seria uma grande jornalista investigativa e...
– Mas você vai ser, meu amor. Isso é só o começo, ok?
Assenti, já me sentindo um pouco mais confortável.
– Tudo bem. Me convenceu.
Ele riu.
– E de onde saiu esse nome? Meri Stratfort?
Comecei a rir. Na verdade, nem eu sabia. Simplesmente surgiu na minha mente e eu disse, sem pestanejar.
– Não sei. Só...surgiu.
– Hm... Nome sexy. — Ele disse, rindo. — Meri. Rawrrrr. — Ele disse, arranhando algo imaginário.
E eu comecei a rir descontroladamente. Talvez Gabe tivesse razão. Isso era só uma fase.
Só
uma
fase...
***
De : meri_stratfort@hotmail.com
Para : s0_lov@hotmail.com
Coluna Correio do Amor
Assunto : Como esquecer alguém?
Querida Sophia,
obrigada pelo e-mail e por confiar em mim tão plenamente. Acredito que relações de confiança vão longe. Podemos ser amigas, então? Acredito que sim e espero a resposta.
Quanto à sua pergunta, eu realmente não sei. Sabe, Sophia, passei a vida toda tentando encontrar pessoas que me fizessem bem. Que pudessem me ajudar com minhas dúvidas e meus anseios e tudo mais. Mas, de tanto procurar acabei não achando. Não sinto amargura nem nada por isso, mas sinto que sei pouco sobre o amor. Apesar de dar todos esses conselhos, é claro.
Mas, como tenho de responder seu e-mail e é algo com urgência, como você mesma especificou, eu vou tentar dar uma resposta que acho que deve ser a correta.
Então, se você estiver sentada, tudo bem. Mas se não estiver, sente. Isso. Feche os olhos e responda : Você vê alguma coisa? Tenho certeza de que a resposta é não. E é exatamente assim que ficamos quando estamos apaixonados. Com os olhos fechados pra novas possibilidades, pra novas pessoas e novos ares. Cegos de amor. É assim que eu denomino.
Agora, você vai abrir os olhos bem devagar. Já começou a ver alguma coisa? Exatamente. É como se tudo ficasse claro outra vez, não é? Sem fundos pretos ou coisas parecidas. Você começa a ver coisas novas e gosta de sensação de olhá-las, ainda que por pouco tempo.
Viu? É exatamente isso que você deve fazer pra esquecer alguém. Abrir os olhos. Pra novas pessoas, novas possibilidades, novos ares. Quebre as correntes. Seja feliz com essa nova metáfora. A dos olhos abertos...
Com amor, com afeto.
– Meri Stratfort.
Olhei pela décima vez se tudo estava correto e enviei o e-mail à tal Sophia, que era apenas mais uma das milhares de leitoras que eu tinha que responder naquele dia. Exatamente como você deve estar pensando. Meri Stratfort é um sucesso. Depois de um mês do começo da coluna, eu estava mais do que atarefada. Todos os dias, milhares de e-mails chegavam à minha caixa de entrada e eu respondia todos, com muito amor e com muito afeto. Talvez eu tivesse me apegado à esse lance de escrever, ainda que superficialmente.
Anne Hopkins estava mais do que feliz com meu aparente sucesso. Disse milhares de vezes que eu era genial e que me deixaria nessa função para sempre. Fechei a cara e ela apenas riu, prometendo que, um dia, quando Meri estivesse acabado com sua fama, ela me tornaria a maior jornalista investigativa do país. Assenti, ainda que a contragosto. Quanto tempo eu teria de esperar até a carreira e a fama de Meri esfriarem?
Gabe estava mais do que feliz também. Fiz ele prometer que não contaria pra ninguém que eu era Meri Stratfort. Apesar de não achar isso certo, ele concordou. Segundo ele, eu ganharia muito mais dinheiro de me mostrasse, assim como todos os jornalistas queriam. A verdade é que ninguém sabia quem era a Meri. Ela nunca tinha aparecido. Só quem sabia realmente eram meus pais, Gabe e Anne. E eu queria que isso permanecesse assim por muito tempo.
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